A Importância dos Sonhos

“O Sonho de Dante na Hora da Morte de Beatrice” por Dante Gabriel Rossetti

*Excertos de Carl Jung em “O Homem e os Seus Símbolos”

Aquilo a que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais para além do seu significado evidente e convencional. Implica algo de vago, desconhecido ou oculto para nós. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto mais amplo, que nunca é definido de uma única forma ou explicado totalmente, nem podemos ter esperanças de a definir ou explicar. Quando a mente explora um símbolo, é conduzida em direcção a ideias que estão fora do alcance da nossa razão.

Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que utilizamos frequentemente termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender integralmente. Esta é uma das razões por que todas as religiões empregam uma linguagem simbólica e se exprimem através de imagens. Mas este uso consciente que fazemos dos símbolos é apenas um aspecto de um facto psicológico de grande importância: o homem também produz símbolos, inconsciente e espontaneamente, em forma de sonhos. Há ainda certos acontecimentos de que não tomamos consciência. Permanecem, por assim dizer, abaixo do limiar da consciência. Aconteceram, mas foram absorvidos subliminarmente, sem o nosso conhecimento consciente. Só podemos percebê-los em algum momento de intuição ou por um processo de intensa reflexão que nos levem à subsequente compreensão de que devem ter acontecido. E, apesar de termos ignorado originalmente a sua importância emocional e vital, mais tarde brotam do inconsciente como uma espécie de segundo pensamento.

Este segundo pensamento pode aparecer, por exemplo, sob a forma de um sonho. O aspecto inconsciente de um acontecimento é-nos revelado, geralmente, através de sonhos, onde se manifesta, não como um pensamento racional, mas como uma imagem simbólica. Do ponto de vista histórico, foi o estudo dos sonhos que permitiu, inicialmente, aos psicólogos, a investigação do aspecto inconsciente de ocorrências psíquicas conscientes. Fundamentados nestas observações é que os psicólogos admitem a existência de uma psique inconsciente, apesar de muitos cientistas e filósofos lhe negarem existência. Argumentam ingenuamente que uma tal pressuposição implica a existência de dois “sujeitos” ou, em linguagem comum, de duas personalidades dentro do mesmo indivíduo. E estão inteiramente certos: é exactamente isto o que ela implica. Esta divisão de personalidades é, com efeito, uma das maldições do homem moderno. Não é, de forma alguma, um sintoma patológico: é um facto normal, que pode ser observado em qualquer época e em quaisquer lugares. O neurótico cuja mão direita não sabe o que faz a sua mão esquerda não é caso único. Esta situação é um sintoma de inconsciência geral, que é, inegavelmente, herança comum de toda a humanidade.

Aquele que nega a existência do inconsciente está, de facto, a admitir que, hoje em dia, temos um conhecimento total da psique. É uma suposição evidentemente tão falsa quanto a pretensão de que sabemos tudo a respeito do universo físico. A nossa psique faz parte da natureza e o seu enigma é, igualmente, sem limites. Assim, não podemos definir a psique nem a natureza. Podemos, simplesmente, constatar o que acreditamos que elas sejam e descrever, da melhor maneira possível, como funcionam. No entanto, fora das observações acumuladas em pesquisas médicas, temos argumentos lógicos de bastante peso para rejeitarmos afirmações como “não existe inconsciente”, etc. Aqueles que fazem este tipo de declaração estão a expressar um velho misoneísmo – o medo do que é novo e desconhecido.

Sigmund Freud foi o pioneiro, o primeiro cientista a tentar explorar empiricamente o segundo plano inconsciente da consciência. Trabalhou baseado na hipótese de que os sonhos não são produto do acaso, mas que estão associados a pensamentos e problemas conscientes. Esta hipótese nada apresentava de arbitrário.

A Função dos Sonhos

Já escrevi a respeito do contraste interessante entre os pensamentos que temos quando acordados e a riqueza das imagens produzidas pelos sonhos. Podemos constatar agora uma outra razão para esta diferença: na nossa vida civilizada, despojamos tanto as ideias da sua energia emocional que já não reagimos a elas. Usamos estas ideias nos nossos discursos, reagimos convencionalmente quando outros também as utilizam, mas elas não nos causam uma impressão profunda. É necessário haver alguma coisa mais eficaz para que mudemos de atitude ou de comportamento. E é isto que a linguagem do sonho faz: o seu simbolismo tem tanta energia psíquica que somos obrigados a prestar-lhe atenção.

Havia, por exemplo, uma senhora conhecida pelos seus insuportáveis preconceitos e obstinada resistência a qualquer argumento racional. Podia-se discutir com ela uma noite inteira; não prestaria a menor atenção às nossas opiniões. Os seus sonhos, no entanto, empregaram uma linguagem inteiramente diferente. Uma noite, sonhou que estava numa importante reunião social, onde foi recebida pela anfitriã com as seguintes palavras: “Que bom ter podido vir. Todos os seus amigos estão aqui à sua espera.” E levou-a até uma porta, que abriu, introduzindo-a num estábulo. A linguagem deste sonho é bastante simples para que possa ser entendida até por um ignorante. A mulher, a princípio, recusou-se a admitir o sentido de um sonho que vinha atingir tão directamente o seu amor-próprio. Mas acabou por compreender a mensagem que lhe era enviada, e após algum tempo aceitou a piada que se auto-infligira.

Estas mensagens do inconsciente têm uma importância bem maior do que se pensa. Na nossa vida consciente, estamos expostos a todos os tipos de influência. As pessoas estimulam- nos ou deprimem-nos, ocorrências da nossa vida profissional ou social desviam a nossa atenção. Todas estas influências podem levar-nos para caminhos opostos à nossa individualidade; e quer percebamos quer não o seu efeito, a nossa consciência é perturbada e exposta, quase sem defesas, a estes incidentes. Isto ocorre em especial com pessoas de atitude mental extrovertida, que dão muita importância a objectos exteriores, ou com as que abrigam sentimentos de inferioridade e de dúvida, envolvendo o mais íntimo da sua personalidade.

Quanto mais a consciência foi influenciada por estes preconceitos, erros, fantasias e anseios infantis, mais se dilata a fenda já existente, até se chegar a uma dissociação neurótica e a uma vida mais ou menos artificial, em tudo distanciada dos instintos normais, da natureza e da verdade. A função geral dos sonhos é tentar restabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico que reconstitui, de maneira subtil, o equilíbrio psíquico total.

É aquilo a que chamo função complementar (ou compensatória) dos sonhos na nossa constituição psíquica. Explica por que motivo pessoas com ideias pouco realistas, ou que têm um alto conceito de si mesmas, ou ainda que constroem planos grandiosos em desacordo com a sua verdadeira capacidade, sonham que voam ou caem. O sonho compensa as deficiências das suas personalidades e, ao mesmo tempo, previne-as dos perigos dos seus rumos actuais. Para bem do equilíbrio mental e mesmo da saúde fisiológica, o consciente e o inconsciente devem estar completamente interligados, a fim de que possam mover-se em linhas paralelas. Se se separam um do outro ou se dissociam, ocorrem distúrbios psicológicos. Neste caso particular, os símbolos oníricos são os mensageiros indispensáveis da parte instintiva da mente humana para a sua parte racional, e a sua interpretação enriquece a pobreza da nossa consciência, fazendo-a compreender, novamente, a esquecida linguagem dos instintos.

As pessoas, é claro, tendem a pôr em dúvida esta função, já que os seus símbolos, muitas vezes, passam despercebidos ou são incompreendidos. Na vida normal, a compreensão dos sonhos é até, por vezes, considerada supérflua. De um modo geral, é uma tolice acreditar-se em guias pré-fabricados e sistematizados para a interpretação dos sonhos, como se pudéssemos comprar um livro de consultas para nele encontrarmos a tradução de um determinado símbolo. Nenhum símbolo onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, assim como não existem interpretações definidas e específicas para qualquer sonho. A maneira pela qual o inconsciente completa ou compensa o consciente varia tanto de indivíduo para indivíduo que é impossível saber até que ponto pode, na verdade, haver uma classificação dos sonhos e dos seus símbolos. O sonho recorrente é um fenómeno digno de apreciação. Há casos em que as pessoas sonham o mesmo sonho, desde a infância até à idade adulta. Este tipo de sonho é em geral uma tentativa de compensação para algum defeito particular que existe na atitude do sonhador em relação à vida; ou pode datar de um traumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode também ser a antecipação de algum acontecimento importante que está para acontecer.

