Pré-História do Sonho

O Sonho de Santa Cecília” por John William Waterhouse

Artigo publicado na revista L’Histoire, n. 246, sep./2000.

*Traduzido por Mônica Macedo.

Até meados do século XIX, os sonhos eram interpretados de acordo com os códigos das tradicionais “Chaves dos sonhos” que os viam como uma previsão do futuro. Seria necessária a intuição de alguns médicos alienistas e a audácia de alguns escritores para pressentir que o sonho fala sonhador sobre ele próprio. Mas antes de Freud, o conteúdo da mensagem permanecia indecifrável.

Em 1908, oito anos depois do aparecimento do livro de Freud A interpretação dos sonhos, uma quiromancista famosa, Madame de Thèbes (pseudônimo arcaizante, propositalmente sibilante, de Anne-Victorine Savigny), publica O enigma dos sonhos, com o subtítulo Explicação dos sonhos, sob a encomenda expressa, ela afirma, de sua clientela. A obra atinge um sucesso inegável. Por seu título e conteúdo, onde os sonhos são vistos como uma linguagem premonitória sobrenatural, ele se inscreve numa leitura tradidicional do onírico. Teria permanecido imutável, desde a Idade Média, o olhar sobre os sonhos numa França que em 1926 veria a tradução do livro do psicanalista vienense? Seria a revolução freudiana incompreensível, até mesmo inaceitável, para os franceses, fora dos limites de uma elite iniciada na psicanálise nascente?

A situação é mais complexa. A obra de Mme de Thèbes renuncia ao formato tradicional das Chaves dos Sonhos, prova a vontade da autora de ver sua obra dissociada dessas produções “baratas”. Editadas e reeditadas, levemente retocadas para melhor refletir a realidade dos tempos, as Chaves são pequenos dicionários que pretendem decodificar os sonhos, desvendando os sentidos ocultos das imagens oníricas (animais, paisagens, personagens, cores…).

Tal leitura econtra sua fonte na crença de que os sonhos são enviados por Deus, pouco a pouco colado a uma dimensão mágica (na melhor das hipóteses) ou satânica (na pior). A etimologia da palavra “cauchemar” (pesadelo) é reveladora desse deslocamento, “cocher” significa em francês arcaico “chevaucher” (cavalgar): o corpo do sonhador possuído pelo pesadelo é cavalgado pelos demônios.

Incluído nesse feixe de superstições, o sonho é estranho ao sonhador, ele é enviado por um “outro”, cuja identidade não é nunca conhecida. Ele tem o papel de mensageiro que força a olhar o futuro através de seu prisma.

A primeira metade do século XIX herda esse passado confuso: a literatura e os cabinets de quiromancia florescem. Uma hierarquia entre os “oniromancistas” se estabelece: os grandes desse mundo se juntam ao redor de Mme Lenormand, que teria previsto o destino imperial de Joséphine de Beauharnais, sua companheira de cela nas prisões da Revolução Francesa, através da narrativa de um sonho que esta lhe confiara. Quanto ao povo, este recorre aos ciganos, que eram perseguidos por ler os sonhos e punidos pelo código penal com uma multa de onze a quinze francos e prisão de cinco dias em caso de reincidência.

Esta vitalidade de práticas ligadas à superstição revela certa inércia de idéias. Ela prova um desconhecimento completo da natureza do imaginário noturno. Só a reflexão teológica sobre a responsabilidade moral do sonhador (assaltado de maus pensamentos ou de imagens eróticas que provocam ejaculações noturnas) tem o mérito de relacionar o indivíduo e o sonho que ele forma, tão estranhos um ao outro nas crenças populares.

No entanto, a moda da oniromancia declina na segunda metade do século. Várias razões podem, com cautela, ser levantadas. A mestiçagem das populações sob o efeito da revolução industrial e o êxodo rural que se segue contribuem para cortar a ligação com as crenças ancestrais. O progresso da instrução trabalha para desenraizar as superstições. A descristianização e recristianização contribuem ambas para matar a figura de Satã e seus acólitos.

Por fim, todo um arsenal legislativo reforça a proibição de interpretar sonhos suscetíveis de favorecer os delírios de grandeza e as revoltas. As advinhadoras perdem assim seu mistério: elas não são mais perseguidas por exercício de bruxaria, mas por abuso de confiança. Uma precaução política que priva o sonho de toda qualidade sobrenatural, sem, por isso, lhe fornecer uma nova identidade.

Mas, nessa época positivista, é inegavelmente a comunidade médica que se torna a principal acusadora do sonho premonitor. Pouco importa que aos olhos de nossos atuais conhecimentos suas teorias exprimam tateamentos e incoerências; elas modificam a apreensão do sonho, o desmistificam, o desmembram de um distanciamento não qualificável para colocá-lo no corpo do sonhador, humanizando-o.

Esta reapropriação do sonho pelo sonhador se desenrola em dois tempos. Nos primeiros anos do século XIX, desde o aparecimento do Relatório do físico e do moral, do Doutor Cabanis (1802), o sonho é observado por uma medicina organicista. Este olhar clínico conclui que sua origem se situa no ambiente que cerca o corpo do sonhador. O peso de um cobertor, uma refeição generosa, o frio, o ronco do vizinho, o uivo de um cachorro geram os sonhos.

Alfred Maury, professor de história da moral no Collège de France, difunde com sucesso esta teoria em sua obra Le Sommeil et les Rêves (O sono e os sonhos) (1862). Toda dimensão cabalística desaparece; o sonho não olha mais para o futuro, ele exprime as impressões corporais, transformadas, do adormecido.

Uma segunda etapa é atravessada quando se interliga os sonhos e as doenças. O sonho volta a ser anunciador, mas como sintoma precursor de uma doença. No caso de ela já estar instalada, os sonhos do paciente permitem ao médico emitir um diagnóstico preciso, até mesmo um prognóstico. Esta leitura é proposta desde 1816 por Moreau de la Sarthe em seu artigo, “Sonho”, do Dicionário de Ciências Médicas.

Várias interpretações do fenômeno onírico coexistem, pois, nesse mundo científico. Entretanto, este sonho “medicalizado”, enfim ancorado ao sonhador, não fala senão de suas vísceras e de seus humores… A medicina não consegue revelar aí uma expressão do psiquismo, do qual somente os alienistas se ocupavam.

A política de confinamento, que faz com que os asilos conheçam sua época de ouro no século XIX, favorece a observação dos doentes mentais. Um dos pais fundadores da psiquiatria francesa, Esquirol (1772-1840), preconizava a escuta dos doentes no quadro do tratamento dito moral, mas a intimidação preponderante do asilo se opõe a este projeto.

Todavia, a prática torna os médicos atentos aos solilóquios dos internos e a seus delírios. Eles são tocados pela analogia que parece existir entre as histórias delirantes e as narrativas oníricas. Eles começam a deslocar a origem do sonho do corpo ao espírito. O sonho encontrou seu verdadeiro lugar.

Mas esse desvio pelo asilo é ao mesmo tempo positivo e negativo. Ao se aproximar do delírio, o sonho é considerado como um sintoma, uma das premissas da loucura; no alienado, ele é loucura. Moreau de Tours, aluno de Esquirol, publica em 1845 Du haschich et de l’aliénation mentale (Do haxixe e da alienação mental), estudo que lhe foi inspirado por uma viagem ao Egito e à Ásia Menor onde ele pôde observar homens em perfeita saúde mental tomados por alucinações. E não resistiu à tentação: viver a loucura do seu interior.

É o que lhe permite afirmar que, contrariamente ao que acreditava seu mestre, não há, entre sonho e delírio, analogia e sim identidade. Suas conclusões não são unânimes: por mais de uma década a natureza do sonho cede lugar a debates nas colunas da principal revista científica, os Anais médico-psicológicos, e também nas sociedades científicas. Raras são as vozes, como as dos médicos Delasiauve et Bousquet, que se levantam contra a “psiquiatrização” do sonho. Esta é geralmente admitida; somente o grau de parentesco com a alienação é controverso.
Sobre isso os médicos concluem pela natureza louca do sonho: não sonhar torna-se um sinal de saúde. Uma posição tão dogmática como esta se opõe, evidentemente, a toda escuta da linguagem onírica. No entanto, Moreau de Tours não hesitou em aconselhar a introspecção, dirigindo-se nestes termos a seus leitores: “Façam como eu, fumem haxixe, experimentem por si próprios”. Ele mostra um caminho que é logo seguido por Théophile Gautier, Balzac, Baudelaire, Delacroix…

Trata-se de, através da droga, atingir o sonho, uma escapada bem voluptuosa. Mas também se trata de ultrapassar a condição humana e alimentar a criação. “O haxixe será, para as impressões e os pensamentos familiares do homem, um espelho exacerbador, mas um puro espelho”, escreve Baudelaire.

É provável que esta nova fascinação, esta tentativa de domesticar a alucinação e de compreendê-la contribuiram para modificar, nos mais cultivados, o olhar sobre os sonhos. Os diários íntimos dão conta dessa revolução. Edmond de Goncourt e Jules Renard afirmam que o sonho, este “baú de lembranças” lhes fala de si próprios. Os cenários oníricos permanecem todavia indecifráveis. A precisão da transcrição nos diários, as trocas epistolares, exprimem o interesse profundo e crescente pelo onírico. Essas narrativas desenham um caminho que leva à descoberta do inconsciente, mas ela é lenta pois vai de encontro às resistências cristalizadas em torno da suscetibilidade narcísica do sonhador.

O sonho é pouco a pouco percebido por esta trupe de revolucionários, que o ignoravam como um “desnudar de si próprio”. Nodier, um precursor dessas idéias, confessava a ferida que pode provocar a análise do sonho. Como, acordado, aceitar o prazer noturno proporcionado por certos sonhos inconfessáveis? Como fazer um bom julgamento de si próprio quando no sonho, com prazer, transgredimos certos tabus?

Este desnudar é, portanto, doloroso, e o arqueólogo de seus próprios sonhos se compraz de distanciar-se de seus atos oníricos através de um vocabulário adaptado: o sonho revela um outro mundo, o teatro de um outro, um outro eu, um duplo eu… Ele adquire assim um novo estatuto que parece anunciar aquele que a psicanálise lhe designará. Os escritores reconhecem por um lado a reutilização, em seus sonhos, de cenas de sua infância e a inserção de detalhes contemporâneos, aparentemente anódinos, que o sonho deforma. Esta elite de intelectuais se reapropriou do sonho. Ela toca a descoberta do inconsciente e advinha que o sonho possui sua própria linguagem para falar do “eu”, mas ela não ousa confessá-lo, por medo de se desnudar.

Não é errado dizer que o terreno foi semeado antes que nascesse a interpretação psicanalítica. Mas o quanto Freud conhecia desta evolução da leitura do sonho? Em sua autobiografia redigida em 1925, ele liga sua presença em Paris (em 1885) somente ao encontro com Charcot e à elaboração de sua teoria sobre a histeria. Na introdução de A ciência dos sonhos, não é feita nenhuma alusão a essa revolução já em curso. Freud não parece conhecer senão as interpretações oniromancistas e organicistas!

Também podemos simplesmente afirmar que a morte do Antigo Regime dos sonhos estava anunciada desde a metade do século XIX e que a revolução freudiana acelerou sua chegada.

Yannick Ripa

Fonte: Revista Com Ciência

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