Relacionamentos Amorosos: “Prevenir é melhor do que remediar”?

“Tampuhan (Desentendimento)” por Juan Luna (1857-1899)

*Por Eugênia Marques de Oliveira Melo

Segundo Skinner (1953/2003), comportamento social é a interação de duas ou mais pessoas que se comportam de maneira a influenciar o comportamento da outra e juntas modificam o ambiente no qual estão inseridas. Então, segundo essa definição, a relação conjugal é comportamento social. Por exemplo, se o namorado manda mensagens para o celular da namorada dizendo que a ama, aumenta a chance desta responder a mensagem de forma carinhosa e de sentir felicidade, sentimento produzido pelo comportamento do namorado. A partir dessa ação recíproca, na qual cada parceiro tem sua parcela de responsabilidade, o relacionamento se constrói. No entanto, toda relação é composta tanto de eventos “bons” e “ruins” e a freqüência de cada um desses episódios se dará, em grande parte, devido à interação do casal.

Tomemos como exemplo, um casal fictício, João e Maria. Em alguns momentos, pode ocorrer de João se comportar de modo semelhante a alguma situação que, no passado, gerou uma conseqüência ruim para Maria e esta pode passar a atentar apenas para esse comportamento não desejado de João. Então, se ele costumava mandar mensagem para o celular de Maria todos os dias e há um dia ele não manda e não se falam, ela pode interpretar esse comportamento como o “começo do fim” do seu relacionamento. Essa ação de João poderia não ter qualquer significado dentro do relacionamento se Maria não tivesse vivido algo semelhante que teve como conseqüência o fim de um namoro e sentimentos ruins. “Viver na pele” uma situação, ou seja, experiencia-la, faz com que todos os estímulos ambientais, presentes no momento em que a resposta ocorreu, adquiram valores e significados que influenciarão nas próximas interações de Maria com seu ambiente.

O fim de um relacionamento amoroso geralmente é dolorido porque a pessoa deixa de entrar em contato com todas as coisas boas que o outro lhe fornecia e agora experiencia os sentimentos aversivos de “raiva”, de “tristeza” e de “baixa auto-estima”, oriundos da perda de um reforçador. Como os sentimentos produzidos pelo fim de um relacionamento são aversivos, a pessoa pode aprender a se comportar de modo a evitá-los ou eliminá-los a qualquer custo. E, se ela consegue se esquivar de maneira eficaz de uma situação, poderá adquirir esse padrão de comportamento e evitar qualquer tipo de relacionamento.

Skinner (1953/2003) argumenta que fugir de uma situação aversiva é diferente de evitá-la. O comportamento de fuga é toda resposta emitida com o objetivo de eliminar um estímulo aversivo presente no ambiente. Já no comportamento de esquiva, o indivíduo não é afetado diretamente pelo estímulo aversivo, pois a resposta emitida tem a função de evitá-lo. Mas se o estímulo aversivo não está presente no ambiente, como o indivíduo sabe que ele virá a ponto de evitá-lo? Skinner discorre que essa evitação pode ser explicada através do conceito de reforço negativo condicionado, o qual um estímulo ambiental que precedeu o evento aversivo adquire a função sinalizadora que este (o evento aversivo) ocorrerá. O estímulo sinalizador na contingência de esquiva recebe o nome de estímulo pré-aversivo.

Então, no exemplo acima, a resposta de não mandar mensagem para a namorada pode funcionar como um estímulo pré-aversivo de que “algo mudou no relacionamento”, sinalizando um possível fim do namoro. Diante disso, Maria pode reagir de diversas maneiras, dentre elas, ligar para o namorado e terminar o relacionamento, antes mesmo de ouvir qualquer explicação de João. Apesar de ter reagido provocando uma conseqüência ruim – a perda do namorado; a sensação de alívio, advinda da retirada dos sentimentos aversivos produzidos pelo pensamento que o namorado iria terminar, é uma conseqüência reforçadora, por isso tem sua probabilidade aumentada. Também, nesse caso, diz-se que Maria se comportou por esquiva porque a função da sua resposta foi evitar algo ruim (os sentimentos aversivos de ter sido “abandonada” pelo namorado). Se questionada por que se comportou desse modo responderá: “É melhor prevenir que remediar. Fiz antes que ele fizesse o mesmo comigo”.

Sidman (1989/2001) argumenta que a desvantagem do comportamento de esquiva é que ele empobrece o repertório comportamental do indivíduo, uma vez que este não se expõe às contingências para verificar se passará pela situação semelhante à passada. Além disso, contingências de esquiva são coercitivas e se caracterizam pela presença de fortes respostas emocionais como raiva, tensão, medo e ansiedade. Em contrapartida, defende que em algumas situações de proteção e de sobrevivência é importante que comportamentos de esquiva sejam ensinados e emitidos, como por exemplo, se agasalhar quando o tempo está frio.

Na nossa sociedade, muitas pessoas levam a vida se esquivando do que as amedrontam e por isso preferem agir da forma segura, onde os “fantasmas do medo” não habitam. O comportamento de esquiva pode se dá apenas em um determinado contexto, por exemplo, no amoroso, mas a depender de como o indivíduo interage com seu ambiente, ele pode se estender para todos os outros contextos de relacionamento, como familiar, profissional e de amizade. Com isso, a pessoa adquire uma vida pobre de afeto e de comportamentos para lidar com novas situações e procura terapia com a queixa: “Sou desconfiado. Tenho medo de ser abandonado e por isso, não consigo me relacionar com ninguém. As pessoas mais próximas a mim dizem que eu sou superficial e frio”.

Diante dessa queixa, o psicólogo analítico-comportamental, buscará informações sobre a história do cliente com o objetivo de conhecer quais variáveis ambientais são responsáveis pela instalação e manutenção do comportamento-queixa. Através da análise de contingência, o terapeuta compreenderá a função, ou seja, o porquê seu cliente se comporta como faz. Histórias de abandono em relacionamentos, geralmente, produzem sentimentos aversivos de “baixa auto-estima” ou de “inferioridade”. Então ao ouvir um relato de abandono, dos sofrimentos por ele produzidos e do significado que todo esse evento possui para o cliente, o terapeuta começará a entender porque é tão difícil para esse cliente se envolver com alguém.

Um dos maiores objetivos do terapeuta, nesse caso, será se estabelece como uma pessoa de confiança para o cliente para depois ensiná-lo a se relacionar. Delitti (2005) argumenta que uma sólida relação terapêutica é fundamental para fortalecer o vínculo entre terapeuta-cliente, pois quando o cliente se sente apoiado e sabe que pode confiar no terapeuta, ele começa a revelar informações que são punidas em outros ambientes. Por isso, é importante que o terapeuta seja um ouvinte não punitivo e que o contexto terapêutico seja de acolhimento e de empatia. Como conseqüência, as novas respostas que serão aprendidas e reforçadas durante o processo de terapia têm maior probabilidade de se generalizarem, ficando sob controle das contingências naturais.

À medida que a relação terapêutica vai se estabelecendo, o terapeuta pode ensinar o seu cliente a se auto-observar com o intuito deste expressar seus sentimentos e emoções no processo clínico. Meyer (1997) defende que um dos papéis do terapeuta é facilitar a ocorrência das emoções e discriminar qual o momento adequado para responder aos sentimentos expressos do cliente. Para isso, o terapeuta deve atentar para os comportamentos não-verbais, para os aspectos da verbalização, como entonação, volume da voz e cadência do cliente.

Além de trabalhar com os sentimentos, o terapeuta analítico-comportamental buscará alterar as contingências que mantêm o problema, pois acredita que modificando as relações entre o organismo e seu meio, modifica-se também a maneira de se comportar, bem como os sentimentos aversivos antes gerados. De acordo com Sidman (1989/2001), em relação à modificar o comportamento de esquiva: “tentar lidar com sentimentos sem alterar as contingências é infrutífero” (p.142).

Uma das alternativas de modificar a contingência é alterar o controle de estímulo do cliente. Para isso, o terapeuta pode solicitar que o cliente observe seu ambiente e o descreva. Desse modo, espera-se que o cliente fique sob controle de outras propriedades do estímulo. No caso de Maria, ela poderia lembrar que João falou que ia ter uma reunião muito importante no trabalho e que por isso, não teve tempo de ligar ou mandar mensagem. Ou então, descrever: “ele não me mandou mensagem hoje, mas ontem à noite nos falamos e ele me tratou bem”. Ao perceber a situação “com outros olhos”, a aversividade da situação pode diminuir e o cliente passa a atentar também para outras possíveis possibilidades que explicam o comportamento do seu parceiro.

Outra intervenção terapêutica é ensinar comportamentos alternativos ao cliente. Portanto, o terapeuta deve reforçar positivamente qualquer outro comportamento adequado, de modo que o cliente conheça outras formas de se relacionar, diferente da esquiva. Através de relacionamentos baseados no reforçamento positivo, o cliente experiencia sentimentos de confiança, de amor, de auto-estima. Ao generalizar, para os ambientes naturais, os novos comportamentos aprendidos em terapia, o cliente aumenta a chance de experienciar contingências reforçadoras positivas e de se envolver em novos relacionamentos de maneira confiável.

*Eugênia Marques de Oliveira Melo é Terapeuta Analítico-Comportamental em São Paulo, Graduada em Psicologia pela UFC e Especializanda em Clínica Analítico-Comportamental no Paradigma – Núcleo de Análise do Comportamento.

Fonte: Rede Psi

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