Sexualidade, Masculinidade e Crise

Pan” por Carlos Schwabe (1877-1927)

Excerto de “Sexualidade masculina e saúde do homem: proposta para uma discussão”

*Por Romeu Gomes

Afinal o que é ser homem? Segundo Nolasco (1997), tomando como base uma sociedade patriarcal, uma resposta para essa indagação poderia convergir para a representação do homem de verdade. Meninos e meninas crescem sob a crença de que mulher e homem são o que são por natureza. No modelo de masculinidade a ser seguido, ressaltam-se as idéias de que o homem de verdade é solitário e reservado no que se refere às suas experiências pessoais, ou, quando muito superficial e prático, direcionado para agir e realizar atividades. Por outro lado, espera-se que o homem compreenda demandas emocionais de suas parceiras e de seus filhos, sendo cúmplice e sensível. Giddens (1993) observa que a sexualidade masculina tende a expressar mais inquietação do que a feminina porque os homens separam a sua atividade sexual das outras atividades da vida, onde são capazes de encontrar um direcionamento estável e integral. Essas inquietações cada vez mais vêm deixando de ser encobertas.

No final do século 20, ainda eram percebidas tensões na construção da identidade sexual masculina. Estudos realizados com homens das camadas médias urbanas e intelectualizados (Goldenberg, 1991) apontam para tensões masculinas diante de padrões tradicionalmente construídos. Os homens estudados expressaram a existência de alguns marcos vigentes para a afirmação da identidade masculina: a iniciação sexual com prostitutas; a negação do homossexualismo; a referência constante a um certo padrão de comportamento sexual masculino (mesmo quando para rejeitá-lo); o desejo de corresponder às expectativas sociais (em especial dos amigos e das mulheres). Esses homens expressavam medo de serem questionados na sua masculinidade por se afastarem dos padrões tradicionais, por eles rejeitados.

Embora sabendo que há diferenças do que é ser homem e ser mulher no tempo, no espaço e, em específico, no interior das classes sociais (Jablonski, 1995), com base em Nolasco (1995), podemos observar que ainda há homens que utilizam padrões tradicionais – poder, agressividade, iniciativa e sexualidade incontrolada – para construir a sua identidade sexual. As tensões que surgem entre a manutenção do poder do macho nas relações íntimas entre os gêneros e a possibilidade de se viver novos modelos de masculinidade, em que se contemplam a associação entre sexo e afetividade e um relacionamento igualitário com a parceira amorosa, têm sido um dos motivos para se falar de uma crise masculina.

Ramos (2000) observa que, na década de 1980 nos EUA e nos últimos anos da década de 1990 no Brasil, surgiu uma discussão acerca da crise da masculinidade. Mas que crise é essa? Segundo o autor, com base em Trevisan, o masculino não está em crise, uma vez que ele, em si, é um gênero que vive em estado de crise permanente e endêmica na sociedade patriarcal. Nesse sentido, a masculinidade não é algo dado, mas algo que constantemente se procura conquistar. Para o autor, as conquistas do feminismo não determinaram a crise, mas a tornaram mais visível. Seguindo a sua discussão, Ramos (2000) considera, baseado em Foucault, que falar atualmente de um novo homem e de uma nova mulher significa ordenar o que parece confuso.

Quando não se pode mais falar de um único modelo hegemônico de ser homem e de ser mulher, do qual uma simples classificação binária (masculino versus feminino) dava conta, essa parece ser uma boa “técnica” para “restaurar” a classificação de gênero, mesmo que às avessas. Damatta (1997) não aborda especificamente a crise da masculinidade, mas nos fala das inseguranças do ser homem. Para ele, num cenário em que se prega que a sexualidade se efetiva pela atração pelos opostos, a construção da masculinidade é atravessada por pontos de insegurança traduzidos principalmente pelo medo do homossexualismo e da impotência. Assim, dentre outros aspectos, os comportamentos masculinos apontam para o fato de que para que uma pessoa pudesse ser um homem, deveria primeiro sentir-se ameaçada de virar mulher. Junto a esses medos, o homem também pode concentrar a sua preocupação de, mesmo sendo equipado para funcionar como macho, falhar na hora H. Nesse sentido, mais do que ter um pênis é saber se relacionar. Relacionar, para Damatta, consiste basicamente em descobrir que “ser homem” não é o mesmo que “sentir-se como homem”. Ser homem [é] receber de uma mulher o atestado ou a prova de que se [é] verdadeiramente “homem”.

A crise da masculinidade, para Nolasco (1997), em parte está associada a valores sociais que transcendem a dimensão do indivíduo; caracteriza-se pela tentativa de homens se diferenciarem do padrão de masculinidade socialmente para eles estabelecido. Para o autor essa crise representa a quebra do cinismo a respeito da existência de um homem de verdade em torno do qual todo menino é socializado. Por seu intermédio, temos acesso a uma reflexão em face da inclusão de seus sonhos e sentimentos como um valor pertencente ao cotidiano masculino. Para ele, frente a esse cenário, abrem-se possibilidades relacionadas à transformação da intimidade, terreno tenso e confuso para o homem devido ao fato de os homens comumente pouco conhecerem as dimensões do contato, da proximidade, da troca, da solidariedade e da cumplicidade.

Goldenberg (2000), de certa forma, questiona a existência da crise do macho: Talvez o machão esteja realmente em crise, mas é possível que até ele consiga sobreviver, só que será obrigado a coexistir com outras formas de ser homem. O que não sobrevive mais é um modelo hegemônico de masculinidade com base na força, poder e virilidade, embora homens (e mulheres!) continuem alimentando esse ideal. Assim, independentemente de existir ou não a crise da masculinidade, o fato é que, paralelamente aos resquícios dos padrões patriarcais para uns e a vigência desses padrões para outros, experimentamos atualmente a possibilidade de construirmos a sexualidade masculina a partir de outros referenciais. Há momentos em que conseguimos mais dar voz à nossa forma de ser e, em outras vezes, reproduzimos os modelos, ficando até mesmo na caricatura desses modelos (Gomes, 1998).

*Romeu Gomes é mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense, livre-docente em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz. Atualmente é professor titular do Instituto Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz.

FONTE: Revista Ciência & Saúde Coletiva, 8(3):825-829, 2003 827

Leia o artigo na íntegra AQUI

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