O homem na pós-modernidade: reflexões sobre as identidades masculinas…

“Baco” por Leonardo da Vinci (1452-1519)

*Excertos de artigo de Ronald Clay dos Santos Ericeira

Apresentação

Que critérios ou parâmetros definem a identidade masculina? O que delimita o campo do masculino na contemporaneidade? Estes são questionamentos que reverberam cotidianamente nos colóquios científicos sobre estudos de gênero, bem como em programas de televisão destinados a debater, calorosamente, os relacionamentos amorosos na atualidade. Nesses espaços de discussão, divulga-se que o homem estaria em crise consigo mesmo e com sua parceira sexual, pois não saberia mais se adequar ao papel de provedor e a de fortaleza impenetrável às emoções, os quais lhes foram historicamente atribuídos.

Nessa perspectiva, a sociedade ocidental, grosso modo, estaria demandando ao homem maior flexibilidade e sensibilidade ao tratar com sua companheira sexual. Além disso, acrescentamos que sua contínua ausência do lar por destinar significativa parte do seu tempo ao trabalho também teria se tornado mote de acusações de negligência parental. O constante absenteísmo paterno estaria viabilizando o aparecimento de uma geração de meninos fracos, afeminados e sem a noção precisa da importância da lei simbólica que lhes ensinaria as interdições culturais de sua coletividade.

Nos seus estudos sobre a masculinidade, CUSHINIR (1991) alerta que a maioria dos homens não se enquadrou nestes moldes de “homem mole”, logo estaria desorientada no que tange à postura social “apropriada”. Ademais, o homem queixar-se-ia de ser pressionado para ter um significativo desempenho sexual e de ter êxito profissional. Na sua visão, este não seria mais o sexo forte, mas também não aspirava assumir o posto de sexo frágil. Em outras palavras, poderíamos reiterar que é assaz recorrente entre os estudiosos das relações de gênero a assertiva de que a masculinidade estaria em crise.

(…)

Nesses termos, o interesse deste artigo decorre de uma inquietação a respeito do tema da crise da masculinidade. Investigando empiricamente este assunto, empreendemos uma pesquisa com homens de São Luís-MA, focalizando suas representações sociais do comportamento masculino na contemporaneidade. (…)

Algumas Considerações Sobre identidades Masculinas e Femininas

Conjeturamos que o debate sobre a masculinidade na contemporaneidade pressupõe um breve rastreamento das condições sócio-históricas que possibilitaram a configuração de identidades sociais para homens e mulheres no transcurso dos séculos. (…). Oportunizamos este ensejo para apontar uma distinção entre conceitos ambíguos: a identidade sexual e a identidade de gênero. A primeira é restritiva à classificação do sujeito como heterossexual, bissexual e homossexual. A segunda, objeto deste artigo, é mais abrangente e engloba o status de homem ou mulher nos critérios pessoais, sociais, incluindo a orientação erótico-sexual.

(…) (…)

Restringindo-nos à história das civilizações ocidentais, é-nos possível afirmar que quase sempre se encontrara um motivo para privilegiar o masculino frente ao feminino, visto que a mulher foi considerada por muito tempo como incapaz de desenvolver um raciocínio abstrato mais elaborado. Ademais, BOURDIEU (1999) acentua que historicamente os homens ficaram destinados aos espaços públicos e à dominação da sociedade.

(…) (…)

No Brasil, durante o período colonial, sob os reflexos da sociedade européia, a assimetria sexual também era inelutável. O chefe de família permanecia tempo diminuto em seus lares, delegando quase exclusivamente a educação dos filhos à mulher. Por outro lado, tal afastamento masculino das residências, reforçava a idealização dos papéis de esposa e de mãe moldados na figura da “Rainha do Lar”. Por seu turno, NOLASCO (1995) acredita que, até a metade do século XX, o papel masculino, no Brasil, estava fortemente enviesado pelo coronelismo e tenentismo: duas formas de condutas que confundiam a virilidade com o autoritarismo. (…).

Cumpre assinalar também que diversos pesquisadores afirmam que o homem brasileiro sofre do complexo de latinidade. Isto é, os brasileiros, como os demais povos de origem latina, carregariam o estereótipo de serem sexys e bons de cama, dados que aumentariam suas responsabilidades no “leito de amor”. Esta inquietação com o desempenho sexual é revelada em recente pesquisa coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo do Projeto de Sexualidade dos Hospitais das Clínicas de São Paulo, editada por BUCHALLA (2001). Comprovou-se que cerca de 40% dos homens entre 30 e 50 anos apresentam algum grau de impotência. A ejaculação precoce é o fantasma da metade dos homens entre 18 e 60 anos de idade, sendo a incidência maior nos mais jovens.

