Breve História do Feminino

*Por Flávia Cristina Costa Pivatto

Quando examinamos a história do feminino, verificamos que desde os períodos Paleolítico e Neolítico já haviam cultos matriarcais, onde a deusa-mãe era adorada. Mircea Elíade, explica que com a passagem da vida nômade para sedentária, houve uma mudança dos elementos que simbolizavam a vida. Enquanto na vida nômade ossos e sangue eram símbolos de vida, no sedentarismo foram substituídos pelo sangue e esperma.

A mulher sangra todos os meses, mesmo não estando ferida, o vermelho do sangue do nascimento é a primeira cor que se vê ao presenciar um parto (o sangue é energia vital da vida e fonte de renovação). A mulher recebe a semente depositada pelo homem, e após o período de gestação, explode para a vida um novo ser. A terra também recebe sua semente. Deste modo, a mulher tornou-se a senhora das colheitas porque, como a terra, ela esconde o segredo da vida. Reinando suprema como a grande-mãe enquanto divindade, continha em si todas as possibilidades da existência: vida, morte, poder, juventude, velhice, e sabedoria.

De acordo com Jung, os arquétipos são potenciais psíquicos que estão relacionados às experiências universais da Humanidade: nascimento, passagem da infância para adolescência, da adolescência para a vida adulta, maternidade, paternidade, espiritualidade, morte, etc. É um depósito permanente de uma experiência que foi constantemente repetida durante várias gerações. As repetições dessas experiências se fixaram no inconsciente coletivo como um arquétipo. Então, tudo o que leva à união, à coesão social, à comunhão e à proximidade humana, todas as alianças e fusões, e também todos os impulsos de absorver, destruir, reproduzir, duplicar pertencem ao arquétipo universal do feminino.

Os gregos, e todas as culturas antigas percebiam essas energias como forças ou energias que estão exercendo continuamente influências poderosas sobre nossos processos psicológicos. A história complexa da religião grega mostra que quando as diversas tribos nórdicas e arianas impuseram seus deuses mais patriarcais a grande deusa, e seus poderes foram separados. Não quer dizer que foram abolidos, mas sim que a grande-mãe original foi fragmentada, isto é, tornaram-se deusas de maneiras variadas. Assim, enfraquecidas e toleradas na medida em que atuavam isoladamente.

Como a religião era politeísta não tinham preocupação com as contradições; havia um deus para representar cada força e valor. Não tinham um problema de Sombra, pois os deuses eram intuitivamente compreendidos como expressões amplificadas de todas as coisas humanas. Neste período, as práticas religiosas matriarcais nunca foram inteiramente suprimidas. Na medida em que a cultura grega foi se tornando mais complexa e diversificada, o mesmo aconteceu com suas divindades. Com a chegada da religião judaico-cristã, o dinamismo matriarcal foi sendo reprimido, e tentou-se expurgar tudo o que as deusas representavam.

O professor Junito de Souza Brandão comenta essa passagem: “Com a vitória do patriarcado rompe-se a era do amor, do Eros e instala-se o logos…O amor materno é o mais primitivo dos amores. Até os animais “amam” suas mães….O matriarcado é o universalismo, o patriarcado é a limitação. A família matriarcal está aberta porque é universal; a patriarcal é o fechada porque é individual.Numa predomina o caos, a natureza, a liberdade, o Eros, o amor; na outra, a limitação, a hierarquia, a ordem, o logos”.

Segundo Gilles Lipovestky, autor do livro “A Terceira Mulher”, durante a maior parte da história da humanidade, a mulher foi considerada como um mal necessário, um ser inferior, sistematicamente depreciada pelo homem. A primeira mulher, segundo o autor, é a que tanto os gregos como os romanos e cristãos denunciavam e estigmatizaram como um ser ardiloso e fatal.

Durante a Inquisição, período que se iniciou na conversão do Império Romano ao Cristianismo e foi um movimento histórico dissociador e repressivo mais longo e terrível da humanidade, do século IV ao século XVIII que durou portanto catorze séculos, os componentes matriarcais mais reprimidos foram à sexualidade, o prazer, a vivência sensual, a vivência lúdica e a espontaneidade das emoções (principalmente a agressividade e inveja),a vivência do irracional e a vivência do campo intuitivo (mediunidade, premonição, magia, intuição ,e vivência oracular). É interessante notar que a repressão cultural foi exercida em nome de um símbolo de totalidade, o símbolo de Cristo, arquétipo central, a totalidade do Self.

