A Pressa é Inimiga da Perfeição

Quando fazemos as coisas com calma, colocamos mais atenção ao momento presente e erramos menos

*por Eugênio Mussak

“O tempo não pára”, diz Cazuza em uma poesia musicada que se transformou em uma espécie de hino à urgência de viver. A mensagem era: vamos fazer tudo o que for possível, mesmo que isso sirva apenas para constatarmos que o futuro repete o passado, em uma dança conhecida e cada vez mais frenética. Pense bem: não é o que fazemos todos? Eu, você, nossos amigos, vizinhos, colegas? Vivemos no mundo da velocidade, que é a face mais evidente da sociedade atual. Parece que o tempo sempre está escorrendo entre os dedos. A idéia predominante é de que o tempo não pára e que, como conseqüência, nós também não podemos parar. Chegamos a pensar que o ideal seria que nos antecipássemos ao tempo, sendo mais velozes que ele, como fez o deus grego Zeus, que se tornou o mais poderoso após destronar seu pai, Chronos, o deus do tempo.

A velocidade é, então, o novo paradigma, o padrão de comportamento adotado por quem deseja ter sucesso, estar integrado, fazer parte do sistema, ser aceito pela sociedade, concorrer no mercado. Errado, tudo isso? Eu não teria coragem de afirmar que sim, pois os períodos da história têm suas marcas peculiares, mas… por favor, um pouco de calma, respire fundo: nada melhor do que um pouco de lucidez para não ser simplesmente sugado pelo sistema. Que tal entender bem o que se passa antes de entrar nesse jogo e simplesmente ser consumido, velozmente, sem mesmo se dar conta de que podemos agir no mundo de maneira diferente?

Ninguém precisa ser mero protagonista desse tempo louco, a não ser que queira por opção. Então vejamos: para começo de conversa, ser veloz não é a mesma coisa que ter pressa, fazer as coisas rapidamente não é o mesmo que terminar no menor tempo e sair na frente não garante chegar primeiro. Há uma certa dose de relatividade nessa história toda.

Focos de resistência

Sim, nem tudo está perdido, há gente pensando e agindo. Cansado de comer sanduíche encostado no balcão, alguém muito lúcido propôs, no final dos anos 80, um movimento em sentido contrário. Foi fundado na Itália, levado para a França e depois para o resto da Europa, o movimento conhecido pelo nome de Slow Food, que significa literalmente “comida lenta”, em um evidente contraponto ao “fast food”, a comida rápida, o novo jeito de se alimentar do homem urbano, que tende a se transformar em estilo de vida. Quem não tem um amigo do tipo fast food, sempre apressado, como que possuído por uma entidade sempre atrasada?

Hoje, a Slow Food International Association espalha suas idéias pelo mundo, oferecendo, a quem queira, uma opção de vida diferente. O movimento, que usa como símbolo da calma um caracol, prega que as pessoas devem voltar a comer e beber devagar, dando-se tempo para saborear os alimentos, transformando a refeição em um momento de encontro e comunhão com a paz e com o prazer. Acompanhar o preparo do alimento, interagir com a família, com amigos, sem pressa e com muita qualidade e satisfação, essa é a idéia. Trata-se do contraponto ao espírito do fast food e o que ele representa como estilo de vida moderno.

E por que tudo isso? Não seria apenas uma atitude saudosista e anacrônica, condenada a desaparecer como tantos modismos? Ao que tudo indica, não. A idéia de respeitar o tempo de comer, valorizando a arte da culinária, o convívio familiar e melhorar a saúde, está ampliando sua ação para muito além da borda da mesa de jantar. Tem tudo para virar filosofia de vida, pois comer não é mais do que uma das múltiplas atividades a que o homem se submete em sua rotina diária, entre tantas outras.

O Slow Food está se ampliando e servindo de base para um movimento maior, inicialmente chamado Slow Europe. Sua idéia é questionar a pressa do mundo, a angustia das pessoas, a loucura generalizada na sociedade imposta pela globalização, pela competitividade crescente e pela velocidade da informação proporcionada pela Internet.

Aliança com o tempo

O engenheiro americano Frederick Taylor, no início do século 20, criou as bases da administração moderna, e fez isso procurando otimizar o trabalho dos operários em uma fábrica. Para isso, estabeleceu uma relação matemática entre a produção que eles conseguiam e o volume de recursos que utilizavam nessa produção. E Taylor considerou o tempo como o mais importante entre todos os recursos. A partir de então se estabeleceu a cultura do século que se iniciava: fazer mais, em menos tempo.

