As Crianças e a Morte

A Órfã” por James Tissot(1836-1902)

Não adianta fingir que a morte não existe. Não adianta iludir-mo-nos. Todos nós vamos morrer um dia! É tão certo como estar neste momento a ler esras linhas… Tudo o que nasce tem um fim, a morte faz parte da vida, é uma realidade incontornável. Porque não falamos então desta inevitabilidade? Porque evitamos abordar o tema, especialmente com as crianças? Porque as impedimos de lidar com a tristeza, de se aproximarem de quem está a morrer, de se despedirem, de se exprimirem? A morte tornou-se demasiado incómoda. Como disse Pascal, já que não podemos substituí-la temos a audácia de não pensar nela!

As crianças apercebem-se da separação e da morte, interrogam-se sobre a existência, têm a sua própria visão do que  viver e morrer, ainda que tantas vezes não tenham oportunidade de se manifestar, de expor as suas dúvidas, de partilhar os seus pensamentos, as suas emoções… «As crianças, por estarem mais próximas do início da vida, por estarem mais perto da fonte, ainda não desenvolveram tantos medos e angústias em relação à vida e à morte, têm uma visão mais pura», explica a psicóloga Carol Gouveia e Melo, autora do livro Viva a Vida – Um conto sobre a vida e a morte (Climepsi, 2007). «Sabe-se que nascemos apenas com o medo das alturas e dos sons altos, os restantes medos são adquiridos… O receio da morte desenvolve-se à medida que a criança cresce e tem muito a ver com o meio que a envolve, com as crenças e os medos dos adultos, que acabam por ser assimilados», lê-se no livro. Não é a morte que verdadeiramente assusta as crianças, é o nosso medo que as contagia: «O que uma criança mais receia é a separação, é ficar separada de quem ama.» A visão sombria e terrífica da morte é algo apreendido culturalmente: «Cabe a todos fazer um esforço para que deixe de ser assim.»

Não Há Vida Sem Morte

«A morte é um processo natural da vida, morte e vida estão intrinsecamente ligadas, uma não existe sem a outra, é como a palma e as costas da mão», lembra Carol Gouveia e Melo. «Não há vida sem morte, e também não há morte sem vida. Uma gera a outra como se fosse uma roda que gira sem parar, criando um ciclo após o outro», explica sabiamente o avô ao neto, sentado no leito da sua cama, no conto infantil escrito por Carol, «É fundamental ajudar as crianças a entender e aceitar a morte, mas para isso não as podemos confundir nem enganar, nem impedir que saibam a verdade,» O silêncio, as perguntas sem resposta, as respostas em sentido figurado, reforçam a “visão da morte como algo interdito ou tremendo. Sobre a morte não se fala, ou fala-se evasivamente e arruma-se o assunto. «Só que se não falarmos abertamente, arriscamo-nos a que as crianças imaginem coisas ainda mais estrambólicas e horríveis, que podem gerar outros medos e até complicações de saúde», adverte a terapeuta, colaboradora da Amara (associação pela Dignidade na Vida e na Morte). «Conheço vários casos curiosos, como o de um menino que não participou no funeral do avô e que desenvolveu asma, tendo os sintomas desaparecido totalmente quando a mãe o levou ao cemitério. “Oh mãe, porque não me trouxeste aqui antes? É um sítio tão bonito!”, comentou o menino.» Um cemitério, um quarto de um hospital… podem transformar-se em locais inesperadamente interessantes quando observados pelos olhos curiosos de uma criança.

Esconder que alguém próximo morreu só complica a situação e adia o inevitável. «É preciso dar nome às coisas; chamar morte à morte, sem rodeios. Não se deve dizer: foi para o céu, adormeceu para sempre, transformou-se numa estrelinha, porque a criança não entende esta linguagem simbólíca, só vai ficar mais confusa e pode desenvolver fobias, como a de andar de avião ou de adormecer. Também não é correcto manter a criança à parte quando alguém que ela ama está muito doente ou na fase terminal da sua vida, porque ela vai perceber que se passa algo de muito grave, que não lhe querem dizer. Isso só faz aumentar a sua angústia e a sensação de exclusão. Tenho ornado muitos testemunhos de pessoas que sofreram por não terem podido assistir à doença da mãe ou do pai quando eram crianças, por não terem tido a possibilidade de se despedirem. Sentem um vazio, como se algo lhes tivesse sido roubado», diz Carol Gouveia e Melo. «Sempre que possível, deve-se deixar a criança acompanhar a pessoa doente e partíiipar nos cuidados, ajudando na alimentação, na higiene… será uma forma de se sentir útil, de mostrar o seu afecto, de com preender que a doença e a velhice fazem parte da vida. A degradação física custa muito mais aos adultos do que às crianças que vêem com outros olhos e comunicam a outro nível». Não adianta ler histórias muito bonitas se, na prática, não deixarmos as crianças familiarizarem-se com a perda e a morte. «É  importante que a criança possa ver a pessoa depois de morrer para se despedir se for essa a sua vontade, mas não deve ser forçada a isso. Da mesma maneira, deve ser permitido à criança ir ao funeral, o que evitará fantasias sobre para onde foi o familiar que desapareceu.»

