A Descida aos Infernos: Rito de Morte e Vida

O Rapto de Perséfone” por Rembrandt van Rijn(1606-1669)

*Por Angelita Corrêa Scardua

É praticamente impossível falar da Morte sem nos remetermos às figuras enigmáticas que habitam os mundos subterrâneos do universo mitológico, e dentre estas figuras destacam-se as Deusas Negras. Comecemos então pela mais antiga registrada pela grafia humana, Ereskigal, a Senhora da Grande Região Inferior. Ereskigal era irmã de Inanna, a Rainha Sumeriana do céu, que é a forma primitiva de Ishtar, Afrodite e Venus. Conta o Mito que havia grande inveja e rivalidade entre as irmãs Inanna – a bela e adorada Senhora da fertilidade – e Ereskigal – a horrenda figura feminina com cabelos de sanguessuga que deu origem a mitos como o da Medusa. Como é comum na maioria dos mitos antigos, há um momento em que aquele que esta no Reino superior precisa descer ao mundo inferior. Essa jornada  iniciática pode ser vista em muitas narrativas mpiticas, de Odin a Buda, incluindo-se ai o Mito Cristão da descida de Cristo ao Inferno antes da ressurreição. Com a diferença de que nos mitos pré-cristãos a divisão entre Reino superior e inferior não possui valor moral, ou seja, não significa que o superior é bom e o inferior mau. Tal divisão é somente uma distinção geográfica e simbólica que nos fala daquilo que é visível, desejado, e daquilo que está oculto e é negado.

Ao chegar ao “inferno” Inanna recebe o mesmo tratamento dispensado a qualquer mortal que ali chegasse, ou seja, de acordo com os ritos e as leis do Reino de Ereskigal. Sendo assim, Inanna é levada nua e de joelhos, enquanto suas insígnias e roupas reais são ritualmente rasgadas em cada um dos sete portais da Grande Região Inferior. Há quem alegue que o simbolismo contido na “Dança dos 7 Véus” remete a esse Mito primitivo, sendo uma celebração ao rito de passagem que marca a entrada na Grande Região Inferior. A relação entre despir-se e adentrar o mundo subterrâneo é muito comum nos Mitos, vamos encontrá-la sempre que nos depararmos com a saga de algum personagem que precisa ingressar nos reinos inferiores, seja no Hades grego ou no Inferno cristão como narrado por Dante. E o que nos quer dizer esse simbolismo de despir-se para se encontrar com a “Morte”?

O despir-se nos fala da perda gradual de tudo aquilo que entendemos como sendo nossa identidade. O colocar-se de joelhos é um ato de humilhar-se, de ser humilde, aceitando que há algo maior do que aquilo que acreditávamos ser, algo que transcende nossa compreensão daquilo que somos. Deuses das regiões inferiores como Hécate, Hades/Plutão, a Negra Deméter, Loki, Kali, Lilith, etc., representam o lado destrutivo e transformador da vida. Estão intimamente associados à Sombra Arquetípica, nosso lado obscuro e silencioso que quando ignorado devora nossas entranhas psíquicas, nos aproximando daquilo que queremos escapar. A força representada por esses Deuses é a razão indomada da natureza, é o quinhão exigido pelas forças transformadoras para colocar a vida em movimento, associa-se à desintegração dos elementos, aos processos de fermentação, à decomposição. Tudo isso pode ser psicologicamente associado ao câncer e às atividades inferiores do cérebro que regulam os movimentos peristálticos, à menstruarão, à gravidez e outras formas de vida corporal com as quais, simbolicamente falando, não podemos negociar, as quais devemos nos submeter. Quando essas forças são negadas, ignoradas, elas nos acometem com o arrastar penoso do tempo e com os sentimentos de impotência e inutilidade que experimentamos na depressão, no pânico e na solidão opressiva da necessidade de algo externo que dê sentido à vida, como ocorre com as dependências químicas e outras formas de comportamento compulsivo.

Para os gregos, o rito de ingresso dos mortos no Reino Inferior implicava a travessia do rio “Estige” – palavra que significa “ódio” – na barca de Caronte. O barqueiro que exigia uma moeda em troca do transporte. O dinheiro é uma das imagens de valor, de riqueza, de identidade e propriedade do ego. As roupas e insígnias reais arrancadas de Inanna, portanto, assim como a moeda paga a Caronte, nos falam daquilo que temos como sendo nossa auto-imagem, nossa máscara social, os pilares daquilo que entendemos por nossa identidade pessoal. O caráter simbólico da região inferior como espaço de ruptura com a auto-imagem pessoal é tão antigo e tão recorrente que podemos encontrá-lo, por exemplo, na Astrologia. Na visão da Astrologia, o trânsito de Plutão na Carta Natal tende a colocar por terra tudo aquilo que uma pessoa tem como sendo sólido, estável e definitivo. O mesmo se dá para o jogo do Tarot, no qual a tirada da carta da Morte, o Arcano XIII, num jogo indica que o consulente será forçado a abrir mão, a ceder, a mudar, a perder algo, seja uma posição social, um amor ou uma postura diante da vida. Nessas duas práticas divinatórias, a Astrologia e o Tarot, os reinos inferiores da morte expressam a força transformadora da vida que nos cobra movimento. A negação desse processo gera o risco da estagnação, que quase sempre é acompanhado pelo medo sistemático de abrir mão daquilo que parece seguro e confortável.

