O Imaginário Feminino da Divindade Como Caminho de Empoderamento das Mulheres

*Por Ana Luisa Alves Cordeiro

O presente artigo quer refletir a contribuição que a reconstrução da memória da Deusa tem para o universo das mulheres enquanto empoderamento e significação da vida, e como o imaginário feminino da divindade pode influenciar em relações de gênero mais recíprocas, partilhadas e igualitárias. A complexidade da vida humana evoca a utilização de uma vasta simbologia, de uma linguagem capaz de comunicar aquilo que muitas vezes não é exprimível por palavras. Etimologicamente a palavra “símbolo” vem do grego sym-ballo que significa reunir. Desta forma, o termo “símbolo” relaciona-se “à união de duas coisas” (CROATTO, 2001, p.84) tentando expressar aquilo que não é objetivável. A linguagem simbólica torna a humanidade possível à medida que dá significado à vida e às coisas, à medida que é expressão dos sonhos, da poesia, do amor, da arte e, principalmente, da experiência religiosa.

Para Jung, “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato”, cujas características estariam impressas num “inconsciente” que é coletivo e foge aos parâmetros explicativos, devido sua amplitude (1999, p.20). E “por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que freqüentemente utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente” (1999, p.21). As construções simbólicas e seu imaginário sempre estiveram presentes na história da humanidade, são o material primordial dos mitos e dos ritos que em seu conjunto constituem o que chamamos de religião.

Por detrás de todo símbolo existe a realidade de grupos humanos, de saberes comunitários condensados ao longo de gerações, por isso são sempre expressão de alguma necessidade humana.  Sendo assim, “sob o símbolo, é preciso saber atingir a realidade que representa e que lhe dá significação verdadeira” (DURKHEIM, 1989, p.30). Entretanto atingir essa realidade e necessidade humana é uma tarefa que tem suas limitações, pois um símbolo evoca inúmeros significados de acordo com o indivíduo que com ele se relaciona, de maneira que lidar com realidades simbólicas é lidar com realidades complexas.

Desta forma, uma contribuição relevante à reflexão de gênero é refletir como a construção do imaginário da divindade judaica foi se revestindo de um simbolismo masculino em conseqüência da supressão do feminino, num contexto em que a autoridade masculina se reveste de um caráter sagrado justificando e naturalizando ao longo da história práticas e funções masculinas como superiores às femininas. O Cristianismo herda este imaginário simbólico reproduzindo em muitos de seus ambientes essas relações patriarcais, excluindo as mulheres das funções de autoridade e privando-as de algumas práticas sagradas. É importante ressaltar que essa negativização do feminino não ficou reclusa aos ambientes religiosos judaicos e cristãos, mas principalmente no que tange à cultura ocidental se estendeu aos espaços sociais, políticos, econômicos, etc.

Reconstruindo a presença da Deusa

Reconstruir a presença das Deusas em diversos contextos e espaços tem sido uma estratégia e alternativa mediante à cultura ocidental que é marcada fortemente pelo sistema patriarcal, onde há o domínio do pai e quiriarcal, onde há o domínio do senhor (GOSSMANN, 1997, p.371-374). Este sistema projetou historicamente um imaginário da divindade caracteristicamente masculino, legitimando práticas e funções masculinas, com isso silenciando as mulheres, suas representações sagradas, tudo aquilo que pudesse lhes garantir espaço e voz. Carol Christ (2005, p.17) ressalta que “re-imaginar o poder divino como Deusa tem importantes conseqüências psicológicas e políticas”, como caminho de desconstrução do pensamento que naturaliza a dominação masculina.

É válido ressaltar, portanto, que este simbólico, imaginado exclusivamente como masculino, desempoderou as mulheres, suprimiu o imaginário feminino da divindade e negativizou as representações e práticas sagradas das mulheres, bem como as próprias mulheres, ao longo da história. Por isso, o recente (re)despertar da religião da Deusa é uma religião, e um movimento de realidades básicas, de nascimento e morte, dos ciclos da Lua e do Sol, da menstruação e da gravidez, da excitação e do orgasmo (POLLACK, 1998, p.26).

A memória da Deusa é uma memória da realidade dos corpos das mulheres, de suas fases, de seus ciclos, de seus sentimentos, da vida que pulsa gerando mais vida, dinamicamente e constantemente. Imaginar a divindade como Deusa é falar do feminino e das coisas femininas, a partir do corpo da mulher e não do corpo do homem, de forma positiva e construtiva. Quando tratamos do imaginário simbólico lidamos com um universo em que as (des)construções e (re)construções são processos lentos e difíceis. Os símbolos são construções humanas repletas de significação; “os símbolos e as imagens […] têm sua origem nos corpos – em nossos próprios corpos, nos corpos dos animais ou em características do céu ou da terra” (POLLACK, 1998, p.25-26). Um exemplo são as bruxas modernas (wiccans) adoradoras da lua. Para essas mulheres, o símbolo da lua está repleto de significação sobre a verdade e o poder femininos. Nesta adoração, está a memória de povos antigos que tinham na lua um símbolo da fertilidade das mulheres (POLLACK, 1998, p.34).

Memória da Deusa Cananéia Asherah

Conforme Rosemary Ruether (1993, p.46), informações arqueológicas demonstram que a imagem mais antiga de representação da divindade era feminina. Nas últimas décadas, arqueólogos/as vêm descobrindo fortes evidências de que o Deus israelita, Yahweh, pode ter tido uma consorte, Asherah. Para a maioria das pessoas que lêem a Bíblia, a idéia de um único Deus de Israel, Yahweh, parece ser clara. No entanto, nem sempre Yahweh esteve solitário. Antes da ascensão do monoteísmo em Israel, o Deus Yahweh fazia parte de um contexto politeísta onde havia um panteão de Deuses e Deusas, sendo que provavelmente foi adorado ao lado de, Asherah.

O arqueólogo norte-americano William Dever (DISCOVERY, 1993), um dos pesquisadores mais dedicado ao tema, afirma que Asherah era venerada ao lado de Yahweh no Antigo Israel e que a idéia monoteísta transmitida pela Bíblia Hebraica não esconde isso (cf. 2Rs 23,7; 2Cr 14,2) sendo que nos mesmos escritos existem mais de quarenta referências a Asherah ou a seu símbolo. Em Khirbet el-Qom, ao oeste de Hebron, em 1967, um arqueólogo encontrou um túmulo judaico da segunda metade do século VIII (DISCOVERY, 1993) que continha uma inscrição na parede interior. O pesquisador argentino Severino Croatto (2001, p.36) traduz como:

1. Urijahu […] sua inscrição.

2. Abençoado seja Urijahu por Javé (lyhwh);

3. sua luz por Asherah, a que mantém sua mão sobre ele;

4. por sua rpy, que…

Em 1975-1976, o arqueólogo israelita Ze’ev Meshel, em Kuntillet Adjrud, 50km ao sul de Qadesh-Barnea, na antiga estrada de Gaza a Elat, escavou uma pousada no deserto que continha várias inscrições. Controlado por Israel, este posto estatal encontrava-se em território de Judá, funcionando aproximadamente entre 800-775 a.E.C. (Antes da Era Comum). No prédio principal, em sua entrada, duas jarras de armazenagem com desenhos e inscrições foram encontradas e identificadas como pithos A e pithos B (HESTRIN, 1991, p.54). Na inscrição do pithos A se lê:

Diz… Diga a Jehallel… Josafa e…:

Abençôo-vos em YHWH de Samaria e sua Asherah

No pithos B se lê:

Diz Amarjahu: Diga ao meu Senhor: Estás bem?

Abençoo-te em YHWH de Teman e sua Asherah.

Ele te abençoa e te guarda e com meu senhor.

Essas descobertas são fortes evidências da reverência à Deusa Asherah. Parece claro que por determinado tempo Asherah teve mais espaço e representatividade na vida do povo em Canaã/Israel, até ser taxada como a causa de todos os males que o povo estava sofrendo nas mãos de seus dominadores, em especial na época da dominação babilônica (597-539 a.E.C.), com toda experiência de destruição e exílio (cf. Is 27,9). No entanto, a divindade Asherah tinha uma relevante presença, em especial, na vida das mulheres, como veremos mais à frente. Havia inclusive mulheres dentro do templo de Jerusalém tecendo véus para a imagem de Asherah (2Rs 23,7). Mas é importante ressaltar que

o culto da Deusa Árvore Asherah realizava-se, principalmente, em torno de uma árvore natural ou estilizada, ou seja, de um poste sagrado que podia estar ao lado de um altar seu ou de uma outra divindade, inclusive YHWH. Porém, seu culto foi realizado, de preferência, debaixo de uma árvore natural, nos chamados “lugares altos”, santuários ao ar vivo no topo das colinas e montanhas. Na maioria do tempo, uma imagem ou símbolo de Asherah estava também presente dentro do próprio templo de Jerusalém (OTTERMANN, 2005, p.49). Asherah é mencionada na Bíblia Hebraica de três formas diferentes, ora como uma imagem que representa a própria Deusa, ora como uma árvore ou como um tronco de árvore, que a simbolizam (HESTRIN, 1991, p.50).