Com o advento do Cristianismo, tudo aquilo que se relacionasse com o corpo e desejos sexuais foram reprimidos. Essa mesma igreja que, em seus primórdios, pregava a libertação das classes oprimidas-onde a mulher-estava incluída-era agora a força mais importante e profunda para fortificar a sua submissão.Nem seus profetas, nem a igreja entenderam a mensagem do Mestre. A Igreja Católica Apostólica Romana coloca a mãe de Cristo, a Virgem Maria como modelo apregoado a todas as mulheres que deveriam, a seu exemplo, manterem-se castas. Seguiram-se quase dois mil anos de culpa e repressão à criatividade, a fertilidade do dinamismo matriarcal, à mulher e ao feminino.

A mudança cultural e histórica começou a partir da segunda metade da Idade Média, com o amor cortesão aonde se rendia culto à mulher amada e; exarcebavam suas perfeições morais e estéticas. Nos séculos XVIII e XVIIII a esposa, mãe e educadora dos filhos a põem em pedestais filosóficos. De acordo com a análise de Lipovestky essa é a segunda mulher, não reconhecida com um ser igualitário e autônomo, porém com papéis reconhecidos socialmente, pelo poder de criar os filhos, de educar o masculino, os comportamentos e costumes.

Hoje em dia, o autor enfatiza a liberdade que o feminino tem sobre si mesmo, que agora se aplica indistintamente a homens e mulheres, como sendo uma liberdade que se constrói a partir de normas e papéis sexuais não fechados e definitivos.

A terceira mulher não quer o modelo de vida masculino, que se deixa tragar pelo trabalho e atrofia sentimental e de comunicação.Esta terceira mulher é um modelo de mulher indeterminado.Quando nasce um filho o pai ou a mãe tem o mesmo papel, independente de seus sexos.Ele chocou as feministas ao falar do culto a beleza, e que as mulheres estão confusas, pois a situação é nova.Durante muito tempo, a beleza era uma propriedade de distinção do feminino, porém excluía as responsabilidades intelectuais, profissionais e política.Hoje, quanto mais se ocupam de si mesmas, da moda, do esporte, etc. mais responsabilidades têm. Na situação atual, não se aplica mais o clichê machista de ser linda, burra e muda.Porém, a beleza e as formas de sedução continuam sendo um valor.

O autor continua analisando que, as feministas defendem um ideal arcaico. O próprio movimento feminista que, ao defender a igualdade e supremacia do poder social com o homem, acabou se orientando por parâmetros patriarcais e deixando de lado o dinamismo matriarcal de lado (o posicionamento na gestação, no aleitamento, na relação primordial mãe-filho e durante o ciclo menstrual). Ele defende que agora há uma mesclagem de modernidade e tradição. Em um mundo em que os papéis não estão absolutamente fechados, que permitem certa mobilidade, a terceira mulher é reconciliada com as normas do feminino. Não quer dizer reconciliada, consigo mesmas. Um caso típico são as mulheres que trabalham e sentem-se o tempo todo tiranizadas. Quando trabalham pensam nos seus filhos, quando estão com os filhos dizem que não progridem no trabalho. E as que trabalham fora continuam tendo a responsabilidade principal da casa e dos filhos.

O culto à virgindade caiu por terra, mas não caíram as outras normas. E acrescenta “o que impedia o livre arbítrio das mulheres desapareceu, enquanto as normas tradicionais, compatíveis com a autonomia feminina se perpetuaram.”

O futuro? Esta é uma interrogação do destino…

*Flávia Cristina Costa Pivatto é psicóloga clínica,com pós-graduação em Psicologia Junguiana,e artista plástica nas horas vagas

FONTE: Rede Psi

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Uma resposta to “Breve História do Feminino”

  1. Ana Says:

    Século XIX e não “XVIIII” como escreveu.


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