Do Uso da Internet Como Forma de Resistência às Imagens Femininas Impostas Pela Mídia Tradicional

*Por Cynthia Semíramis Machado Vianna

Considerações iniciais

A imagem do ser humano, no século vinte, foi transformada através dos meios de comunicação de massa. A mídia divulgou e impôs um padrão de imagem que, longe de refletir a diversidade cultural, transformou alguns corpos em modelos estéticos a serem seguidos, mesmo que esses modelos violem as noções científicas do que deveria ser um corpo saudável e não correspondam à aparência da maioria da mulheres do mundo. Esse estereótipo, como afirmou a psicanalista Silvia Alexim Nunes (2003, p.6), induz as mulheres a se considerarem esteticamente inadequadas, já que ressalta valores masculinos e desvaloriza características tipicamente femininas. Com efeito, o corpo vendido pela mídia como o ideal é a negação do corpo feminino: músculos delineados, barriga extremamente plana, baixo percentual de gordura e ausência de celulite ou estrias. (…)

A disseminação da Internet, nos últimos anos, tem mostrado que a transposição da imagem feminina para o novo meio de comunicação é exatamente igual ao meio tradicional. (…) Essa conduta midiática deve ser combatida, pois reforça o papel da mulher como “embelezadora de ambientes”, menosprezando suas habilidades intelectuais e estimulando um quadro de violência psicológica ao insinuar que devem alterar seus corpos para terem realização pessoal. Ignorar essa postura da mídia é ser conivente com uma forma de discriminação da mulher ancorada em preconceitos estéticos, violando os conceitos mais básicos de direitos humanos.

No entanto, a resistência a esses modelos ainda é incipiente (…). Vez por outra, são publicadas reportagens fazendo críticas a dietas milagrosas, insatisfação estética ou o aumento de doenças relacionadas à magreza excessiva. Mas mesmo essas críticas não são profundas, pois podem afastar as empresas que anunciam em espaços femininos (em sua maioria, voltadas para o embelezamento feminino como forma de realização social) e trazer prejuízo financeiro para as publicações. Portanto, urge alterar esse padrão, utilizando os recursos trazidos pela Internet para estimular a conscientização feminina a respeito do uso de seus corpos, e permitir que as próprias mulheres ajam para questionar os estereótipos femininos, especialmente os ligados ao corpo ideal.

Particularidades da Internet

A Internet se diferencia dos demais meios de comunicação por ser uma rede que democratiza a comunicação e permite a convivência e troca de experiências, diluindo fronteiras de raça, classe e escolaridade. Qualquer pessoa com pouco tempo de acesso à Internet aprende que pode opinar em sites alheios, criar páginas, trocar informações e se comunicar com qualquer pessoa sem ser cerceada por uma estrutura rígida e hierarquizada.

Na mídia tradicional é necessário que uma revista, por exemplo, separe um espaço para comentários, e decida quais cartas podem ser publicadas. Essa limitação não existe na Internet. Nela, a possibilidade de se expressar abrange desde a criação de um espaço pessoal para a divulgação das próprias idéias, passando por listas de discussão por email, até a participação em obras coletivas. (…)

Porém, o grande destaque que deve ser dado à Internet está nos sites e blogs. Originalmente, os sites, tanto pessoais quanto institucionais, eram restritos a pessoas com conhecimentos técnicos específicos para criar páginas web. Sua estrutura era estática, com poucas atualizações, devido às dificuldades para gerar uma nova página. O máximo de interação que havia nesses sites se resumia a um endereço de email para contato. O passar do tempo facilitou a criação de sites e possibilitou o surgimento de sistemas de publicação de páginas web nos quais a pessoa não precisa ter conhecimento técnico para criá-las. A separação entre o conteúdo e a técnica de publicação é um dos aspectos responsáveis pela popularização dos chamados weblogs, ou blogs, que são nada menos que os sites gerados por sistemas de publicação.

Os blogs permitem que pessoas sem conhecimentos técnicos possam ter um espaço no qual divulguem suas opinões, por vezes atraindo centenas ou milhares de leitores fixos. Porém, seu diferencial é a possibilidade de o visitante do blog inserir comentários na própria página e interagir, praticamente em tempo real, não só com o criador do blog, mas com os outros visitantes. Desta forma, de sites estáticos, passou-se a sites dinâmicos, com facilidade de publicação e interação. A existência de serviços gratuitos de criação e hospedagem de blogs e sites incentivou um incremento no número de pessoas interessadas em expor suas opiniões e divulgá-las, reunindo grupos com interesses semelhantes e que podem discuti-los com profundidade, aumentando uma rede de relacionamentos e tomando contato com outras pessoas que, em situação diversa, jamais conheceriam. Assim, a Internet se mostra como um grane espaço de comunicação de pessoas com os mesmos interesses, podendo gerar discussões inovadoras e focos de resistência aos discursos oficiais.

