O que é “ser adulto”: as práticas e representações sociais sobre o que é “ser adulto”…

*Excertos de Artigo de Filomena Carvalho Sousa

(…) De acordo com Boutinet (2000), na sua obra A imaturidade da vida adulta, os estudos sobre o adulto são, na generalidade, escassos porque “falar sobre a vida adulta pode parecer aparentemente banal” (BOUTINET, 2000, p. 13); a vida adulta é “deixada aparentemente nas suas antigas certezas como uma idade sem problemas, uma vez definida como idade de referência” (BOUTINET, 2000, p. 11) para todas as outras fases de vida.

Destacamos esta afirmação de Boutinet já que ela nos remete para a particular atenção que se deve dar à vida adulta e provoca algumas interrogações: para além da aparência, a vida adulta pode ser outra coisa que não uma idade de referência? A que “antigas certezas” se está a referir Boutinet? Será que, nos dias de hoje, podemos referir-nos à adultez como uma fase de vida aproblemática? Não será evidente a sua complexidade? Parece cada vez mais inegável a importância de considerar a idade adulta enquanto objecto teórico e de investigação e, para além do défice conceptual com que nos confrontamos quando se pretende pesquisar sobre esta fase de vida, a temática da idade adulta torna-se cada vez mais actual. A provar isso estão os mais variados termos que surgem na língua portuguesa e tentam definir a fase de vida adulta, como, por exemplo, adultez, “adultado, adultidade, adultescência, andragogia, maturescência, antropolescência” (BOUTINET, 2000; COSTA E SILVA, 2003), e ainda, vocábulos que evidenciam a indeterminação dos limites das categorias etárias e a ambivalência complexa e paradoxal que envolve o conceito de vida adulta (BOUTINET, 1993).

Esta ambiguidade tem vindo a ser tema de interesse, a partir dos anos de 1990, de um maior número de estudiosos devido, especialmente, ao facto do modelo tradicional de entrada na vida adulta, que considera o adulto como um estatuto a atingir com a obtenção de estabilidade na vida profissional, financeira e familiar, sofrer várias pressões sociais com:

a- O prolongamento escolar e a necessidade de formação contínua;
b- O crescimento de aspirações à mobilidade social;
c- A mudança no sistema familiar e matrimonial – os novos modelos conjugais;
d- A possibilidade de se programar e adiar o momento da procriação – que permite maior autonomia na gestão dos calendários profissionais, escolares, conjugais e de lazer;
e- A melhoria das condições de vida – saúde e higiene – tendo o adulto a possibilidade de viver mais anos, remetendo a idéia de morte para lá de um percurso que se prolonga por uma diversidade de experiências de vida; o aumento da esperança de vida permite questionar o momento em que se deve ou pretende “assentar” e, neste caso, estabilidade pode significar não evoluir num percurso aberto a múltiplas possibilidades;
f- As mudanças nos modos de passagem à vida profissional, os quais, cada vez mais longos, conduzem menos frequentemente e menos directamente a um emprego estável;
g- A revolução das necessidades, o incremento do consumo, da informação, da promoção do lazer, do “rejuvenescimento” e do hedonismo (TEIXEIRA, 2001).

O factor social mais importante na idade adulta sobre o qual devemos reter a nossa atenção é, no fundo, o desenvolvimento de uma sociedade assente numa cultura pósmoderna: a idade adulta deixou de ser aproblemática e remetida para segundo plano, pois segundo Boutinet (2000), já não se estrutura como a idade da referência e da norma. A fase de vida adulta, com o aumento da esperança de vida, ocupa cerca de trinta e cinco a quarenta anos do total do percurso de vida de cada indivíduo. Este facto torna urgente a investigação acerca deste novo adulto que tem pela frente diversos caminhos a percorrer, muitas decisões a tomar e experiências para viver.

Na actualidade, a idade adulta é uma idade de inacabamento, autonomia, liberdade, incerteza, risco e individualização (BOUTINET, 2000). Por outro lado, o adulto inacabado da modernidade avançada coexiste com o adulto padrão da modernidade e estabelece-se um paradoxo particular entre a representação tradicional e a representação moderna (positivista ou pessimista) do que é ser adulto. Os valores pós-modernos caracterizam uma sociedade em que se questionam as evidências, onde os adultos pensam a sua existência num cenário de dilemas, de oposições e de dialéctica, onde a pessoa e as instituições têm de reinventar-se constantemente. (…)

É, então, urgente realçar os paradoxos que se evidenciam entre estas duas representações de ser adulto e estruturar um quadro teórico para a adultez. A pertinência da questão O que é ser adulto? justifica-se com a necessidade de trabalhar uma fase de vida a qual não pode ser ignorada e que, tendo sido considerada como referência para outras idades, aparece agora desestabilizada. Ignorar a existência de um número cada vez maior de adultos desiludidos ou resignados com o seu trabalho e com a sua vida familiar é fechar os olhos a uma realidade que leva adolescentes, jovens e os próprios adultos a afirmarem que não querem ser adultos e a adoptarem uma postura pessimista face à adultez.