(…). Se a cosmologia falocêntrica subjugou as mulheres, colocando-as em posições subalternas, também produziu determinados tabus e mitos para a sexualidade masculina. Destacamos que a identidade masculina, na acepção deste sociólogo, é apreendida de forma relativa, sempre em oposição à feminilidade e aspirando a uma supremacia frente a outros homens. Além disso, a insígnia varonil é definida negativamente, ou seja, por aquilo que ele não é ou ao menos não deveria ser. Em outras palavras, o homem descobria primeiro as interdições do campo feminino para posteriormente descobrir o que a sociedade lhe reserva para alcançar os patamares da masculinidade.

Desse modo, sinalizamos que os padrões culturais e as necessidades econômicas das diversas gerações erigem suas próprias exigências de comportamentos para homens e mulheres. (…). Assim, acreditando que historicamente cada sociedade engendra critérios a serem cumpridos pelos homens para serem enquadrados dentro do campo da virilidade, BADINTER (1993), por exemplo, enumera três momentos decisivos na vida dos meninos na estruturação de suas identidades heterossexuais: a separação da mãe, a distinção entre seus corpos e o feminino, a prova de que não são gays. Pedro Nolasco (1995) acrescenta um outro: a necessidade de o homem desenvolver suas capacidades laborativas.

Ressaltamos ainda que na visão de BADINTER (1993), o pênis é a possibilidade do menino ascender ao primado da masculinidade (…), NOLASCO (1995) assevera que o menino teria sido lobotomizado em sua afetividade, pois suas ligações com o coração seriam cortadas pela família e, posteriormente, pela escola. Assim, o homem seria reduzido a uma “sensibilidade peniana”, ou seja, suas reações emocionais estariam vinculadas a seu pênis. O desempenho de seu órgão genital determinará sua felicidade ou sua angústia existencial.

Calcando-nos nessa interpretação da crise da masculinidade pela ótica da sensibilidade peniana, ventilamos que esta desencadeou crenças assaz populares sobre a performance viril na cama: uma concernente ao tamanho do pênis – quanto maior, mais prazer proporcionado à parceira; uma relacionada com a idéia de que o homem deve estar sempre preparado para o coito – aquele que “negar fogo” arrisca ter sua honra difamada; uma referente ao mito de que todo contato corporal entre um homem e uma mulher deve acabar na cama; haveria ainda uma relacionada com o silêncio viril, apregoando que os “homens verdadeiros” não poderiam demonstrar suas emoções. Valeria ainda frisar o posicionamento de PARKER (1991) ao citar que o imaginário brasileiro desenvolveu a figura do “corno” para designar o homem que falhou em sua masculinidade.

(…) (…) (…)

Após estas digressões sobre a identidade masculina e feminina a partir de uma perspectiva sócio-histórica, elencamos alguns questionamentos que debateremos no transcurso da exposição dos resultados da pesquisa: como esses homens assimilaram as conquistas feministas? Foram obrigados a reavaliar suas posturas másculas? Ou continua a relacionar-se com suas parceiras seguindo uma ótica machista? Está mais livre para falar de seus sentimentos? Ainda acredita que é dever masculino o sustento da família? A independência financeira e a exigência sexual de sua parceira são vistas de maneira ansiogênica?

(…) (…) (…)

Considerações Finais

Considerando-se o contexto do grupo de homens investigados, um primeiro ponto a ser levantado é que não se pode falar em identidade masculina, mas em identidades masculinas, pois a expressividade de opiniões, algumas antagônicas, não permite a uniformização desta categoria. Entretanto, apesar de haver constatado peculiaridades em cada subjetividade, alguns conteúdos apresentados pela amostra são merecedores de comentários: a sexualidade falocêntrica e o silêncio viril.

A concepção falocêntrica esteve presente nos discursos masculinos, quando exprimiram, ainda que inconscientemente, que o mundo e as mulheres giram em torno de seu objeto fálico, o pênis. Esta visão egocêntrica masculina impede que o homem encare a traição feminina a partir da ótica de que a mulher pode ter seus motivos pessoais para traí-lo. Enquanto estes homens insistirem em medir suas masculinidades a partir de uma “sensibilidade peniana” continuarão a ficar deprimidos quando falharem sexualmente em algum momento de suas vidas.

Isto talvez seja refletido no dado em que apenas 30% dos homens da amostra afirmaram nunca terem sofrido de qualquer distúrbio sexual, seja ele: impotência ou ejaculação precoce. Ressaltamos que 86,66% procurariam a ajuda de um psicólogo caso tivessem problema sexual ou de relacionamento com a parceira. Mas, eles já não começam seu processo de adoecer quando se privam de exprimir suas emoções em público para não contrariar as normas sociais? Por que esperar seu mal-estar emocional manifestar-se de forma somática para procurar ajuda? O homem só pode falar de si mesmo quando suas problemáticas emocionais o atingem concretamente em seu corpo ou em seus relacionamentos objetivos?