É realmente revelador, do ponto de vista simbólico, pensarmos nas correlações entre Plutão, A Morte e o Arcano 13. Ainda na Astrologia, Plutão é o principal regente do signo de Escorpião, associado aos pântanos, às águas paradas, ao inconsciente, ao sexo, ao ódio, às forças transformadoras. O signo de Escorpião rege os órgãos sexuais, o intestino e ânus; ele é o senhor das excrescências e daquilo que está em putrefação. Plutão é o nome latino para o Deus grego Hades, aquele que reina sobre os mortos e que se esconde com um elmo que lhe garante invisibilidade quando caminha sobre a terra. Hades também é um Deus estuprador, que submete Kore (a Perséfone virgem) à violência de seu desejo. De certa forma, o simbolismo do estupro nesse Mito nos fala daquilo que está escondido e que irrompe selvagem das entranhas da terra (nosso inconsciente) para exigir o que acredita ser seu. Emoções como o ódio, o ciúme, o rancor, o desejo sexual proibido, a inveja, a cobiça, a ambição. Todos esses sentimentos que tentamos disfarçar e ignorar, varrendo para debaixo do tapete da nossa inconsciência, alimentam os aspectos sombrios da nossa personalidade que costumamos projetar nos outros ao invés de reconhecermos em nós mesmos. Similarmente, o Arcano 13 nos assinala com a perda física e/ou simbólica de algo que amamos e queremos reter junto a nos. A Carta da Morte numa jogada do Tarot é como a fenda na terra por onde emerge o Hades com seus corcéis negros e infernais, nada escapa à lufada de vento gerada por sua chegada. A Kore em nós, que tenta se manter pura e inocente, não possui meios para escapar da força destruidora da Morte quando ela surge, tudo o que podemos fazer é descer aos infernos.

Um outro elemento simbólico, associado a antigas crenças, que expressa o caráter psicológico da morte é o conceito de Chackra Básico da cultura Hindú. Esse chackra é descrito como sendo possuidor de um forte caráter materialista, há uma profunda ligação entre ele, a terra e as posses materiais. O nome de Plutão, o deus latino, era sinônimo de riquezas, o reino inferior por ele comandado era tido como um mundo de riquezas inimagináveis. É bem provável que essa associação se devesse ao fato de que as riquezas minerais e vegetais brotam do fundo da terra. Podemos pensar que no passado toda e qualquer riqueza de uma pessoa provinha da terra, fosse seu gado, sua roça ou seu ouro. Os seres míticos da Terra –gnomos, anões, duendes, etc., – são, simbolicamente, seres ligados à riqueza material, e dentre suas tarefas encontra-se a de guardar um tesouro ou o caminho para um. Inúmeros Contos de Fadas, Lendas e Mitos nos falam disso. Todas essas correlações nos remetem à idéia de que originalmente o Reino da Morte é o Reino da Mãe Terra, a figura mitológica de onde provém toda a vida. Ora, se pensarmos na dinâmica simbólica da Roda da Vida, nada mais coerente, afinal, do que o entendimento de que Vida e Morte são as diferentes faces da mesma moeda. Sendo a Terra doadora da vida, logo, também ela é a porta-voz da Morte.

A manutenção da vida depende, igualmente, de dois fatores determinantes: sexo e recursos materiais como comida, abrigo, etc. Por meio da geração de descendentes e do acúmulo de riquezas expressamos simbolicamente nossa vontade de viver eternamente, nossa recusa em morrer. Talvez por isso, para ingressarmos nos reinos dos mortos temos que abrir mão de nossas posses e de nossos papeis sociais. As almas não são fêmeas ou machos, nem ricas ou pobres, são almas apenas! O declínio do corpo físico – que inevitavelmente nos aproxima da Morte – é marcado pelo declínio biológico da potência sexual. Do ponto de vista estritamente biológico, o vigor sexual está intimamente associado à juventude, da mesma forma a capacidade reprodutiva, o que implica na possibilidade de perpetuar a vida. A posse de bens se relaciona à nossa necessidade de demarcar nosso espaço no mundo, de delimitar nossa presença, nossa importância, nossa identidade. Do ponto de vista simbólico, o acumulo de bens nada tem a ver com a busca pelo conforto mas com o desejo de pertencer ao mundo dos imortais! Essa relação, do medo da Morte com o desejo pelo mundo material, nos ajuda a entender a negação da Morte, fenômeno tão característico do nosso tempo.

Ao contrario do que muita gente pensa, a negação da Morte – a recusa em reconhecê-la como uma possibilidade real da vida de qualquer um, inclusive da nossa, a recusa em falar sobre ela, a incapacidade de encará-la como um acontecimento natural – não é tanto um fenômeno do pensamento cristão mas é muito mais fruto do pensamento cientifico. A negação da Morte está muito associada à idéia de que morrer é assunto médico, ou seja, o fenômeno “morrer” localiza-se na esfera de explicação da Ciência médica. Até o século XVIII os defuntos eram preparados para o enterro por seus familiares, seus corpos eram velados em casa e crianças e adultos participavam em conjunto das várias etapas que caracterizavam o “velar” do corpo morto. Com o crescimento da Medicina científica, e o avanço do conhecimento dos processos infecciosos, a morte foi cada vez mais sendo delegada aos cuidados médicos, ao hospital, à Ciência. A morte deixa então de ser parte integrante da vida humana e se torna parceira das doenças, ou seja, daquilo que deve ser compreendido pela Ciência. Além disso, pesa o fato de que as descobertas cientificas sobre os processos de adoecimento e morte trazem consigo a dessacralização da morte, esvaziando essa experiência biológica do seu caráter sagrado.

A idéia de que a morte não possui qualquer aspecto transcendental, que apenas representa a falência das funções do corpo físico, coroa a experiência do morrer como algo destituído de glória ou promessa divina. A morte, então, passa a representar a perda de tudo aquilo que pode ser bom e agradável no mundo físico/material, constituindo-se num empecilho para a obtenção das satisfações oferecidas por um mundo de maravilhas tecnológicas que se descortina. Sendo assim, a morte, assim como a velhice, se torna um fardo, um incômodo, que é mais bem aceito quando acomete o outro. Um dos aspectos mais interessantes na maneira como os seres humanos da Idade Moderna e Contemporânea vêem o morrer, é a dificuldade para pensar e/ou reconhecer a própria morte como algo real e plausível, ou seja, como algo que pode nos impedir de estar aqui nos próximos minutos. Dentre as muitas estratégias que usamos para “evitar” a morte está nossa mania de associar morte e velhice, ou morte e doença. Mesmo que estatisticamente se comprove que boa parte dos vivos morrerá antes de se tornar um ancião, subitamente em acidentes de trânsito, de infarto e de outras formas não necessariamente associadas a uma doença de longo prazo. Uma outra maneira de “fazer de conta” que a morte não existe é banalizá-la. As cenas de violência, os tiros e mortes que assistimos avidamente no Cinema e na Televisão, nos filmes e nos noticiários, alimentam nossa fantasia de que a morte é algo distante de nós. Ao vermos outros morrerem aos montes na ficção, nos alimentamos da “certeza” de que a morte é uma quimera. Ao testemunharmos a morte de muitos outros nos noticiários, secretamente reafirmamos a fantasia de que quem morre é outro e não EU!

Pensar na própria morte é pensar na nossa finitude. Pensar na própria morte é reconhecer que posso estar dispendendo um tempo precioso dessa breve existência com coisas que realmente não me importam. Pensar na própria morte é refletir se vale o esforço que faço para ter aquele carro, para manter aquele relacionamento, para permanecer naquele emprego… Enfim, pensar na própria morte é perguntar-se se vale a pena viver a vida que tenho vivido. Mais do que isso, é questionar se tenho vivido! Nós não queremos pensar nessas coisas, nós queremos nos afundar na crença de que há algo a ser conquistado que pode dar sentido a nossa vida, algo que é exterior a nós, algo que possa ser comprado, aprendido, adquirido, negociado, etc. A morte é uma parceira voraz, ela exige dedicação total à vida para não ser temida. Vivemos num tempo em que dedicar-se integralmente à vida pode ser um sonho distante, em que viver pode se reduzir a acordar, ir para o trabalho, retornar, descansar para retornar ao trabalho; acumular, para investir para melhorar no trabalho, para acumular, para descansar…num futuro que pode não acontecer. Historicamente falando, nunca o ser humano temeu e negou tanto a morte como em nosso tempo, nunca antes a morte esteve tão distante de nossas casas e de nossa experiência cotidiana. A morte em nosso tempo tornou-se uma figura de linguagem, uma entidade que passeia nos corredores dos hospitais e nos salões em que se velam os corpos. A morte em nosso tempo transformou-se num personagem de filme de ação, que só existe para os maus, os velhos e os doentes. Talvez, por essa razão, a morte nos assombre cotidianamente no trânsito, nas ruas escuras das cidades, no prato vazio ou cheio, no sexo inseguro, no caminho de casa. Em qualquer lugar que estejamos lá esta ela, a Morte, espreitando nossos passos amedrontados pela violência real que cultuamos na ficção; lá esta ela, a Morte, nos assombrando o futuro, seco de água e alimentos, num mundo dizimado pela vontade do acúmulo. Eis, então, aqui, a Morte soberana da qual fugimos tanto, como o Hades que espreita a donzela ignorante de seu destino, eis a Morte nos vigiando enquanto tentamos negar sua existência.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: