Famílias Adotivas: Identidade e Diferença

Excertos de Artigo de *Suzana Sofia Moeller Schettini; **Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas; ***Cristina Maria de Souza Brito Dias

(…) Se outrora, “a partir das crenças populares, a adoção era considerada um desvio da norma universal a qual seria a filiação genética e consangüínea” (Ladvocat, 2002, p. 31), nos dias atuais, ela é reconhecida como outra possibilidade, a de fundar uma família que, se não conta com os vínculos consangüíneos, está legitimamente fundamentada nos laços afetivos. (…). A identidade do filho adotivo sempre teve como referência o filho biológico (a norma), em relação ao qual sempre foi avaliada como problemática. Uma das razões de se pensar dessa forma está relacionada com o fato de que a herança genética desta criança é diferente da dos pais que a adotam. Esse pensamento carrega o pressuposto de que o bom gene é sempre o nosso; quanto ao do outro, todas as suspeitas são justas e cabíveis.

Em geral, as representações de família presentes no imaginário social fundamentam-se nos laços consangüíneos. A maioria das pessoas atribui a eles um grande poder, considerando-os indissolúveis, por serem os “verdadeiros laços naturais”. A mãe biológica é definida como “a verdadeira mãe” ou “a mãe de sangue”. É comum os pais adotivos alimentarem a fantasia de que seus filhos adotados, movidos pelo desejo de conhecer os pais biológicos e impulsionados pela força dos laços de sangue, os abandonem e partam em busca desses pais. O temor de que o poder dos laços sangüíneos vá determinar a preferência pelos pais biológicos está muito presente nessas situações.

Desse modo, na adoção, há uma tendência cultural a fazê-la constituir-se como se fosse natural, no sentido biológico. A criança adotada é trazida como no parto, elas são “gestadas”, elas “nascem”. São usadas várias expressões como metáforas de uma filiação biológica. E a finalidade da adoção é efetuar uma substituição completa da família biológica pela adotiva. Tudo isto se elabora, em princípio, sobre uma negação de que a parentalidade e a filiação adotivas são diferentes, ou, pelo menos, se apresentam de maneira diferente (Braga, 2006, p. 48).

(…). A adoção sobreviveu, por um longo período de tempo, num contexto marginal, e o filho adotivo era visto como um verdadeiro “forasteiro” da cultura. Este cenário tem se alterado favoravelmente nos últimos anos. As famílias adotivas, aos poucos, vêm adquirindo visibilidade, saindo da clandestinidade a que haviam sido relegadas, sufocadas que estavam pelo estigma dos mitos e preconceitos arraigados no imaginário popular. Os esforços conjuntos da sociedade em geral e os muitos exemplos de adoções bem-sucedidas de que se tem notícia ultimamente têm contribuído neste sentido. (…).

(…). Atualmente, a adoção já não é vista como uma filiação de segunda categoria ou apenas como o último recurso de que casais estéreis lançam mão quando não podem ter filhos pelas vias biológicas. A adoção hoje é definida como uma outra possibilidade de se constituir família, a qual pode trazer resultados tão satisfatórios quanto a filiação biológica. Na verdade, como muito bem define Levinzon (2004) “toda filiação é, antes de tudo, uma adoção” (p.25). A adoção é a única possibilidade de se constituir uma verdadeira parentalidade e a única maneira de genitores tornarem-se pais.

Não obstante, existem especificidades do contexto adotivo que não podem ser perdidas de vista. A adoção segue uma trajetória própria e existem diferenças que precisam ser compreendidas, elaboradas, assumidas e integradas no processo como um todo. “A maior parte delas decorre do fato de que a criança chegou à família por um caminho diferente do usual. Além disso, existem dois casais parentais, o que não é o usual na nossa cultura, e, às vezes, é difícil de entender pela criança” (Levinzon, 2004, p. 25). Podemos afirmar que a adoção tem uma “identidade específica”(…).