E também começou a confusão. Sim, porque fazer em menos tempo não significa fazer mais rápido, e sim fazer com mais qualidade. Essa era a visão do engenheiro. A má interpretação de sua idéia acabou por criar um caos comportamental que se refletiu em pessoas apressadas, neuróticas e infelizes. “Pense antes de fazer, planeje seu trabalho, organize-se, e só então faça”, dizia ele.

Mas o que fazemos nós? Corremos como baratas tontas diante da necessidade de fazer mais com menos, em lugar de planejar, preparar, aprimorar a técnica, e só então fazer, rápido, mas sem pressa, saboreando cada momento como único que de fato é. Não se pode lutar contra o tempo. Ele é poderoso e sempre ganha a batalha. A idéia não é de luta, mas de aliança. Zeus não matou Chronos. Tratou de conquistá-lo, e então aliou-se a ele.

Entretanto, a valorização da pressa ainda existe. O bom profissional é o que atende rápido? Ou seria o que atinge rápido o resultado? São coisas diferentes. Por exemplo: você prefere o médico que atende em dez minutos, ou aquele que utiliza 45 minutos em sua consulta? Certamente aquele que dá mais tempo ao paciente, que o escuta com calma, valoriza a relação, esclarece dúvidas, examina devagar. Outra pergunta sobre o mesmo tema: você prefere o médico que consegue a cura em dois dias ou o que precisa de duas semanas para atingir o desejado? O dos dois dias, claro. Pois bem, esse pode ser justamente o mesmo que utilizou 45 minutos na consulta. Viu como o tempo é relativo?

A versão européia da revista americana de negócios Business Week publicou recentemente uma pesquisa que mostra que os franceses trabalham menos horas, mas são mais produtivos que seus colegas americanos e ingleses. Essa atitude sem pressa não diminui a produtividade e ainda aumenta a qualidade. Evita o risco, a insatisfação e a necessidade de refazer o trabalho.

Um jeito sábio de ser

Ter uma atitude sem pressa significa colocar mais atenção no que se faz, dedicando tempo para os valores que a rapidez do mundo moderno está relegando a um plano secundário: a família, os amigos, o lazer, a cultura, o tempo livre para simplesmente viver. É uma volta à valorização da casa, do bairro, da cidade, dos ambientes conhecidos, presentes, palpáveis, em oposição ao mundo globalizado, distante, anônimo, abstrato, frio.

O acesso aos valores essenciais à felicidade do ser humano, como a convivência, a fé, a esperança, a serenidade, os prazeres do cotidiano, torna-se mais fácil através de uma atitude sem pressa. O resultado é um indivíduo menos estressado e neurótico, mais leve, mais feliz e, por isso mesmo, mais produtivo.

A sabedoria popular cunhou outros ditados além do que intitula este texto, para falar da importância de se reduzir a velocidade: “devagar se vai ao longe”, e “o apressado come cru” são alguns deles. Quer um bom resultado, com segurança e ainda por cima rápido? Então faça devagar, não se afobe, pense antes de agir, faça uma coisa de cada vez. Lembre-se de que “velocidade” é diferente de “pressa”. Ser veloz é adequar-se às condições. O veloz chega antes, o apressado às vezes fica pelo caminho. O carro não pode ir mais rápido do que as condições da estrada permitem. A boca não pode falar com a velocidade do pensamento. O teclado do computador ou as teclas da antiga máquina de escrever não podem ser acionadas todas juntas. Calma!

A velocidade é precisa, a pressa é bastante imprudente. Quando o poeta Fernando Pessoa disse “navegar é preciso, viver não é preciso”, ele se referia à precisão, ao detalhe, ao cálculo, ao planejamento, necessários à navegação e não ao verbo precisar, sinônimo de necessitar.

É claro que precisamos viajar, trabalhar, fazer as coisas, e rápido, mas, por favor, sem pressa.

Você sente que está com o deus Chronos em seus calcanhares? O tempo realmente parece escorrer pelas mãos? De fato, Chronos é o deus do tempo medido, do relógio, do cronômetro (daí o nome), do calendário, das ações repetitivas. Mas é bom saber que também existe o deus Kairós, que governa o tempo vivido, aproveitado, saboreado, sentido, bem utilizado. Que tal parar de adorar Chronos e adotar Kairós como o deus supremo do seu panteão?

O imperador romano Octavius Augustus, que viveu no início da era cristã, ao observar as trapalhadas de seus oficiais que, por medo ou vontade de agradar, saíam correndo para atender suas ordens, incorporou o hábito de recomendar sempre: “Festina lente”. Sábio conselho. Significa: apressa-te devagar. Em outras palavras, para fazer rápido, faça com cuidado. Portanto, festina lente!

*Eugênio Mussak é educador e escritor.

FONTE: Revista Vida Simples

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: