Encontros, Relações e a Sizígia

“Homem e Mulher Contemplando a Lua” Caspar David Friedrich (1774-1840)

*Por Selene Regina Mazza

“Como se sabe, não é o sujeito que projeta, mas o inconsciente. Por isso não se cria a projeção: ela já existe de antemão. A conseqüência da projeção é um isolamento do sujeito em relação ao mundo exterior, pois em vez de uma relação real o que existe é uma relação ilusória” (JUNG, 1986, p. 7). Jung, ao apresentar esta afirmação, lança-nos a refletir sobre como encontros e relações se constituem e que efeitos estes terão sobre o desenvolvimento psíquico de cada indivíduo, ou seja, como um encontro com o outro se processa na alma se esta relação pode ser “ilusória”? Sendo ilusória, torna-se então necessária à individuação?

O que pretendo, através deste texto, é apresentar algumas considerações sobre a importância que os encontros cotidianos que desencadeiam um processo relacional significativo suscitam na psique individual, tendo como referência teórica alguns conceitos da psicologia junguiana como: fantasia, sincronicidade e sizígia. Marisa Monte canta (1): “Há algo invisível e encantado entre eu e vocêE a alma aproveita pra ser a matéria e viver” O encantamento dos encontros desencadeiam imagens que ultrapassam a clareza consciente e avançam na atividade projetiva inconsciente, concretizando fantasias como se fossem realidades, e como na música, a alma se materializa, literaliza e vive a fantasia como única realidade plausível.

A realidade fantasiada de um encontro supostamente advém de uma condição prévia que foi estruturada no decorrer da história de vida do indivíduo. A relação é alimentada a partir desta realidade, pois “Quanto mais projeções se interpõem entre o sujeito e o mundo exterior [o outro, neste caso], tanto mais difícil se torna para o eu perceber suas ilusões” (JUNG, 1986, p. 8). Mas quais seriam esses encontros e relações que suscitariam tantas fantasias, tantas projeções? Quero aqui considerar, principalmente, o encontro homem-mulher que conduz a alguma relação marcante na história do indivíduo, seja ela, de namoro, casamento ou amizade.

Nas relações entre homens e mulheres, o fator determinante das projeções é a anima e o animus. É uma das formas na qual o inconsciente se representa nas relações humanas (2), e surge personificada em sonhos e fantasias. Como produção espontânea do inconsciente projeta-se em imagens tão poderosas que o ego acredita serem verdadeiramente reais.

De ambos os lados, homem-mulher (anima-animus), a relação é sempre “emocional” segundo Jung, que ainda completa assinalando, que “o resultado nem sempre será necessariamente negativo, pois há também a grande possibilidade de que os dois se apaixonem um pelo outro (…) Eles, entretanto, se armam, na ilusão de estarem se relacionando do modo mais individual possível.” (JUNG, 1986, p. 13). Todavia a relação se estabelece na base coletiva da psique, pois “Os afetos rebaixam o nível da relação e o aproximam da base instintiva, universal, que já não contém mais nada de individual. Por isso acontece não raras vezes que a relação se dá por sobre a cabeça dos seus representantes humanos, que posteriormente nem mesmo percebem o que aconteceu.” (Idem, p. 14).

O encontro, que estabelece uma relação entre duas pessoas, decorre da associação simultânea de vários fatores oriundos dos complexos de cada uma delas. Retomo, de outro texto meu (3), Verena Kast (1997), que ressalta que: “os complexos parecem ser, antes, uma complicada fusão de algo factualmente experienciado e algo fantasiado.” (p. 32), por isso, “Encontramos o efeito de complexos nas relações atuais, em projeções, em sonhos e fantasias.” (p. 47)

As fantasias alimentadas nas relações representam um componente importante para a compreensão do fenômeno psíquico que envolve a interação homem-mulher, o encontro entre ambos. Constitui-se em imagens que revelam um poder defensivo do ego diante da força transformadora do inconsciente, pois para Jung (1991, p. 63) “A psique cria a realidade todos os dias. A única expressão que posso utilizar para essa atividade é fantasia (…) a fantasia me parece a expressão mais clara da atividade específica da psique.” , até porque, “A realidade viva não é dada exclusivamente pelo produto do comportamento real e objetivo das coisas, nem pela fórmula ideal, mas pela combinação de ambos no processo psicológico vivo, pelo esse in anima”, que a meu ver nas relações torna-se ponto fundamental, e até vital, no processo interacional que possibilita um descobrir-se através do outro.

Assim, as imagens psíquicas, expressas através das fantasias, oferecem ao indivíduo a possibilidade de reunir o mundo interior e exterior, concedendo a ele “uma sensação vital de uma conexão viva entre ambos os mundos” (KUGLER, 2002, p. 94) Mas, e se ocorrer uma fixação em determinada imagem psíquica, levando a uma fantasia idealizada do outro, criando uma ilusão?

A ilusão é definida em seu sentido amplo como: engano dos sentidos, o feito de se tomar uma coisa por outra, a interpretação errônea de uma situação; aparência falseada, um devaneio, uma quimera, e até uma deformação perceptual do objeto. Jung (1991a) considera-a como manifestação natural da vida. Dorsch, Häcker e Stapf (2001) salientam a participação da fantasia na interpretação falsa que a ilusão provoca. Neste sentido, a ilusão poderia então fazer parte e, até ser necessária, para o campo projetivo das fantasias que se estabelecem no campo relacional dos encontros. O encontro com o outro faz parte da vida, esbarramos a toda hora, a todo o momento, com diversas pessoas, porém alguns se tornam mais significativos do que outros, até porque muitas vezes trazem em si histórias espetaculares. Ouço com freqüência histórias de encontros “novelescos” (ou fantasiosos?) que redundaram em relacionamentos marcantes de homens e mulheres. Encontros inesperados, oportunos e de coincidências que deram uma chance única de vivência com o outro. Espaço para a constelação de ilusões, fantasias e complexos.

A coincidência significativa sem ligação causal é definida por Jung como sincronicidade. Ele pontua (1991b, p. 15) que “certos fenômenos de simultaneidade ou de sincronicidade parecem estar ligados aos arquétipos em determinadas circunstâncias.”, ou seja, “A sincronicidade, portanto, significa, em primeiro lugar, a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo (…)”(1991b, p. 19) Dentro deste contexto, os encontros referidos como sincronísticos entre um homem e uma mulher surgem como a oportunidade de manifestação de um estado subjetivo psíquico, expresso através das fantasias projetadas um sobre o outro. Por ser uma experiência especificamente subjetiva é pouco visível em outras situações.

Muitas vezes, o efeito deste encontro gera surpresa, o que pode ativar energia suficiente para despertar um evento “invisível” até o momento, ou então, encobrir totalmente projeções de imagens psíquicas idealizadas. Quando me refiro a sincronicidade dos encontros estou tomando como referência um dos três tipos descritos por Jung (1991b), no qual ele categoriza a coincidência simultânea entre o conteúdo psíquico e uma situação externa sem conexão causal, como por exemplo encontros que suscitam grande intensidade emocional (taquicardia, sudorese, “falta de ar”, “sentimentos inexplicados”, etc.).

Compreender, interpretar, analisar o sentido e o significado do episódio sincronístico pode oferecer uma oportunidade de amadurecimento individual e o estabelecimento de um processo relacional menos idealizado. Contudo, o apaixonamento, o envolvimento ocasionalmente coíbe esta atitude. Relatar o fato posteriormente, não perde sua importância, mas diminui sua magnitude. Em tal situação, as dimensões individuais distintas provocam atividades psíquicas variadas que dependerão das características psicológicas de cada pessoa, por isso esses encontros podem oferecer a resolução, ou melhor, a compreensão (paulatinamente ou não) de um conflito interior através do “impacto” simbólico da fantasia desencadeada.

A fantasia é constituída por uma espontaneidade de motivos inconscientes que libertam tendências subjetivas; é a atividades compensatória do indivíduo e por isso deve ser compreendida no seu significado por expressar tendências da personalidade ainda não reconhecidas, até porque, “(…) quando as pessoas deixam falar seu inconsciente, este sempre conta as coisas mais íntimas” (JUNG, 1999, p. 33) e pode-se entender a fantasia como uma “fala” do inconsciente, através da “imagem da fantasia que se relaciona indiretamente com a percepção do objeto externo. Esta imagem depende mais da atividade inconsciente da fantasia e, como produto dela, aparece mais ou menos abruptamente na consciência como espécie de visão ou alucinação, mas sem o caráter patológico desta, isto é, sem fazer parte de um quadro clínico de doença.