Perante a complexidade da questão opta-se, invariavelmente, pelo discurso mais negativo permeado por uma certa nostalgia pelo passado e pela rejeição da actualidade, não se assumindo as contradições (…). (…). O “medo de ser adulto” pode dar-se, exactamente, porque se desconhece o que significa, nos dias de hoje, viver nesta fase de vida. Sabe-se que muita coisa mudou, mas não se compreende em que sentido. (…).

(…). O estudo da vida adulta encontra-se inscrito na bruma e na marginalidade. Isso porque é necessário um exercício de desconstrução para conceber o adulto fora da sua “normalidade” ou mesmo da sua “banalidade”. Esse exercício implica a autoconfrontação e o balanço entre aquilo que é socialmente correcto, normalizado, o que é socialmente imposto, o que é socialmente proporcionado e possibilitado, e ainda, aquilo que se pensa, o que se quer, as ambições, as acções, os trajectos e as estratégias definidas individualmente.

Do adulto padrão ao adulto perspectiva ou problema

O adulto padrão define-se como o indivíduo equilibrado, estável, instalado e, consequentemente, rotineiro. Trata-se de um adulto produto da confiança ilimitada no progresso, na possibilidade de se poder controlar e projectar todas as dimensões da vida humana através da definição de um ciclo de vida linear, com etapas a percorrer e objectivos a cumprir. O adulto padrão será aquele que atingiu a maturidade biológica, sexual, psicológica. Ou seja, conforme Boutinet (2000), identidade social construída, na perspectiva da inserção e da autonomia financeira. Um estatuto, o qual não pode ser definido exclusivamente em termos etários, mas que, usualmente, é remetido para uma idade que se encontra entre o intervalo dos 25 aos 65 anos.

(…). Após a Segunda Grande Guerra e, sobretudo, nos anos 60 e 70 do século XX, o termo adulto adquire novos significados. Considerando concepções provenientes da Psicologia, da Psiquiatria e da Filosofia é possível identificar o desenvolvimento de várias pesquisas (TEIHLARD DE CHARDIN, 1959; ROGERS, 1961; LAPASSADE, 1963) que têm em conta as mudanças socio-económicas advindas de uma sociedade industrial em expansão; o desenvolvimento e impacto de novos dispositivos técnicos e das novas tecnologias da informação; o incremento da sociedade de consumo e a evidência do fenómeno da individualização. Desse modo, substitui-se o adulto padrão – como estado terminado e estático – pelo “adulto inacabado”, sujeito a um contínuo processo de construção e desenvolvimento. O adulto “é entendido doravante […] (em) maturidade vocacional nunca atingida, (…) em contínua conquista” (BOUTINET, 2000, p. 17). (…).

Perante esta nova direcção dada à definição do conceito de adulto é possível identificar duas posições distintas. Assim, se por um lado se identifica o adulto com um processo de construção, questiona-se o sentido desse processo e, até meados dos anos 70, vários trabalhos defendem, essencialmente, a perspectiva do optimismo construtivista – uma corrente assente na perspectiva humanista evolucionista (ROGERS, 1961), que fundamentava a existência de uma orientação positiva para todos os homens. O “estado inacabado do homem” era visto como a possibilidade de progredir e de conservar as suas formas juvenis. Nesse caso, a angústia dos indivíduos face às características da sociedade moderna e industrial é considerada como “remanescente, como portadora de esperanças e optimismo” (BOUTINET, 2000, p. 15). Nos anos 60-70, o recurso à mudança é, então, proclamado por um “optimismo ingénuo” que origina alguns efeitos perversos. O “medo de mudar” é entendido como “resistência à mudança” e é visível a obsessão pela dinâmica dos percursos e dos acontecimentos.

