Mídia, Cultura do Consumo e Constituição da Subjetividade na Infância

*Por Cristiana Caldas Guimarães de Campos e **Solange Jobim e Souza

A contemporaneidade tem-se caracterizado pelas relações de produção e de consumo permeando as interações sociais. Temos acompanhado mudanças nas relações estabelecidas entre adultos e crianças, bem como o surgimento de uma nova produção da subjetividade em função da organização do cotidiano pela mídia e o modo como a experiência das crianças, dos jovens e dos adultos vem se transformando na sociedade de consumo. Portanto, crianças, adolescentes e adultos alteram suas relações intersubjetivas a partir das influências que a mídia e a cultura do consumo exercem sobre todos nós.

Neste texto, o tema da contemporaneidade será tratado inicialmente a partir das seguintes indagações: o que é infância hoje? Como as crianças e os adolescentes percebem o adulto? Como o adulto fala às crianças e aos adolescentes? O século XVIII inventou a infância. Será que nesta virada de século já podemos dar por sua falta? Será esse um conceito quase obsoleto? Quem são essas crianças e esses adolescentes contempo-râneos cada vez mais adultizados?

Postman (1999) sustenta que, na sociedade americana a linha divisória entre a infância e a idade adulta está desaparecendo rapidamente. Acredita o autor que, da mesma forma que a prensa tipográfica criou essa categoria, a mídia eletrônica está fazendo com que ela desapareça. Essas considerações de Postman podem ser estendidas mais amplamente às culturas ocidentais contemporâneas, pois identificamos em nosso contexto social os mesmos sinais que o autor apreendeu da sociedade americana, como por exemplo: crianças se vestem cada vez mais como adultos; as brincadeiras se modificam (especificamente as brincadeiras de rua nos grandes centros urbanos); há um aumento da incidência de crimes envolvendo menores; meninas de 12, 13 anos fazem sucesso na carreira de modelo etc. Além dos aspectos mencionados, vale acrescentar que a rotina da criança tem-se transformado, ou seja, pais de classe média se preocupam com a inserção de seus filhos no mercado de trabalho e, em função disso, os introduzem, cada vez mais cedo, em cursos de inglês, informática, esportes…

O tempo compartilhado entre pais e filhos é cada vez mais escasso: trabalha-se cada dia mais para o aumento do poder aquisitivo (e conseqüentemente do consumo), e a mulher tem uma contribuição crescente na fatia produtiva da população, ficando bastante tempo fora de casa. Pais chegam tarde em casa, crianças atarefadas, refeições solitárias ou feitas fora do lar. A família se reúne cada vez menos para conversar sobre o cotidiano… Podemos identificar também como uma característica de nossa sociedade as múltiplas formas de conjugalidade: famílias monoparentais, descasamentos, recasamentos, assim como a crescente incidência de filhos únicos. (…) .

(…) uma queixa comum nos dias de hoje, ou seja, a dificuldade do adulto no relacionamento com crianças e adolescentes. As preocupações dos pais com os filhos se transformam. Mas, se a criança mudou, o que dizer do adulto?
Para Postman (1999), não só a idéia de infância está em declínio. Paralelamente a esse processo, há também o adulto infantilizado que se alimenta de junkfood, que tem dificuldade em assumir sua prole e familiares idosos, apresentando pouco compromisso com a educação dos filhos. Os limites que separam crianças e adultos estão desaparecendo, pois as diferenças entre essas duas categorias não são enfatizadas.

Sarlo (1997) sinaliza que a infância é uma experiência que praticamente desapareceu, pois se encontra espremida por uma adolescência bastante precoce e uma juventude que se prolonga até os 30 anos. Pelo menos um terço da vida recebe o rótulo de juventude! Alguns autores buscam uma explicação para esse fato a partir das transformações radicais que vêm sendo operadas no cotidiano pela circulação das informações e o acesso crescente às novas formas de tecnologia em permanente expansão.

Segundo Postman (1999), após a invenção do telégrafo por Morse, a informação passou a ter um caráter anônimo, descontextualizado, tornando as diferenças entre culturas irrelevantes. “O telégrafo criou um público e um mercado [não só] para a notícia fragmentada, descontínua e essencialmente irrelevante, que até hoje é a principal mercadoria da indústria da notícia” (p. 85). O telégrafo foi o precursor das mudanças que o seguiram: prensa rotativa, fotografia, telefone, cinema, rádio, TV (e, mais recentemente, a Internet), tornando impossível o controle da informação, modificado em sua forma, havendo hoje uma preponderância de imagens. Tais mudanças trouxeram conseqüências para a infância, retirando da família e da escola o controle da informação, alterando o tipo de acesso das crianças e dos adolescentes à informação. A imagem da televisão, por exemplo, está disponível a todos, independente da classe ou idade. “Na TV, tudo é para todos” (p. 93). Não há distinção criança/adolescente/adulto/idoso ou indiferenciação quanto a seu acesso. É só ligar a televisão.

A mídia invade nosso cotidiano. A criança e o adolescente de hoje não conheceram o mundo de outra maneira – nasceram imersas no mundo com telefone, fax, computadores, televisão, etc. TVs ligadas a maior parte do tempo, assistidas por qualquer faixa etária, acabam por assumir um papel significativo na construção de valores culturais. A cultura do consumo molda o campo social, construindo, desde muito cedo, a experiência da criança e do adolescente que vai se consolidando em atitudes centradas no consumo.

(…) (…) (…)

Postman conclui de forma drástica sua análise sobre a TV:

“Podemos concluir, então, que a televisão destrói a linha divisória entre infância e idade adulta de três maneiras, todas relacionadas a sua acessibilidade indiferenciada: primeiro, porque não requer treinamento para apreender sua forma; segundo porque não faz exigências complexas nem à mente nem ao comportamento, e terceiro porque não segrega seu público. Com a ajuda de outros meios eletrônicos não impressos, a televisão recria as condições de comunicação que existiam nos séculos quatorze e quinze. Biologicamente estamos todos equipados para ver e interpretar imagens e ouvir a linguagem que se torna necessária para contextualizar a maioria dessas imagens. O novo ambiente midiático que está surgindo fornece a todos, simultaneamente, a mesma informação. Dadas as condições que acabo de descrever, a mídia eletrônica acha impossível reter quaisquer segredos. Sem segredos, evidentemente, não pode haver uma coisa como infância” (p. 94).

Para esse autor a idéia de infância está diretamente relacionada à possibilidade de haver segredos e à vergonha do adulto frente à criança. Quando tudo é dito e, principalmente mostrado via imagem, que diferença se estabelece entre adultos e crianças? O pudor em falar de certos assuntos, de determinada maneira, parece não fazer mais parte do nosso cotidiano. Como se encontra esse processo de autocontrole na sociedade midiática e imagética, já que a mídia parece desafiar a autoridade do adulto, questionando o lugar de saber que este ocupava? Essa é uma questão importante e que merece ser levada em consideração. Embora a resposta não seja simples nem imediata, vale refletir sobre o papel da mídia, especialmente o da publicidade, na construção de novos padrões identitários para crianças, jovens e adultos a partir dos signos de prestígios fornecidos pela cultura do consumo. A publicidade se utiliza de modo indiscriminado da imagem da criança, do jovem ou do adulto para vender estilos de vida e mercadorias, criando uma nova fórmula de estratificação social e cultural. O valor das mercadorias e dos objetos substitui o valor do homem, ele próprio transformado em mercadoria, definindo uma nova ética no campo das relações sociais.

Nos dias de hoje, há cada vez mais a preponderância dos processos de consumo, fazendo com que os sujeitos sejam levados a identificar-se com coisas e objetos que os levam a diferenciar-se dos demais, como também a discriminar e hierarquizar grupos sociais. Baudrillard (1995) esclarece que não é o consumo que se organiza em torno das diferenças individuais, mas, sim, estas, assumindo a forma de personalização, é que se organizam em torno de modelos comunicados pelo sistema de consumo. Para esse autor, existe inicialmente a lógica da diferenciação social e, depois, a manifestação organizada das diferenças individuais. Com isso, o sistema promove a anulação das diferenças “reais” e transforma as pessoas em seres contraditórios através da produção industrial da diferença. Em suma, o que prepondera é a ilusão de que podemos realizar escolhas autênticas, pois, de fato, todas as escolhas já estão previstas pelo sistema. O processo de construção da identidade na cultura de consumo apresenta-se como cambiante, fluido, fragmentado e parcial. Objetos e mercadorias são usados para demarcar as relações sociais e determinam estilos de vida, posição social, além da maneira de as pessoas interagirem socialmente. “Isto faz com que tais mecanismos culturais tenham o papel de estipular a natureza da experiência emocional e social que regerá o contexto entre os diversos grupos sociais” (Rabello de Castro, 1995: p.222).

Canclini (1997) mostra-nos como a maneira de consumir acabou por alterar as possibilidades e as formas de exercer cidadania. As identidades contemporâneas se configuram no consumo, dependendo daquilo que se possui ou do que se pode vir a consumir. Há um descontentamento com o que se tem, próprio do mundo globalizado, que “supõe uma interação funcional de atividades econômicas e culturais dispersas, bens e serviços gerados por um sistema com muitos centros, no qual é mais importante a velocidade com que se percorre o mundo do que as posições geográficas a partir das quais se está agindo” (p. 17). Esse descontentamento provém da fugacidade, da obsolescência. Tudo se torna obsoleto a todo instante.

(…) (…)

O mercado nos ilude prometendo o ideal de igualdade e liberdade. Ele escolhe quem fará parte do seleto grupo que pode consumir, gerando exclusão. Em seu discurso, reforçado pelos meios de comunicação, todos somos iguais. As mercadorias têm que ser novas, da moda. Devem captar as mais insignificantes mudanças, que constituem o mito da novidade permanente que impulsiona crianças, adolescentes e adultos. O consumidor, apto à entrada no mercado, é uma espécie de colecionador às avessas, colecionando atos de exposição. Ele sabe que os objetos se desvalorizam quando os agarramos. Uma vez adquirida, a mercadoria perde sua alma. Não há objeto que aplaque a falta daquele que consome – haverá outro que chama sua atenção.

Devemos voltar, neste momento, à nossa indagação central: qual o lugar da infância na cultura do consumo?

Ora, a infância não se oferece mais como categoria que proporciona felicidade e inocência (Sarlo, 1997). A infância muda seu lugar social: sai do lugar de inapta, incompleta, para o de consumidora, transformando sobremaneira sua forma de inserir-se no mundo. Ao mesmo tempo, a criança e o adolescente se encontram num lugar dúbio, pois são vistos ainda em sua incompletude – necessitam da escola para a aprendizagem legitimada pela sociedade e, paralelamente, encontram-se mais aptos que seus pais e professores para lidar com as novas tecnologias da vida cotidiana (Rabello de Castro, 1998).

Controvérsias à parte, de uma forma geral a opinião de pais, professores e adolescentes coincide em uma questão: identifica uma forte influência da mídia (e, para alguns, dos jogos eletrônicos também) na construção de valores e na internalização destes pelos sujeitos. Observam que os valores que têm sido veiculados pela mídia, muitas vezes, não se coadunam com os que a família e a escola consideram como “legítimos” e que devem ser passados às crianças e adolescentes. (…) Identificam que a TV é uma forte presença na vida de todos e muitos admitem que dormem com ela ligada, assumindo um rótulo de vício, mas é interessante verificar que, ao mesmo tempo, esses mesmos grupos, em alguns casos, possuem uma visão crítica, ora culpabilizante (responsabilizando a mídia e os jogos eletrônicos por todo tipo de transgressão às normas sociais), ora relativizante sobre o papel que a mídia tem exercido em nossa sociedade na formação de valores. Com freqüência ela é apontada como desencadeadora de violência nos grandes centros urbanos.