Há uma preocupação dos redatores bíblicos de suprimir qualquer referência sobre a Deusa Asherah ao lado de Yahweh, como sua consorte, de tal forma que os escritos bíblicos são redigidos com a intenção de apagar e negativizar a presença da Deusa, bem como de outros Deuses, concorrentes do Deus nacional. Um forte exemplo é o do rei Josias (640-609 a.E.C), que empreendeu uma reforma a partir de 622 a.E.C, fazendo de Jerusalém o centro político e religioso de seu estado, destruindo os santuários de Yahweh que havia no interior de Judá e acabando com os cultos cananeus e assírios, que aconteciam no templo de Jerusalém e nos lugares altos. A reforma de Josias atingiu a liberdade religiosa popular, pois ordenou que retirassem do santuário de Yahweh todos os objetos de culto que tinham sido feitos para Baal, para Aserá e para todo o exército do céu, queimou-os fora de Jerusalém, nos campos do Cedron e levou suas cinzas para Betel (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002, 2Rs 23,4).

Com isso, o culto exclusivo a Yahweh é afirmado pela corte e pela classe sacerdotal de Jerusalém, exclusividade que custou caro à religiosidade popular (GASS, 2005, p.134-138). Josias ainda “demoliu as casas dos prostitutos sagrados, que estavam no templo de Yahweh, onde as mulheres teciam véus para Aserá” (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002, 2Rs 23,7). Aqui provavelmente se trata de vestidos feitos para a estátua de Asherah (CROATTO, 2001, p.41). Como já refletimos, o simbólico é algo muito importante na vida de um povo. Ficam, então, questionamentos: como as pessoas, as mulheres e os homens que tinham em Asherah uma fonte de significação para sua vida sofreram este processo? Será que foi algo tranqüilo e pacífico? Infelizmente, nos textos bíblicos só, temos a história contada pela ótica da teologia oficial e vencedora, o monoteísmo hebraico.

Implicações para a atualidade

A memória da Deusa ainda é algo polêmico, principalmente em esferas religiosas tradicionais e hierarquicamente masculinas. Mas é algo necessário à religião. Dar voz a uma época em que Deuses e Deusas eram adorados, em que o próprio Yahweh foi adorado ao lado de Asherah, nos impulsiona a repensar não só as relações preestabelecidas entre homens e mulheres, bem como a própria representação do sagrado estabelecida. Isto não é algo fácil, visto que a representação do sagrado que a maioria das pessoas tem é algo transmitido e assimilado desde o berço e querer desconstruir esta imagem, ou assimilar a Deusa pode ser sofrido e lento, visto que a representação do sagrado mexe com os sentimentos mais profundos do ser humano, aquilo que dá sentido e que move a vida.

Portanto, reimaginar o sagrado como Deusa é reimaginar as relações de poder, não numa tentativa de apagar a presença de Deus, mas, sim, de dar espaço ao feminino no sagrado, o feminino não como um simples atributo do Deus masculino, mas como Deusa, e isto é positivo e enriquecedor, uma vez que a Imagem da Deusa contém dentro Dela uma suposição (PADRÃO) de totalidade, de unicidade entre mente-corpo e terra, de uma maneira não dualista, cooperativa, solícita de estar no mundo (WILSHIRE, 1997, p. 117).  A memória do imaginário feminino da divindade na atualidade é o reconhecimento das mulheres, como seres com poderes inatos de conhecimento, cujos corpos são testemunhos sábios, pois são “ligados aos poderes misteriosos, cíclicos e vivificantes do cosmo” (WILSHIRE, 1997, p. 118).

É perceptível o destaque que Maria tem na Igreja Católica, sua influência na vida dos/as fiéis. Sua presença talvez seja o reflexo de uma necessidade humana suprimida pelo Cristianismo, o feminino no imaginário da divindade. A veneração a Maria como mãe de Deus “evoca associações com divindades femininas no contexto do século I” (REIMER, 2005, p. 95). Um exemplo é o Concílio de Éfeso, realizado em 431, cidade onde a Deusa Ártemis era cultuada e lugar onde é afirmado o dogma de Maria, Mãe de Deus. Estes elementos são significativos uma vez que o simbolismo em torno de Maria vem preencher necessidades de grupos humanos cristãos.

Considerações finais

O poder divino imaginado somente em simbologia masculina afetou as mulheres, as crianças, a natureza, pois quase sempre partiu de um pressuposto de dominação, opressão e hierarquização das relações, tanto humanas como ecológicas. A reconstrução da presença da Deusa, sua memória, é uma possibilidade de relações mais humanizadas, de um poder partilhado entre homens e mulheres, nos diversos níveis, principalmente nos espaços religiosos oficiais, onde a estrutura de poder continua cristalizada por uma ordem masculina.

A memória da Deusa é um caminho de empoderamento das mulheres pelo viés simbólico, na reconstrução de um espaço no qual os corpos, os sentimentos, as idéias e as práticas das mulheres sejam vistos positivamente e construtivamente.

*Ana Luisa Alves Cordeiro Mestranda em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Goiás – UCG. É teóloga e assessora do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI. E-mail: analuisatri@yahoo.com.br

FONTE: Centro de Estudos Bíblicos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: