O Indíviduo Ameaçado Pela Sociedade: Capítulo I

Charge do Amarildo

*Excertos da Obra de Carl Gustav Jung

(…)

Em toda a parte no Ocidente agitam-se estas minorias subversivas que escondem as tochas incendiárias, prontas a brandi-las. Estas minorias trabalham na sombra, ao abrigo mesmo, ó paradoxo, da nossa humanidade e da nossa consciência do direito; de modo que nada se opõe à expansão das suas ideias, se não é o caso do espírito crítico duma certa camada da população, capaz de ponderação e de uma relativa estabilidade mental. Mas não é preciso deixarmo-nos ir até à sobrestimação da importância e do poder desta camada social. Ela varia de país para país em função do temperamento nacional; ela varia também de região para região, sob a influência da instrução e da educação públicas; e ela está além disso submetida à influência de perturbações agudas de origem política ou económica. Segundo estimativas optimistas, baseadas em observações feitas por ocasião de consultas eleitorais, esta camada estável engloba no máximo cerca de sessenta por cento dos votantes. Todavia uma apreciação mais pessimista não parece injustificada nem pode ser descartada sem exame, porque os dotes de razão e de reflexão crítica não são qualidades essenciais do homem. Mesmo quando estão presentes, elas se mostram instáveis, inconstantes, naturalmente vacilantes, e isso, por regra, proporcionalmente ao tamanho dos grupos políticos. O que poderia ainda subsistir de reflexão, de compreensão e de perspicácia no indivíduo encontra-se esmagado pela massa, e é por isso que esta última leva necessariamente à tirania autoritária e doutrinária, desde que o Estado fundado no direito manifeste sinais de fraqueza.

Em presença de uma situação dada, a discussão baseada em argumentos de razão só é possível e tem oportunidades de chegar a um fim, quando o potencial emocional inerente à situação não ultrapassa um certo nível crítico.

Quando, porém, as coisas chegam a este ponto, surgem esses elementos perturbadores da população que até aí, enquanto reinaram as normas da razão ou da ordem estabelecida, não introduziam mais que elementos duma existência apenas tolerada. Não se vá pensar que tais indivíduos constituam apenas raras curiosidades, ou que se encontrem apenas nas prisões ou nos asilos. Segundo a minha experiência, calculo que existe para cada doente mental manifesto pelo menos dez casos de loucura latente; se esta última não explode frequentemente, não deixa de valer menos que as concepções, os comportamentos e o brilho social destes seres se encontram sob o domínio de influências inconscientes, mórbidas e perversas, se bem que apresentem todas as aparências da normalidade. Por motivos bem compreensíveis, nenhuma estatística médica nos pode informar sobre a frequência das psicoses latentes. Mesmo se o seu número não atingisse dez vezes o dos alienados e dos criminosos manifestos, a sua percentagem relativamente fraca comparada com o conjunto da população encontrar-se-ia contrabalançada pela nocividade particular de tais indivíduos. O seu estado de espírito corresponde de facto ao de um grupo ou duma massa em estado de excitação colectiva, em presa de preconceitos afectivos e de fantasmas que os levam a tomar os seus desejos por realidades. No seio duma tal massa são os elementos associais que são adoptados: eles aí se sentem como peixes na água; a sua vivência pessoal, a sua experiência íntima, já lhes ensinaram a linguagem e a manipulação de tais estados afectivos. As suas ideias quiméricas, subtendidas por ressentimentos fanáticos, chamam-nos à sem razão colectiva e aí encontram férteis aluviões: não exprimem eles bem alto os motivos, os ressentimentos e as exigências que em indivíduos mais normais dormitam em geral sob o manto da razão, da aceitação, de resignação ou mesmo da comodidade? É por isso que os portadores de desequilíbrios latentes, apesar do seu número relativamente pequeno, se comparado com o conjunto da população, não deixam de constituir fontes eminentemente perigosas de infecção. E porque, em particular, o homem reputado normal não dispõe mais do que de um conhecimento muito limitado de si mesmo.(…)

Assim, aquilo a que se chama correntemente “consciência de si mesmo” não é, frequentemente, mais do que um conhecimento reduzido daquilo que se desenvolve na psique humana. (…)

É preciso, além disso, contar com este domínio da inconsciência, que está fora do alcance da crítica e do controlo do nosso consciente, e no seio do qual estamos expostos sem defesa a todas as influências possíveis e imagináveis, e a todas as infecções psíquicas. Qualquer que seja o perigo que tenhamos de enfrentar, não podemos defender-nos sem que nos conheçamos; isto é, não nos podemos proteger se não formos conscientes, se não nos esforçarmos por discernir aquilo que nos ataca, como, onde e quando nos arriscamos a ser investidos. (…)

(Para nos conhecermos não basta uma teoria “científica” do que é o indivíduo médio. Essa teoria “científica” basear-se-ia numa estatística, e esta não pode de maneira nenhuma aplicar-se a um indivíduo, porque cada indivíduo é único.)

Pensemos nisto: por um lado, para o julgamento científico, o indivíduo nada significa senão uma unidade, repetida num número infinito de exemplares, que bem se poderia designar por um número ou uma letra; e por outro lado, para a compreensão é precisamente o homem, artificialmente isolado e único, que é o único objecto por excelência do inquérito. (…)

Toda a medicina actual está imbuída na ideia de que a tarefa do médico é cuidar de um doente e não de uma doença abstracta qualquer que seja o seu portador. (…)

Ora, é o indivíduo que, como dado irracional, é o verdadeiro portador da realidade. Por outras palavras, é o indivíduo que é o homem concreto, em oposição ao homem normal ou ao homem ideal, que não é mais que uma abstracção e a única base das formulações científicas. (…)

Sob a influência dos preconceitos e dos condicionamentos científicos, não apenas a psique, mas também o homem individual, até mesmo os acontecimentos e as vivências pessoais, sofrem um nivelamento e uma distorção que os desfiguram, reduzindo a imagem da realidade às proporções duma ideia média. E não se subestime a eficácia psicológica que emana duma imagem estatística do mundo: ela recalca o indivíduo a favor de unidades anónimas que se reúnem em agrupamentos de massa. Isto é, em vez do ser individual surgirão os nomes de organizações, no cume das quais figurará a noção abstracta do Estado, encarnando o princípio da realidade política.

E daí resulta, infalivelmente, que a responsabilidade moral do indivíduo é substituída pela razão de Estado. No lugar duma diferenciação moral e espiritual do indivíduo surgem a prosperidade pública e o aumento do nível de vida; nesta perspectiva, a finalidade e o sentido da vida individual (que, insistamos, é a única vida real) já não reside no desenvolvimento e amadurecimento do indivíduo, mas na realização dum conceito abstracto, que tem a tendência, definitivamente, a tirar-lhe toda a vida; em contrapartida ele será, como unidade social, regido, administrado, divertido por uma organização pré-fabricada de lazeres, no seu conjunto culminando numa satisfação e num bem-estar das massas, que é o critério ideal. (…)

A escravidão e a rebelião são sempre correlativas e não se saberia separar uma da outra. É por isso que o apetite e o ciúme do poder, e uma desconfiança crescente, penetram todo o organismo estatal de alto a baixo. Além disso, uma massa engendra automaticamente, por compensação do seu carácter caótico e informe, o seu chefe, o seu “Fuehrer”, que, por assim dizer obrigatoriamente sucumbe à inflação do seu “eu”, e não pode deixar de ser vítima; a história oferece-nos muitos exemplos. (…)

É o racionalismo do pensamento científico que se manifesta como um dos principais factores da aglutinação dos indivíduos em massa; de facto, este racionalismo priva a vida individual das suas bases, e, por conseguinte, da sua dignidade e da sua legitimidade, pois o homem como unidade social perdeu a sua individualidade e se transformou num número abstracto da estatística social. Como número, só pode desempenhar o papel duma unidade infinitesimal e intermutável. (…)

Nesta óptica, a importância do indivíduo é de tal modo pequena que chega mesmo a desaparecer, e quem quer que se esforce por apoiar o contrário, tem a maior dificuldade em encontrar argumentos. (…)

Que pesam na verdade alguns indivíduos em face de dez mil, de cem mil, ou de um milhão de outros? (…)

Quanto maior é a multidão, mais desvalorizado o indivíduo. E desde que o indivíduo se identifique com o sentimento esmagador da sua pequenez e da sua futilidade, e que ele perca o sentido da sua vida – que não se esgota na noção da prosperidade pública ou dum melhor nível de vida – ele está no caminho da escravatura do Estado e tornou-se, sem o saber e sem o querer, seu promotor. Quem quer que não olhe senão para o exterior e para os grandes números, despoja-se de tudo que poderia ajudá-lo a se defender contra o testemunho dos sentidos e contra a sua razão. Ora é isto que infelizmente o mundo está em vias de fazer. Está de tal modo fascinado pelas verdades estatísticas e pelos grandes números, que fica ferido de estupor e, todos os dias do Senhor, é reforçado no sentimento evidente da impotência e da nulidade da sua personalidade individual, que nada é porque não representa qualquer organização colectiva. Ao invés, o indivíduo que sobe ao palco do mundo, que se torna visível de longe e cuja voz se ouve a longa distância, parece, aos olhos dum público sem espírito crítico, ostensivamente levado por um certo movimento de massa ou por uma opinião pública, e é essencialmente por este motivo que ele será aceite ou combatido. A experiência mostrou que nestes casos, a sugestão colectiva domina, e, desde então, não se pode saber se a mensagem do homem político é o fruto da sua acção pessoal, de que é o único responsável, ou se ele não é o alto-falante duma opinião colectiva. (…)

Na realidade, o Estado não é senão uma camuflagem que utilizam os indivíduos que o manipulam. Por esse facto, a convenção original do Estado escorrega cada vez mais para a situação e uma forma de uma sociedade primitiva, na ocorrência de um comunismo de uma tribo primitiva, submetida à autocracia dum chefe ou de uma oligarquia.

Tradução: Joaquim Reis

Nota: Os excertos acima foram escritos em 1957, 4 anos antes da morte de Carl Jung.

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