O Peso da Culpa

A morte é sempre um acontecimento triste. «O sofrimento é inevitável quando se perde alguém que nos é querido mas podemos ajudar as crianças a lidar com o sofrimento de uma forma saudável, tornando-as mais fortes e mais preparadas para enfrentar os desgostos e as adversidades que vão surgir ao longo da vida. Como é que isso se consegue? Com partilha, choro, abraços, amor. Elas descobrem que até as coisas mais tristes podem ser ultrapassadas com o apoio dos outros.» O argumento de querer poupar o sofrimento aos filhos já não serve como desculpa para não se falar da morte ou da pessoa que morreu… Há a ilusão de que se não tocarmos no assunto, estamos a proteger a criança, como se o silêncio alterasse magicamente a realidade: «O que acontece é que a criança se sente confusa e desamparada, sem ter com quem conversar. Quanto mais negarmos os seus sentimentos, dizendo “não chores que isso passa”, “não fiques triste”…, mais a criança terá necessidade de nos convencer de que o que sente é real ou então desiste e fecha-se no seu mundo.»

As crianças não reagem da mesma forma que os adultos, nem passam por todas as etapas do processo de luto – choque, negação, protesto, depressão/ambivalência, reconstrução e superação. «A sua capacidade Morrer é de entendimento varia com a idade, a sua visão da morte pode ser muito diferente ao longo do tempo, logo as suas reacções também são variáveis. Contudo, um sentimento frequente entre as crianças é a culpa», diz a terapeuta. Muitas sentem-se culpadas pelos sentimentos que têm ou tiveram em relação à pessoa que morreu e culpabilizam-se pela sua morte: «É fundamental explicar à criança que a morte desse ente querido nada tem a ver com os nossos sentimentos, não podemos deixar que cresçam com o peso da culpa» No caso de morte por suicídio, torna-se mais complicado superar a perda e aceitar a morte: «Em qualquer situação, será sempre necessário escutar e responder às dúvidas à medida que a criança vai crescendo.» O assunto nunca fica arrumado.

Quando a morte paira sobre a própria criança, quando a perspectiva de cura se desvanece, o sentimento de culpa e de impotência desaba sobre a família. A dificuldade de falar sobre a morte é ainda maior. «Por vezes queremos proteger a criança e escudá-la da verdade que a pode ferir. O problema é que a mentira dói mais ainda.»

Uma criança é muito sensível, consegue sentir a preocupação e a tristeza, não se deixa enganar pela cara alegre que compomos. Se explicarmos que estamos tristes e porquê ela vai sentir-se mais segura. Como é óbvio não podemos transmitir a verdade de qualquer maneira, sem contemplações, é preciso acompanhar o ritmo da criança e perceber o que podemos dizer em cada momento», aconselha Carol Gouveia e Melo; «Quando transmitimos a verdade com carinho e serenidade, as crianças aceitam-na melhor do que nós.»

Diferentes Idades, Diferentes Visões

Cada criança constrói a sua percepção da morte, que vai evoluindo ao longo da idade. «Uma criança pode encontrar inúmeros exemplos de morte, por exemplo, numa folha caída ou num animal morto, e observar que este não se move nem reage a qualquer estímulo. Isso suscita-lhe curiosidade e ela procura rapidamente uma explicação junto de um adulto ou de outra criança. A partir dessas explicações ou crenças, ela desenvolve as suas próprias ideias. Tanto o que lhe é dito, como o que não se diz (que passa nalguns casos pelo silêncio ou pela fuga à questão), tem uma grande repercussão no imaginário infantil e no seu desenvolvimento», escreve Abílio Oliveira, no livro Ilusões na Idade das Emoções (F.C. Gul-benkian, 2008).

