O Espelho e os Homens: Considerações Sobre os Reflexos na Masculinidade de Hoje

Netuno” por Agnolo Bronzino (1503-1572)

*Excertos de Artigo de Isabel Marazina

Desde a psicanálise, pensa-se que o falocentrismo, que sustenta a distribuição de valores – e de poderes – na sociedade patriarcal, não gerou, mas reforçou o imaginário “eles tem – elas não” que não é mais que a teoria infantil nascida da impossibilidade de inscrever a diferença sexual nos primeiros anos de vida.

Sabemos que esse imaginário promoveu, ao longo da história, uma atribuição social do poder ao homem, que este recebia como algo que lhe era próprio, “por natureza”, enquanto possuidor de um pênis, garantia do brilho fálico. Em momentos em que os atributos de força e valor físico eram imprescindíveis para assegurar a posse das terras, dos Estados e das mulheres, a supremacia masculina era incontestável. Todo um aparelho institucional estava destinado a sustentar a lógica que dividia a espécie entre seres “completos” e “incompletos”.

A história do século XX nos mostra a desconstrução progressiva dessa lógica. Desde o avanço tecnológico, que faz o deslocamento do eixo “força e coragem” para o eixo “pensamento e habilidade” – passando pela revolução que implica a pílula anticoncepcional, pelas progressivas conquistas femininas de lugares antes impensáveis no mercado de trabalho, pelosos espaços de decisão sociopolíticos, etc., etc. –, sucessivos e mortais golpes foram proferidos à imagem do patriarca sustentado pelo seu atributo natural, que vinha sendo posta em xeque desde o início da modernidade.

(…) (…) (…)

Encruzilhada difícil para o sujeito masculino, que constrói sua posição através de um tortuoso caminho que implica negar em si os traços de qualquer assujeitamento que possa feminilizá-lo… basta seguir com atenção os desenvolvimentos do percurso do pequeno homenzinho para entender o porquê de sua necessidade de apagar com tanto vigor, seja sua dependência do Outro primordial seja a passividade em relação ao pai, que lhe aparece como o único capaz de separá-lo da armadilha mortal do gozo materno…

E aqui enveredamos por outra dificuldade própria da época: a quantas anda essa capacidade paterna, que depende do valor que a mãe pode dar, em seu discurso, ao seu homem, enquanto seu objeto de desejo? Se pensarmos na oferta tecnológica, que facilita o sonho fálico das “produções independentes”, nas quais o lugar do pai fica reduzido a um traço sem maior importância, não parece muito promissora a possibilidade de sustentá-la… Porém, me vem à cabeça um fragmento da sessão de uma paciente, jovem executiva, muito entregue às exigências da carreira, que nesse momento atravessa um sofrimento considerável, pelo fracasso reiterado que ela e seu marido vêm enfrentando na procura de um filho. Tendo decidido recorrer ao “pai tecnológico”, realizou duas tentativas de fertilização, nas quais, em razão de uma “má disposição” do útero, para poder introduzir o cateter com o esperma, teve que sofrer um pequeno corte, que relata como muito doloroso. À medida que vai falando sobre essa dor, entendo que fica claro que de outras dores se trata, e convido-a a pensar sobre isso. O que a leva a descobrir, surpreendida pela própria fala, que a dor era suscitada pela morna presença do marido em todo o processo.

De fato, na primeira tentativa ele não se acha presente; e na segunda chega com retardo à sala de espera da clínica onde se realizava o procedimento. Ela pode formular seu desejo de entrar na sala na companhia dele, e o efeito desse reconhecimento é uma conversa, frente à necessidade de tentar mais uma vez, em que coloca esse pedido para seu companheiro. O interessante é que, confrontado com esse “pedido”, ele pode dizer do seu incômodo de se sentir desnecessário – recusando o fato de ser o seu esperma que fertiliza – mas também da sua angústia de estar presente no momento em que o médico “mexe com ela desse jeito”. Deixando de lado as possibilidades de entendimento sobre essa angústia, o importante é que ela relata, surpresa, que, na medida em que ele pode acompanhá-la, o seu útero ficou receptivo à introdução dos espermatozóides, e o processo todo se realizou sem dor, coisa que abriu a possibilidade de pensar que em algum lugar esse homem lhe era insubstituível. Sem dúvida que a riqueza desta vinheta nos convida a pensar em muitos desdobramentos, mas o que me parece pertinente a nosso tema é que algo da ordem do fantasma fez limite à posição onipotente de um saber científico que nos propõe como possível a ultrapassagem de quaisquer limites. Ali fazia falta esse homem, na posição de homem, para poder haver a fecundação possível, coisa que tanto para ela quanto para ele permaneceu enigmática até o corte no corpo poder ser falado.

Talvez possamos pensar que a posição masculina, hoje, requer, sim, um esforço semelhante ao realizado por este casal. Por um lado, a possibilidade de uma mulher poder falar da sua falta, renunciando em parte à aura fálica que suas conquistas lhe têm ajudado a construir. Por outro, da possibilidade de o homem vislumbrar que, mesmo não conseguindo ser “tudo” para a mulher, há um espaço que pode lhe estar reservado, no qual somente ele faz a diferença. E não se amedrontar com isso.

O tempo me exige terminar, e com isso deixar de fora várias questões que decorrem destas meras indicações para pensar. Mas não queria fazê-lo sem remarcar que nesta difícil conjuntura que nos implica tanto aos homens quanto às mulheres, não nos será possível fazer surgir alguma condição de possibilidade se não lembrarmos que aquilo que constitui nossa principal dor também é nossa saída: a castração nos afeta a todos. É por isso que relançamos o desejo, incessantemente, na busca daquilo que finalmente nos faça viver a jamais renunciada completude, e nos decepcionamos quando, alcançado o objeto, nos revela o engano, uma e outra vez. Talvez – e isto é uma expressão de desejo – um amor que possa se sustentar na lucidez desse desengano nos ajude a transitar por esse caminho com menos exigências, e, portanto, com menos sofrimentos. Disso, já Freud e o ditado popular nos alertaram:

Tem ilusões que matam….

*Isabel Marazina é Psicanalista; Membro da APPOA; Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP; Analista Institucional.

FONTE: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre – Ano XIII – Número 28 – abril de 2005

Leia o artigo completo AQUI

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