A partir dos anos 90, o processo de construção ao qual o adulto está sujeito passa a ser questionado segundo uma visão pessimista; a angústia deixa de ser considerada como remanescente, para colocar o adulto perante uma situação, por vezes, desesperante. O desenvolvimento de uma sociedade pós-industrial – na qual predomina a incerteza, o risco, as desordens, as situações de precariedade, além da vulnerabilidade e da marginalização – promove a permanente instabilidade, especificamente, no trabalho e na família (BOUTINET, 2000; EHERENBERG, 1991, 1995). Jean-Pierre Boutinet (2000) lista, assim, três modelos que estão na base da definição do conceito de adulto:

1) um modelo tradicional do adulto padrão, estático, estável, que caminha, vocacionalmente, para uma maturidade que entende como definitiva (…) e outros dois modelos emergentes que, nos últimos trinta anos, têm caracterizado as duas direcções para onde se encaminha o adulto inacabado. São eles:
2) o adulto em perspectiva, do perene desenvolvimento vocacional;
3) o adulto como problema, do caos vocacional.

O novo adulto – o inacabamento coexiste com a padronização

O que consideramos perante essas definições do conceito de adulto é que todas elas coexistem actualmente no próprio indivíduo e na sua forma de viver a adultez. Estabelecesse um paradoxo particular entre a representação tradicional e a representação moderna (optimista ou pessimista) do que é ser adulto. (…): a existência de “mudança na continuidade” e a ”continuidade na mudança” (MACHADO PAIS, 2001; COSTA E SILVA, 2003). A “prematuração e a imaturidade coexistem ao mesmo nível que peças da sociedade industrial perduram dentro da sociedade pós-industrial” (BOUTINET, 2000, p. 228).

Ou seja, como se afirma anteriormente, a representação do adulto continua a impor-se numa perspectiva de estabilidade – o adulto socialmente inserido e categoria etária de referência para as demais categorias etárias – no entanto, o indivíduo, pressionado ou de forma voluntária, procura afastar-se dessa impressão de estabilidade. “Actuais testemunhos de adultos evidenciam a sua preocupação de se manterem jovens o máximo tempo possível, até mesmo adolescentes, nunca deixarem de crescer, mantendo-se neoténicos (inacabados), sempre em busca de realizações a completar, de acções a recomeçar com a preocupação de conservar uma réstia de juventude, um gosto permanente do inédito.”(BOUTINET, 2000, p. 19). Porém, ao assegurar cada vez menos a sua identificação a um estatuto de estabilidade, o adulto vê-se ele próprio sem pontos de referência, por vezes perdido entre múltiplas dependências. Vê-se vulnerável, confrontado com situações complexas que o ultrapassam.

O adulto situa-se actualmente numa sociedade de escolhas, decisões e de projectos. Contudo, essas decisões, escolhas e esses projectos realizam-se cada vez mais sem a protecção de um quadro estruturado de identificações; cada vez mais as decisões dependem do indivíduo e da sua capacidade de se auscultar a si próprio. A sensação é, por vezes, a de “duplo vazio existencial e societal” (BOUTINET, 2000, p. 227). Existem, dessa forma, duas lógicas que resumem as diversas perspectivas sobre o que é ser adulto: a primeira, considera o adulto um sujeito equilibrado, estável, mesmo rotineiro e instalado e outra, que reconhece o adulto como um sujeito que se perspectiva em desenvolvimento, numa atitude de experimentação, de progressão, de formulação de desejos e concretização de projectos (COSTA E SILVA, 2003) e outra que trata o adulto como aquele que tem que lidar com o imprevisto, o risco, a exclusão e a inexistência de quadros de referência. (…)

Os extremos – da sublimação à morte do adulto

Para além da dualidade adulto padrão/adulto inacabado, a representação social sobre o que é “ser adulto” enquadra-se, usualmente, entre duas representações antagônicas: uma que sobrevaloriza a adultez e outra que a desvaloriza completamente; ou seja, uma representação positiva e outra negativa. A imagem da adultez enquanto fase de aquisição de estabilidade, idade de referência e fase da concretização das ambições e projectos definidos na vida familiar e profissional; parece ter sido, até há cerca de trinta anos, algo inquestionável e que remetia o adulto para um pedestal em relação às outras fases de vida, isto considerando a sua capacidade de realização pessoal e o valor da sua utilidade social e produtiva.

A adultez é entendida, nesse sentido, como um estatuto a atingir pelos mais jovens e a recordar com nostalgia pelos mais velhos. É esta fase de vida que estrutura a definição do ciclo de vida do indivíduo, pois é nela que ele, o adulto, se evidencia, projecta e realiza. Essa definição de adulto idealiza um indivíduo perfeito que é sublime, um herói, um santo, o empresário de sucesso, competente e vencedor (BOUTINET, 2000). A questão que se coloca é se essa representação de adulto continua ser actual? Se ela se ajusta a uma sociedade cada vez menos previsível e cada vez mais incerta? Ou mesmo, se este adulto exemplar alguma vez existiu na prática? O que acontece, na maior parte das vezes, é verificar-se um movimento entre um “optimismo utópico e um pessimismo exagerado”, entre a exaltação e a depressão de ser adulto (MILLET-BARTOLI, 2002; BOUTINET, 2000), entre a “sublimação”, que coloca o adulto no primeiro lugar do pódio das fases de vida (enaltecendo a plenitude das capacidades físicas e psicológicas e a possibilidade de total realização e reconhecimento pessoal e social) e a recusa da aquisição de tal estatuto, promovendo-se a teoria da “morte ou inexistência” desse adulto ideal-tipo – enumerando as desvantagens de ser adulto: os sinais de envelhecimento, de cansaço e de desgaste físico e psicológico. Entre essas duas posições é usual, ainda, a atitude, não menos negativa, de resignação ou indiferença.

Para A. Miranda Santos, no artigo A inexistência da adultez (1979), o adulto é apenas um modelo referencial, teórico, ideal que nunca existiu em termos reais. Miranda Santos vê este adulto como “uma pobre imagem que, provavelmente, se forma e conserva em nós desde a infância e, por isso, comporta numerosos elementos inconscientes. Como imagem é uma realidade. Mas, perante a realidade, obtida ou a obter por observação científica, é apenas uma ilusão” (SANTOS, 1979, p. 144). Para Santos, na obra utilizada acima, esse é um “modelo metafísico-moralizante do adulto” que tem por base “a famosa e por demais arreigada divisão, quer em psicofisiologia, quer em psicopatologia, ou seja, […] da existência em evolução-involução” (SANTOS, 1979, p. 146).

(…) (…)

Outro argumento que induz à hipótese da morte do adulto tem a ver com o facto de ser cada vez mais difícil delimitar as diferentes fases da vida, em termos etários, das práticas, dos comportamentos e das atitudes que mais correspondem conformes às mesmas. Estas vão diluindo-se umas nas outras e deixam ao adulto um espaço que parece cada vez mais curto e indefinido. Na verdade, se, por um lado, a juventude prolonga-se por tempos de experimentação, percursos escolares e papéis sociais, por outro lado, o adulto e o idoso parecem rejuvenescer. Ou seja, os jovens são um género de “social no man’s land” (BOURDIEU, 1984, p.95) – são adultos para certas coisas e para outras não, ou então, é-se jovem e adulto em simultâneo (RAMOS, 2002), daí resulta a ambígua expressão jovens adultos a testemunhar a mudança que actualmente define o prolongamento do período de transição para a vida adulta. O indivíduo situa-se numa posição intermédia: já não se considera propriamente jovem, mas também não se acha adulto; está numa fase híbrida entre o ser jovem e o ser adulto, fase de é recém-adulto.

Por sua vez, a seguir ao jovem adulto poder-se-ia identificar o indivíduo que se caracteriza como adulto-jovem, aquele que se referencia cada vez mais na juventude. Torna-se óbvia a tendência das gerações mais velhas para adquirir atitudes e práticas anteriormente pertencentes apenas à juventude: modos de vestir, práticas de lazer e consumo, linguagem, valorização do corpo e de uma nova ética de vida, de trabalho, de família e de lazer. A atracção pela aventura e pelo risco já não caracteriza apenas os comportamentos das gerações mais jovens, ela é parte integrante da sociedade contemporânea (MACHADO PAIS, 2001). Nesse sentido, quase se poderia defender a reformulação do conceito de adulto ou mesmo da substituição deste estatuto e fase de vida nas sub-fases de jovem adulto e adulto jovem. Principalmente, quando, mesmo perante o envelhecimento da população, o idoso começa a perspectivar-se como um novo idoso, quer dizer, um idoso que é cada vez mais sensibilizado para a necessidade de promover um estilo de vida saudável, fazer dietas, fazer exercício físico e manter-se activo.

Referenciado na juventude e neste jovem idoso, também o adulto, sabendo, à partida, que a sua vida se poderá prolongar ainda por várias décadas, preserva-se e promove práticas de rejuvenescimento. Esse facto leva a que, cada vez mais, se distinga a idade cronológica da idade funcional e o adulto jovem começa a comportar-se cada vez menos de acordo com o estereótipo definido para as pessoas que têm, por exemplo, entre os 35 anos e os 45 anos, pois a sua performance física e o seu desempenho intelectual são maiores do que do que o esperado. A esse fenómeno alguns autores chamam de youth creep (rejuvenescimento), isto é, a idade funcional dos indivíduos torna-se mais jovem que a idade cronológica, e pessoas com 65 anos comportam-se de acordo com o que era o comportamento típico das pessoas de 55 anos (jovem idoso), quem tem 55 anos comportasse como se tivesse 45 e assim sucessivamente até à idade do jovem adulto – mais activos, mais saudáveis e com uma aparência mais cuidada e jovem (LEMME, 1995). Ou seja, de jovem passa-se para jovem adulto, depois para adulto jovem, depois para idoso jovem, depois para idoso e depois para idoso idoso, sem que reste um espaço para o adulto.

(…)

Como já foi referido, com o aumento da esperança de vida, a fase da vida adulta corresponde a um período de cerca de trinta a quarenta anos; ora, se fosse possível delimitar as fases de vida de acordo com idades precisas – hipoteticamente e como mero exercício teórico, consideremos que a adultez inicia com a categoria de jovem adulto – entre os 25 e os 34 anos – prolongando-se pelo adulto-jovem – dos 35 aos 44 anos – e terminando com a entrada na fase do idoso-jovem aos 65 anos – ainda resta um intervalo entre os 45 e os 64 anos, de cerca de vinte anos, para o “próprio adulto”. Por outro lado, as teorias da inexistência da adultez ou da “morte do adulto” não defendem, verdadeiramente, o desaparecimento dessa fase de vida. Nessas teorias detectasse, em particular, o questionamento do modelo ideal-tipo do que é ser adulto – o modelo da estabilidade e da perfeição. Poder-se-á entender essas teorias como provocações que, ao desconstruir a imagem única, sublime, hegemónica da adultez, projectam o interesse para o estudo, nomeadamente da sociologia, sobre essa fase de vida que, cada vez mais, se assume como um objecto de estudo pertinente, diverso e complexo.

Assim, pressupõe-se como bastante provável a existência de muitos indivíduos interessados em saber que a fase de vida em que se encontram “existe” e referencia-se num novo adulto com o qual poderão, ou não, identificar-se. Investigar sobre esse novo adulto será um passo essencial para que se potencie as possibilidades que estão ao dispor do adulto, para que ele se posicione perante uma sociedade complexa e incerta, para que não continue a generalizar-se a representação pejorativa do que é ser adulto e para que diminuam as reacções de “recusa” ou “medo” de ser adulto.

A exaltação do adulto como actor surge com a imposição do planejamento de vida, da escolha e da incerteza, tendo o adulto de agir e tornar-se autónomo em relação a prescrições sociais. Como actor, o adulto tem de assumir uma atitude modesta, aceitando a impossibilidade do total controle sobre a vida e se encontra exposto às diversas circunstâncias da vida. Enquanto actor, o adulto confronta-se com o seu eu, valoriza a construção da auto-identidade através da narrativa autobiográfica (BOUTINET, 2000). Essas biografias referem-se a escolhas realizadas pelos adultos tendo por referência os sistemas abstractos a que têm acesso. Ou seja, a auto-identidade não é algo dado pelas relações sociais estabelecidas, ela é construída, reinventada, interpretada e compreendida pelo próprio indivíduo quando este “se conta”, numa narrativa contínua, em termos biográficos.

(…) Neste caso, em relação à autobiografia, o adulto, ao ver suprimidos os quadros de referência e autoridades que enquadravam a sua vida, num exercício de lucidez, envolve-se na sua própria história, no seu passado e nas expectativas que tem em relação ao seu futuro, reapropria-se das suas origens, “fala de si próprio a si mesmo”, tenta ser transparente consigo mesmo e decidir sobre seu destino (BOUTINET, 2000). Para não ser excluído, o adulto deve, perante as diversas esferas sociais, dominar a arte de comunicar e, desse modo, dominar e aperfeiçoar a língua dominante do seu quotidiano. O adulto deve comunicar-se sobre: quem ele é, a sua experiência pessoal, as suas intenções e os seus projectos de vida. Deve conseguir avaliar as suas competências e os seus conhecimentos. A transparência da comunicação sai do gabinete do psicoterapeuta para a praça pública, e assim, é necessário ao adulto contar-se quando vai a uma entrevista de emprego, está na relação íntima, entre o grupo de amigos ou no emprego.

*Filomena Carvalho Sousa é Socióloga, Investigadora Convidada do Institut National d’Etudes Démographiques (INED) – Paris, Doutoranda no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), Lisboa – Portugal: filom_sousa@yahoo.com

Leia o artigo na íntegra AQUI

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Uma resposta to “O que é “ser adulto”: as práticas e representações sociais sobre o que é “ser adulto”…”

  1. du Says:

    ser adulto não é deixa de fazer o que voce gosta,


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