Em geral, consideram-se quatro fases, que se sucedem no tempo, do nascimento à adolescência, mas nem todas as crianças passam por estas etapas. Até aos dois anos, «a morte tende a ser entendida como a separação de alguém que lhe era querido (em especial a mãe ou o pai) e como perda do conforto que sentia». O bebê reage à ausência de uma figura significativa, revelando dificuldade em comer, dormir ou manter hábitos de higiene já adquiridos. «Entre os três e os cinco anos, a morte é vista como algo temporário e reversível, ou como uma espécie de castigo que pode terminar a qualquer momento; a criança crê ter pensamentos mágicos e que pode trazer de volta o morto ou, pelo contrário, provocar a morte a alguém; pode sentir-se culpada pelo que aconteceu ou pelo que não consegue fazer, pois as razões da cessação da vida são mágicas e misteriosas. Recusa-se a aceitar a morte como o fim, sendo incapaz de imaginar a vida sem o pai ou a mãe; pode recear que o morto sinta frio ou fome, que esteja zangado ou triste, ou ficar chocada se ele não comparecer na sua festa de aniversário, pois, interiormente, ela continua muito ligada a ele» refere Abílio Oliveira.

Dos seis aos nove anos, «a criança começa a perceber que a morte é permanente e comum a todos os seres vivos; mas, intimamente, crê que ela e os seus familiares, ao contrário de outros, não serão castigados e estão imunes». Nesta idade, a morte é representada como um monstro, um papão, um fantasma, provocando medo, angústia e, por vezes, terrores nocturnos. É também frequente o interesse pelas causas e pelo processo de decomposição decorrente da morte, que aprendem na escola em relação às plantas e animais. A partir dos dez anos e até à adolescência, a morte passa a ser olhada «como um acto final e irreversível, uma parte do ciclo de vida». As maiores interrogações surgem na adolescência, com o questionamento dos rituais religiosos, da espiritualidade e do sentido da vida.

Chamada Para a Vida

Custa-nos aceitar a morte, talvez porque intimamente acalentamos o desejo de eternidade. Mas ainda que fosse possível, será que algum de nós desejaria nunca morrer ou viver para sempre com o corpo que tem? Temos medo de morrer mas a hipótese de nunca morrermos parece ser ainda mais assustadora, como romanceou José Saramago. Porquê, então, fugir do tema? Porquê o silêncio? Porquê impedir as crianças de descobrir a verdade? «Nunca conseguimos vencer completamente o medo da morte, porque está relacionado com medos inerentes à vida: o medo do desconhecido, da separação de quem amamos, de não viver uma vida plena, de envelhecer e perder a dignidade… Mas se tentarmos viver a nossa vida com sentido, se estabelecermos mais proximidade com os outros, atenuamos a ansiedade que temos perante a morte», diz Carol. «A morte nunca deixa de estar presente no nosso intimo, constituindo um dos maiores enigmas da vida», escreve Abílio Oliveira. Quanto mais reflectimos sobre a morte, mais apreciamos e valorizamos cada instante da vida. A morte tem um objectivo: chamarnos para a vida. »

Nota: Citações recolhidas por Ana Leão e Alejandra Aímeloa, em trabalhos cie investigação científica, reaiizaaos no âmbito de um mestrado em Ciências da Educação.

FONTE: Notícias Magazine (Portugal em 27/01/2008)

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6 Respostas to “As Crianças e a Morte”

  1. Marcella Says:

    Fiquei interssada no curso Psicologia para não psicólogos,mas infelizmente o local fica longe demais da minha casa (Passos-MG).Gostaria de deixar aqui um pedido…pensem em um curso à distãncia com este tema.Parabéns pelo site.Marcella

  2. Abílio Oliveira Says:

    Parabéns pelo blog. Que seja um espaço de discussão e divulgação útil para quem nele participar. E que tudo decorra pelo melhor. Atentamente, Abílio.

    (por curiosidade, deixo estes links: http://www.wook.pt/ficha/ilusoes-na-idade-das-emocoes/a/id/224053 ; http://www.ancora-editora.pt/index1.htm )

  3. eliane Says:

    Adorei o artigo gostaria de receber outros comentarios.

