Lição de Anatomia

Dissecação do Cérebro Pelo Professor Johan Deyman” por Rembrandt van Rijn(1606-1669)

Por *João Luiz Leocadio da Nova, **José Joffily Bezerra Filho  e ***Liana Albernaz de Melo Bastos

A formação médica resume-se à transmissão de conhecimentos sobre as doenças. Valores e atitudes de reconhecimento das subjetividades (tanto do médico quanto do paciente) não são privilegiados nesse modelo. Esta constatação levou-nos a pesquisar em que momento as escolas médicas iniciariam a produção dessa ideologia. Nossa hipótese inicial era a de que o embrião dela estaria no impacto que a prática anatômica provoca no estudante. A negação da mortalidade e da sexualidade humanas começaria a ser gerada na relação estudante-cadáver transferindo-se, posteriormente, para a relação médicopaciente. A revisão bibliográfica confirmou nossa hipótese. (…)

O Estudante e o Cadáver

A prática anatômica é, para o estudante de medicina, um ritual de iniciação. É ali, diante do cadáver, que ele, no dizer das palavras de um estudante, “começa a se sentir médico”. O cadáver é, assim, o primeiro paciente do futuro médico. O modo pelo qual o estudante lida com esta situação tem fundamental importância na formação de sua identidade profissional. (Charlton et al.,1994)

Se, por um lado, diante do cadáver, o estudante se sente protegido das angústias que a prática com doentes suscita, por outro, ele é exposto, sem qualquer preparação, à enorme angústia que a morte promove. O estudante é apresentado à morte sem que o nome dela seja declinado. O cadáver apresenta a morte, mas não é um morto. Ele é o corpo anatômico: um constructo, objeto de um discurso científico criado mediante uma técnica, a dissecção. O que a técnica anatômica pretende é, diante de um substrato dado, orientar-se num espaço já constituído, torná-lo visível e explorá-lo geograficamente. Prática investigatória e não clínica, a dissecção não trata do doente e da doença. Ela trata do cadáver como uma figura exterior e objetiva (Foucault, 1987). Assim, o corpo anatômico é geografia, não é história. Deste modo, quando tomado como modelo para a relação médicopaciente, cria uma primeira cisão: o paciente é algo a ser visto e não ouvido.

A dimensão histórica se achata neste encontro. As anamneses se fazem quase dispensáveis. Perdendo a dimensão histórica, o que se perde é a vida e a sexualidade. O corpo morto, mobilizador de curiosidades e angústias, exige, daquele que o observa, neutralidade para vencer a náusea, o horror e a repugnância (Fèdida, 1971). Uma das técnicas utilizadas na busca da neutralidade necessária é a do silêncio. A nomeação da morte raramente é feita diante do cadáver. Esta escotomização da morte – que se inicia diante do cadáver- prossegue durante todo o curso médico. O impacto que o contato com o cadáver produz no estudante não tem sido objeto de consideração na formação médica. Disto não se fala. Este modo de se negar a morte se desdobra numa posterior negação do morrer. A morte e o morrer não fazem parte do currículo acadêmico, mas são cotidianos na prática médica.

O Médico e a Morte

Morre-se hoje nos hospitais. A morte se transformou, em nossa cultura, num problema médico. Nem sempre foi assim. Esta parece ser uma modalidade dos nossos tempos que satisfaz à dessacralização e à banalização da morte cujas conseqüências não são inócuas. Os ritos de morte são cada vez mais simplificados. As conveniências exigem que o enlutado volte logo a uma vida normal. O recalcamento da dor é exigido em lugar das manifestações outrora usuais (Maunnoni, 1995). Freqüentemente, o profissional médico é solicitado a medicar aqueles que estão sofrendo com a perda de um ente querido. O luto se medicaliza.

Dentro do hospital, o moribundo – e, muitas vezes, a família – não tem participação na decisão da morte. Ela é uma “morte interdita” (Ariès, 1977). O médico foi colocado no lugar daquele que decide o momento da morte e as circunstâncias do morrer. A morte e o morrer transformaram-se em questões técnicas. Neste contexto, criou-se uma ideologia médica de distanciamento e frieza desumanizadora tanto do paciente quanto do médico. Gerou-se um modelo de alienação de si e do outro tornando o médico indiferente ao sofrimento e às misérias humanas, exigindo um recalcamento da dor e uma negação da morte do outro e de si mesmo.

A formação médica, como não podia deixar de ser, promoveu e incorporou este modelo que condena à morte aquilo que o estudante tem de humanidade. Mata-se, no aluno, sua capacidade de envolvimento emocional com o paciente visandose, assim, supostamente, habilitá-lo a lidar com a morte (Zaidhaft, 1990). Cria-se um paradoxo: quanto mais a morte se torna “médica” menos dela se trata na formação. Mais interdita ela se faz não apenas para o moribundo mas, também, para o médico. (…)

*João Luiz Leocadio da Nova é Professor da Universidade Federal Fluminense, chefe do Laboratório de Vídeo Educativo do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

**José Joffily Bezerra Filho é Professor do Laboratório de Roteiro do Departamento de Cinema e Vídeo do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense.

***Liana Albernaz de Melo Bastos é Professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro; coordenadora da pesquisa “O cadáver e a formação médica”.

Excertos do Artigo “Lição de Anatomia”. Leia na íntegra AQUI

FONTE: Revista Interface

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4 Respostas to “Lição de Anatomia”

  1. Américo Says:

    Boa noite,

    Estou estudando o vídeo lições de anatomia e gostaria de saber como posso entrar em contato com a Professora Liana.

    Att.
    Américo Pastor

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Américo,
    seja bem-vindo! Tente contactar a Profa. Liana pelo email: lianaambastos@globo.com
    Esperamos ter ajudado.

  3. Américo Says:

    Muito obrigado!

  4. Eudes Says:

    Sim, bom dia. Eu estou estudando psicologia e que saber a relação da psicologia com a anatomia.

    Att
    Eudes


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