A Lua e a Consciência Matriarcal

*Por Erich Neumann

Na historia dos primórdios da consciência podemos discernir fases sucessivas do envoltório inconsciente(…). No decorrer desse desenvolvimento, que conduz a liberação da ascendência do inconsciente, o consciente é simbolicamente masculino, enquanto o inconsciente, na medida em que se opõe a emancipação do ego, é feminino, como aprendemos na mitologia e no simbolismo do inconsciente coletivo.

A fase em que a consciência de ego é ainda infantil, isto é, depende da relação com o inconsciente, é representada no mito pelo arquétipo da Grande Mãe. A constelação dessa situação psíquica, assim como suas formas de expressão e projeção, foi por nós chamada de “ matriarcado” e, em contraposição, falaremos da tendência do ego de se libertar do inconsciente e dominá-lo como a “ênfase patriarcal” no desenvolvimento da consciência.

Em conseqüência, matriarcado e patriarcado são estágios psíquicos caracterizados por diferentes desenvolvimentos do consciente e do inconsciente, especialmente por diferentes atitudes de um em relação a outro. Matriarcado não significa apenas predomínio do arquétipo da Grande Mãe, mas, de modo geral, uma situação psíquica total em que o inconsciente (e o feminino) são predominantes e a consciência (e o masculino) não atingiram ainda autoconfiança e independência. “ Masculino “ e “ Feminino “ são aqui grandezas simbólicas, não devendo ser identificados como “ homem “ e “ mulher “ como portadores de características sexuais especificas. Nesse sentido, um estagio psicológico, uma religião, uma neurose, e também um estagio no desenvolvimento da consciência, podem ser chamados “ matriarcais”; e “patriarcal” não significa o comando sociológico dos homens, mas o predomínio da consciência masculina que consegue separar os sistemas do consciente e do inconsciente, e que é relativamente estabelecida de maneira firme em oposição e independentemente do inconsciente. Por essa razão, a mulher moderna, deve também atravessar todos esses desenvolvimentos que conduzem a formação da consciência patriarcal(…).

(…). Quando a consciência não esta patriarcalmente liberada do inconsciente, a “ consciência matriarcal” domina: ou seja, nos primórdios da historia humana e, ontogeneticamente, nas correspondentes fases da infância. O mesmo acontece no homem em que ocorre acentuada atividade por parte da anima, o lado feminino de sua psicologia, tanto em crises psicológicas como nos processos criativos.

(…) (…) (…) (…)

Naturalmente a consciência matriarcal não é restrita às mulheres. Existe também nos homens, na medida em que sua consciência é uma consciência-anima. Isso é particularmente verdadeiro em pessoas criativas; a consciência de todas as pessoas depende da atividade do inconsciente para a inspiração e “palpite”, assim como para o funcionamento dos íntimos e a “ provisão de libido” para a consciência. Todas essas coisas são regidas pela Lua, portanto requerem uma harmonia com ela, um ajustamento a ela, isto é, um culto da Lua.

No culto da lua o papel desta como medida do tempo é de importância capital. Mas o tempo não é o tempo abstrato e quantitativo da consciência patriarcal e cientifica. É um tempo qualitativo que muda, e ao fazê-lo, assume qualidades diferentes. O tempo lunar tem períodos e ritmos, cresce e mingua, é favorável ou desfavorável. Como o tempo que rege o cosmos, rege também a terra, todas as coisas vivas e o feminino.

(…)

Obviamente é no feminino que a natureza e a periodicidade da lua se manifestam de maneira particular, e portanto a mente masculina continua a identificar o feminino com a Lua. O feminino, embora não mais dependente do Periodo lunar externo, não está ligado à Lua apenas de maneira física através da mudança mensal, mas a própria “ mentalidade “ feminina total é determinada pela Lua, e sua forma de espiritualidade lhe é impressa pelo arquétipo lunar, como a epitome da consciência matriarcal.

A periodicidade da Lua, com seu pano de fundo noturno, é símbolo de um espirito que cresce e mingua, conforme os processos obscuros do inconsciente. A consciência lunar, como poderia ser chamada a consciência matriarcal, nunca é divorciada do inconsciente, porque é ela mesma uma fase, uma fase espiritual, do próprio inconsciente. O ego da consciência matriarcal não tem liberdade, ou atividade própria independente; espera passivamente, afinado com o impulso espiritual que lhe foi trazido pelo inconsciente.

(…).