Professores também acreditam que a mídia e os jogos eletrônicos exerçam uma forte influência sobre as crianças e os adolescentes. Uns atribuem à escola a função de criticar o conteúdo do que é visto na TV; outros ressaltam que não têm como fazer um embate a esses veículos, ponderando que, neles, há coisas boas e ruins. Vêem como possibilidade formadora trabalhar, com os alunos, a presença de diferentes olhares e concepções de mundo veiculados pela TV. Vale também ressaltar que eles dão ênfase ao papel da família, que deveria acompanhar mais os programas e/ou jogos que os filhos assistem e/ou jogam.

Jurandir Freire Costa (1994;1995), analisando o perfil da sociedade brasileira, identifica quatro atributos que a compõem: o cinismo, a delinqüência, a violência e o narcisismo. As causas da violência no Brasil estão, segundo esse autor, relacionadas à formação de nossa sociedade. Ele identifica, basicamente, duas formas de violência: a violência estrutural, de base, que advém do caráter autoritário da formação de nosso país e é expressa na desigualdade dos níveis de vida, na fome, na miséria, respaldada por uma sociedade hierarquizada que mantém seus privilégios, e a violência urbana, da degradação dos valores – o que faz com que uma sociedade se mantenha ou não coesa: o apreço à preservação dos valores que as elites intelectuais, políticas e culturais assumem. Já cinismo é uma característica que transparece, por exemplo, na indignação com deputados corruptos, porém, concomitante e paradoxalmente, no dia-a-dia, gestos, palavras e ações, como por exemplo ultrapassar o sinal vermelho, acontecem como situações admissíveis. Com isto se estabelece uma cisão entre duas esferas de valores que parecem não se chocar.

Como as leis, as regras são convenções que garantem nossa sobrevivência a delinqüência apresenta-se, desse modo, como uma cultura suicida, na medida em que nossos instintos não nos protegem. A transgressão à regra dá uma ilusão, em nossa sociedade, de que podemos ficar impunes. E, na inexistência de um mundo de valores, tudo é possível, já que desaparece a possibilidade da reflexão ética nesta cultura da razão cínica. Como instrumento para garantir a imunidade à delinqüência, o narcisismo se apresenta como possibilidade. E Jurandir Costa (1995) sentencia: “A saída narcísica leva o cidadão a buscar a felicidade na proteção de suas casas, munidos de artefatos de consumo cada vez mais sofisticados, mas cada vez mais descrentes de uma saída coletiva” (p.15).

(…) (…) (…) (…) (…)

Um outro aspecto importante é que a mídia apresenta um lugar de destaque na fala de pais, professores e adolescentes. Entretanto, mesmo criticando seu papel na formação de valores, é freqüente os adultos estabelecerem castigos ou punições que envolvem a proibição de assistir TV, conferindo, com essa atitude, uma supervalorização a esse veículo de entretenimento. Em suma, embora os adultos, os jovens e as crianças tenham consciência de que somos profundamente marcados pela cultura do consumo, pais e professores acabam utilizando os bens de consumo como um meio para valorizar ou punir comportamentos desejados ou não desejados nas crianças e nos adolescentes. Certamente essa atitude acaba por reforçar aqueles mesmos comportamentos criticados por eles. Desse modo, a manipulação veiculada pela mídia e pela cultura do consumo é sustentada nas relações intersubjetivas no âmbito da família. (…)

*Por Cristiana Caldas Guimarães de Campos é Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. Membro do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa da Subjetividade (GIPS).

**Solange Jobim e Souza é Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica do Departamento de Psicologia / PUC-Rio; Professora Adjunta da Faculdade de Educação, UERJ. Coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa da Subjetividade (GIPS), PUC-Rio e UERJ. E-mail: soljobim@psi.puc-rio.br

Excertos de Palestra proferida no III Congresso de Psicologia do Desenvolvimento – UFF, de 13 a 15 de julho de 2000. Leia o texto na íntegra AQUI

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2 Respostas to “Mídia, Cultura do Consumo e Constituição da Subjetividade na Infância”

  1. gildo Carvalho de Jesus Says:

    Eu fico com a opinião de alguns intelectuais ,,..qundo coloca que a desumanização causada por desumano ,causa uma trajedia social.

  2. Bruno Says:

    “contempo-râneos”?
    como assim??


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