Adultescência: A Dor e o Prazer de Tornar-se Adulto

Foto da Série “Kidults” de Marcin Cecko

*Por Maria Angélica Amorieli Bongiovani

Não é fácil, em nossos dias, descrever o que é ser adulto. A complexidade, a diversidade e as singularidades da cultura contemporânea nos revelam diferentes manifestações do ser adulto. Nós, psicoterapeutas, lidamos no dia-a-dia dos atendimentos, com este fenômeno da adultescência ou Kidadults (fusão, em inglês, das palavras criança e adulto). Somos visitados e testemunhamos toda essa dor e dificuldade na aceitação de mudanças e transformações. Mas afinal, o que vem a ser adultescência? Definimos como sendo uma pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Geralmente entre 35 e 45 anos, os adultescentes não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovens. Não conseguem aceitar o fato de deixarem a casa dos pais e se casados; não conseguem assumir suas responsabilidades, dificultando o relacionamento com o cônjuge devido à interdependência com os pais, impossibilitando assim, uma relação duradoura, ou seja, dificuldade em formar vínculos.

Na realidade, existe dentro de cada um, uma profunda fragilidade de ego, uma descrença em si mesmo ou toda uma história de um contexto implícito, na dinâmica da família, contribuindo para esta incapacidade. Talvez, a existência da formação de um conluio ou acordo formado entre pais e filhos, na qual, beneficiam de alguma forma, dificultando a autonomia ou independência emocional de ambos.

Curiosamente, os contos de fadas lidam, de forma literária, com os problemas básicos da vida, especialmente os inerentes à luta pela aquisição da maturidade. Bruno Bettelheim, (1903) em A Psicanálise dos Contos de Fadas, faz uma maravilhosa relação metafórica entre esta dificuldade de aceitar a aquisição da maturidade com a história de João e o pé-de-feijão. De forma simbólica vai fazendo uma viagem, trazendo o conto para nossa realidade contemporânea. Nesta estória a boa vaca leiteira branca, que até então sustentara o filho e a mãe, para de repente de dar leite.Assim começa a expulsão do paraíso infantil.

É a época em que a mãe solicita que a criança aprenda a se arranjar com o que o mundo externo lhe pode oferecer. João esta mais que disposto a trocar a vaca por qualquer promessa de solução mágica para o impasse de vida em que se encontra. Ser enviado de encontro ao mundo significa o final da infância e adolescência, então deve começar o processo longo e difícil de se transformar em adulto.Quando João recebe as sementes mágicas,sobe no pé-de-feijão por iniciativa própria e não por sugestão de outrem,usa a força do corpo com perícia para escalar o pé-de-feijão,e arrisca a vida três vezes antes de conseguir os objetos.

Mas,quando João troca à vaca por três sementes mágicas,a mãe o ridiculariza, fica com raiva dele, bate nele, e pior ainda, manda João para a cama sem comer. Isto é,incorre no exercício de seu poder oral destituidor: com castigo pela demonstração de iniciativa.Isto ocorre com muita freqüência em algumas famílias ,onde crianças com iniciativa criativa e saudável,tentam realizar algo e são impedidos e proibidos resultando em fortes inibições e uma possível impotência diante das adversidades ou até mesmo na vida. À moda dos contos de fadas, a estória retrata os estágios de desenvolvimento que um menino deve atravessar para se tornar um ser humano independente, e mostra como isto é possível, e até mesmo agradável-apesar dos perigos-e é até vantajoso.

Na primeira expedição, João apanha uma bolsa cheia de ouro. Isto permite que ele e a mãe comprem o que precisam, mas o dinheiro acaba. Na segunda viagem João consegue a galinha que bota ovos de ouro: aprendeu que as coisas se acabam se não pudermos produzi-las ou ter quem as produza. João se contentaria com a galinha, pois agora todas as necessidades físicas são satisfeitas.

Por isso, não é a necessidade que motiva a última viagem, mas o desejo do risco e da aventura-desejo de encontrar algo mais do que simples bens materiais. Assim, em seguida, João consegue a harpa de ouro, que simboliza a beleza, a arte,as coisas superiores na vida.Segue-se então a ultima experiência de crescimento,com a qual João aprende que confiar em mágica para resolver os problemas da vida não funciona.

Quando o ogre ou gigante o persegue pelo pé-de-feijão, João grita para a mãe pegar o machado e cortar o pé-de-feijão. A mãe traz o machado como foi pedido, mas,quando vê as enormes pernas do gigante descendo o pé-de-feijão,fica paralisada, e é incapaz de lidar com esta dificuldade.

Num nível diferente, a atitude da mãe significa que embora ela possa proteger o filho contra os perigos que a luta pela masculinidade envolve, não pode consegui-la por ele, só ele mesmo pode fazê-lo. João agarra o machado e abate o pé-de-feijão, e com isso derruba o ogre que morre da queda.A mãe em “João e o Pé-de-feijão”,quando o ridiculariza ,e o castiga por ter trocado a vaca pelas três sementes mágicas,não consegue ajudar o filho porque,em vez de apoiar sua masculinidade em desenvolvimento,nega sua validez.

O pai deve encorajar o desenvolvimento sexual puberal da criança, particularmente quando ele busca metas e realizações no mundo maior. Se tudo tivesse ocorrido como a mãe de João queria, ele permaneceria uma criança imatura, e nem ele nem a mãe teriam escapado da miséria. A estória ensina que o erro dos pais é basicamente a falta de uma resposta apropriada e sensível aos vários problemas envolvidos na maturação pessoal,social e sexual da criança.O limite deve existir,é claro,e isto é muito importante. Filhos necessitam de se sentirem cuidados, pois sentem que são amados. Temos de ter sabedoria, percepção e discernimento para entender o momento de suas descobertas e conquistas para seu crescimento em todos os sentidos e direção. Muitas vezes o impedimento para que eles não troquem a vaca que parou de dar leite por sementes mágicas, podem fazer com que eles fiquem impotentes diante da sexualidade pela vida.

*Maria Angélica Amorieli Bongiovani é Psicóloga e Psicoterapeuta de Orientação Analítica: bongio@speedymed.com.br

FONTE: Cardiovida

 

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O Risco da “Adultescência”

*Por Gilberto Dimenstein

É cada vez mais visível o fenômeno de adultos, que receberam educação de qualidade em escolas universidades de elite, ainda vivendo com os pais. É o que psicólogos chamam como parte do que se batizou de “adultescência”.

A “adultescência” acaba de ganhar uma estatística sombria, feita pelo Dieese:

o jovens das famílias mais ricas têm dificuldade de encontrar emprego. A taxa de desemprego, nesse segmento, é de 22%, que é maior do que a média nacional.

Não sei quantos sinais são socialmente mais graves do que esse: afinal, são jovens que receberam educação de qualidade, aula particular, apoio de psicólogos, viajaram, foram a museus, cinemas, teatros. Isso sugere que a sociedade está mais e mais exigente, aumentando seus filtros.

Mostra também que os jovens mais pobres, a imensa maioria, sem tantos apoios, tendem sofrer ainda mais restrições. É o que se vê na estatística do Dieese: entre os jovens de 16 a 24 mais pobres o desemprego, nas regiões metropolitanas, se aproxima dos 70%.

Daí se avalia o tamanho dessa bomba social.

*Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às terças-feiras.

FONTE: Jornal Folha de São Paulo

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