Internet, Imaginário Coletivo e Religiosidade no Mundo Contemporâneo: Um Estudo Preliminar

Excertos de Monografia de *Daniela de Andrade Athuil Galvão de Souza

(…). Como movimento coletivo, o fenômeno Internet tem sido objeto de estudo em diversos campos da ciência. Na tentativa de compreendê-lo, muitos autores recorrem a determinados conceitos nas áreas da filosofia, antropologia e psicologia. Mas a verdade é que ainda são poucas as conclusões a respeito dessa nova forma de interação com o mundo e os seus desdobramentos psíquicos. No entanto, não resta dúvida de que a Internet veio para fazer parte da vida de todos nós. Justifica-se, pois, o interesse do psicólogo em acompanhar e refletir sobre o modo como a evolução da tecnologia da informação se articulará com os diferentes aspectos da existência humana. Não se trata de procurar respostas ou verdades, mas de explorar possibilidades e tendências que irão configurar o cenário futuro.Ao explorar as principais características do fenômeno da Internet e suas possíveis implicações para a vida do homem, sugeri algumas idéias preliminares a respeito do aspecto religioso que ela pode representar no imaginário coletivo, na medida em que foi possível reconhecer nesse movimento, através de uma leitura simbólica, um desejo de busca de algo maior e global, que visa reunir e integrar, num só lugar, informações, culturas e saberes. Dessa forma, apresento ao longo do trabalho a idéia de que a Internet pode ser entendida como um canal de expressão das aspirações religiosas do homem no mundo moderno. Convido o leitor a explorar, com espírito de investigação e curiosidade, nas páginas que se seguem, esse novo campo fértil da existência humana, que tanto poderá nos dizer sobre nós mesmos e sobre os mistérios de nossas manifestações psíquicas profundas.

A Simbologia da Internet

(…). Ao manifestar sua religiosidade, o homem também pode eleger objetos inanimados em torno dos quais cria autênticos rituais, segundo Mircea Eliade (1992). Nessa linha de raciocínio, entende-se que a Internet, sob alguns aspectos, poderia representar uma manifestação desse impulso humano, simbolizando a necessidade da busca do Deus interior, o Self, na expressão de Jung. Essa busca é, para Jung (1999), uma tendência natural, inerente à psique e que sempre se manifestou em diferentes tempos e de diferentes formas. Para ele a religiosidade não é necessariamente manifesta na forma de um credo particular ou na adesão a uma igreja específica. Ele pensa a religião como uma forma de religar o consciente com certos fatores dinâmicos do inconsciente. O desenvolvimento do arquétipo do Self, meta do processo de individuação, é o verdadeiro sentido da vida. É nessa experiência de significado que o homem, ao confrontar-se com os conteúdos do inconsciente, realiza o divino. Comentando o processo de individuação, Nise da Silveira afirma: Todo ser tende a realizar o que existe nele, em germe, a crescer, a completar-se (1997, p.77). Há no homem, portanto, uma tendência à integração dos diversos elementos que potencialmente o compõe, processo que implica numa relação dinâmica entre consciente e inconsciente, e o estabelecimento de um novo centro psíquico, o Self. O resgate do religioso e do divino em nós é uma tarefa árdua, contínua e indispensável para não cairmos em desarmonia com aquilo que é de nossa própria natureza.

A Configuração de Uma Nova Sociedade

Como uma grande memória universal que armazena e organiza dados, a Internet é um importante instrumento de acesso à informação. Como meio de comunicação também permite diferentes formas de interação com o mundo, refletindo assim a complexidade psíquica e social do mundo contemporâneo. Lévy (1993) é um defensor da tecnologia enquanto difusora do mundo globalizado, um dos principais agentes de transformação da sociedade. No livro “As tecnologias da Inteligência” sustenta o fim da oposição homem / máquina e afirma que a tecnologia é uma dimensão a mais na qual se estabelecem conexões físicas do mundo humano com o universo. Referindo-se ao fato da cibercultura mover-se em direção à globalização, Lévy (1993) acredita que os grandes debates planetários acontecem hoje na rede, a partir de iniciativa pessoais e não governamentais. Segundo ele, a evolução da informática é fundamental para qualquer tipo de debate democrático. Contrapondo uma visão otimista do futuro da Internet, Ciro Marcondes Filho expõe, no livro “Cenários do novo mundo” (1998), uma ótica bastante crítica em relação à instalação da sociedade tecnológica em nosso cotidiano. Para ele, essa democratização dos meios de comunicação pode estar atendendo a um outro interesse, movido pela disputa dos espaços na indústria de comunicação. Afirma que o crescimento das novas indústrias de natureza imaterial provoca um abandono das formas de vivência concreta e material. São os universos imaginários, constituídos não só de projeção mental, mas com uma dimensão onde se operam acontecimentos. (…).

Metáforas do Indivíduo Digital

Outra visão bastante interessante sobre o papel da Internet na vida do indivíduo e na sociedade é a de Stefik (1997), autor de “Internet Dreams, Archetypes, Miths and Metaphors”. Baseado na idéia de que a Internet pode tornar-se tudo aquilo que podemos imaginar, ele explora as diferentes possibilidades que ela traz mediante 4 metáforas: da Biblioteca Digital, da Correspondência Eletrônica, do Mercado Eletrônico e do Mundo Digital. Referindo-se ao conceito de arquétipo na Psicologia Junguiana, diz que cada uma dessas metáforas desperta em nós elementos internos da psique que refletem nossa experiência cultural coletiva. Elas correspondem também a 4 arquétipos que, segundo ele, vêm orientado e moldando nosso pensamento tecnológico e visão de mundo.

A metáfora da Biblioteca Digital, por exemplo, refere-se ao arquétipo do conservador/guardador de conhecimento dentro de nós. Pela capacidade de comunicação característica de nossa espécie, nós podemos não só conservar, mas também difundir até os mais antigos conhecimentos para futuras gerações.

Através da metáfora da Correspondência Eletrônica evocamos o arquétipo do comunicador dentro de nós o qual, entre outras coisas, nos mostra a necessidade que o homem tem de manter contato e trocar idéias com diferentes pessoas. Todos temos dentro de nós, segundo Stefik, um negociador. Este arquétipo, correspondente à terceira metáfora – Mercado Eletrônico – que nos move para as mais diversas formas de trabalho.

A quarta metáfora, a do Mundo Digital, revela em nós o arquétipo do aventureiro interior, aquele que explora o mundo e que encontra novas possibilidade de existência.

Mais do que uma forma de interpretar a tecnologia, o autor utiliza tais metáforas para descrever o que somos e aquilo que coletivamente desejamos ser: Estes arquétipos, com as suas raízes profundas e ancestrais em muitas culturas, representam o que vemos nos outros, mas que também fazem parte de nós mesmos (Stefik, 1997, p.23).

Romanyshyn, autor de “Internet as Sympton and Dream” (1992) define a tecnologia como a representação da imaginação do ser humano no mundo e por isso ela é a magia do mundo. Na construção da tecnologia, diz ele, nós construímos a nós mesmos. E faz uma interessante analogia, ao comparar a Catedral Gótica, que expressava o corpo do mundo medieval, às grandes produções tecnológicas como a Internet, que representam o corpo social e psicológico da nossa época. Campbell, ao falar das novas metáforas que incorporam o mundo moderno e tecnológico, cita alguns símbolos que estariam a serviço de velhas histórias, como, por exemplo, as armas, representando a “Senhora Morte”, e os aviões, representando a libertação do espírito da terra. Numa perspectiva mitológica, as máquinas serviriam como um instrumento no qual projetaríamos um mundo ideal e que revelariam algo de sagrado: é um milagre o que acontece naquela tela (1990, p.21).

