Palavras Que Vão Mudar o Nosso Cérebro

A velocidade da vida moderna traduz-se num número: 2,3 palavras por segundo. É o que cada pessoa ouve ou lê ao longo das 12 horas em que está a trabalhar ou relativamente à década de 80 do século XX. Do acordar até ao adormecer, estamos sempre a ser bombardeados com informação. Seja por email, através da imprensa, da internet ou da televisão, o cérebro é diariamente atingido por 100 mil palavras. Ao acrescentar-se as imagens, como os vídeos e os jogos de computador, cada pessoa processa em média o equivalente a 34 gigabytes de informação por dia, o que é mais do que suficiente para esgotar numa só semana a capacidade de armazenamento de um computador portátil.

O estudo “Quanta informação consumimos?” da Universidade da Califórnia, em San Diego (Estados Unidos) – divulgado esta semana e realizado com a finalidade de quantificar o que os norte-americanos vêem e lêem – conclui que, entre 1980 e 2008, os bytes consumidos cresceram 350%. Segundo os investigadores, o fluxo de informação que todos os dias entra nas casas das famílias norte-americanas mudou de forma radical após a revolução digital e desde que o computador pessoal passou a ser um objecto trivial, na década de 80.

Os cientistas avisam que a explosão de fontes de informação poderá mudar a forma como os consumidores se comportam e reflectem, e provocar até alterações ao nível da estrutura cerebral. Se esse dilúvio de informação continuar a fazer parte do nosso quotidiano, haverá mudanças neurológicas significativas, avisam os cientistas – novas células cerebrais vão nascer e outras ligações ou sinapses cerebrais serão criadas. A nossa atenção está cada vez mais compartimentada e isso poderá ter consequências na nossa capacidade de desenvolver um raciocínio crítico e reflexivo, alertam os autores do estudo.

A quantidade de informação que nos chega através da televisão, internet ou videojogos é muito maior do que há uma ou duas décadas, mas isso não representa um perigo, esclarece o psicanalista Carlos Amaral Dias. “Uma coisa é a capacidade que temos de armazenar informação e outra é a atenção que lhe damos.” A aptidão para acumular informação é quase infinita – um adulto, por exemplo, é capaz de produzir 1,5 triliões de sinapses, o que representa um armazém “inesgotável” para a informação, explica o professor catedrático da Universidade de Coimbra.

Esquecer e reprimir “Das 100 mil palavras que os investigadores americanos contabilizaram, não conseguimos saber quais é que ficam armazenadas na memória”, diz Carlos Amaral Dias, adiantando que a grande vantagem do cérebro está na habilidade em “esquecer e reprimir” tudo aquilo que não interessa: “Não sou um pessimista e continuo a acreditar que a abundância da informação tem mais proveitos do que danos.” Contudo, alerta, os benefícios dependem da forma como cada um procura e utiliza a informação. “A família e a escola continuam a desempenhar um papel determinante na filtragem da informação que recebemos todos os dias.”

Essa capacidade de reflectir e de processar a informação depende sempre do background social, familiar e escolar de cada um, esclarece o psicanalista, que está convencido de que uma máquina jamais poderá superar um cérebro humano no que toca a saber processar a informação. “Os computadores têm por base um sistema binário e o cérebro é muito mais complexo do que isso.”

Qualquer um de nós está apto a fazer o que nenhum computador consegue. “Detectar nuances ou distinguir, por exemplo, quando um sim significa um não ou vice-versa”, explica Carlos Amaral Dias, salientando que o ser humano sempre se adaptou aos processos evolutivos e que o mesmo acontecerá com o grande fluxo de informação a que as gerações de hoje têm de se sujeitar.

Quantidade e Qualidade Quando se fala da informação que cada um de nós consome ao longo do dia há que ter em conta os dois lados da moeda – a quantidade e a qualidade. “A abundância só é benéfica e eficaz se for bem apropriada”, avisa Jorge Barreiros, sociólogo dos media. Avaliar o conhecimento pelo volume de informação é uma equação “economicista” sem qualquer relação com a aprendizagem, adverte o professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) “Hoje, estamos muito mais pressionados a consumir informação e boa parte do que fazemos no dia-a-dia e no trabalho depende dessa informação que consumimos.”

São dois aspectos que estão ligados, mas isso não significa que a maior quantidade de informação disponível acrescente “alguma coisa” ao conhecimento. Até porque é pouco frequente a abundância informativa ser “proporcional” à qualidade do que cada um de nós consome. “Neste caso, o excesso não é negativo; é na forma como cada pessoa apreende o que lê e vê ao logo da vida que é possível perceber os efeitos da informação dos media sobre nós”, defende José Rebelo. Tudo depende da competência para transformar a informação em conhecimento. “Há muitos factores que determinam o sucesso ou fracasso em processar a informação – a sociedade em que estamos inseridos, o contexto escolar, familiar, cultural e as características pessoais”, remata o sociólogo.

FONTE: AAUMA

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