O Luto Como Vivemos: Educação Para Morte

A Morte e a Donzela” por Hans Baldung(1484-1545)

*Por Valéria Tinoco

Afinal, o que é a Educação para a Morte? Será possível modificar, transformar e ensinar sobre a morte? Primeiramente, toda vez que nos referirmos a Educação para a Morte, incluímos aí a morte, o morrer e o processo de luto que acompanha e segue estes processos. Nós que trabalhamos com morte e luto somos indagados pelas pessoas ao nosso redor: Por que você estuda este assunto? Vai passar um fim de semana fazendo um curso sobre luto? Trabalhamos com o mais horrível?

Se por um lado é crescente o número de pessoas que se interessa por este assunto, é grande o número de pessoas que demonstra atitudes de negação ou evitação quando o assunto é morte. A morte ainda é um tema desconfortável na nossa e em muitas culturas. A atmosfera de negação da morte que se instala nestas culturas influencia novas gerações, resultando numa compreensão pobre tanto da vida quanto da morte.

Educação para a Morte é preparação para a vida. Segundo o autor Patrick Dean, Death Education deveria se chamar Life and Loss Education, educação para a vida e perdas, “pois só quando temos consciência da finitude das coisas e de nós mesmos estamos livres para estar no presente e inteiros”.

Estudar sobre a morte e luto nos dá uma visão completa do ser humano. Não falar ou pensar sobre esses assuntos não enfraquece sua força, não a deixa menos horrível…ao contrário, limita nossas chances de enfrentamento.

Vamos falar um pouco sobre a negação da morte vivida pelos profissionais de saúde. A morte faz parte do cotidiano destes profissionais. A falta de preparo e cultura sobre este tema faz com que fiquem limitados em seu trabalho. Esta limitação se dá somando-se a sensação de impotência que a convivência com a morte traz. A possibilidade de transformarmos estes aspectos, oferecendo formação aos profissionais e modificando a visão de impotência pode possibilitar a aceitação da morte e, consequentemente, diminuir a frustração e desmotivação pelo trabalho. Além disso, a Educação para a Morte está a serviço destes profissionais já que há uma imagem que não devemos mostrar nossas emoções, o que não é saudável física e psiquicamente.

Que profissionais devem ser atingidos por esta Educação? Médicos, enfermeiros, psicólogos, outros profissionais da saúde, funcionários dos hospitais e outros profissionais também, como diretores funerários, policiais, bombeiros, professores, que em algum momento estarão em contato com a morte.

Parte do objetivo da Educação para a Morte é colocar ao alcance de todos novas teorias, novas pesquisas e novas atitudes frente a morte, o morrer e o luto.

Educação para a Morte que nos interessa é aquela que une a teoria com vivências, na construção de um conhecimento adequado.

É necessário ir em busca do conhecimento próprio de cada cultura, lembrando que a maioria das teorias e pesquisas que temos acesso referem-se a uma população de classe média branca. O processo educativo e de transformação se dá de modo único em cada população.

Educação para a morte envolve pensarmos a morte de modo amplo, incluindo situações de guerra, violências e catástrofes e suas possíveis prevenções e, porque não, pensar em um maior respeito à vida.
A Educação para a Morte possibilita o enfrentamento em situações perdas e crises, com o desenvolvimento de recursos próprios para isso.

Também contribui para melhorar o aproveitamento da vida, reduzindo o medo de morrer. Há algumas pesquisas que mostram isso.

Um documento formulado pela IWG – International Work Group for Death, Dying and Bereavment, em 1994 diz que “Morte e morrer e o processo de luto são aspectos fundamentais e que permeiam a experiência humana. Indivíduos e sociedades sentem-se completos quando são capazes de observar e compreender esta realidade. A ausência desta compreensão e apreciação pode levar a um sofrimento desnecessário, perda da dignidade, alienação e diminuição da qualidade de vida. Por esta razão, Educação sobre morte, morrer e luto, tanto formal quanto informalmente, é um componente essencial do processo de educação em todos os níveis”.

Como se dá a Educação para a Morte? A Educação se dá pela comunicação. A comunicação é um dos processos básicos de todo o processo educativo. Um dos principais objetivos do trabalho do educador para a morte, é a facilitação do processo de comunicação, da expressão dos sentimentos e necessidades do indivíduo, família e outros envolvidos. Lembremos que no processo de morte e morrer e luto a comunicação está mais difícil. Há também por parte destes (indivíduo enlutado, paciente, família e cuidadores, profissionais ou não) uma dificuldade de reconhecimento dos sentimentos, receio de expressá-los , de compartilhá-los e tabus em falar de alguns assuntos.
Algumas propostas para a Educação para a Morte:

Educação desde o berço: Crianças a partir dos 3 anos de idade podem ter acesso a este tema por meio de conversas, livros, filmes e, principalmente, ter suas perguntas respondidas! Isso faz com que as escolas ocupem um papel importantíssimo: é necessário, portanto, a instrumentalização do corpo técnico-pedagógico e funcionários. Estes devem estar preparados para falar sobre o tema e para facilitar a expressão e elaboração no caso de vivência de uma perda e luto por um aluno. O papel neste caso é de não contribuir para a negação e formação de indivíduos que não sabem lidar com perdas. É importante lembrar também que a escola tem papel profilático no desenvolvimento de crises.

Educação para a Morte na comunidade: tornar a comunidade apta para lidar com questões sobre morte e luto.

Educação para a Morte para profissionais da saúde: desde a formação universitária (são poucas as disciplinas oferecidas sobre o tema; psicologia do desenvolvimento não inclui morte e luto). Mesmo assim são os profissionais que têm mais preparo.

Educação para a Morte na mídia: trazer o tema de modo correto, que suscite o debate e leve ao aprendizado.

A boa notícia é que os esforços para aumentar o conhecimento sobre morte, morrer e luto estão crescendo assim como a prática dos profissionais de saúde nesta área.

FONTE: Instituto de Psicologia 4 Estações

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2 Respostas to “O Luto Como Vivemos: Educação Para Morte”

  1. Carlos Barros Says:

    Adorei o texto, e o site de uma forma geral. Sou professor que trabalha com Tanatologia. Parabéns!

  2. Isilda Says:

    Gostei do texto. Pois passei por luto e tive q explicar os questionamentos de uma criança porque morreu?
    Parabéns paz e bem!


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