  4. Renata de Oliveira Says:

    Adorei o texto! Muito esclarecedor sobre o impacto que o tema da morte tem para as crianças. Gostaria de saber mais sobre o assunto, pois, meu filho de cinco anos e meio, ultimamente, tem mencionado muito sobre o seu medo de morrer, sem que nenhum fato aparente tenha ocorrido, apenas comenta-se algumas vezes sobre o avô, já falecido a muitos anos e a presença da bisavó, já bem velhinha, que visitamos. Disse ele que gostaria de ser como o “peter pan”, e nunca morrer, mas que poderia ficar adulto. Então chora! Como devo encaminhar a conversa?
    Abraço!

  5. Grupo Papeando Says:

    Olá Renata, seja bem-vinda! Por volta dos seis anos de idade a criança entra numa fase do desenvolvimento que lhe permite encarar a morte como algo irreversível. Ou seja, a criança se dá conta de que a vida pode ser interrompida, e uma vez que isso aconeça não há volta. Do ponto de vista psicológico, essa descoberta marca a perda de um lado fantasioso que é típico da primeira infância. Esse lado fantasioso é o mesmo que permite às crianças pequenas acreditarem no Papai Noel, por exemplo. Com essa ruptura, a percepção da criança assume um viés mais assentado no mundo concreto e, consequentemente, nos eventos desse mundo. Independentemente da criança ter perdido ou não alguém próximo, ela “descobrirá” a presença da morte na vida; seja em filmes, nos comentários de outras pessoas, na morte de animais de estimação, nos Contos de Fadas, etc. Isso tende a provocar o medo da própria morte, bem como a das suas figuras de referência. Esse processo é natural do ponto de vista do desenvolvimento psicológico, ele marca a transição entre o medo de separação, que é típico das crianças menores, para o medo de morte que requer um entendimento mais complexo dos fenômenos circundantes. Como lidar com isso?

    Antes de tudo, é importante aceitar que não é possível evitar o sentimento de medo por parte dos filhos, e isto não é nem desejável e nem saudável. Assim, é importante que os pais não minimizem ou desconsiderem a importãncia do que a criança está sentindo. Para os pais pode ser uma besteira, mas para a criança pode ser muito sério. Nunca, portanto, deve se ridicularizar a criança ou fazer chacota dos medos dela. Ajuda a autoconfiança da criança se os adultos encararem o medo como fruto do processo de desenvolvimento, uma oportunidade de crescimento e aprendizagem gerada pelo enfrentamento de novos desafios cognitivos e emocionais. O medo pode gerar na criança ansiedade, caso ela sinta que não conseguirá vencê-lo. Uma coisa que os pais podem fazer é relatar para a criança a própria experiência. Ou seja, Renata, pode-se contar ao filho sobre os momentos em que sentimos medo, e de como eles foram superados. Com isso, a crinça se sente apoiada e compreendida, pois, ela percebe a possibilidade de vencer os seus medos e de vir a ser “grande e forte” como os seus pais. Contos de Fadas e filmes infantis que abordam o tema gerador do medo na criança também podem ajudá-la a elaborar as emoções perturbadoras. Pode acontecer da criança querer assistir ou ovir a mesma estória várias vezes. Normal! Se isso acontece, em geral, é porque o conteúdo da estória é significativo para a criança e a está ajudando a compreender as proprias emoções.

    No mais, converse com seu filho, fale a verdade sobre a morte, diga-lhe da verdade sobre o fato de que todos morreremos um dia, mas que é mais comum os mais velhos irem antes dos mais novos. Diga-lhe que ainda demorará bastantes para que ele ou você morram e que, possivelmente, você terão muito tempo ainda para fazerem coisas bem legais juntos. Não tente dissumlar a verdade, as crianças podem ser ingênuas, ma snão são burras. O diálogo sincero é uma das melhores armas que os apis podem oferecer aos seus filhos para se defenderem dos dragões que terão de matar ao longo da vida. Uma relação baseada no diálogo sincero contribui para que os filhos sempre vejam nos pais uma fonte de referência quando se sentirem ameaçadas. Praticando o diálogo sincero com seu filho, Renta, há grandes chances de que ele veja você como aquela pessoa na qual ele poderá confiar, hoje e sempre!

  6. Nova Escola do 1º Ciclo vai abrir sob o signo da polémica e do insólito… - Penacova Destaques Says:

    […] Com a internet é fácil, hoje, ler algumas coisas sobre esta questão. Ver, por exemplo aqui e também uma outra posição possivelmente mais questionável. Seja como for, é legítima a […]


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