Faz Parte da Vida

A Morte do Coveiro” por Carlos Schwabe(1877-1926)

*Por Flavio Sampaio

Empresas quebram o receio do brasileiro em falar da morte e criam seguro funerário num mercado que movimenta R$ 1 bilhão por ano. O jornalista Paulo Francis sempre dizia que temos duas certezas na vida: a morte e os impostos. E, por mais tétrico que possa parecer, não é possível ignorar que pelo menos 1,3 milhão de brasileiros morrem por ano no Brasil, movimentando um mercado surpreendente. Se forem contabilizados todos os produtos e serviços relacionados à morte, das flores ao jazigo no cemitério, chega-se à cifra de R$ 1 bilhão. Um valor capaz de justificar a realização do Salão de Arte Funerária em São Paulo no final de setembro. O evento não chega a ser surpresa para os milhões de brasileiros precavidos que adotaram a assistência funerária, uma espécie de seguro para cobrir as despesas na hora do óbito.

A iniciativa atenua um dos momentos de maior fragilidade para a família. O pacote inclui produtos e serviços funerários, cemitérios, psicólogos e até reparadores faciais – espécie de maquiadores de defunto –, que se profissionalizam para elevar a qualidade no serviço funerário, que em muitas cidades é lamentável. A concorrência, como sempre, é positiva. A Funerária Municipal de São Paulo, uma das maiores do mundo com seus 500 óbitos por dia, por exemplo, não permite a entrada de empresas privadas em nenhuma etapa. Tudo deve ser feito, necessariamente, por meio do serviço municipal – considerado ruim e caro se comparado às funerárias privadas, que cobram metade do preço.

A ação da iniciativa privada no setor funerário garante mais tranquilidade em municípios como Botucatu e Sorocaba, no interior de São Paulo. Nessas cidades, 80% da população adotou a assistência funeral. O segurado paga uma pequena mensalidade – em média R$ 15 – e inclui no plano o cônjuge, filhos, pais e até os sogros. “Quando meu pai faleceu, em fevereiro, percebi que tinha feito um ótimo negócio. O caixão e a coroa de flores eram lindos. Mas importante mesmo foi o apoio psicológico”, afirma a bióloga Fátima Furst, cliente da Ossel, uma das maiores empresas do setor. Além da cobertura funerária para toda a família, Fátima tem vantagens em vida, com descontos em médicos, dentistas e até em locadoras de próteses e cadeiras de roda. Seu plano custou R$ 890 – R$ 50 de entrada e 24 parcelas de R$ 35. A manutenção anual é de um salário mínimo, o equivalente a R$ 15 por mês.

“O brasileiro está encarando a morte de uma forma mais natural”, diz Arany Marchetti, dono da Ossel, que também fabrica urnas funerárias. Entre seus modelos especiais está o cofre presidencial, fabricado na Argentina e vendido por R$ 5,5 mil. “O filho do ACM, Eduardo Magalhães, foi enterrado neste modelo”, orgulha-se. O mercado promissor não dispensa novas estratégias de vendas. A tradicional Seguradora Vera Cruz concentrou seus esforços nas empresas. Sua equipe vende o seguro de morte junto com o de vida nos departamentos de recursos humanos. Funcionou tão bem que hoje são mais de 800 mil apólices vendidas para o chamado seguro decesso.

Aparência – A concorrência também trouxe a especialização. Em Araraquara, no interior de São Paulo, o casal João e Jussara Roveri trabalha duro para manter as aparências – dos falecidos. São experts na chamada reparação facial. Seu maior desafio é preparar o defunto da forma mais natural possível. “As marcas causadas pelo sofrimento de doenças e mutilações não devem ser perpetuadas na última aparição pública”, diz Jussara, uma pedagoga que se apaixonou pela nova profissão logo na primeira experiência. “Era uma senhora de 65 anos. Perguntei para a família se poderia passar um batonzinho, arrumar seu cabelo. A família aprovou e adorou”, finaliza. O processo de reparação dura, em média, uma hora. O corpo é banhado, o rosto maquiado e os orifícios oculares e bucais recebem próteses. Para manter a integridade total do falecido, o sangue é trocado por um líquido especial, num processo denominado tanatopraxia.

A tecnologia também está presente nesse mercado. Já existem produtos como a cápsula de identificação de DNA. Feita em material anticorrosivo, que dura 400 anos, o pequeno cilindro recebe pedaços de unha, fios de cabelo, impressões digitais e uma ficha com os dados do falecido. Tudo isso segue preso ao caixão, facilitando futuras investigações sem que seja necessária a exumação do corpo. Outra novidade é o funeral virtual. Criado pelo Grupo Vila, do Rio Grande do Norte, ele permite que o velório seja acompanhado a distância. “Muitas vezes parentes e amigos estão longe. Com uma câmera ligada a um computador eles podem ver as imagens e ainda deixar uma mensagem eletrônica”, afirma Heber Vila, diretor do grupo.

Medos – Apesar do aumento de interesse sobre o assunto, a morte ainda é um dos maiores medos da humanidade. Pacientes terminais tentam falar sobre o próprio fim com suas famílias e são desencorajados com argumentos descabíveis como “deixa isso pra lá”, “isso não vai acontecer…” Segundo a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções Sobre o Luto da PUC-SP, é muito importante a discussão sobre o assunto, é uma possibilidade do auto-encontro. “A morte sempre foi muito infantilizada por determinadas religiões, que tendem a explicá-la como um castigo, algo não natural. Mesmo assim, todas as crenças têm rituais para a morte. Para o nascimento, não”, diz. Para a psicóloga, a escolha do funeral em vida é um sinal de maturidade, pois essas decisões são feitas, em geral, no pico da emoção. E pela família do falecido.

Dercy Gonçalves fez o que poucos fazem: decidiu sua morte ainda em vida. Em uma viagem à Bangcoc, a comediante se deparou com os túmulos dos deuses tailandeses. Adorou. De volta ao Brasil, convenceu o prefeito de Santa Madalena, sua cidade natal, no interior no Rio de Janeiro, a ceder um espaço ao lado do cemitério municipal para erguer uma pirâmide de pedra com um túmulo de mármore branco, igual ao que tinha visto na Ásia. “A morte é linda, já conversei com ela. É uma mulher com corpo de peixe, como uma sereia, que veio bater um papo no meu quarto. Mas avisei que não queria ir para seus braços ainda. Estou muito feliz aqui”, diz Dercy. Aos 94 anos, a comediante, que já enfrentou um câncer no estômago, tem uma forma muito interessante de encarar a morte: “Ela nunca diz não a ninguém. Recebe a todos com amor.” Sintonizada com o mercado, Dercy pensa em alugar seu túmulo em Madalena enquanto não desfruta este amor.

FONTE: Revista Isto É

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