Possibilidades de resistência na Internet

Compreendidas as questões técnicas, ficam nítidas as possibilidades de criação e divulgação de conteúdo na Internet, transformando em discussões comuns várias questões que não costumam ser discutidas na mídia tradicional. Wikis, blogs e sites que tratam de temas polêmicos são comuns na Internet. Abrangem todo o espectro político, alimentam discussões sobre política de direitos autorais, liberdades civis, sexualidade, direitos humanos, táticas de guerrilha, dúvidas filosóficas, novas políticas de software, partidos políticos. A estética feminina também pode fazer, e faz parte, desse conteúdo polêmico.

Alguns sites e blogs já estão utilizando as ferramentas disponíveis na Internet para criar conteúdo questionando o padrão de beleza feminino atual. Dos sites, é interessante destacar três deles. “About face” é focado no uso que a publicidade e os editoriais de moda fazem do corpo feminino, denunciando o incentivo ao tabagismo e a excessiva valorização dos corpos magros e do consumo de bens de luxo. “Adiós Barbie” é um site com críticas ao padrão de beleza atual, e tem como atrativo o jogo “Feed the model”, que incentiva a alimentação de moças que andam em uma passarela, denunciando o quadro de desnutrição de boa parte das modelos atuais. “Beleza pura” é uma divisão do site “Viva favela”, e reproduz a temática da mídia tracidional, mas voltada para as mulheres que vivem em comunidades de baixa renda, em favelas e na periferia. “Campanha pela Real Beleza”, patrocinado pela empresa Unilever, exibe uma pesquisa mundial mostrando a insatisfação feminina com os corpos mostrados na mídia, e o quanto essa insatisfação se reflete na baixa da auto-estima das entrevistadas.

Como se pode notar, esses exemplos são de sites institucionais, pois pertencem a empresas ou a organizações focadas no trabalho de conscientização dos malefícios que o padrão estético imposto pela mídia tem causado nas mulheres de todo o mundo. (…) No Brasil, o site que recebeu maior destaque em blogs foi o da “Campanha pela Real Beleza”. Tal fato se deve à repercussão das propagandas dos produtos Dove, da empresa Unilever. A campanha de marketing foi criada de forma a reforçar a auto-estima das mulheres, e atender aos anseios de diversidade estética revelados na pesquisa. O blog de Daniela Castilho, por exemplo, teve um artigo em que os visitantes discutiram o risco de as mulheres não se identificarem com a propaganda, questionaram se a campanha seria apenas uma manipulação das frustrações femininas, e comentaram o impacto que o padrão dos corpos extremamente magros tem nas crianças e adolescentes, que crescem frustradas por seus corpos não serem parecidos com os padrões de beleza vigentes.

Em alguns casos, a Internet não gera propriamente um meio de resistência, mas estimula grupos de apoio, como os criados por adolescentes anoréxicas, que desenvolveram uma rede de relacionamento, focada basicamente em blogs. Elas publicam fotos de modelos macérrimas que consideram bonitas, contam sobre as dificuldades em manter a dieta restritiva sem que os pais descubram que mal se alimentam, trocam dicas de exercícios e técnicas de vômito. Às vezes reconhecem que o padrão de beleza imposto é injusto, pois as faz ter culpa por não serem disciplinadas e serem obrigadas a comer, como relatou uma anoréxica em depoimento publicado no blog de Denise Arcoverde,gerando cerca de cem comentários em poucos dias e lançando luz sobre a situação angustiante em que essas meninas vivem. Por sua vez, Denise Arcoverde publicou em seu blog um relato sobre a época em que morou na Suécia, ressaltando a sua satisfação em viver em um lugar onde os corpos femininos eram tratados com naturalidade, sem sofrer pressão pela juventude eterna nem serem utilizados para garantir a venda de qualquer tipo de produto.

Essa discussão foi retomada no blog de Juliana Florêncio, quando foi incentivada uma “Ação da Sociedade Civil contra as propagandas de cerveja” contra as maiores cervejarias brasileiras, pois todas exploravam o corpo de mulheres seminuas, jovens e magras como atrativo para a venda de cerveja, num flagrante desrespeito à dignidade feminina. Nos comentários, foi mencionado que o corpo feminino seminu só é usado, nos países escandinavos, em propaganda de lingerie ou hidratante corporal.

Esta sucessão de exemplos é uma forma de demonstrar que a Internet tem um papel importante na divulgação de formas de resistência ao padrão de beleza imposto pela mídia. Ela não está apenas em sites estáticos, mas no crescimento de redes de comentários nas quais pessoas comuns criam seu próprio conteúdo, e interagem entre si, desenvolvendo idéias, questionando padrões, sugerindo atitudes defensivas e boicotes. A informalidade dessas redes surte grande efeito, pois motiva discussões que envolvem centenas de pessoas, sendo questão de tempo sua mobilização para obrigar a mídia tradicional a lhes dar uma voz mais atuante e reverter o padrão de beleza atual.

Considerações finais

A Internet é o espaço ideal para criar um grupo de resistência à forma como a imagem feminina é tratada pela mídia tradicional. A facilidade de expor e trocar idéias, conhecer outras formas de pensar, e efetivamente aprender a respeitar a diversidade humana, é uma grande vantagem que não é encontrada em outras mídias. No entanto, para que a resistência seja eficaz, é necessário dar um passo além do que é feito pela mídia tradicional, presa a sites estáticos, com pouca participação das leitoras.

Facilitar a criação de espaços que incentivem a diversidade estética, divulguem outros padrões, diminuam a expectativa pelo corpo perfeito e mudem a opinião de outras pessoas que, de outra forma, não questionariam o modelo atual é fundamental para se ter uma resistência eficaz ao sistema estético vigente. Sites pessoais e blogs são o melhor método para isso, pois criam uma discussão dinâmica entre as usuárias, estimulando o questionamento dos padrões vigentes e trazendo novas perspectivas a suas vidas através da troca de experiências e reforço progressivo da auto-estima.

Paralelamente à discussão pessoal, é necessário ter sites focados em estudos científicos e cartilhas. Estáticos e formais, são peças importantes de pesquisas e divulgação das condições relacionadas à estética feminina, além de atuar como centros de informação acadêmica e divulgação científica.

(…)

Desta forma, o uso da Internet deve ser incentivado não apenas como uma extensão da mídia tradicional, mas como um meio fundamental para resistir e alterar os padrões de beleza impostos por ela, concedendo às mulheres o poder sobre o próprio corpo e sobre sua imagem.

*Cynthia Semíramis Machado Vianna é Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Excertos de artigo apresentado no I Simpósio Brasileiro Gênero e Mídia – GT: Internet. Leia o artigo na íntegra AQUI

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3 Respostas to “Do Uso da Internet Como Forma de Resistência às Imagens Femininas Impostas Pela Mídia Tradicional”

  1. Francorebel Says:

    Eu não suporto esse papo de que “as mulheres é que são o sexo forte” ou de que “elas são superiores” e blá-blá-blá… isso é um saco, um troço ridículo no mundo atual, em que se busca integração e equilíbrio das diversas partes de nós mesmos, o que inclui, entre outras polaridades, o masculino e o feminino, e a mídia costuma fazer alarde preconceituoso inclusive ao falar das “mulheres no crime” ou “mulheres que realizam tarefas tipicamente masculinas”… isso me faz querer rasgar os jornais, desligar a TV e ir dormir… in-su-por-tá-vel!!!…. Rs…. mas eu gostei deste espaço de discussão, aplausos para vocês /\ \/ /\ \/!!

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Francorebel,

    entendemos o seu posicionamento, e responder ao seu comentário é uma ótima oportunidade para deixarmos claro para todos os leitores que os textos postados no Blog nem sempre expressam a opinião de todos os integrantes do grupo, ou mesmo de apenas um deles. A escolha que fazemos dos textos tem por objetivo oferecer um panorama diversificado de opiniões sobre um mesmo tema, diversidade, pois, é o nosso lema! Tanto é que neste mês, em que discutimos “A Psicologia e a Mídia”, você vai encontrar tanto textos do site Mídia Sem Máscara quanto do Observatório da Imprensa, os quais possuem perspectivas ideológicas muito distintas.

    Gostamos muito da sua observação, Francorebel, e esperamos conseguir atingir pessoas com as mais diferentes opiniões, entendemos que isso enriquece o debate. Aliás, só existe debate quando existem opiniões divergentes, não é mesmo?! No mais, podemos dizer que uma das mulheres do nosso grupo pensa exatamente como você em relação à polarização da imagem feminina tão em voga na mídia, e ela achou muito legal você ter deixado sua opinião.

    Volte sempre, será sempre bem-vindo!

  3. JAQUELINE GOMES DE JESUS Says:

    Leiam artigo de minha autoria, A Negação do Corpo Feminino, no qual analiso a questão da ditadura dos corpos: http://www.midiaepolitica.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&id=85:a-negacao-do-corpo-feminino&catid=14:edicao-022012


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