A imagem tem o caráter psicológico de uma representação da fantasia e nunca o caráter quase real da alucinação, isto é, nunca toma o lugar da realidade e sempre se distingue da realidade dos sentidos por ser uma imagem ‘interna’.” (JUNG, 1991, p.417-418) Esta imagem interna tem um valor significativo para a experiência individual por expressar a totalidade de uma situação psíquica momentânea advinda da relação recíproca entre consciente e inconsciente (JUNG, 1991). Neste contexto, ela traz em si informações importantes que poderão ajudar a entender melhor o que se processa nos encontros que acontecem de forma sincronística, redundando em relações significativas.

A este respeito, observar as fantasias originárias e decorrentes do encontro homem-mulher, pode ser um caminho para um conhecimento individual mais aprofundado e, conseqüentemente, para a sizígia, pois “a ação da anima e a ação do animus sobre o eu são idênticas. É difícil eliminá-las, primeiro porque são poderosas (…) e em segundo lugar porque sua origem foi projetada e parece fundada consideravelmente em objetos e situações objetivas.” (JUNG, 1986, p. 14) O reconhecimento da projeção nos encontros relacionais é fato raro e não natural, por isso a conscientização das projeções anímicas envolve romper resistências.

Jung refere que “ao estabelecermos quase como exigência a necessidade de desfazer as projeções, porque é mais salutar e, sob todos os aspectos, mais vantajoso, começamos a trilhar um terreno inexplorado e desconhecido.”, pois “a representação de uma pessoa é constituída, primeiramente, pela imagem que ele recebe da verdadeira pessoa, e depois de uma outra imagem resultante da reelaboração subjetiva da primeira imagem, em si talvez já bastante falha.” (JUNG, 1986, p. 16) Isto pode ocorrer através das fantasias expressas no encontro com o outro, visto que a relação que o individuo mantém consigo está diretamente relacionada com a relação que ele mantém com o outro, por isso que a individuação não deixa de ter um caráter relacional, até porque, o par divino (símbolo da sizígia) “é simplesmente uma idealização dos pais ou de qualquer outro par amoroso” (JUNG, 2000, p. 72)

A projeção de fantasias sobre o outro carrega expectativas e experiências que tomam o indivíduo de tal forma que a carga afetiva, a libido, envolvida podem ser propulsoras de amplo desenvolvimento, ou então, a estagnação de uma vida. Jung refere que “Muitas vezes é trágico ver como uma pessoa estraga de modo evidente a própria vida e a dos outros, e como é incapaz de perceber até que ponto essa tragédia parte dela e é alimentada progressivamente por ela mesma. Não é a sua consciência que o faz, (…) Pelo contrário, é um fator inconsciente que trama ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito.” (JUNG, 1986, p. 8). Na situação em que o encontro com o outro envolve o apaixonamento, Kast (1997a) salienta que o indivíduo é tomado pelo complexo, a fantasia é ativada em alto grau, todas as experiências amorosas são evocadas, o sentimento de identidade é estimulado no intuito de uma experiência maior e mais ampla visando o desenvolvimento da personalidade.

Isto representa uma oportunidade, ao homem e a mulher, de fazer dos encontros e das relações advindas destes uma chance de crescimento, de se perceberem um através do outro pois não podemos esquecer que “(…) no inconsciente há um conteúdo de carga emocional pronto para projetar-se em determinado momento. O conteúdo é o tema da sizígia.” (JUNG, 2000, p. 77)

*Selene Regina Mazza é Doutoranda em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (1989). Tem especialização em Psicologia Junguiana pela Universidade de Ribeirão Preto/IBEHE(1997) e mestrado em Saúde Pública pela Universidade Estadual do Ceará (2002).

FONTE: Sizígia (Revista Coniunctio nº 3 Volume 1)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: