O Sonho em “Clínica psicanalítica: a arte da interpretação”

O Sonho de Sardanapalus” por Ford Madox Brown

*Por Fabio Herrmann

“O tempo do sonho pode ser comparado ao da chuva. Vem por estações durante uma análise, fertiliza-a, e segue um movimento ternário mas contínuo de concentração, precipitação, disseminação. O momento do sonho e o de seu relato na sessão não são o sonho inteiro para o analista. Como a concentração de água que se evapora e forma nuvens, temas psíquicos, dotados de tensão emocional, vão-se acumulando e começam a ser sonhados silenciosamente, na vigília, através de pequenos atos de significação ambígua e da concatenação mais ou menos frouxa de séries de idéias a respeito do tema, ou de lembranças e idéias soltas que não se definem, a não ser a posteriori. Ocorrem chuviscos de quando em quando: atos falhos, devaneios, fragmentos oníricos indicativos do tema vindouro. Até que o sonho que já está a ser sonhado alcança um estado de saturação que lhe permite precipitar-se abertamente num episódio noturno recordável, feito tempestade de verão. Depois, o relato, o trabalho interpretativo e a elaboração disseminam o sonho na superfície psíquica, permitem-lhe infiltrar-se nas camadas gerativas de associações, ampliam seu sentido e fertilizam a análise. Por fim, evapora-se esse sonho, o campo do sonho parece secar, mas é só o recomeço do ciclo: já estamos noutro sonho. Há análises onde chove mais, outras onde chove menos, sem que essa variação equivalha necessariamente a produtividade ou estagnação. Surge o sonho, via de regra, numa zona congestionada do entrelaçamento dos campos, donde resulta que seu conteúdo exprima regras atinentes a distintos temas psíquicos simultaneamente; por isso não possui um só sentido latente, mas uma rede de significações emocionais, cuja análise “completa” levaria em princípio a cobrir quase toda a análise; o sonho é um momento diagnóstico por excelência, identifica o sujeito. Deve ser aproveitado. O trabalho de interpretação dos sonhos tem-se modificado tanto desde Freud, que talvez seja mais fácil dizer o que permanece. Não é absurdo pedir explicações e associações ao paciente que conta um sonho, quer dizer, tratar o sonho como episódio distinto e fenômeno isolável. Faça isso quando achar oportuno, mas não se esqueça que a forma pela qual o sonho foi narrado e o conjunto inteiro das idéias que o cercam, ainda e sobretudo se não lhe parecem conectadas, são associações também, potencialmente. Com o sonhador, o analista sonha simpaticamente, deixando-se levar pela iluminação que o sonho propicia, sem pressa, esperando que a precipitação insemine-lhe as idéias, para poder operar no mesmo ritmo do campo onírico. Como existe uma forte tendência a se esquecer um sonho, por obra da resistência, e quase todos assim se perdem, a função do analista é aqui também comemorativa ou de recordação; ele pugna por manter o sonho à tona por um tempo mais largo do que espontaneamente se daria e por acompanhar seu movimento de disseminação e nova concentração; pôr-se em fase com o campo do sonho é nossa tarefa principal e nada fácil, pois em nós também operam resistências. Por fim, é o sonho uma defesa do sono, como Freud mostrou. A isso pode acrescentar-se que o sonho aberto, essa história visual que se vive de noite e se conta de dia, é a oportunidade para sair de um sonho, da surda corrente subterrânea dos temas de que o sonho trata, cuja lógica preside ocultamente a vigília, até que se possa manifestar num episódio constituído, ganhando estatuto de consciência: o sonho é o despertar de um sonho.

Tomemos um exemplo mínimo, em que praticamente não há concentração ou disseminação, mas só precipitação. Sonhos comuns tematizam relações de vários campos simultâneos; tentemos encontrar um que aparentemente só aborde um tema e que permita só uma interpretação, para ver se não nos diz um pouco mais do que o esperado, se não possui também função diagnóstica. Em adultos tais sonhos são raros, no entanto existem; há sonhos, por exemplo, que são quase só representações de um estado físico. Um médico tem o seguinte sonho. Está numa montanha rochosa, debaixo de forte temporal. Abriga-se com outras pessoas numa caverna muito grande que contém, parece, toda uma cidade. À frente, no outro extremo da montanha, abre-se caverna idêntica, com gente, casas, estradas. Súbito, começa uma avalancha e grandes pedras estão rolando, perigosamente. Vai de uma caverna para a outra, por um túnel longo que as interliga. Ocorre que ele vinha sofrendo, há dias, de uma inflamação dos ouvidos, conseqüência de natação e mergulhos. As cavernas representam claramente as orelhas, o túnel figura as trompas de Eustáquio, que ele sentia aumentadas e irritadas por secreção, como se uma chegasse até a outra. Serosidade e secreção podiam estar substituídas pela avalancha de pedras, tal a sensação de desconforto nos ouvidos; a tempestade podia equivaler ao ruído desagradável, característico do quadro clínico; as cidades nas cavernas indicariam o tamanho subjetivo das orelhas doloridas, sua tumefação. Pareceria não haver qualquer elaboração significativa, só uma transposição do corpo à mente. No entanto, depois de algumas associações, persistia a estranheza de uma tempestade sobre a montanha de pedras; e foi de golpe, um pouco ironicamente, que se deu conta de que estivera a sonhar nada menos que com o “rochedo do temporal” – que é assim chamada a grossa parede óssea onde se assenta o pavilhão auricular. Rochedo do temporal = temporal num rochedo. Esse tipo de sonho constitui uma espécie de limite para a atividade analítica. Não há quase nada a ser dito, a não ser talvez que ele prova a existência de sentido no sonho. Nada parece indicar, contudo, a respeito do sonhador. Será verdade? Nem tanto. Há um gosto especial pela representação metafórica mostrado aí. Dessa pessoa pode-se esperar que sessões inteiras, ou partes consideráveis delas, representem metaforicamente estados de vida, sentimentos transferenciais, conflitos, expectativas. Por outro lado, há um gosto pela palavra e mais especialmente pelo jogo de palavras, contido no sonho, assim como certa intenção irônica, que não brinca só com o ouvido inflamado, como também com a formação médica, com a anatomia. Este sonho tem a aparência de ser pura precipitação, mas como todos pode adquirir função diagnóstica da vida psíquica, dizer como é o sujeito do sonho, como compreenderá as palavras do analista, que deverá estar atento a operações metafóricas surpreendentes. Um paciente talvez difícil, mas não completamente desinteressante de analisar.”

Trecho do livro “Clínica psicanalítica: a arte da interpretação” (Ed. Brasiliense, edições: 1991, 1992).

*Fabio Herrmann é Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Professor da PUC-SP.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: