Minha Irmã é Uma Sereia

*Por Zoe de Camaris

Lealdade. Palavra desconhecida entre as mulheres? Dizem que sim, parece até existir um consenso quanto à falta de irmandade feminina. Pergunte a um homem e a resposta não raro, será: – São competitivas, cheias de artimanhas, não gostam umas das outras. Milhares de mulheres afirmariam o mesmo.

(…) (…) (…) (…)

Se estamos falando da falta de lealdade feminina é possível pressupor então que exista uma maior lealdade entre os homens. Parece que eles resolvem as pendências de uma forma mais direta. Na maior partes das vezes sim, embora também tenhamos exemplos contrários. A deslealdade existe nos dois sexos, é humana.

Então é bom pontuar de que tipo de deslealdade estamos falando e o que tem a Sereia a ver com isso, partindo da primeira peça de um quebra-cabeça que venho tentando montar faz tempo. E para isso, peço a ajuda de vocês – é um jogo com mais de mil peças.

Parceiras Na Lua Negra – A Natureza Instintiva

Todos sabemos que nos agrupamentos ditos primitivos, a mulher passava o período menstrual em reclusão, afastada do convívio social, já que diversos tabus advinham do sangue feminino. A mulher não poderia cozinhar, plantar, colher e muito menos ter relações sexuais. O sangue menstrual sempre gerou medo porque o seu poder é intenso. Os homens fugiam desse contato porque acreditavam que ficariam impotentes para realizar suas atividades, ou seja, que a força do sangue poderia enfraquecê-los. O tempo de reclusão era o momento da solidão feminina, época de reabastecimento, em que o descanso dos afazeres domésticos e do sexo poderia soar como um alívio.

É dito que existe uma tendência de que as integrantes de um mesmo grupo, menstruem juntas. Caso não exista luz elétrica à noite, apenas os influxos da Lua, as mulheres sangrariam na Lua Negra. Recolhiam-se então em um mesmo espaço, o que geraria uma maior integração do feminino. O trato com o sagrado seria intensificado e a mulher poderia conectar-se de forma mais profunda à sua natureza instintiva.

Atualmente, a relação da mulher ocidental com o corpo e seus ritmos é completamente diferente. Não temos mais esse tempo precioso dedicado a nós mesmas, período em que existia a possibilidade de dar vazão ao lado escuro da Lua. Ao contrário: não raro as mulheres detestam ficar menstruadas porque isso as recorda de suas limitações e da sua natureza real, ou seja, cíclica.

Se para uma mulher “primitiva” o período que antecede às regras também poderia ser uma época de maiores agitações internas, para a mulher moderna, sucumbir ao sabor da natureza instintiva é bastante inconveniente. As demandas do cotidiano não deixam espaço para uma saudável reclusão. As terríveis cólicas e a batida TPM são um reflexo da falta de integração com nossos processos internos. Remédios e também a supressão da menstruação são cada vez mais utilizados para resolver esse “problema”. E estamos cansadas de saber que esse não é um processo apenas biológico e hormonal, mas também, psicológico.

Esther Harding, em seu livro Os Mistérios da Mulher, mais especificamente no capítulo que trata sobre o sentido interior do ciclo lunar, nos apresenta um desenho feito por uma de suas pacientes. Nesse desenho estão retratados cinco aspetos de uma Deusa e sua relação com as fases da Lua.

A primeira mulher apresenta um vestido de escamas decotado, na altura dos seios, e atrás dela a lua começa a crescer. A segunda traz o vestido de escamas na cintura e sua imagem de lua está pela metade. A terceira tem o vestido aos seus pés, totalmente nua e revelada, frente a uma lua cheia. A quarta, apresenta a roupa na altura dos quadris, com a lua decrescendo, também pela metade. A quinta traz o vestido tampando os seios, e a lua está no fim da minguante.

O sexto aspecto, em que a mulher estaria completamente tomada pelas escamas, não é mostrado no desenho. É o aspecto misterioso, secreto, no qual o instinto toma conta do feminino e que, para o homem, é tabu – significa a doença e morte.

Ela é toda instinto.

A Sereia Inconsciente

Representada sem pernas, a Sereia é mulher, mas não tem um sexo humano. Seu rabo é psi, natural das águas, do plano submerso das emoções. Metade mulher – cabeça e coração. Metade peixe – o sexo escondido, inalcançável, fechado em uma armadura de escamas. A Sereia mitológica não tem sexo e, no entanto, personifica o fascínio do feminino, que se traduz em música e beleza. Pode não existir no mundo real, mas o inconsciente coletivo está convencido que a sereia existe, é um arquétipo pulsante.

A Mulher-Sereia, ou seja, uma mulher humana com a Sereia incorporada, conhece todos os meandros da sedução, mas não entra em contato sadio e consciente com a sua sexualidade porque é uma sexualidade submersa. Poderíamos dizer, para efeito didático, que apresenta uma sexualidade “não humana”. É um recipiente selado. Por conseqüência, não alcança integrá-la em sua psique. E ao emergir das águas do inconsciente e refluir em um corpo de mulher, não raro causa situações de difícil resolução. É a Alma Primitiva que irrompe, sem avisar.

Esther Harding diz que essa energia instintual não é boa nem má, mas que se estiver entregue a si mesma só pode produzir efeitos não-construtivos. Nesse momento é necessária a intervenção humana para que se converta essa energia em trabalho. Quando uma mulher está entregue a uma inundação de energia instintiva, não consegue se satisfazer em nenhum relacionamento amoroso. E na maior parte das vezes, é a última a aceitar que é uma prisioneira do próprio instinto. É uma mulher auto-erótica.

O peixe é um animal de sangue frio. Uma mulher tomada pela Sereia, seduz de forma compulsiva, sem a mediação de qualidades humanas como o amor, a compaixão e o escrúpulo.

Encarna a Femme Fatale e, se faz sucesso num primeiro momento entre os homens, não é nada popular entre as mulheres. É uma Mulher-Anima, intrinsecamente identificada com um arquétipo. É presa de sua Sombra, até o momento que consiga reconhecê-la e integrá-la. E este é um processo complicado, por que ao contrário da mulher “primitiva”, a Sereia moderna dificilmente entra em contato direto e consciente com a sua natureza instintual.

Sereia causa um grande incômodo nas outras mulheres, principalmente para aquelas que, ao contrário da Mulher-Peixe, não se permitem vazão alguma da sua natureza primitiva. São dois pólos: a inundação pelo instinto e o represamento da natureza instintual. A rivalidade se instala assim que a Sereia entra em cena, aberta com todas suas garras: aquela que não aceita esse aspecto em sim mesma, se retrai na mesma hora.

Nesse momento, o poder da Sereia lhe parece é infalível, mesmo que a mulher em questão não seja nenhuma “Gilda” Hayworth, nenhuma Marlyn Monroe. Seu rosto, afinal de contas não é tão bonito. Mas incomoda. Alguma coisa… o que será? Sua sensualidade? Sua alegria? Seu despojamento? A presença da Sereia paira no ar, como um perfume aquático. Pior se for perto de certo colarinho, aí o caso é grave, uma séria ameaça.

Ciúmes: – “Agi por instinto de preservação” – motivo para vinganças malignas e tramóias horrendas. Quem, qual mulher dentre nós, nunca mordeu os lábios de raiva, na melhor das hipóteses, por causa de uma Outra? – “Mas ela merecia, aquela …. aquela …” e daí pra frente, sabemos de cor os xingamentos: palavras que mulher nenhuma gostaria de escutar mas que não pensa duas vezes antes de proferir.

Acho muito estranho uma mulher chamar a outra de “Filha da Puta”(…). Não é estranho? Esse bordão é repetido sem pensar. Nem nos damos conta do que estamos dizendo, embora saibamos exatamente o que a expressão significa. No entanto, é linda a evocação a Isthar, não é mesmo? Deusa, que em um dos seus múltiplos aspectos, é a Deusa do Amor Sexual, e chamada de “A Grande Prostituta da Babilônia”: – Uma prostituta compassiva, sou eu – diz Isthar. E Ishtar é a deusa que irá dar origem a Atargatis, a primeira Deusa Sereia, e que como é do conhecimento de todos, é aquela que castra o homem – seus discípulos eram emasculados. Na época elizabetana, Sereia era sinônimo de prostituta. Assim a Rainha Elizabeth chamava a sua rival, Mary da Escócia. Bem, provavelmente, Mary era mais bonita que Elizabeth.

Hoje, se a “Sereia” for considerada bem dotada por Afrodite, é vulgar ou burra. Se vista como mais inteligente ou articulada, é chamada de pedante. Olhou de solslaio para algum marido ou namorado e foi flagrada:– “uma sirigaita, uma oferecida”. Na hora da raiva, nenhuma mulher presta. Nenhuma, são todas iguais, as doidivanas descabeladas, medusas e horrendas. O mundo está repleto de Sereias, ávidas para levar o seu Ulisses, seu querido Ulisses, pra baixo d’água e para bem longe de você. E quando a Sereia É você? (…)

(…) (…) (…) (…)

Já tratamos da questão do instinto feminino. Mas não podemos deixar de lado, quem parece estar no centro das atenções – o homem. Seria o homem então referência e causa de posturas sedutoras femininas que recriminamos quando encarnadas no papel de vítima? E quando vestidas de escamas, a razão para que sejamos extremamente benevolentes para conosco mesmas, encontrando desculpas que justificam as atitudes de explícita sedução? Mas será mesmo o homem, o ponto-chave da questão? Nos tempos em que garantir um par equivalia a obter um espaço na sociedade; na época em que casar era a finalidade e necessidade básica de uma sobrevivência digna, dá até para entender. Muito da “sereia em ação” se deve ao medo ancestral que permanece no fundo de cada uma de nós. Mas é um medo atávico e que não corresponde mais à realidade, uma época em que a mulher se sustenta e é aceita pela sociedade, seja criando seus filhos sozinha ou mesmo em produção independente.

Homens não são necessários para prover nosso sustento, – podemos trabalhar. Homens são necessários para uma troca estimulante e que se dá em um nível de companheirismo e igualdade. Mas a ficha feminina não cai… Tudo giraria então, em torno do imperativo da reprodução? Penso que é momento certo para quebrar esse paradigma, instalado de forma arraigada na nossa psique. O cerne da questão está em nós mesmas e não no homem.

Sabemos de tudo isso e, no entanto, padecemos dos efeitos de um mercado que praticamente nos obriga a fazer jus a uma imagem idealizada de mulher. A moda, os implantes, o silicone, a atitude, e por aí vai. Por mais que a mulher tenha uma cabeça boa, na hora de transar com um homem mais novo que ela, sempre vai lembrar que não tem um corpo de uma garota mais jovem do que ele. Acabamos nos esforçando para corresponder àquilo que não somos. E isso começa acontecer cedo, sei de casos de implante de silicone em meninas que nem alcançaram sua maturidade física. Uma mulher não deve ser medida pelos seus atributos externos. E a Feminidade não está atrelada ao que o homem acha da mulher.

Toda mulher tem dentro de si uma Sereia, independente de corresponder ou não ao modelo vigente de beleza. Sedução e beleza não são sinônimas, apesar de serem palavras irmãs. Toda mulher pode ser sedutora, misteriosa, interrogativa. É só deixar que a sereia escorregue de dentro dela e venha à tona. Com consciência. Ainda vivemos dentro de um sistema patriarcal e paternalista, gostemos ou não dessa conclusão. Que os tempos mudaram, já sabemos. Mas o arquétipo do homem provedor ainda viceja na nossa psique, assim como a necessidade de rivalizar. Quando a Sereia emerge e se depara com esse estado de coisas, costuma fazer uma aparição de difícil trato.

Sisterhood

(…) (…) (…) (…)

(…). Compaixão, é “sentir junto”. É só ir num dicionário etimológico conferir.

Compaixão é poder perceber que a mulher ao seu lado está inundada pela sua natureza instintiva, assim como você mesma já foi atingida por ela. Ou perceber que o que lhe causa inveja pode ser o que você está reprimindo dentro de si mesma. Ter compaixão de uma Mulher-Sereia é fazer o melhor por você – e por ela. Ter compaixão de uma mulher raivosa, por causa de uma Sereia, também é fazer o melhor pelas duas.

Sejamos claras: se o homem que lhe acompanha, desviou os olhos para uma outra, ou até teve um caso, sua questão é primeiro consigo mesma e em seguida, com ELE. Não com ELA. Ela está simplesmente personificando um aspecto da Lua Negra, a sua mesma natureza instintual. Difícil, não? É, eu sei. Já senti vontade de pular no pescoço e também teci comentários maldosos, mesmo tendo como meta o exercício da compaixão. É um desafio compreender a Sereia no calor da ação, mas não impossível. Experimente tentar. Pode perecer estranho no começo. Reverta o jogo. Os resultados são os melhores possíveis, pode acreditar. Em vários sentidos.

Vale a pena fortificar os nossos laços com o feminino, porque os fortificando, principalmente em situações de confronto, damos vida e força a esses mesmos laços dentro de nós. E nos tornando fortes podemos direcionar nossa energia para objetivos mais interessantes e construtivos. A possibilidade de usar a força e o poder do instinto, a nossa Sereia Interior, para um trabalho mais centrado. A energia usada para “rivalizar” pode ser utilizada para “compartilhar”. A competição, trocada pela solidariedade. Não é disso que nos fala a Sisterhood? (…)

(…) (…).

Creio que a solução para esse entrave ainda passe muito longe de uma conclusão. Mas é importante parar e pensar. O momento não é apenas de busca de uma harmonia entre os sexos, mas entre os seres humanos. E muita gente não compreendeu que o Feminismo (atual) não é uma guerra, mas sim uma possibilidade para que essas questões sejam levantadas, pensadas, digeridas.

Amigas Sobre o Rochedo

É interessante notar que nas obras de arte que retratam Sereias, não é nada difícil encontrá-las em grupo. Tenho uma coleção de imagens com mais ou menos umas oitocentas Mermaids e nunca vi nenhuma figura que mostrassem sereias em confronto, ao contrário.

A Sereia é um ser gregário – Peter Pan e Wendy bem o sabem. As Selkies, Mulheres Focas da mitologia irlandesa, se despem juntas sob a luz da lua, experimentando seus corpos humanos. As Russalkas, Sereias eslavas, estraçalham o homem que por acaso faça mal a uma irmã; são Mênades aquáticas, mas não estão sob a égide de nenhum Dionísio. Não deixam passar em branco qualquer atitude agressiva masculina. Quando estão nos seus cardumes femininos, o que transparece é a paz que reina entre elas. Se o cenário é brusco, se ajudam em uma tempestade.

O que eu quero dizer no final das contas, é que é preciso (e possível) integrar a Sereia de forma consciente para que ela não irrompa de modo inconsciente. Reconheça a sua Sereia, seu canto sedutor e melódico e a integre à sua personalidade consciente. Sem que para isso, precise magoar a mulher que está ao seu lado e dentro de você. Saiba que com certeza vai sair ganhando se ao menos conseguiu repensar sua Sereia. Olhe para uma imagem qualquer de uma Mulher-Peixe. Sinta aonde ela lhe toca e o que ela lhe diz.

Do momento em que você conseguir perceber a sua Sereia interior na Sereia de qualquer outra mulher, ela deixa de ser uma rival. E para captar isso, basta que, ao menos por alguns momentos, você feche os olhos e se imagine com suas irmãs sob a Lua Negra.

Ou então, no fundo do mar.

*Zoe de Camaris é formada em Letras pela PUC-Paraná e pós-graduada pela UFOP-MG, onde foi professora de Linguística.

O artigo completo pode ser lido AQUI

Anúncios

3 Respostas to “Minha Irmã é Uma Sereia”

  1. milene maia Says:

    ola adorei este post muito bom .

  2. isa Says:

    nao da pra entender e ver direito a foto anterior

  3. Michel Macena Says:

    Achei ótimo o seu texto. Sinceramente é um dos poucos textos femininos não-hipócritas que encontrei.
    Para nós homens é um tanto complexo lidarmos com uma “sereia”. O problema é que não há o que podemos fazer para recuperá-las pois as mesmas possui um ego tão grande que é difícil de compartilhar o mesmo cômodo. Observo também que para as mulheres o sexo é praticamente um sacrilégio, mal tenho fé hoje para ter relacionamentos, vejo algumas mulheres em potencial mas ao mesmo tempo eu me afasto. Estas observações me levaram a incômodo profundo, pois não gostaria de saber que uma mulher simplesmente o fez para o meu agrado.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: