Masculinidade, Honra e Desafio, e Algumas Incursões no Ideário Individualista

Júpiter” por Jean Dominique Ingres (1780-1867)

*Excertos de artigo de Lia Zanotta Machado

No Brasil, a força da categoria relacional da “honra” funda a construção simbólica dos gêneros, no que tem mais de impensado e naturalizado. A construção hegemônica dos valores do masculino faz lembrar os padrões mediterrâneos da construção simbólica masculina, em torno do desafio da honra, do controle das mulheres e da disputa entre homens .

(…). Fala-nos da responsabilidade que se associa quase exclusivamente à idéia de “provedor”, tanto como marido, como pai . “Ser homem” é associado a ser possuidor da “honra do homem”: A “honra de homem” parece estar assentada em dois pilares: a assunção da responsabilidade de pai e marido “que não pode deixar faltar nada” e de ter uma “mulher respeitada”.

(…) (…) (…)

O código relacional da honra exige as responsabilidades recíprocas, mas entre tarefas diferenciadas entre homens e mulheres, nas suas funções de parceiros e do exercício da parentalidade. A posição de provedor parece ser a contrapartida da fidelidade sexual feminina. Parcela importante do núcleo da “honra” do homem depende da fidelidade da mulher e do seu estatuto de ser reconhecida como “respeitada”. A fidelidade masculina não é exigida pelo código relacional da honra. A paternidade é referenciada e constitutiva da idéia de “honra”: e ela parece reforçar e consolidar o valor da função de provedor, fazendo paulatinamente “nascer” o sentimento de responsabilidade. Um grande silêncio permanece sobre a paternidade enquanto “sentimento da paternidade” na relação com os filhos. Este silêncio está inscrito na redução da paternidade ao valor do provimento e o poder de controle que dele se deriva. Como se a longa duração da idéia de “senhor das terras e das pessoas” da época colonial permanecesse.

A invenção do “sentimento da maternidade” e da idéia de “criança” nos séculos XVIII e XIX, tão bem apontada por Ariès (1981) no mundo europeu parece não ter tido a correlata invenção do sentimento da paternidade. O trabalho do historiador Ariès é significativo, ao falar da invenção do sentimento de “maternidade” e da invenção da figura da “criança”; contudo, pouco nos fala da invenção de um sentimento de paternidade. Minha hipótese, é a de que a paternidade nos séculos XVIII e XIX se transforma muito menos que a maternidade, por se centrar na figura de provedor. Pouco foi “inventado” sobre o sentimento de paternidade. Talvez, quem sabe, o discurso freudiano, e, em especial, o lacaniano, também se inscrevam no exercício da “construção social” do “sentimento de paternidade”.

Com a idéia do “sentimento da paternidade” tão pouco desenvolvida, os valores do controle e da correção sobre os filhos tendem a prevalecer, endossados perversamente pela idéia de “masculino” como parecendo transitar em ser o representante da lei, menos submetido e mais estimulado a impô-la aos outros.

(…) (…) (…)

A referência à categoria de “liberdade da mulher”, arraigadamente pertencente ao ideário individualista, não é facilmente reinterpretada em nome do código relacional da honra. É problematizada. (…) O também “novo valor” da fidelidade masculina parece se inscrever na vontade (…). A idéia de igualdade já está fazendo efeito e subvertendo o “contrato tradicional” original, mas, de forma extremamente instável, porque o nexo hegemônico de sentido e de valor é o “código relacional da honra”. Os significados centrais da rivalidade e do desafio, vinculados à honra, iluminam o sentido de gênero da violência, tanto de homens contra as mulheres como controle de gênero, quanto da violência interpessoal entre homens, como explicitamente relações de rivalidade.

A “honra de um homem” depende, no mundo do “código relacional”, da “respeitabilidade de todas as mulheres”, não só, da esposa, como das mulheres que compõem a sua parentela consangüínea. (…). A noção de “honra” se articula aqui com a noção de desafio entre homens.

(…) (…) (…)

As categorias de masculinidade transitam, paradoxalmente, entre o homem, “bicho danado”, não domesticável, irresponsável, perigoso para as mulheres, porque não confiável, e, de outro, o “homem honrado”, que, em nome da responsabilidade face à parentela em que se insere, tem o poder, e o dever de controlar suas mulheres (que inclui o uso da violência física, não só sobre afins quanto sobre consangüíneas) e de defender (incluindo o uso da força física) a “honra de suas mulheres” contra homens que se aproximam das mulheres de forma considerada inadequada. A “honra feminina de suas mulheres” , por definição deste conjunto de valores, conspurca a “honra masculina”. (…)

O paradoxo se resolve, quando se insere explicativamente a teoria da aliança e da consangüinidade , e se articula com a idéia de que o código relacional da honra é acionado pelas posições masculinas que se posicionam como “pertencendo” a um grupo de parentela, mas que cabe aos homens decidirem sobre assumirem ou não uma parentela. Em nome do pertencimento a um grupo de parentela, é que surge a categoria de “homem honrado”. A categoria “homem, bicho danado” invoca a posição do pressuposto fundante que o masculino está no lugar de poder ou não, isto é, de decidir ou não pelo pertencimento e constituição de uma nova parentela de afinidade através do casamento ou do “juntar”, e de decidir autonomamente sobre a forma de “tratamento” com sua mulher. As duas categorias são assim constitutivas do código relacional da honra. São elas que estruturam a gramática da rivalidade e do desafio. Os mesmos homens, dependendo de suas posições na rede de relações sociais, são “homens honrados” e “bichos danados”.

A construção simbólica masculina, em torno do desafio da honra, da disputa entre homens e do controle das mulheres se articula e constitui grande parte das formas de violência brasileira masculina, lembrando os padrões mediterrâneos, onde tais categorias já foram tão bem analisadas, e das quais culturalmente o Brasil é caudatário, especialmente através da cultura ibérica.

Contudo, componentes das categorias masculinas aqui relatadas, não parecem ser exclusivamente brasileiros ou ibéricos. Poder-se-ia lembrar a importância do Mediterrâneo na constituição de todo o processo civilizatório ocidental, mas o principal é pensar as formas patriarcais, que apesar de suas diversidades no tempo e no espaço alcançaram um amplo espectro geográfico e temporal. Um núcleo básico da categoria ocidental de masculinidade parece ter se constituído de tal forma que sintetizações simplificadas são possíveis. Para Nolasco (1995), este núcleo básico tanto pode ser explicitado, como pode indicar suas presentes e futuras transformações: “A noção de um masculino definido como ação e centro de um sistema de relações (patriarcado) está hoje à mercê de processos de transformações(…)”.(p.27).

Ouvindo o canadense Corneau (1995), aproveito-me para citar a sintética referência de Nolasco (1995) ao seu trabalho, para indicar como se pode chegar à associação entre masculinidade e violência, de uma forma mais generalizada, temporal e geograficamente: “Diante de um protótipo relacional descompensado (a mãe supre as necessidades afetivas e o pai, as materiais ), o menino se distancia de sua demandas afetivas, tornando-as estranhas a ele mesmo, ligando-se a elas por meio de comportamentos agressivos e violentos. Socialmente, estes comportamentos são valorizados e reconhecidos como inerentes ao macho”.(p.26 e 27).

Assim, ainda que a lógica do mundo relacional da honra não tenha, em toda a cultura ocidental, a forte presença que tem no mundo brasileiro e hispano-americano; a vinculação do masculino com a “ação”, a “decisão”, a “chefia de uma rede de relações familiares”, e a “paternidade” entendida como “provimento material”, constitui-se num impensado de gênero da cultura ocidental, que, muitas vezes é identificado com os “valores antigos ou tradicionais” de gênero.

Do meu ponto de vista, componentes (já suavizados) das categorias masculinas constituídas neste universo do “código relacional da honra”, são ainda responsáveis pelo “impensado” das categorias masculinas vigentes na sociedade moderna contemporânea, isto é, servem como referência e aparecem como “valores antigos”, mas que ainda operam parcialmente. É como se a lógica do individualismo se debruçasse sobre estes “antigos valores” e os tivesse suavizando, reinterpretando e modificando.

No Brasil, como nos países latino-americanos de forte presença ibérica, e de restrita expansão e generalização dos direitos de cidadania, a extensão e a profundidade da inscrição no código relacional da “honra”, conformam marcas específicas e profundas. Em grandes parcelas da população, é esta a lógica cultural que predomina. É este mundo relacional que incorpora e reinterpreta os valores informados pela expansão e generalização do ideário individualista que se pretende igualitário, desconstrutivista e reconstrutivista das diferenças de gênero.

Se no mundo relacional da “honra”, é o valor da hierarquia de gênero que impera e são os valores do “controle”, da “rivalidade”, da “agressividade” e da “violência” que definem os atributos masculinos; neste mundo relacional, também é o princípio da “pertença social e comunitária” e da “reciprocidade” que impera e não o ideário do indivíduo “atomizado”. O amplo processo de desenraizamento social que resultou da intensa e recente urbanização, pode ter enfraquecido a manutenção destas redes de parentela, e, contraditoriamente, fortalecido os estímulos aos investimentos subjetivos de “controle” e “agressividade”, face ao processo perverso de destituir sujeitos de se considerarem “pessoas”, e torná-los todos “anônimos”.

Uma reinvenção dos laços sociais de “pertença”, é o que a tradição cultural popular brasileira parece estar inscrevendo como uma demanda, ou, apresentando-se como o espelho invertido da face perversa do individualismo: a indiferença e a falta de sentido de pertença. Uma reinvenção das relações amorosas e sexuais, uma reinvenção dos gêneros e uma reinvenção das relações familiares, são as demandas do ideário individualista. Na modernidade individualista, a reinvenção amorosa e sexual parece estar parcialmente em curso. Contudo, os mitos fundadores das estruturas dos desejos masculinos estão ainda longe da revolução simbólica em direção a uma sexualidade simbolicamente mais plástica e em direção a encontros amorosos mais igualitários.

Giddens (1991e 1992) é um dos autores que aposta alto nas vantagens positivas da sociedade pós-tradicional, e da crescente expansão do ideário individualista, que estão sendo responsáveis entre outras características, pela transformação da intimidade, pela idéia de um “amor confluente” baseado exclusivamente nos desejos e vontades dos parceiros e, pelos processos de desconstrução e reinvenção dos gêneros. O individualismo e a destradicionalização são coetâneos com os movimentos feministas que impulsionaram e instauraram novas formas de pensamento sobre a divisão sexual de sexos/gêneros. No entanto, no meu modo de entender, na contemporaneidade, as sociedades não se querem ou são apenas sociedades “pós-tradicionais”. Na contemporaneidade, confrontam-se e articulam-se distintas “temporalidades morais” como a tradição da honra e a lógica do individualismo de direitos, mas não apenas estas. Se o futuro aponta para a presença de um bem-estar “construtivista”, e da idéia do valor dos direitos igualitários, também anuncia um mal-estar no que se refere ao futuro dos estilos de subjetividade, das categorias de gênero e de sua articulação com as formas antigas e novas de violências.

*Lia Zanotta Machado é Professora Titular de Antropologia da Universidade de Brasília, Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Mulher (NEPeM/UnB), Dra. em Ciências Humanas , USP, 1980 e Pós-doutorado (CNPq) no Institut de Recherches sur les Sociétés Contemporaines (IRESCO) e na École des Hautes Etudes em Sciences Sociales (EHESS), Paris (1992-1994).

Leia o artigo completo AQUI

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2 Respostas to “Masculinidade, Honra e Desafio, e Algumas Incursões no Ideário Individualista”

  1. Lusineide Says:

    Gostei muito dos temas tratados nesta sessão.
    Estou desenvolvendo um acompanhamento psicologico em algumas comunidades Quilambolas e gostaria de desenvolver uma pesquisa sobre o relacionamento entre o feminino e o masculino no ambiente quilombola. Algum pesquisador poderia me orientar, via internet.
    meu email. Lcmpastorinha@hotmail.com.

  2. CARLOS ROBERTO DE RESENDE MIRANDA Says:

    Oi Lia. Excelente revisão sobre o assunto, muito apropriado do ponto de vista científico, mas creio que um tanto quanto outdated e especulativo. Afinal você descreve uma sociedade que quase não existe mais. Meu pai foi criado tradicionalmente, casou oprimindo o desejo de minha mãe trabalhar, mas acabou se redimindo, não só aceitando que ela trabalhasse, como ativamente incentivando-a. Ele nunca a abandonou, mesmo após ela mesma ter ficado extremamente e longamente doente, mentalmente incapacitada e ficou a seu lado até o fim. Reconheço porém que minha anedótica experiência não pode ser generalizada, mas é um exemplo que tento seguir como homem, marido e pai. E qual seria esta alternativa que você nomeou ideário individualista? Você publicou algo mais que se possa entender o que seria o Ideário Individualista, obrigado.


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