Intuições Noturnas

O Sonho do Artista” por John Anster Fitzgerald

Muitos cientistas, artistas e escritores consideram os períodos de sono como as horas de criatividade mais intensa.Nessas ocasiões, os nexos lógicos habituais são suspensos e “sonhamos de olhos abertos”.

*Por Edoardo Altomare

Na última noite de 1997, Roderick MacKinnon, jovem pesquisador da Universidade Rockefeller de Nova York, trabalhava na definição do sistema molecular cujo funcionamento está na base da abertura e do fechamento de alguns canais celulares – os chamados canais iônicos, que servem para a passagem de íons de sódio através das membranas das células. A existência desses canais já era conhecida, mas ninguém conseguira, até então, distinguir sua estrutura e seu funcionamento, em virtude da dificuldade de “ver” a passagem dos íons por meio de imagens de alta resolução. O pesquisador compreen-deu que o objetivo só poderia ser alcançado pelo uso da cristalografia de raios X: naquela noite refletia sobre essa questão, quando lhe ocorreu uma idéia inesperada. “Meus momentos mais produtivos são aqueles em que não consigo dormir”, revelou MacKinnon ao receber, graças àquela descoberta, o Prêmio Nobel de Química de 2003, junto com Peter Agre.

MacKinnon descreve assim a noite da descoberta: “De repente, uma imagem manifestou-se com clareza diante de meus olhos e vi, com todos os detalhes, a passagem dos íons através dos canais celulares”. Enquanto outros brindavam a chegada do novo ano, o cientista caminhava excitado em seu laboratório. Na manhã seguinte, após um sono breve e agitado, MacKinnon acordou com medo de que tudo não passasse de um sonho: “Corri para o laboratório, liguei o computador e averiguei a intuição: os íons estavam lá, atravessando os canais”. Foi assim que o jovem MacKinnon – hoje com quase 50 anos – assombrou a comunidade científica ao apresentar, em abril de 1998, a estrutura e o funcionamento do canal iônico.

A noite é o momento mágico da criatividade também para Alexei Abrikosov, Prêmio Nobel de Física de 2003: “Durante o dia penso nas fórmulas e faço os cálculos – declarou em Estocolmo, ecoando o colega MacKinnon -, mas os melhores momentos de minha atividade científica são à noite”. Há também vários insones produtivos entre poetas, artistas e escritores. Para ficarmos no âmbito científico: atribui-se a Einstein a afirmação de que os cientistas criativos são os únicos que têm acesso aos próprios sonhos. O caso do químico alemão August Kekulé é exemplar a esse respeito: ele “viu” em sonho, na imagem de uma serpente que mordia a própria cauda, a estrutura química em anel do benzeno. Podemos citar também o caso do matemático inglês Alan Turing, que parece ter intuído a máquina universal enquanto estava deitado em um gramado, num estado entre a vigília e o sono: uma espécie de sonolência desperta, lúcida e criativa, durante a qual afloram às vezes, em particular nas mentes bem preparadas, as soluções para problemas difíceis.

O significado do comentário de Einstein era talvez mais geral. Para alguns, o grande físico estaria se referindo ao fato de que a mente pode funcionar tanto por intuição como pelos ditames do bom senso e que, para descobrir algo novo, o cientista – como qualquer outra pessoa – deve escapar ao domínio imposto à “imaginação” por nossas faculdades lógicas, subvertendo o saber convencional do qual dependem as habilidades cotidianas. “Segundo a teoria freudiana”, observa Orlando Todarello, professor de psicoterapia da Universidade de Bari, “o sonho é uma atividade pouco organizada de pensamento que foge (embora não totalmente) ao controle da racionalidade e da censura.”

Caprichos da Imaginação

“Na minha experiência”, comenta o químico americano Royston Roberts, autor de um livro sobre descobertas acidentais, “a imaginação e a memória estão mais ativas durante o sonho ou a sonolência. Raramente tive uma idéia quando estava sentado em minha sala na Universidade do Texas.” Roberts acrescenta que é mais provável que as melhores idéias sejam elaboradas nas primeiras horas da manhã, em um avião, durante um passeio ou num concerto. Charles Townes, Prêmio Nobel de Física de 1964, estava admirando flores no parque de Washington quando, de súbito, compreendeu o procedimento relativo ao laser. E Kary Mullin, Prêmio Nobel de Química de 1993, dirigia despreocupado o seu carro quando teve a intuição que o levou à descoberta da Pcr, a reação em cadeia da polimerase que permite a ampliação e a identificação de fragmentos mínimos de DNA.

Para Todarello, “trata-se de uma condição similar à do sonho de \\’olhos abertos\\’, que lembra a chamada \\’regressão a serviço do Eu\\’, proposta por Ernst Kris”. Historiador da arte e psicanalista vienense, Kris (1900-1957) estudou as relações entre a criação artística e os fenômenos psicológicos profundos. Todarello explica que “quando se regride a estados menos organizados da atividade psíquica, são suspensos os nexos lógicos habituais e o material psíquico se mistura de forma confusa, permitindo intuições e novas associações”.

A intuição – definida pelos filósofos como uma forma privilegiada de conhecimento, que permite a posse imediata e total do objeto – desempenha um papel decisivo na criatividade, em particular na científica. É uma espécie de túnel sob os procedimentos lógicos habituais, que só alguns conseguem escavar e assim alcançar a verdade. “Enquanto a razão”, prossegue Todarello, “segue circuitos corticais complexos e lentos, a intuição, assim como a emoção, é uma modalidade rápida de conhecimento da realidade.”

Mas há uma questão crucial: para resolver um problema, para ativar nossa capacidade de compreender repentinamente a “linguagem das coisas”, é melhor estar desperto e insone ou dormir? Muito ainda precisa ser esclarecido a esse respeito, como sugere uma pesquisa alemã publicada em 2004 na revista Nature. Partindo de relatos sobre intuições fundamentais ocorridas durante o sono, uma equipe de neuroendocrinologistas, psicólogos e neurologistas da Universidade de Lubecca aplicou um teste matemático: uma tarefa cognitiva que envolvia o aprendizado de seqüências estímulo-resposta e na qual as pessoas pesquisadas podiam melhorar gradualmente o seu desempenho aumentando a velocidade de resposta. Apresentou-se assim a um grupo de voluntários (66 no total) uma série de oito números junto com uma regra simples por meio da qual devia ser gerada uma segunda série de sete números. As pessoas foram solicitadas a deduzir, no tempo mais breve possível, o valor final da seqüência.

Havia uma “fórmula-atalho” oculta que, caso intuída, permitiria calcular o valor rapidamente. Após o treinamento inicial, as pessoas foram divididas em três grupos: o primeiro estudou o problema à tarde e pôde dormir 8 horas; o segundo enfrentou a tarefa sem repouso noturno; o terceiro, finalmente, foi submetido ao teste pela manhã e desfrutou as 8 horas da vigília diurna normal. As pessoas que haviam se beneficiado do repouso revelaram ser duas vezes mais capazes de intuir a “fórmula-atalho” oculta, não só em relação às que permaneceram acordadas durante a noite como em relação às que ficaram despertas durante o dia. O sono parece assim inspirar e facilitar a intuição. Segundo os autores do estudo, o sono “consolida as recordações recentes e estimula a intuição mediante a reestruturação delas”.

Sono Conselheiro

Enquanto dormimos, nosso cérebro reorganiza as recordações “episódicas”, isto é, as informações relativas a lugares específicos, pessoas, conversas e experiências: essa reorganização dos eventos cotidianos pode explicar o melhor desempenho das pessoas que repousaram. É assim que Jan Born, neuroendocrinologista e coordenador da pesquisa, interpreta os resultados obtidos: “Acreditamos que as recordações recentes são armazenadas em uma área cerebral particular, o hipocampo, enquanto a memória \\’permanente\\’ parece ser acomodada em uma área diferente, o neocórtex. No sono, as recordações podem ser desviadas de uma região cerebral para a outra e são reordenadas durante esse processo”.

Sidarta Ribeiro, neurobiólogo da Duke University de Durham, na Carolina do Norte, considera que “na fase REM, caracterizada por movimentos oculares rápidos, as informações talvez sejam reorganizadas”. No fundo, segundo Ribeiro, isso é apenas a demonstração de uma lei já observada pelas pessoas de bom senso: “durma” é mesmo o melhor conselho para quem enfrenta dificuldades na solução de um problema complexo. O sono, segundo o estudo de Born e colegas, reforça o “pensamento lateral”. O conceito não corresponde exatamente ao de “criatividade”; esta se refere simplesmente à produção de algo novo, enquanto o pensamento lateral diz respeito à alteração de conceitos e percepções.

Compreender o que o cérebro realiza enquanto dormimos ainda é um objetivo a ser perseguido. Os especialistas em transtornos do sono, no entanto, enfatizam todos a importância de um bom repouso noturno. Mas John Shneerson, neurologista inglês do Papworth Hospital, em Cambridge, adverte alarmado: “Não dormimos o suficiente”. E não se trata apenas de uma tendência, ele acrescenta, mas de uma verdadeira epidemia, favorecida pelo ritmo alucinante de nossa vida, sobretudo no trabalho. Os especialistas em sono aconselham assim um curioso remédio: um cochilo regenerador (um power nap de meia hora) no escritório para reativar a criatividade enfraquecida. Uma solução que várias pessoas já intuíram e puseram em prática há muito tempo.

*Edoardo Altomare é médico oncologista e jornalista. É autor de Influenza e Medicine & Miracoli. Dal siero Bonifacio al caso Di Bella, entre outros livros científicos.

FONTE: Viver Mente&Cérebro

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