Agressividade X Sobrevivência: Desafio Para a Masculinidade

Plutão” por Agostini Carracci (1557-1602)

*Por Angelita Corrêa Scardua

Para a maioria dos nossos antepassados do sexo masculino só havia dois comportamentos possíveis diante do perigo: lutar ou fugir! Mas, por incrível que pareça, a resposta fisiológica desencadeada pelo corpo diante de uma ameaça é sempre a mesma, e não importa se a nossa escolha é lutar ou fugir.

Quando nos vemos diante de uma situação que nos ameaça, quando nos sentimos amedrontados, pressionados e desafiados, nosso corpo reage exatamente como o dos nossos ancestrais das cavernas: a taxa de adrenalina no sangue sobe, nossa musculatura se contrai, o coração bate mais forte e a circulação de sangue no organismo aumenta; transpiramos, nossas pupilas se dilatam, nossas narinas se expandem para absorver mais oxigênio… Resumindo: o nosso corpo nos prepara para enfrentar o perigo, seja ele real ou imaginário. Toda essa preparação física serve igualmente para o embate “corpo a corpo” e para o estratégico “sebo nas canelas”. Tanto correr quanto lutar exige tonicidade muscular, acuidade visual, maior quantidade de sangue irrigando nossas veias e maior oxigenação dos pulmões.

A reação fisiológica ao medo é uma estratégia de sobrevivência que a espécie humana desenvolveu para enfrentar os desafios do ambiente. Pense numa coisa bem simples: se os nossos antepassados não tivessem reagido às ameaças do ambiente nós não estaríamos aqui, nem eu escrevendo e nem você lendo. Quando lutar fisicamente contra a ameaça era possível as mudanças corporais permitiam aos nossos ancestrais partir para a briga. Quando a ameaça era maior, mais forte ou mais poderosa que um humano, a única alternativa de sobrevivência era fugir.

Durante grande parte da história humana os papéis de proteção envolvendo força física foram desempenhados pelos homens e, em grande parte, graças a um hormônio masculino chamado testosterona. O hormônio masculino testosterona é responsável pela maior força do macho de nossa espécie que se caracteriza pela maior tonicidade muscular, maior estatura e ossatura mais desenvolvida. O testosterona também está envolvido na formação das características sexuais masculinas secundárias como laringe maior (que favorece o tom grave da voz), desenvolvimento do pênis e de sua função erétil na puberdade, assim como a presença de pelos no tórax. Ou seja, quase tudo que biologicamente torna um homem mais atraente para uma mulher.

Estudos têm demonstrado que há uma íntima relação entre os níveis de testosterona no sangue e a emergência de sentimentos/emoções advindos de uma disputa, competição, etc. Ou seja, tanto o impulso para a “batalha” quanto o sentimento positivo da vitória associa-se à forte presença de testosterona no sangue masculino. Parece que o testosterona, portanto, é gerado para preparar o organismo para responder à competição e/ou desafios. Isso não quer dizer necessariamente que o testosterona seja “O” hormônio da violência. Até porque violência e agressividade não é a mesma coisa. Antes, o testosterona seria um hormônio associado aos comportamentos de busca de dominância. Sendo assim, os machos da espécie humana, que no passado eram responsáveis pela proteção do grupo, necessitavam de altas taxas desse hormônio no sangue; o que poderia garantir não só os atributos característicos da força masculina como a dose necessária de estímulo psicológico para combater o perigo. Mas, hoje, a maior parte dos desafios enfrentados pelos homens é muito mais de ordem mental, emocional e cognitiva do que de ordem física, não mobilizando parte das funções originais do testosterona com a mesma frequência que no passado.

Ainda assim, especula-se que os homens com altas taxas de testosterona são mais propensos a reagirem agressivamente aos desafios da vida cotidiana, como é o caso de homens jovens. Acontece que reações explosivas e agressivas geram tensão, e isso se associa à elevação súbita dos níveis de adrenalina no sangue. Essa alternância desequilibrada de hormônios ligados a comportamentos de ataque-defesa (lutar ou fugir) torna os homens mais vulneráveis às doenças cardiovasculares, e a processos judiciais. Hoje, os presídios estão abarrotados de homens que recorreram à própria agressividade para resolver os conflitos do dia-a-dia. A violência resultante de comportamentos agressivos, e aparentemente subsidiados pelos altos índices de testosterona no sangue, não mais facilita a existência masculina, muito menos contribui para que a sociedade valorize os homens, ao contrário disso acaba por levá-los ao tribunal.