Em outras palavras, a consciência matriarcal depende do estado de espirito e da harmonia com o inconsciente. Essa dependência da Lua pode ser tomada como uma instabilidade ou capricho; no entanto, por outro lado, produz uma retaguarda que atua como caixa de ressonância, dotando a consciência matriarcal de um caráter especial e positivo. Sua resposta ao ritmo, seus tempos, e suas fases crescentes e decrescentes a aproximam da musica. Em conseqüência, musica e dança, por causa de seu ritmo destacado, exercem um papel importante na criação e na ativação da consciência matriarcal e no estabelecimento de uma consonância do ego com a feminilidade e seu regente, o espirito lunar.

(…)

A conexão entre o tempo, o inconsciente e o espirito lunar pertence, ainda mais profundamente do que tem sido demonstrado, a natureza essencial da consciência matriarcal. Somente através de uma compreensão adequada do caráter espiritual do arquétipo da lua podemos entender o significado da consciência matriarcal e do “espirito feminino”.

(…)

A relação entre o tempo e a lua na consciência matriarcal, o domínio da lua sobre o tempo, só se torna claro para nos quando buscamos o significado temporal da lua alem do reino cósmico-mitológico, ou seja, no seu efeito sobre a psicologia do indivíduo.

O desenvolvimento da consciência patriarcal culmina com uma liberação e independência relativas do inconsciente, que coloca o ego no comando de um sistema diferenciado de consciência, com uma certa quantidade de libido disponível, que pode ser aplicada como melhor lhe convir. Devemos compreender a importância dessa forma patriarcal de consciência, mesmo se rejeitamos sua ilusão de se autoconceber como um sistema absolutamente livre. A consciência patriarcal masculina, como o desenvolvimento da espécie humana demonstra, é um órgão altamente pratico e eficiente de adaptação e realização. Entre suas vantagens está sua prontidão constante para reagir e a extraordinária rapidez de suas reações e adaptações; pois embora as reações instintivas conduzidas pelos órgãos dos sentidos sejam de fato rápidas, a velocidade alcançada pela consciência do homem moderno através da especialização as aultrapassa de longe. Essa aceleração das reações conscientes deve-se aos mesmos processos que conduziram ao desligamento da consciência patriarcal do inconsciente. Como desenvolvimento final, observamos os processos de abstração, que auxiliam na livre disposição e aplicação das idéias e, no tipo pensamento diferenciado, conduzem a manipulação de abstrações, tais como os números na matemática e os conceitos em lógica. No aspecto psicológico, tais abstrações são desprovidas ao máximo de conteúdo emocional.

Enquanto a consciência patriarcal aniquila o tempo e ultrapassa os lentos processos de transformação e evolução da natureza através do uso deliberado de experimentação e cálculo, a consciência matriarcal permanece presa ao encantamento da lua mutável. Como a lua, sua iluminação e sua liminosidade estão ligadas ao fluxo do tempo e à periodicidade. Deve esperar que o tempo amadureça enquanto a compreensão, como uma semente plantada, também amadureça com ele.

Nos rituais e nos cultos, a espera e a expectativa são idênticas ao ato de circundar e a circum-ambulação. (…). De maneira semelhante, nos mistérios primordiais da mulher, ou seja, no processo de ferver, cozer, fermentar, assar, o amadurecimento, “o ponto”, e a transformação estão sempre ligados com um período de espera. O ego da consciência matriarcal costuma permanecer quieto até que o tempo seja favorável, até que o processo esteja completo, até que o fruto da arvore lunar tenha amadurecimento e ficado como uma lua cheia, isto é, até que a compreensão tenha nascido do inconsciente. Porque a lua não é somente senhora do nascimento, mas também, enquanto arvore lunar e arvore da vida, um crescimento em si, “o fruto que gera a si mesmo”.

(…)

Mas esse simbolismo feminino não para aqui, porque o que entrou tem que “vir a luz”. A frase “vir à luz” expressa maravilhosamente o duplo aspecto da consciência matriarcal, que experimenta a luz da consciência como a semente que brotou.

(…)

O tempo qualitativo matriarcal é sempre uma ocorrência única e singular, como uma gravidez, em contraste com o tempo quantitativo da consciência patriarcal. Porque, para a consciência patriarcal de ego, todas as subdivisões do tempo são iguais; mas a consciência matriarcal aprendeu, a partir do ritmo do tempo lunar, a conhecer a individualidade do tempo cósmico, senão a do ego. A singularidade e a indestrutibilidade do tempo são consteladas aos olhos daqueles preparados para perceber o crescimento das coisas vivas, capazes de experimentar e de perceber a gravidez de um momento e a proximidade de um nascimento. (…).

Em conseqüência, a linguagem do simbolismo situaria, como regra, a consciência matriarcal não na cabeça mas no coração. Aqui, entendimento significa também um ato de sentimento inclusivo e freqüentemente esse ato – como, por exemplo no trabalho criativo – tem que ser acompanhado da mais intensa participação afetiva, se é algo que deve sobressair-se e lançar luz. O pensamento abstrato da consciência patriarcal é “frio”, em comparação, pois a subjetividade requerida por ele pressupõe um desinteresse possível somente a sangue frio e com a cabeça despreocupada. A consciência lunar tem sido geralmente associada ao coração por todos os povos para os quais a cabeça não tornou o centro de uma consciência patriarcal dissociada do inconsciente. No Egito, acreditava-se que o coração era a fonte original do pensamento e do espírito criativo. Na Índia, onde foi associado cosmicamente à lua, tomava-se o coração como sede do manas, (…), significando um órgão psíquico do espírito, e ele tornou-se então o lugar de manifestação da divindade mais alta. Esse centro no coração da consciência matriarcal e sua relação com o tempo lunar, é ainda o fator orientador válido em todos os processos de crescimento e transformação. (…).

O fato da sede da consciência matriarcal ser no coração e não cabeça significa – para indicar apenas uma das implicações do simbolismo – que o ego da consciência patriarcal, nosso familiar ego cerebral, muitas vezes não sabe nada do que acontece no centro mais profundo de consciência, no coração.

Pois é essencial ter em mente que os processos da consciência matriarcal têm relação com um ego e não podem, em conseqüência, ser descritos como inconscientes. É claro que este ego é de uma espécie diferente daquela que nos é familiar na consciência patriarcal, mas não obstante exerce um papel ativo no processo da consciência matriarcal. Sua presença constitui a diferença entre o funcionamento humano no estágio matriarcal e uma existência totalmente inconsciente.

A comum identificação de nosso ego com a consciência patriarcal cerebral, e a correspondente falta de relação com a consciência matriarcal, freqüentemente conduz ao nosso desconhecimento do que realmente nos acontece. Em tais casos, percebemos mais tarde que fomos profundamente impressionados por coisas, situações e pessoas, das quais nosso ego cerebral não tomou qualquer conhecimento. (…). O fato de que, como um raio, algo ocorreu e foi percebido, tornar-se-á visível mais tarde na frutificação de uma mudança de personalidade. Aqui, a frase de Heráclito continua válida: “A natureza adora se esconder”.

(…) (…)

Não é sob os raios causticantes do sol mas na fria luz refletida da lua, quando a escuridão da inconsciência atinge sua plenitude, que o processo criativo se completa: a noite, e não o dia, é que é o momento da procriação. Esta requer escuridão e quietude, segredo, mudez e ocultamento. Em conseqüência, a lua é senhora da vida e do crescimento em oposição ao sol letal e devorador. O tempo úmido da noite é o tempo do sono, mas também da cura e de recuperação. (…). É o poder regenerador do inconsciente que na escuridão noturna sob a luz da lua executa seu trabalho, um mysterium dentro de um mysterium, trabalhando a partir de si mesmo e da natureza, sem qualquer ajuda do ego cerebral. É por isso que as pílulas e as ervas curativas são associadas à lua e seus segredos guardados por mulheres, ou melhor, pela natureza feminina, que está ligada à lua.

(…) (…) (…) (…) (…) (…) (…) (…) (…)

A consciência matriarcal experimenta o obscuro e misterioso processo de crescimento da compreensão como algo em que o Si-mesmo funciona como uma totalidade. (…).

(…) (…) (…) (…) (…) (…) (…) (…) (…).

Tanto para o masculino como para o feminino, a totalidade só é atingível quando, numa união dos opostos, o dia e a noite, o mais alto e o mais baixo, as consciências patriarcal e matriarcal, chegam ao seu próprio modo de produtividade e mutuamente se complementam, fertilizando um ao outro.

*Erich Neumann (23/01/1905 – 05/11/1960) foi um psicólogo e escritor, considerado como um dos mais talentosos alunos de carl Jung.

Excertos do Capítulo 2 do livro “Pais e Mães”, organizado por James Hillman.

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