Cibercultura

Excertos da Monografia *“Flash Mobs, movimentos que transcendem o ciberespaço: uma ferramenta alternativa de comunicação” de Éverton Bohn Kist

(…) A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal.(…) Aqui cabe introduzir uma distinção capital entre possível e virtual que Gilles Deleuze trouxe à luz em Différence et répétition. O possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. É um real fantasmático, latente. O possível é exatamente como o real só lhe falta a existência. (LÉVY, 1996, p. 15)O que Pierre Lévy afirma é que a diferença entre o “real” e o virtual ou atual é algo não tão complexo como se imagina, que o virtual é algo que se atualiza, que tem toda a possibilidade e potencialidade de se tornar “real”, passar para o mundo concreto, porém continua subjetivo, não palpável. Em outras palavras, é possível dizer que o virtual existe em um outro plano, ao qual não se possui acesso físico. Não se pode adentrar no ciberespaço como se entra em uma casa, uma biblioteca, um museu. Mas mesmo assim nos fazemos presentes nesse mundo abstrato constantemente. (…) São com máquinas meticulosamente projetadas pela engenharia computacional que conseguimos as chaves do portão para este mundo não palpável. Através do uso destes artefatos, conseguimos penetrar, localizar e ser localizados nesse complexo mundo cibernético que nos envolve em sua emaranhada teia de fios e cabos. (…)
A informática, juntamente com a internet, torna-se um meio aglutinador de conteúdo, à respeito de todas as áreas. Uma vez que, o conteúdo é produzido também pelo usuário, a partir de inúmeras interconexões e cruzamentos de informações. Porém, uma consequência salta aos olhos, a liberdade que a informação ganhou a partir da revolução do ciberespaço. Por isso, e pelo fácil acesso a informação é que a cibercultura se desenvolveu tão rapidamente e ganhou tantos adeptos.

Com o processo de digitalização vivido hoje, a imagem, o vídeo, a música, as telecomunicações tornaram-se ágeis. Filma-se um acontecimento na rua, a partir de um celular ou uma câmera digital, e logo após se faz o envio do vídeo para o ciberespaço, disponibilizando esta informação para o mundo em uma velocidade fantástica. (…). É a velocidade incomparável vivida pela era das redes digitais. Porém as facilidades que encontramos hoje para utilizarmos o ciberespaço foram construídas passo a passo, através da evolução de várias áreas da ciência e do constante avanço da tecnologia. O homem, a partir daí, foi criando novas formas de se comunicar.

(…). Agora, com a criação e o usufruto do computador e do ciberespaço, qualquer pessoa pode ser um emissor de mensagens em larga escala, um comunicador de massa. Algo que possibilita o homem interagir, comunicar-se, compartilhar informações com seus semelhantes, afins ou não, mais rapidamente e sem a necessidade de um encontro no “mundo real”, transitando somente pelo emaranhado campo virtual, guiados por seus aparelhos informatizados que tenham acesso a rede mundial de computadores. Podemos compreender a cibercultura como a forma sócio cultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações e com a informática na década de 70. (LEMOS, 2003. p. 11)

A cibercultura surge com a necessidade de uma nova forma de relacionamento social, uma maneira de “encontro” sem a demanda de tempo para realizá-lo, sem a necessidade de deslocar-se até um local previamente estabelecido. O encontro ocorre pelo intermédio de máquinas, resultado de uma sociedade nova, aberta a novas tecnologias, que as recebe sem receio. (…). (…) Com a cibercultura, máquinas como o celular e o computador fazem esse intermédio entre as pessoas, facilitando a comunicação e possibilitando um elo entre indivíduos localizados em pontos totalmente opostos do mundo. (…). Podemos assim dizer que, o surgimento de uma nova cultura, a cibercultura, vem transformando significativamente não só as referências espaço-temporais, mas os modelos de comunicação baseados na lógica de rede, aproximando os modos de organização de produção e de organização social (SÁEZ, 2001: p. 215).

Sáez (2001) e Levy (1999) falam que a cibercultura está transformando nosso modo de perceber a distância e modificando as formas de nos relacionarmos com as pessoas, mas não é só isso, mudanças mais concretas tomam forma nas metrópoles e grandes cidades, como nos afirma Castells “As novas formas de comunicação sem fio estão redefinindo o uso do espaço de lugar e dos espaços de fluxos” (Castells, apud Lemos 2004). Horan complementa essas afirmações dizendo que “Nas cidades contemporâneas, os tradicionais espaços de lugar (rua, praças, avenidas, monumentos) estão, pouco a pouco, transformando-se em espaços de fluxos, espaços flexíveis, comunicacionais, “lugares digitais” (Horan, apud Lemos 2004). Através de Tecnologias como o Wi-fi, Bluetooth, as pessoas adquiriram uma liberdade e uma mobilidade ainda maior. É comum ver grupos de pessoas trocando arquivos via Bluetooth, formando uma rede de transferência de arquivos sem fio, caseira. Ou ainda, ver pessoas sentadas em praças, bares, cafés, ruas, avenidas, praias etc, conectadas a internet ao ar livre somente com um laptop, sem a necessidade do uso de cabos. (…). A intervenção da cibercultura nas paisagens urbanas é um ponto de convergência entre vários autores. (…)

(…). Estas inovações vão sendo incorporadas a sociedade, principalmente pelo público jovem, sedento por novidades. Porém, na época em que vivemos em que o “ser jovem” está na “moda”, estas tecnologias ganham espaço em todas as faixas etárias. Em meio a pós-modernidade, mãe e filha se vestem iguais, utilizam artefatos para serem aceitas como pessoas “bacanas e antenadas”. O falar jovem, o vestir-se jovem, os cuidados do corpo, as histerias sociais são, largamente, partilhadas (no todo social). Todos, quaisquer que sejam as idades, classes, status, são, mais ou menos, contaminados pela figura da “eterna criança”. Numa palavra, e este é o objeto de minha reflexão atual, parece-me que à estrutura patriarcal e vertical está se sucedendo uma estrutura horizontal e fraternal. (MAFFESOLI, 2007, p. 99) Vive-se em uma sociedade onde o pai deixa de ser a figura carrancuda, amedrontadora, a pessoa “quadrada” e passa a ter a imagem do amigo. E para ter essa imagem, as pessoas mais velhas tem que se equiparar as mais jovens em conhecimento e domínio da cultura atual.

A partir de tais reflexões, nota-se, que o ciberespaço ganha adeptos não só nas fileiras jovens, mas também nas pessoas adultas e nas de mais idade, que não querem ficar ultrapassadas e perder o contexto da contemporaneidade. Vivemos a era da comunicação e da mutabilidade por meio dela, vivemos a era da comunhão do “estar-junto” como meio de aceitação. Comunicar é passar de identificação em identificação, fora da noção de identidade imutável, na busca de prazer, de sinergia, da sintonia, da comunhão, da conjunção social, do estar-junto que permite viver intensamente o “fantástico do cotidiano” [..]Comunicar, na linguagem dos jovens de agora, é “ficar”. Mas este ficar é oposto da permanência. É um ficar que passa. […] Na pós-modernidade, a socialidade assume o papel de protagonista e ganha o primeiro plano no palco do vivido cotidiano. Portanto, a cena pós-moderna constitui-se pela comunicação como um desejo e um prazer de estar-junto válido em si mesmo, como um ritual não formalizado da vibração em comum. (SILVA, 2004, p. 45)

(…). É através do ciberespaço, que se percorre inúmeros quilômetros no espaço concreto, sem sair da frente do seu computador, é ele que promove o encontro virtual de pessoas separadas fisicamente. Foi a facilidade, já citada anteriormente por Sáez (2001), que a cibercultura nos possibilitou, a quebra de referências espaço-temporais. Através de meios eletrônicos temos acesso instantâneo com determinada pessoa, independente da distância que nos separa. Lemos (2003), afirma que toda a mídia quebra a barreira espaço-tempo, que esta não é uma exclusividade da internet ou do celular. Pinturas rupestres, escritas, telégrafos, rádio, televisão. Todos estes meios que conseguem separar enunciador ou autor do enunciado. Assistir um filme de Charles Chaplin, ler um livro de Edgar Allan Poe são exercícios de separação espaço-temporal. Pois o autor da obra já nem vive mais entre nós, como nos exemplos, mas seu trabalho persiste para a posteridade. Mesmo hoje, em pleno século XXI podemos apreciar e analisar pinturas feitas em cavernas milhares de anos atrás. Idealizadas, executadas há milhares de anos e apreciadas até hoje.

Levy (1999, p.15), afirma ainda, que nas sociedades orais as mensagens eram passadas no mesmo contexto em que eram produzidas, minimizando assim as possibilidades de uma interpretação errônea. Através de um diálogo, qualquer possível dúvida que viesse a existir, seria logo eliminada com uma simples pergunta direta ao seu interlocutor. Entretanto, muito conhecimento era perdido e desperdiçado pela dificuldade de transmiti-lo em grande escala e pela “regionalização da informação”, uma vez que, eram necessárias viagens para transmitir o conhecimento para outras pessoas e povos. Porém, com o advento do ciberespaço e da cibercultura, estas viagens podem ser feitas de maneira virtual. Após o surgimento da escrita, os textos se separam do contexto vivo em que foram produzidos. (…). A hipótese que levanto é a de que a cibercultura leva a co-presença das mensagens de volta a seu contexto como ocorria nas sociedades orais, mas em outra escala, em uma órbita completamente diferente. A nova universalidade não depende mais da auto-suficiência dos textos, de uma fixação e de uma independência das significações. Ela se constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens entre si, por meio de sua vinculação permanente com as comunidades virtuais em criação, que lhes dão sentidos variados em uma renovação permanente. (LEVY, 1999, p.15)

(…) É a informação quebrando inúmeras barreiras, alavancada pela internet, um meio comunitário e igualitário, capaz de unir pessoas separadas por um “abismo” cultural e geográfico. Nota-se, portanto, que a quebra da barreira espaço-temporal não é uma exclusividade da internet e dos telefones móveis, porém, um de seus atrativos e diferencial, é o tempo real. Esta barreira do tempo e do espaço já não existe, mesmo para confecção do livro ou do filme. Porém, com a internet e o ciberespaço esta quebra é imediata, ao vivo. Por isso, o ciberespaço se apropria das qualidades das sociedades orais e as combina com as qualidades da linguagem escrita, tendo em vista que a internet é um meio de troca de informação e conhecimento, pode-se manter um diálogo, fazer perguntas, aglutinar informações através do conhecimento coletivo, minimizando assim os possíveis erros de interpretação. Com a quebra da barreira espaço-tempo, ocorre também o apogeu da “regionalização do conhecimento”, uma vez que não existem fronteiras espaciais e geográficas no ciberespaço; as informações trocadas via internet, em sua maioria, se dão de forma escrita, através de comunidades virtuais que Levy (1999, p. 27) define como “um grupo de pessoas que se corresponde mutuamente por meio de computadores interconectados”. Estas informações ficam guardadas ou arquivadas em e-mails, web logs, fóruns, disponíveis para acesso a qualquer momento.

Um dos atrativo mais marcante da internet é a liberação do pólo emissor de conteúdo. A linha fixa e precursora do mass media: enunciador, enunciado e receptor, assim como a barreira espaço-temporal, também foi quebrada. Na internet, produtor também é receptor e vice-versa. Através de um web log, miniblog, comunidade virtual ou outra das inúmeras maneiras de expressar a opinião na internet, qualquer pessoas pode se tornar uma formadora de opinião, quebrando assim a exclusividade que por longos anos foi privilégio de poderosos veículos de comunicação, que decidiam o que deveriam repassar ao público de acordo com o seu interesse. Por isso, afirma-se que a internet e o ciberespaço são meios comunitários e igualitários. Os tradicionais meios de comunicação tidos como de massa não são mais os únicos instrumentos formadores das idéias partilhadas pelos membros de uma sociedade. (…)

(…) A palavra chave desta era é a conectividade, a ligação entre as pessoas, que possibilita a transmissão de informações. Os indivíduos deixam de ser somente hospedeiros e repassadores da informação, tornando-se produtores de conteúdo. Através de web logs, paginas pessoais, e-mail, twitter, pessoas comuns, relatam suas experiências, seus anseios e divulgam suas opiniões sobre os mais diversos assuntos. (…) agora, muitos criam para muitos. “É a auto-geração de conteúdo, é a emissão auto-direcionada e é a auto-seleção na recepção por muitos que se comunicam com muitos” (CASTELLS, apud Schieck, 2006, p.3).

A internet e o ciberespaço chegaram para quebrar barreiras espaço-físico-temporais. Para “unirem-se” as pessoas não mais necessitam estar em um mesmo ambiente físico, basta a vontade e a afinidade em algum assunto, sítios de relacionamento, web logs, e-mails. São inúmeras as possibilidades e campos de relacionamento abertos pela rede mundial de computadores. Uma comunidade virtual pode, por exemplo, organizar-se sobre uma base de afinidade (…). Apesar de “não presente”, essa comunidade esta repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades. Ela vive sem lugar de referência estável: em toda parte onde se encontrem seus membros móveis… ou parte alguma. A virtualização reinventa uma cultura nômade, não por uma volta ao paleolítico nem as antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais onde se reconfiguram com um mínimo de inércia. Quando uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação, se virtualizam, eles se tornam “não presentes”, se desterritorializam. Uma espécie de desengate os separa do espaço físico ou geográfico ordinários e da temporalidade do relógio e do calendário. (LÉVY, 1996, p. 20)

Levy e Maffesoli discorrem sobre essas possibilidades comportamentais promovidas pela cibercultura de maneira muito semelhante, porém, com nomenclaturas diferentes. O primeiro, fala em comunidades virtuais, já o segundo, denomina este comportamento como tribalismo.

*Leia a Monografia na íntegra clicando AQUI

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