No âmbito das relações de gênero, os homens examinados demonstraram ter internalizado bem a entrada da mulher no mercado de trabalho, desde que ela não se esqueça de suas ”peculiaridades femininas” ou que venha a sustentá-lo. As exigências feministas no campo da sexualidade também foram aceitas. O prazer sexual do casal é compartilhado e os parceiros envolvidos têm o direito de tomar a iniciativa para o sexo e de alcançar o orgasmo. Revelou-se, na pesquisa, que há homens recusando o coito sexual per se e já se permitindo sentir constrangimento quando pressionados a fazê-lo.

Assim, diríamos que o psicólogo, interessado pelo estudo da identidade de gênero masculina, deve estar atento às diversidades de demanda do homem atual sem considerar esta variedade de inquietações masculinas como uma crise identificatória, mas como um alerta de que há diferenças esperando serem escutadas e valorizadas. Pesquisadores e curiosos insistem em afirmar, conforme assinalado, que os homens contemporâneos estariam em crise, pois não se coadunariam mais com os moldes do passado patriarcal. Tampouco teriam encontrado uma nova maneira de lidar consigo mesmo e com suas parceira emancipada e sexualmente liberada. Por que insistir em preconizar padrões comportamentais para o homem? Por que colocar o peso do passado patriarcal ainda como referencial a ser seguido ou negado? Existiria maneira correta do homem lidar com seus relacionamentos intra e interpessoais? Estas indagações também suscitam algumas apreciações.

Vimos que os contextos socioculturais definem os próprios papéis masculinos e femininos segundo suas convivências e de forma a manter seu equilíbrio e funcionalidade interna, contudo a dinamicidade das relações de gêneros gerou e gerará, ela própria, transformações na concepção de masculinidade e feminilidade. Deste modo, a identidade de gênero influencia e deixa-se influenciar pelos contextos sociais. Logo, era esperável que a assimetria sexual imposta pelo sistema patriarcal fosse ressignificada apesar da sua longa duração.

Deste modo, preferimos inferir que a superação do patriarcado não desencadeia uma crise, mas um “mal-estar pós-moderno” nas identidades masculinas. Esclarecemos que utilizamos o termo “pós-modernidade” na acepção de BAUMAM (1998). Segundo este autor, invertendo as proposições de FREUD (1996) em “O mal-estar da civilização”3; na pós-modernidade, o homem se desprenderia relativamente de sua segurança pessoal e buscaria a realizações de seus desejos pessoais. Ou seja, a liberdade individual seria soberana nos tempos pós-modernos.

Assim, alguns homens viveriam um “mal-estar pós-moderno”, pois estariam assustados com a possibilidade de reagir às demandas do ambiente, conforme suas subjetividades e as exigências de suas realidades psíquicas, algo para que não foram educados. Empregando-se o termo crise de forma abrangente, caímos em generalizações sempre nefastas para o ego, principalmente o masculino, devido a sua suscetibilidade a normatizações sociais. Pensar-se-ia novamente em homogeneizações, uniformizações de cânones viris. Passar-se-ia da assimetria sexual imposta pelo patriarcado para a obrigatoriedade de uma sensibilidade do ser masculino. O homem, por não internalizar rapidamente esta mudança de padrões, estaria em crise.

Os movimentos feministas denunciaram as relações hierárquicas entre os sexos, almejando colocá-las em um plano simétrico. Acreditamos que elas foram mais longe ao possibilitar que homens e mulheres saíssem do campo do singular para o domínio da pluralidade, do respeito às idiossincrasias. Preferimos o uso da expressão “mal-estar da pós-modernidade masculina” à crise de identidade masculina, por considerá-lo mais democrático. Assim cada homem, segundo seu próprio desejo e implicações psíquicas, possa descobrir a melhor forma de interagir consigo mesmo e com o mundo. Em outras palavras, o contexto pós-moderno possibilita que certos homens reflitam e modifiquem suas condutas sexuais caso desejem, bem como os autoriza a permanecerem representando o mundo através de uma ótica machista se assim o ambicionarem.

Antes finalizar, valeria referirmos ainda a GIDDENS (1993), para quem o fato de haver, atualmente, uma maior reflexividade dos homens em relação a suas ações consigo mesmo e com suas as parceiras desencadeou uma série de mudanças sociais nos lares, no trabalho e mesmo no âmbito político das sociedades ocidentais. Nessa perspectiva, talvez esteja surgindo no horizonte psicológico novos questionamentos: o que deseja um homem? Que implicações esses desejos trazem para a sociedade em geral? Essas são perguntas para os futuros pesquisadores.

*Ronald Clay dos Santos Ericeira é Psicólogo e Mestre em Ciências Sociais.

FONTE: Revista Psicologia Para América Latina – Psicol. Am. Lat. n.13 México jul. 2008

Leia o artigo completo AQUI

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Uma resposta to “O homem na pós-modernidade: reflexões sobre as identidades masculinas…”

  1. Marta Maria Says:

    Diante de toda a evolução econômica e educacional a visão do homem não deixou de ser voltada para o falocentrismo, pois o macho alfa continua no inconsciente por hereditariedade.


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