A agressividade não tem sido bem vista nos dias atuais, ela é a parceira incômoda da violência e de tudo àquilo que se entende por um comportamento inadequado. Na sociedade contemporânea, a agressividade é incompatível com a postura dos homens de bem: que são aqueles que cumprem seus deveres de cidadão e pagam suas contas em dia. A agressividade é a face reprimida de um modelo de masculinidade associado à ideia do que deve ser um bom pai, um bom marido, um bom filho, um bom vizinho, um bom empregado… um bom moço. Acontece que toda essa “bondade” requerida para o convívio social não extingue os impulsos agressivos que configuram o Imaginário Coletivo sobre a biologia masculina, ela apenas camufla, sufoca e nega. Não podendo ser expressa de maneira saudável, a agressividade emerge como uma “doença” sociocultural que enche as telas de cinema/TV e as páginas de jornal com crimes bárbaros, violência doméstica e sexual, brigas mortais entre torcidas, gangues de rua e outras formas desequilibradas de expressão dessa emoção.

Em situações estressantes o corpo do homem arma-se dos recursos biológicos favoráveis à expressão da agressividade, aqueles que nos preparam para lutar ou fugir. Na impossibilidade de utilizar positivamente esses recursos os sintomas do stress avançam, potencializam-se e tomam conta dos processos fisiológicos responsáveis pela vida emocional. É o stress um dos principais responsáveis pela queda dos níveis de testosterona no sangue. Por um lado, essa condição pode levar à perda de massa muscular, ao acúmulo de gordura (em especial abdominal), à disfunção erétil e a várias outras consequências físicas e psicológicas. Por outro lado, dados estatísticos apontam para o fato de que altos índices de testosterona no sangue quase sempre estão associados aos comportamentos violentos que “engordam” as estatísticas policiais em nosso tempo. Apesar de tudo isso, do ponto de vista científico, uma dúvida ainda paira no ar: será que homens com níveis altos de testosterona têm uma probabilidade maior de se tornarem criminosos violentos, ou ser um criminoso violento aumenta os níveis de testosterona em um homem? Seja como for, no Brasil, 90% do contingente carcerário é de homens, e são também os homens a maioria das vítimas de acidentes de trânsito, de consumo de drogas, de violência urbana e de suicídios!

Se para nossos antepassados do sexo masculino havia dois comportamentos possíveis diante do perigo, para os homens de hoje quase sempre só há uma possibilidade e esta é lutar contra os desafios cotidianos. Mas se a briga dos nossos antepassados envolvia oponentes como tigres dente-de-sabre, intempéries naturais e tribos rivais; a atual se dá no trânsito, no medo do desemprego, nas exigências do mercado de trabalho, nos conflitos de gerações, nas demandas das relações sexuais e afetivas, nas variações do mercado financeiro e similares. As ameaças que enfrentamos hoje são tão importantes para a nossa sobrevivência quanto às dos nossos ancestrais eram para eles, a diferença entre nós e eles é que dificilmente sobreviveremos se fugirmos da briga.

Os homens do nosso tempo, enfim, podem e devem utilizar o potencial que o hormônio masculino tem para prepará-los para a luta. Para isso precisam aprender a conviver com a própria agressividade, canalizando-a para atividades produtivas como a prática de um esporte, por exemplo. A agressividade bem direcionada também pode ajudar no crescimento profissional, favorecendo a autoconfiança, a ousadia, a criatividade, a coragem para correr riscos e várias outras características ligadas a uma carreira profissional satisfatória. O fato é que a agressividade não pode simplesmente ser negada, desconhecida ou suprimida. Os homens devem reconhecer sua agressividade, confrontar-se com ela e fazer dela uma aliada. Da mesma forma que a agressividade, um dia, ajudou os homens a protegerem suas tribos e a transmitirem seus genes, ela hoje pode ajudá-los a superar a inércia de uma vida passiva que cria barriga, minimiza talentos, mata os sonhos e entope as artérias… Afinal, isso também é sobrevivência!

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Uma resposta to “Agressividade X Sobrevivência: Desafio Para a Masculinidade”

  1. Sag Says:

    Excelente


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