Gênero e Super-Heróis: O Traçado do Corpo Masculino Pela Norma

Marte” por Diego Velasquez (1599-1660)

Por *Adriano Beiras, **Alex Lodetti, ***Arthur Grimm Cabral, ****Pablo Raimundo e *****Maria Juracy Filgueiras Toneli

Prelúdio

Ao mesmo tempo refletindo e construindo realidades, as Histórias em Quadrinhos de super-heróis ganham vida na imaginação de seus leitores, estabelecendo fortes ligações com o mundo cotidiano destes. A exemplo de outras mídias, as HQs freqüentemente se prestam a representar ideais, valores, normas e padrões de conduta da sociedade de consumo, que servem à manutenção dos poderes instituídos; ainda que, por vezes, também sirvam à denúncia destes mesmos mecanismos. A construção dessas narrativas está diretamente ligada à experiência concreta de seres humanos – seus autores e editores, em relação com a comunidade leitora – (re)produzindo determinadas formas de existir e funcionando como mediação do real.

Um corpo musculoso, forte e viril (tirado de academias, imagens publicitárias e veículos de entretenimento) vem historicamente se tornando o referencial de corporeidade masculina, enquanto corpos que desviam deste padrão são comumente satirizados ou mesmo excluídos da mídia. Segundo padrões normativos da atualidade, músculos são indicativos de masculinidade (Glassner, 1989), atestando um ideal de força e virilidade, potencializado pela mídia sobre o imaginário de jovens homens. No caso das HQs de super-heróis, percebe-se uma heterogeneidade de representações corporais masculinas que demonstram variar de acordo com a caracterização do personagem.

(…) (…) (…)

Esquadrinhando o Masculino

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A imagem corporal é definida por McKay, Mikosza e Hutchins (2005) como uma imagem psíquica construída a partir de um corpo físico pela apropriação de significados simbólicos construídos socialmente, e como tal estando em contínua transformação. Houve, por exemplo, a mudança do significador primordial de masculinidade: no passado, a barba e outros pêlos corporais indicavam a maturidade e virilidade daqueles que as possuíssem, enquanto nos dias atuais essa significação é atribuída ao modelo mesomórfico de corpo e à musculosidade.

Um estudo conduzido por Wienke (1998) abordou o caráter central dos músculos enquanto representantes de masculinidade na cultura popular norte-americana. Utilizando entrevistas em profundidade, analisadas via interpretação narrativa, o autor concluiu que quase todos os sujeitos pesquisados aspiravam possuir um corpo mesomórfico e tinham organizado suas práticas corporais a partir de uma destas três estratégias: “confiança”, “reformulação” ou “rejeição”. A maioria dos informantes adotava a prática de “confiança”, identificando-se com e buscando ativamente alcançar o modelo muscular firme e volumoso associado à masculinidade. Aqueles que organizavam suas práticas através de “reformulação” também desejavam esse corpo normativo, porém entendiam que não poderiam atingi-lo, desenvolvendo, dessa forma, estratégias alternativas para incorporar autoridade, força e autocontrole. Finalmente, alguns homens tinham, de fato, “rejeitado” o ideal muscular, encarando-o como um produto de referenciais irreais ou datados.

De forma análoga, considerando a presença massiva e a glamourização do modelo corporal musculoso e mesomórfico nas HQs de super-heróis, bem como a proliferação do mesmo como valor cultural nos últimos anos, podemos presumir que as estratégias de práticas corporais apontadas por Wienke (1998) também se apliquem aos consumidores dessas histórias. Um aspecto fundamental para a identificação do leitor com a figura do super-herói, levantado por Brown (1999), seria a dualidade de masculinidade presente nesse tipo de personagem. Enquanto o alter-ego heróico personifica a força, a confiança e o poder de um ideal máximo de masculinidade, a identidade secreta retém as vulnerabilidades, inseguranças e suavidades do “homem comum”, numa dinâmica que potencializa a fantasia ao mesmo tempo em que a aproxima do “leitor comum”. Na faceta heróica, percebe-se que as características ocultas são justamente aquelas que expressam vulnerabilidade, o que pode ser entendido como um reflexo do medo do não-masculino permeando essas narrativas. Assim, as revistas em quadrinhos encenariam continuamente uma ambivalência de masculinidade, vivida pelos super-heróis como uma máscara, levando-os a manter duplas identidades, a fim de ocultar certos atributos e expressar outros de forma enfática.

A posição masculina dentro das HQs, ao ser analisada criticamente, de forma análoga a como a feminilidade dentro da mídia foi desconstruída pelo movimento feminista, não nos revela uma posição de sujeito definida e concreta, mas sim uma performance cuidadosamente orquestrada (Brown, 1999). A problemática da orquestração de um sujeito generificado é também levantada por Butler (1993), em sua noção de performatividade, segundo a qual masculinidades e feminilidades são construídas a partir da sedimentação de ações no cotidiano. Ideais regulatórios produzem os corpos ao mesmo tempo em que estes (re)produzem tais ideais; a atribuição de diferentes valores a determinados corpos fundamenta a abjeção daqueles corpos que se afastam dos padrões normativos. Nesse sentido, conforme os referenciais de masculinidades encontrados nas revistas em quadrinhos de super-heróis, os corpos de vilões e personagens coadjuvantes tendem a ser representados como abjetos – enquanto vis, grotescos ou desprovidos de poder.

Brown (1999) desenvolve sua leitura de gênero apenas sobre os super-heróis dessas narrativas, atribuindo exclusivamente a eles a influência social dos quadrinhos. Entretanto, podemos questionar qual a relação que se estabelece entre os leitores e aqueles personagens “secundários”, que utilizam seus super-poderes para fins moralmente repreensíveis, ou que são desprovidos de qualquer habilidade extraordinária. Lembremos que a construção social da masculinidade não se orienta apenas pelas figuras com as quais o sujeito se identifica, mas também por aquelas das quais ele se diferencia (Connel, 2005). Do mesmo modo, é possível problematizar os modelos de relações sociais implícitos na interação de personagens protagonistas, antagonistas e coadjuvantes.

(…) (…) (…)

Na discussão da corporeidade masculina nas HQs, partimos de uma análise crítica da construção do corpo. Concebido aqui como “objeto social e discursivo… vinculado à ordem do desejo, do significado e do poder”, o corpo carrega em si todo um arremate de significadores que produzem e re-produzem a ordem social estabelecida (Grosz, 2000, p. 77). Connell (1997) define masculinidades como configurações de práticas sociais que se referem a corpos masculinos, estando elas tanto relacionadas à ordem simbólica e institucional de nossa sociedade como aos aspectos individuais dos sujeitos nela inseridos. Este autor reconhece ainda a noção de “múltiplas masculinidades” (Connell, 1995), hierarquizadas a partir de relações de poder e no centro das quais existiria uma “masculinidade hegemônica” (…) correspondendo a um homem branco, ocidental, de classe dominante, provedor, heterossexual, forte e viril.

(…) (…) (…)

Grandes Poderes, Grandes Responsabilidades

Corpos masculinos são sempre corpos inseridos na história e na cultura. Esta afirmação torna-se especialmente relevante quando lidamos com a representação corporal em personagens fictícios. Seria tarefa infrutífera discutir esses corpos a partir de uma suposta concretude imagética, desconsiderando o contexto histórico que ocupam, as normas e valorações sociais a eles atribuídos. No caso específico das HQs estudadas, as imagens corporais estão sempre implicadas no enredo: corpos que salvam o mundo (…), corpos que tentam destruí-lo, corpos que são defendidos por um herói, corpos que apenas figuram na história, etc. Observamos, nessas narrativas, que diferentes funções são atribuídas a diferentes corpos, e que tais atribuições estariam, por sua vez, relacionadas a valores e normas histórica e culturalmente construídas em torno dos sujeitos masculinos.

A análise dos corpos dos personagens nessas HQs revela tendências distintas e significativas entre os mesmos. Os super-heróis, por exemplo, geralmente apresentam um status corporal padronizado e enfático: os corpos masculinos são viris e musculosos, enquanto os femininos são esguios e intensamente erotizados. Nossa premissa é a de que as representações corporais desses personagens remetem, ao mesmo tempo, a uma instância ético-moral e a outra de poder de ação. Esta espécie de dialética entre poder e moralidade é explicitamente ilustrada por um lema recorrente nas revistas de Spiderman, personagem da editora Marvel Comics, desde sua primeira história, publicada em 1962: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

(…) (…) (…)

A musculosidade masculina teria, assim, a função de destacar os personagens principais em relação àqueles menos atuantes e menos relevantes. Podemos pensar essas representações corporais como metáforas das relações sociais hierárquicas entre masculinidades apontadas por Connell (1995), segundo as quais apenas alguns homens centralizariam o poder na sociedade. Outros elementos estéticos se fazem presentes na caracterização do posicionamento ético-moral desses personagens. Enquanto os corpos dos heróis são costumeiramente representados de forma mais simétrica, dentro de padrões normativos de saúde e beleza, os corpos dos vilões freqüentemente carregam traços ou atributos que os desviam destes mesmos padrões, tais como cicatrizes, deficiências físicas ou feições associadas ao grotesco.

(…) (…) (…)

Podemos inferir que essas caracterizações de personagem via representações corporais contribuem para uma construção sígnica singular de corporeidade masculina: musculosidade associada à poder de ação e protagonismo, e corpo mesomórfico como padrão normativo de beleza.

Epílogo

Neste ensaio procuramos abordar algumas questões relativas ao papel das HQs de super-heróis na constituição de ideais e sentidos de masculinidades. Como resultado de nossas análises, podemos afirmar com certa propriedade que existe um modelo, fortemente colocado nessas narrativas, do que significa ser um homem e do que se espera de um homem em nossa sociedade. (…)

Considerando o contexto norte-americano em que os quadrinhos (…) foram criados, podemos identificar uma série de valores associados à masculinidade, dentre os quais força física, virilidade, poder econômico, racionalidade, controle emocional, honra, lealdade e a predominância masculina na esfera pública. Estes valores coexistem, sobrepondo-se e dialogando, freqüentemente em contradição. Percebe-se que heróis e vilões, figuras centrais das HQs estudadas, tendem a refletir e cristalizar esses valores, que variam em natureza e em grau conforme a caracterização do personagem ou a linha narrativa.

(…). A exposição às HQs de super-heróis pode, presumivelmente, imprimir sobre a constituição dos sujeitos ideologias e padrões de conduta. Entretanto, não é possível afirmar categoricamente que exista uma relação direta entre aquilo que alguém consome e aquilo que alguém se torna. Portanto, embora seja possível supor relações de influência recíproca entre as HQs de super-heróis e os modelos de masculinidades atuantes no imaginário masculino, pesquisas específicas se fazem necessárias para a investigação de tais relações.

*Adriano Beiras é Psicólogo, graduado pela UFSC e Mestre em Psicologia pela mesma instituição.
**Alex Simon Lodetti é Psicólogo, graduado pela UFSC e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da mesma instituição.
***Arthur Grimm Cabral é Psicólogo, graduado pelaUFSC e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da mesma instituição.
****Pablo Raimundo é Psicólogo, graduado pela UFSC e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da mesma instituição.
*****Maria Juracy Filgueiras Toneli é Psicóloga, Doutora em Psicologia pela USP, Pesquisadora do CNPq e Professora Associada I da UFSC.

FONTE: Revista Psicologia & Sociedade; 19 (3): 62-67, 2007

Leia o artigo completo AQUI

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Uma resposta to “Gênero e Super-Heróis: O Traçado do Corpo Masculino Pela Norma”

  1. Marco Says:

    muito bom o artigo, gostei msm…


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