Sonhei durante muitos anos com um mesmo motivo, no qual eu “descobria” uma parte da minha casa que até então me era desconhecida. Algumas vezes, apareciam os aposentos onde os meus pais, há muito falecidos, viviam e onde o meu pai, para grande surpresa minha, montara um laboratório de estudo de anatomia comparada dos peixes e onde a minha mãe dirigia um hotel para hóspedes fantasmas. Habitualmente, esta ala desconhecida surgia como um edifício histórico, há muito esquecido, mas de que eu era proprietário. Continha interessantes mobílias antigas e, lá para o fim desta série de sonhos, descobri também uma velha biblioteca, com livros que não conhecia.

Por fim, no último sonho, abri um dos livros e encontrei nele uma série de gravuras simbólicas maravilhosas. Quando acordei, o meu coração pulsava de emoção. Algum tempo antes de ter este último sonho, havia encomendado a um vendedor de livros antigos uma colecção clássica de alquimistas medievais. Encontrara, numa obra, uma citação que me parecia relacionada com a antiga alquimia bizantina e queria verificar este facto. Algumas semanas depois de ter tido o sonho com o livro que me era desconhecido, chegou um pacote do livreiro. Dentro, havia um volume em pergaminho, datado do século dezasseis. Era ilustrado com fascinantes gravuras simbólicas, que logo me lembraram as que vira no meu sonho. Como a redescoberta dos princípios da alquimia se tornou parte importante do meu trabalho pioneiro na psicologia, o motivo do meu sonho recorrente é de fácil compreensão. A casa, certamente, era o símbolo da minha personalidade e do seu campo consciente de interesses; e a ala desconhecida da residência representava a antecipação de um novo campo de interesse e pesquisa de que, na época, a minha consciência não se apercebera. Desde aquele momento, há trinta anos, o sonho não se repetiu.

A Análise dos Sonhos

Comecei este ensaio (A importância dos sonhos) acentuando a diferença entre um sinal e um símbolo. O sinal é sempre menos do que o conceito que ele representa, enquanto o símbolo significa sempre mais do que o seu significado imediato e óbvio. Os símbolos, no entanto, são produtos naturais e espontâneos. Génio algum já se sentou com uma caneta ou um pincel na mão, dizendo: “Agora vou inventar um símbolo.” Ninguém pode tomar um pensamento mais ou menos racional, a que chegou por conclusão lógica ou por intenção deliberada, e dar-lhe forma simbólica. Não importa de que adornos extravagantes se ornamenta uma tal ideia – ela vai manter-se apenas um sinal associado ao pensamento consciente que significa, e nunca um símbolo a sugerir coisas ainda desconhecidas. Nos sonhos, os símbolos ocorrem espontaneamente, pois os sonhos acontecem, não são inventados; eles constituem, assim, a fonte principal de todo o nosso conhecimento a respeito do simbolismo.

Devo fazer notar, no entanto, que os símbolos não ocorrem apenas nos sonhos; aparecem em todos os tipos de manifestações psíquicas. Existem pensamentos e sentimentos simbólicos, situações e actos simbólicos. Parece mesmo que, muitas vezes, objectos inanimados cooperam com o inconsciente, criando formas simbólicas. Há numerosas histórias autênticas de relógios que param no momento em que o seu dono morre, como aconteceu com o relógio de pêndulo do palácio de Frederico, o Grande, em Sans Souci, que parou na hora da morte do rei. Outro exemplo comum é o de um espelho que se parte ou de um quadro que cai quando alguém morre. Ou também pequenos, mas inexplicáveis, acidentes de objectos que se quebram numa casa onde alguém sofre uma crise emocional. Mesmo que os cépticos se recusem a acreditar nessas histórias, a verdade é que elas estão sempre a acontecer, e só isto basta como prova da sua importância psicológica.

Há muitos símbolos, no entanto, (e entre eles alguns de maior valor), cuja natureza e origem não é individual mas sim colectiva. Sobretudo as imagens religiosas: o crente atribui- lhes origem divina e considera-as revelações feitas ao homem. O céptico garante que foram inventadas. Ambos estão errados. É verdade, como diz o céptico, que símbolos e conceitos religiosos foram, durante séculos, objecto de uma elaboração cuidadosa e consciente. É também certo, como julga o crente, que a sua origem está tão soterrada nos mistérios do passado que parece não ter qualquer procedência humana. Mas são, efectivamente, representações colectivas – que procedem de sonhos primitivos e de fecundas fantasias.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: