Vida Adulta, Processos Motivacionais e Diversidade

Excertos de Artigo de * Bettina Steren dos Santos e ** Denise Dalpiaz Antunes

A vida adulta constitui-se na fase mais ativa e longa dentro da sociedade. O ser humano adulto vivencia em suas próprias situações de vida, características que lhe são particulares. A grande maioria produz e trabalha; do trabalho vive e dele sobrevive, em qualquer circunstância de realidade social, econômica e cultural. Estudar e entender a adultez é conhecer e perceber o que a sociedade busca em termos de futuro, e qual ideário social está construindo.

Como em outras épocas históricas, as mudanças de paradigmas se devem muitas vezes às novas estruturações sociais. As transformações de ordem demográfica, o envelhecimento da população mundial, poderão determinar modificações no comportamento do ser humano. Com o aumento da população idosa no mundo inteiro, também há um aumento do número de pessoas adultas que terão uma vida mais ativa socialmente, em todos os sentidos, de empregabilidade, de economia e de cultura, e acima de tudo, de aprendizagens. (…)

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Fases da Vida Adulta

A adultez, fenômeno do desenvolvimento humano, apresenta-se com novas responsabilidades, em novos referenciais de existencialidade, em novas conquistas, em busca de um maior entendimento desta importante e mais abrangente etapa da vida humana. Por ser a fase mais longa da existência do ser humano, merece especial atenção, mesmo porque há pouco tempo vem sendo entendida e percebida com tais referenciais. (…)

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Mesmo que possa não ser do entendimento de muitas pessoas, são várias as transformações biológicas que ocorrem do início ao final da vida adulta. As capacidades físicas são um exemplo disso, as quais poderão reverter-se do físico ao psicológico na adultez, e, conseqüentemente, nas relações intra e interpessoais.

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Contudo, para estudar as percepções e entendimentos e/ou desconhecimentos acerca do adulto, faz-se necessário uma maior compreensão das características que permeiam as fases da vida adulta, com possíveis divisões em etapas e suas idiossincrasias. Adverte-se que, neste estudo, optou-se pela teorização de Juan Mosquera (1982, 1987) sobre a vida adulta e suas fases.

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Então, conforme Mosquera (1982), a adultez jovem se subdivide em fase inicial denominada adultez jovem inicial, com idade aproximada entre 20 e 25 anos. Em seguida, a adultez jovem plena que compreende dos 25 a 35 anos, e, por fim, a adultez jovem final, abrangendo dos 35 aos 40 anos de idade.

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Logo, parece que na adultez jovem o ser humano busca uma valoração pessoal, objetivando um desejo intrínseco da avaliação positiva de sua pessoa pelos conhecimentos até então adquiridos e construídos, sempre numa expectativa de alcançar uma avaliação positiva frente ao social, a respeito de si mesmo. Com muita pessoalidade, mas talvez com resquícios da onipotência da adolescência, mesmo que o medo do desconhecido venha a impedir novas aprendizagens e construções individuais. O adulto jovem deseja recompensas rápidas e externas de suas motivações e busca experimentar e demonstrar muita competência, entre produções próprias de suas investidas socioeconômicas e desejos intrínsecos. Ainda, entre as subdivisões da vida adulta jovem salienta-se, conforme estabelecido por Mosquera (1982), que na subfase adultez jovem plena o adulto toma consciência da chegada em sua existencialidade adulta e procura se dar significância pessoal. No entanto, ao final da idade adulta jovem, o indivíduo vivencia situações que lhe atribuem o verdadeiro valor de sua existência e compreende, ou pelo menos idealiza, o que constituirá sua realização.

Nesse sentido, de crescimento em busca da própria realização, não estão apenas tratados os poderes econômicos adquiridos na vida adulta, mas conforme Mosquera (1982, p. 100), o fundamental é que “a pessoa dá conta da importância que ela tem como ser humano”.

No que concerne à adultez média, suas subdivisões são a adultez média inicial compreendendo a faixa etária dos 40 aos 50 anos, a fase dos 50 aos 60, nomeada de adultez média plena e a adultez média final, aproximadamente, dos 60 aos 65 anos de idade cronológica. Nessa segunda fase da vida adulta, adultez média, provavelmente o homem tenha alcançado seus objetivos particulares de família constituída, de empregabilidade e de moradia, e entre outras percepções acerca da vida, a adultez média lhe revela a temporalidade humana fazendo-se consciente a mortalidade.

