“Ser Adulto”: Alguns Elementos Para a Discussão Deste Conceito e Para a Formação de Professores de “Adultos”

*Excertos de Nilce da Silva

Segundo Piaget, o adolescente prepara-se para inserir-se na vida adulta. Pensamos que com isto ele quer dizer, que o mesmo prepara-se para o ingresso na universidade, na busca de profissão, ou ainda, na constituição de uma família. Neste ponto da nossa exposição, questionamos: de qual adolescente Piaget nos fala? Com certeza ele não se refere ao menino de 8 anos que trabalha como cortador de cana no nordeste, e muito menos, ao supra-escolarizado em língua portuguesa que não consegue o emprego que poderia ter encontrado no Brasil, tornando-se babá com título universitário nacional em Paris.

Feitas estas considerações e na tentativa de alcançar o objetivo deste artigo, perguntamo-nos: existiria de fato um homem adulto, ou seja, um homem que tivesse: maturidade, autonomia, cooperação, pensamento lógico…. e que não tivesse: sonhos extraordinários para seu futuro, medos inexplicáveis e se considerasse em constante evolução? Respondemos: Não, não existe este homem; existem sim, fases da vida do ser humano nas quais ele vem a ter o perfil descrito nas quatro etapas do desenvolvimento infantil.

Sendo assim, concordamos com Pierre Furter quando ele nos diz em sua obra “Reflexão e Educação” que o ser humano pode ser definido como um ser inacabado. Assim, acrescentamos que sendo a criança um ser humano; tal qual o adulto, o adolescente e o jovem, todos, portanto inacabados, incompletos, em busca da perfeição, não se faz possível denominar, da maneira como tem sido feito, as etapas da vida do Homem no nascimento à morte. Podemos analisar, categorizar, indicar…. diversas maneiras de agir, pensar e sentir vivenciadas por qualquer ser humano, isto sem atribuir-lhe este ou aquele rótulo que indica apenas um ideal – padrão de normalidade para o adulto e portanto, motivo de discriminações pessoais e neuroses – que nunca vai ser alcançado.

Furter afirma também que o homem, por ser inacabado, tende à perfeição. A educação é, portanto, um conjunto de modificações que formam um processo contínuo de formação que só acaba com a morte. Para este pensador, deve-se admitir uma concepção outra de maturidade. Ou seja, não podemos afirmar, como tantos querem e o fazem, que a criança é um ser imaturo que caminha para a maturidade que é alcançada na idade adulta. Podemos falar que o homem é pré-maturo e que vive em contínuo estado de aprendizagem, de amadurecimento independentemente do tempo bio-cronológico que não pára. Por isso, a educação de adultos tem sentido. O mesmo continua aprendendo.

Não é possível, pois, dividir a vida humana em duas partes distintas: o tempo da aprendizagem (da infância e da adolescência) e o tempo da maturidade, no qual se goza o aprendizado. Assim, a própria noção de maturidade torna-se indefinida, podendo mesmo desaparecer, segundo certos autores, dando lugar à noção de maturação contínua. Sendo assim, ainda segundo Furter, o adulto é, também, um ser aperfeiçoável, perfectível, mesmo dentro dos seus limites e limitações e, a capitalização das suas experiências lhe impõem a possibilidade de modificar seu futuro em busca do equilíbrio.

Sabemos também que, ao longo da história do Homem, tem-se feito uma associação estreita entre o avançar da idade e o declínio das forças. Hoje, esta relação tem sido discutida, pois sabemos que, com o desenvolvimento da Gerontologia, abrem-se perspectivas novas para o homem em cada idade, ou seja, novas possibilidades de realização e aperfeiçoamento. Portanto, a concepção tão comum de “oslerismo”, segundo a qual a velhice é forçosamente uma degenerescência, deve ser eliminada, por ser uma visão pessimista a priori e não científica do curso da vida humana.

Em suma, o homem é um ser que aparece imperfeito e inacabado no mundo. Seu destino, pela sua história pessoal, é ascender à plenitude. Sendo assim, não há possibilidade de definirmos “ser adulto”. Podemos apenas falar em “momentos de vida” aos quais respondemos desta ou daquela maneira. Podemos, em contrapartida, recorrer aos nossos sujeitos, migrantes especialmente nordestinos em São Paulo. Eles teriam poucas possibilidades de vida digna em seus locais de origem. Por isso, ou continuariam explorados em trabalhos insalubres, sem vínculo empregatício e de baixa remuneração, como os cortadores de cana em Pernambuco, os coletadores de sisal no interior da Bahia, vendo seus filhos na mesma situação, ou partiriam em busca de um espaço nesta Terra, emigrando, por exemplo, para São Paulo. Desta forma, não podemos ignorar esta situação, e portanto, apontamos o fator econômico como uma das principais causas dos movimentos migratórios, não a única, mas a fundamental.

Assim, para os migrantes na cidade de São Paulo, ou ainda, para as brasileiras nordestinas, com pouca ou nenhuma escolarização em língua portuguesa, que casaram-se com suecos, para obterem a permissão de emigrarem, o fator econômico, a luta pela sobrevivência no cotidiano, é mola expulsora destas pessoas de suas terras. Já, com relação aos brasileiros em Paris, o fator econômico, pelo menos entre os nossos entrevistados, não foi o motivo principal que os levou a deixarem o Brasil. Destacamos: a ditadura brasileira no final dos anos 70 e ainda, a possibilidade de estudos no exterior. Sendo assim, recorremos à figura mítica do deus Janus, como símbolo da situação vivida por nossos sujeitos, (i)migrantes em situação de inserção.

Tal personagem mitológica possui duas faces, uma que olha para o passado com suas perdas e rupturas decorrentes da migração, e outra, olhando para o futuro, cheio de riscos e perigos desconhecidos. Acrescentamos ainda à rede de significações que pode ser atribuída a esta imagem, que o (i)migrante apresenta na interação, uma face no local onde ele chega, e outra, diferente, para o seu lugar de origem. Na primeira, a expressão facial é de pessoa cordata, submissa; já na segunda, a face é do vencedor, do corajoso; uma face de opressor, outra de oprimido. Sendo assim, a peça de bronze de 9,4 cm de altura que permaneceu na mesa de trabalho de Freud, durante os últimos anos de sua vida, é essencial para nossa reflexão. Tratava-se de um balsamário etrusco do século II a. C., composto por uma cabeça de duas faces, uma masculina e outra feminina, representando a unidade clivada pela dualidade. Ou ainda, a cabeça de Janus feita de pedra que ele possuía em 1899, deus romano representando igualmente a dualidade em suas mais diversas formas – o belo e o feio, o novo e o velho, e, mais essencialmente, o masculino e o feminino, pode ser considerado um símbolo da constituição do ser humano desde a mais tenra idade até os últimos de dias de sua vida.

*Nilce da Silva é Professora-Doutora na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Brasil.

Leia o artigo na íntegra AQUI

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