Internet e Religiosidade

Jung sempre reconheceu a importância dos aspectos culturais e históricos da psique, abrindo diferentes dimensões de análise sobre nossa existência para podermos reencontrar nossa alma. Para ele a alma pertence à cosmologia sagrada e dessa forma situa a mente dentro da natureza e do cosmos. O interior de cada uma de nós se torna então um lugar novo de experiência. Escreve: Visto que a religião constitui, sem dúvida alguma, uma das expressões mais antigas e universais da alma humana, subentende-se que todo tipo de psicologia que se ocupa da estrutura psicológica da personalidade humana deve pelo menos constatar que a religião, além de ser um fenômeno sociológico ou histórico, é também um assunto importante para grande número de indivíduos (Jung, 1999, p.7). (…). Sua abordagem sobre a religião não se referia a qualquer credo ou a qualquer igreja em particular. Seu interesse fundamentalmente era entender a atitude religiosa, vista por ele como um fenômeno inerente à psique humana. O encontro com os conteúdos inconscientes é para Jung (1999) uma experiência primordial, uma experiência religiosa.

A partir da idéia de que os dinamismos arquetípicos se expressam nos mitos e ritos em diferentes épocas, podemos pensar que hoje o homem encontra novas maneiras de estabelecer comunicação com a esfera do divino, seja na forma de religião, seja de modo não diretamente relacionado a um culto ou dogma religioso. Nas palavras de Tardan – Masquelier: Esses conjuntos simbólicos perduram na modernidade até naqueles que não adotaram nenhuma forma de crença explícita, até no interior de sociedades tecnológicas e profanas (1994, p.147). (…). (…)

Internet, Expressões e Símbolos Bíblicos

Como um fenômeno genuíno, a religião conserva as imagens simbólicas que têm sua origem no inconsciente. Ao buscar modos de expressão, muitos objetos passam a ser reverenciados. A este respeito escreve Nise da Silveira: O século XX conhece grandes ídolos: raça, sexo, Estado, partido, dinheiro, máquina……O automóvel, sem dúvida, é um ídolo: “Basta visitar o salão anual do automóvel para reconhecer ali uma manifestação religiosa profundamente ritualizada. O Culto do veículo sagrado tem seus fiéis e seus iniciados” (A. Greley) (Silveira, 1997, p.127). Palco de inúmeras projeções humanas, a Internet também pode ser vista como um veículo em torno do qual o homem expressa sua religiosidade. Para reforçar esta idéia podemos estabelecer algumas analogias entre as imagens que a Internet nos oferece e a questão da religiosidade. A semelhança de algumas expressões utilizadas no vocabulário da Internet, como, por exemplo, a expressão “Portal”, sugere algo de sagrado (vide expressões bíblicas como Reino de Deus). Outro exemplo seria a comparação entre o verbo conectar, usado constantemente na terminologia da Internet, e o significado da palavra religião usada por Jung no sentido de religio (re e ligare), tornar a ligar. Lévy (1993) defende a idéia de que a tecnologia, como dimensão do humano, propicia a conexão física do nosso mundo com algo maior, com o universo. Parece-me assim, justificar-se a hipótese de que a Internet representa, na sua dimensão simbólica, um veículo através do qual o homem pode promover a conexão do Ego com o Self, atingindo assim a esfera divina de sua existência. Em outras palavras, conectamos o computador à Rede e isso pode ser lido metaforicamente como uma intenção de ligarmos a nossa consciência a algo maior.

A Consagração do Espaço Virtual

A Internet estabelece um novo espaço, o ciberespaço, que possibilita novas formas de relações sociais. É um novo espaço ordenador, central, uma espécie de paraíso. (…). Na obra “O Sagrado e o Profano”, Mircea Eliade (1992) apresenta um estudo sobre a essência das religiões e busca explicar a atitude religiosa estabelecendo as polaridades profano x sagrado, homem religioso x homem não religioso. Segundo ele, o sagrado se manifesta de diversas formas, inclusive em objetos inanimados. A este fenômeno deu o nome de hierofania(…). A manifestação do sagrado funda o mundo. Neste sentido a Criação do mundo torna-se o arquétipo de todo gesto criador humano. (…). A construção do ciberespaço poderia, nesse sentido, ser comparada a esse momento cosmogônico na sociedade moderna, a busca de uma metáfora orientadora. (…)

A Consagração do Tempo Virtual

A peculiar forma de vivência do tempo parece ser uma das dimensões mais importantes da revolução cibernética. (…). (…) Ao imprimir um novo ritmo de difusão das informações, o tempo da alta velocidade, da instantaneidade dos contatos e das comunicações, o homem reinterpreta a cronologia e relativiza os referenciais da temporalidade. (…) Receptor de projeções humanas, o espaço cibernético abarcará as diversas manifestações do homem, o que não significa que ele resolverá seus problemas, suas frustrações, carências e incertezas, mas que terá as condições para tornar-se consciente de sua pequenez e impotência, único caminho viável para uma possível transformação. Ou seja, esse “novo” Universo apenas repetirá os eternos temas humanos. Filmes como 2001 – uma Odisséia no Espaço, Blade Runner e Matrix já retrataram o fenômeno. O homem, espantado, sempre estará encontrando seu velho reflexo, mesmo no meio mais avançado ou até mesmo nos confins da matéria e do Universo.

Os Desafios do Encontro Com o Self

Para Jung (1999), na experiência mítica religiosa o indivíduo se arrisca numa aventura interminável e deverá suportar o confronto com os conteúdos inconscientes para então perceber seu significado, o que pode ser doloroso. (…). (…) Sobre a experiência religiosa Jung afirma: A aventura espiritual do nosso tempo consiste na entrega da consciência humana ao indeterminado e indeterminável (1999, p.112). Essa aventura implica em descobrir o sentido de nossa existência, restabelecer o contato entre o Ego e o Self. Há portanto a necessidade de encontrarmos novos símbolos que possam acolher as projeções do homem moderno e também mediar o dinamismo dessa experiência arquetípica. Mais do que um instrumento de comunicação a Internet promove união e encontros de saberes diversos, formando algo maior que cada um de nós individualmente, um coletivo capaz de ir além de barreiras culturais e geográficas. (…)

No livro Cibercultura (1999), Pierre Lévy usa a expressão “dilúvio informacional” (…), numa alusão ao dilúvio bíblico. Diante do caos, Noé cria um mundo pequeno, um microcosmos, representado pela Arca que abriga aqueles que depois irão reconstruir o mundo. Mas o dilúvio informacional não terá um fim. Sua continuidade será uma condição: Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar (p.15). Por meio dessa metáfora ele explica que a cibercultura promoverá o surgimento de um novo universal, onde cada um de nós, com suas respectivas Arcas, representaremos pequenas totalidades abrigadas no universo oceânico de informações. Esse conjunto de pequenas totalidades, as comunidades pensantes, apontam para a construção de uma nova inteligência qualitativamente diferente da individual, a inteligência coletiva, na qual cada um contribui com seus conhecimentos e suas capacidades, fortalecendo-as e criando novas potências. Para Lévy (1998), o intelectual coletivo constrói um pensamento transpessoal, contínuo e que jamais se extingue. Essa construção é para ele uma maneira de atingir a divindade: Abrimos a perspectiva de uma teologia transformada em antropologia. Continua tratando-se de aproximar o humano da divindade, mas desta vez, permitindo a coletivos humanos reais e tangíveis construir juntos um céu, céus, que só devem sua luz a pensamentos e criações daqui de baixo. O que foi teológico torna-se tecnológico (p.83).

*Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo no ano de 2000.

FONTE: Boletim Clínico, número 10 – maio/2001, PUC/SP

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