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Nisso, provavelmente, percebe a utilidade de suas construções pessoais frente ao social, num ímpeto de ser útil e aprender o que é ser útil. O que motiva o adulto, nesta fase, possivelmente, é a própria disponibilidade. A motivação de desempenhar suas atividades e demonstrar suas capacidades tornam-se explícitas nas próprias ações sociais. Pode-se supor, também aqui, a retroalimentação de suas ações num sentido se superar os próprios erros. (…). Mosquera (1982, p. 101) salienta que “muitos dramas se escondem entre os 40 e 50 anos de idade: fracassos afetivos, sexuais, medos, ansiedades e angústias”.

Na fase posterior, na adultez média plena, os mesmos sentimentos pessoais, apresentados anteriormente na fase entre os 40 e 50 anos, ficam mais evidenciados pelas percepções clarificadas das ações sociais. Essas atitudes tornam-se mais dificultadas pelas características próprias dos 50 aos 60 anos, aproximadamente, pois as condições físicas não mais acompanham os desejos intrínsecos de cada ser humano. Vontades que se efetivam, provavelmente, na adultez jovem.

Significativamente, dos 60 aos 65 anos, na adultez média final, exacerba-se a preocupação com a aposentadoria, assim como fica enaltecida a percepção pelo desempenho das ocupações socioculturais. Enfim, há um desejo intrínseco de ser recompensado por tudo de útil que tenha produzido ou que se perceba capaz de realizar. Neste momento da vida adulta fica evidente a necessidade de ressignificar, todas as condutas sociais e buscar modos significativos de viver pessoalmente. Os motivos internos de tornar-se útil aos demais, talvez pela disponibilidade de tempo, ou por motivações externas de sentir-se bem, assim como a busca por uma qualidade de vida não descoberta, podem ser alguns dos aspectos que possibilitem novas vivências.

Ao seguir pelas faixas etárias, encontra-se a subdivisão da adultez velha, em adultez velha inicial, seguida da adultez velha plena e por último, adultez velha final. Com as respectivas idades cronológicas de 65 a 70, depois de 70 a 75 anos e por fim, aproximadamente dos 75 anos até a morte. (…). Cada ano vivido traz ímpares singularidades, um percurso existencial de intensa representatividade pessoal, provavelmente pelo declínio biológico e proximidade do final da vida humana. Um ímpeto de grandiosas atuações.

Neste percurso de caracterizar as fases da vida adulta, encontra-se na terceira fase, a adultez tardia ou adultez velha, fase existencial na qual acontecem momentos de transformações muito significativas no que se refere ao exterior de cada pessoa e às suas possibilidades físicas de realizações. Conseqüentemente, as suas construções internas de toda a vida refletem-se em significados particulares de cada ser humano. (…)

Salienta-se também, que na adultez tardia, o declínio das capacidades corporais, especialmente as condições motoras, acaba por determinar o não envolvimento nas responsabilidades sociais. O que, conseqüentemente, contribui para um envelhecimento mais acelerado, sempre que não houver mais um motivo extrínseco que resgate a motivação intrínseca até então constituída. (…) Por isso, diz-se popularmente, muitas vezes, que o corpo não mais acompanha a mente. Ou melhor, a estrutura corporal não mais acompanha os desejos particulares e intra-subjetivos, que só a pessoa pode conhecer.

(…) (…) (…)

As transformações físicas que acontecem ao longo da vida de cada ser humano, são visualmente evidentes. No entanto, o construto da imagem corporal que cada pessoa vai vivenciar durante seu desenvolvimento, o torna único, em suas características físicas, em sua diversidade de construção e ação, influenciando as idiossincrasias emocionais e psicológicas.

(…) Percebe-se, em várias etapas da vida adulta, que as transformações biológicas acabam interferindo, ou mesmo determinando, as mudanças psicológicas de cada indivíduo e vice-versa. Pois, em situações adversas revelam-se processos de amadurecimento que podem provocar a efetivação da resiliência de maneira distinta em cada ser humano, em cada circunstância, em cada etapa da vida. Em todas essas representações pessoais percebe-se a configuração do social alicerçando e atribuindo às realizações de cada indivíduo adulto, de inter-relações a intra-relações que se estabelecem. Neste sentido, Mosquera (1982, p. 96) afirma: “cremos que entender o adulto é entender o fenômeno abrangente da sociedade que nos rodeia”.

Em cada etapa da vida adulta, ou em suas subdivisões, revelam-se características e processos de crescimento, que envolvem momentos de transições, de crises, de passagens de um estado emocional psicológico para um outro, no que se refere ao desenvolvimento e amadurecimento pessoal, em busca da auto-realização.

Processos Motivacionais e Diversidade

(…) A motivação, segundo Alonso Tapia e Fita (1999) é um conjunto de variáveis que ativam a conduta do ser humano e o orientam em determinado sentido para poder alcançar um objetivo. É um processo que cada ser humano apreende de formas distintas, em virtude de suas relações interpessoais e intrapessoais. Desde a infância, as interações com outros seres humanos irão contribuir, mas não de forma determinista, à internalização dos motivos intrínsecos do indivíduo em sua diversidade, a menos que novos motivos extrínsecos possam revelar-se em renovados processos motivacionais internalizados. Já Huertas (2001, p. 54) enfatiza: “motivação humana deve entender-se como um processo de ativação e orientação da ação”. Isto é, no sentido de que o ser humano deve atuar e participar conscientemente de cada ação em sua vivência. Portanto, a motivação, para o mesmo autor, é um conjunto de padrões de ação que ativam o indivíduo a executar determinadas metas (querer aprender), com sua carga emocional, as quais se instauram na própria cultura do sujeito.

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Para Maslow (s.d., p. 48), a pessoa diz “sou motivada quando sinto desejo, ou carência, ou anseio, ou desejo ou falta”. Assim, a motivação revela-se pela necessidade e deficiência particularmente vivenciada em cada indivíduo. Salienta-se que os motivos e as metas de cada ser humano podem estar ligados às necessidades humanas em cada indivíduo, pelos processos culturais ou históricos que caracterizam uma época. Mosquera (1985, p. 150), destaca que “Maslow descreveu as necessidades de crescimento como uma categoria mais elevada que as necessidades básicas. Elas incluem valores intrínsecos a todo indivíduo”. (…)

Caracterizando essas necessidades anteriormente apontadas, Maslow (s.d), enumera-as, numa hierarquia progressiva: necessidades fisiológicas, necessidades de segurança, necessidades de amor, necessidades de estima e necessidades de auto-realização. Forma-se, pois uma pirâmide com base nas necessidades fisiológicas de ar, água, alimento, repouso, refúgio e sexo. São as primeiras necessidades humanas a serem supridas. Logo acima, na escala de Maslow, em segundo plano está a necessidade de segurança. Segundo Mosquera (1985, p. 146), essa hierarquia, “se percebe mais nas crianças porque o adulto foi ensinado a inibir a reação a perigos”. Num terceiro degrau da Hierarquia de Maslow aparecem as necessidades de amor. São as necessidades próprias dos grupos sociais, que realizam as trocas de relações afetivas entre si procurando conquistar seu espaço social. Percebe-se que essas necessidades tornam-se evidentes em pequenos grupos socioculturais e constituem os mesmos.

No plano acima das necessidades de amor, estão as necessidades de estima, e dentro destas está a auto-estima e o respeito por parte dos outros. Ou seja, a necessidade de sentir-se estimado e respeitado pelos outros. A falta de supressão dessas necessidades pode acarretar incapacidades de auto estimar-se, levando aos sentimentos de impotência, inferioridade, entre outros. Maslow afirma que “a satisfação da necessidade de auto-estima conduz a sentimentos de autoconfiança, valor, força, capacidade e utilidade. Sua frustração traz sentimentos de inferioridade, fraqueza e desamparo” (apud MOSQUERA, 1985, p. 147). Na seqüência apresentada, estão no último degrau da Hierarquia de Maslow, as necessidades de auto-realização. O ser humano acaba por revelar essas necessidades, somente após ter satisfeitas as anteriores. Isso pode acontecer durante toda uma vida, seja em qualquer nível de realização e desenvolvimento pessoal que a pessoa se encontrar. Contudo, as necessidades e intencionalidades que o ser humano compreende e busca após as anteriores conquistas baseiam-se em valores do ser, no “desejo de a pessoa tornar-se sempre mais do que é, de vir a ser tudo o que pode ser” (MASLOW apud MOSQUERA, 1985, p. 166).

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Os estudos de Maslow contribuíram para o entendimento de que o ser humano desenvolve-se ao longo da vida, partindo da experiência vivida de cada indivíduo. (…) Maslow, ao apresentar a psicologia humanista, pressupõe o ser humano como um ser social, pertencente a uma sociedade, mas, que possa ser respeitado em suas potencialidades. Nesse sentido, é necessário considerar a subjetividade desse ser humano, pela qual virá a compor sua própria diversidade em relações intrapessoais e interpessoais, ao longo de seu desenvolvimento, nas etapas de vida adulta.

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Motivação e Diversidade na Vida Adulta

A vida adulta, sendo um contínuo vital, não pode ser entendida como uma fatia do todo, mas, como sendo o todo em contínua reformulação e mudança. Nesse sentido, a vida do adulto deve ser percebida tanto em sua diversidade intrínseca como em sua heterogeneidade contextual. A referência da vida adulta dividida em três fases, de acordo com Mosquera, aponta-se uma ligação direta de cada fase com uma ordem sequencial das metas motivacionais. Cabe ressaltar que essas características estão mais relacionadas com o grau de desenvolvimento da maturidade da pessoa do que com a idade cronológica, sendo assim, é fundamental levar esta questão em consideração, quando nos referimos às diferentes características nas fases da vida adulta, as quais se interpenetram e não são estanques.

(…) (…) A partir do exposto anteriormente sobre esta fase da vida e a diversidade, apresenta-se uma reflexão comparativa entre essas idiossincrasias e os indicadores motivacionais apresentados por Alonso Tapia (2005).

Inicialmente, percebe-se que o adulto jovem, no começo de sua inserção social, no que se refere ao trabalho e constituição familiar, apresenta maior motivação quando avaliado positivamente. (…). O adulto jovem, ainda em processo de amadurecimento, necessita uma valoração externa de suas habilidades e capacidades. Na adultez média, considera-se que a aprendizagem que vem acontecendo ao longo da vida torna-se um prazer e um desafio ao indivíduo pela experiência que isso proporciona. Essa característica também é percebida na adultez jovem e continua ao longo da vida. Um outro aspecto demonstrado na vida adulta média é a preocupação em aprender a ser útil e em partilhar as suas aprendizagens e tornar-se realmente gerativo, sendo, portanto uma época da vida de grande produtividade e significado. Enfim, na adultez tardia ou avançada, o ser humano quer empenhar-se em ajudar os outros, sendo útil para com os demais indivíduos de sua convivência. (…) Também se percebe que há um contingente de autonomia muito presente em relação ao próprio controle pessoal construído. (…)

Salienta-se que, assim como as faixas etárias não podem ser restritas dentro de cada fase da vida adulta, mas são denotadas distintamente, em cada meio social em que a pessoa estiver inserida. Também, as evidências motivacionais de cada indivíduo, podem traduzir-se pela própria diversidade, alicerçadas nos contextos socioculturais e características pessoais. (…) Huertas (2001, p. 49) esclarece que “uma mesma pessoa em situações similares pode optar por ações e metas distintas, de acordo com o momento, dependendo de uma série de circunstâncias […]”. Assim, os processos motivacionais devem ser entendidos na sua integralidade, mas percebidos desde a sua singularidade. Contudo, compreender os aspectos significativos da vida adulta, acima de tudo, pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

*Bettina Steren dos Santos é Doutora em Psicologia Evolutiva e da Educação, professora do Programa do Pós-Graduação em Educação da PUCRS: bettina@pucrs.br

**Denise Dalpiaz Antunes é Mestre em Educação pela PUCRS, professora da Rede Estadual de Educação do RS: denise.dalpiaz@terra.com.br

Leia o artigo na íntegra AQUI

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3 Respostas to “Vida Adulta, Processos Motivacionais e Diversidade”

  1. Beatriz Says:

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    Ele está me ajudando um pouco para o meu trabalho de escola.
    Beijos!!!

  2. Beatriz Ortiz Says:

    Que Deus abençoe vocês!!!

  3. hester Says:

    HUM OPA Q SITE BOM PARA FAZER TRABalho


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