Para que as famílias adotivas possam construir dinâmicas mais favoráveis, é importante que as especificidades do processo adotivo sejam trabalhadas de forma profilática e preventiva. Os candidatos a pais precisam estar conscientes de que o filho a ser adotado terá outro casal como genitores e trará consigo uma história pré-adotiva que não poderá ser negada ou descartada, mas, para a saúde psíquica da criança, precisará ser integrada à sua história de vida. Esta conscientização, muitas vezes, é dificultada por processos de negação vinculados a questões inconscientes dos adotantes. (…)

Os Adotantes

(…). As pessoas recorrem à adoção pelos motivos mais diversos. Levinzon (2004) cita as seguintes razões, relatadas por pais, a partir de sua experiência clínica: a esterilidade de um ou ambos os pais; a morte anterior de um filho; o desejo de ter filhos quando já se passou da idade em que isto é possível biologicamente; as idéias filantrópicas; o contato com uma criança que desperta o desejo da maternidade ou paternidade; o parentesco com os pais biológicos que não possuem condições de cuidar da criança; o anseio de ser pais, por parte de homens e mulheres que não possuem um parceiro amoroso; o desejo de ter filhos sem ter de passar por um processo de gravidez, por medo deste processo ou até por razões estéticas. Schettini (1998) acrescenta ainda o desejo de ter companhia na velhice; o medo da solidão; o preenchimento de um vazio existencial; a tentativa de salvar um casamento; a possibilidade de escolher o sexo da criança.

Para a maioria dos pais adotivos, entretanto, a idéia da adoção nasce da necessidade de reparar um transtorno biológico que impediu que os filhos desejados fossem gerados pelas vias naturais. Desta forma, a partir da frustração na tentativa de ter filhos, começa-se a pensar na possibilidade de suprir a lacuna da maternidade-paternidade, valendo-se da capacidade de outras pessoas de procriar, a fim de, através da adoção, ter seus próprios filhos (Schettini, 1998). (…)

(…). No entendimento de Hamad (2002), a acolhida de uma criança, filho biológico ou não, tem uma ressonância diferente para a mulher e para o homem, mesmo que, intencionalmente, conscientemente, os dois assegurem que têm um projeto em comum. Ainda que consideremos essas interpretações do desejo por um filho excessivamente carregadas de conteúdos deterministas relacionados a cada sexo, não há dúvida de que, apesar de o casal comumente afirmar que pensa junto e quer o filho de igual forma, ambos são regidos pela dinâmica de seu inconsciente. Cada parceiro tem a sua história singular, seus desejos e fantasias em relação ao filho que é esperado.

(…). É comum os casais inférteis sentirem-se discriminados socialmente por não poderem gerar filhos, percebendo-se diferentes daqueles que o conseguem. A necessidade de similitude é inerente ao ser humano e é compreensível o desejo de neutralizar o desconforto da diferença. (…). “O desejo de ter uma criança deve ser em função da necessidade natural de procriar, de se superar na vida e de poder manifestar o instinto maternal e paternal” (Morales, 2004, p. 196). Morales (2004) refere ter encontrado vários casos na sua prática clínica, num comitê de adoção, em que o casal procurava inconscientemente a adoção como método de solução para a infertilidade. Segundo o autor, esse tipo de casal não estaria apto para exercer a paternidade, pois ofereceria ao filho uma situação de inexistência psíquica. A criança seria unicamente desejada para resolver um problema psíquico do casal, o que desembocaria, certamente, em dificuldades ao longo do seu processo educativo.

Segundo D’Andrea (2002), a aceitação da própria incapacidade de procriar implica uma redefinição da identidade pessoal, da relação de casal, do projeto conjugal e das relações com a família ampliada. De acordo com o autor, se “assumir a diferença” das especificidades do processo adotivo é a primeira condição para configurar-se a opção pela adoção, o primeiro passo do percurso de um casal no caminho da adoção é assumir a “própria” diferença, ou seja, a condição de sua impossibilidade de procriar. Assumir essa diferença não significa atribuir a ela valores nem positivos nem negativos; não significa patologizar essa diferença, mas reconhecê-la como um limite ao qual estão submetidos enquanto sujeitos. Trata-se, porém, de um limite que não os impossibilita de amar uma criança e cuidar dela como pais. Ao assumir a esterilidade, os candidatos a pais precisam renunciar ao filho natural e abandonar as fantasias que sobre ele projetaram, reconstruir um pacto afetivo com o seu parceiro, escolhendo voluntariamente cuidar de um filho nascido de outros. Por outro lado, é necessário envolver o sistema familiar ampliado na reorganização da vida, reconstruindo um clima afetivo de acolhimento para a criança que será adotada. (…).

O Tempo de Espera e a Gestação Psicológica

(…). “A parentalidade é a capacidade psicológica de exercer a função parental, ou seja, ter a competência de ser pai ou mãe suficientemente bons para seus filhos” (Morales, 2004, p. 195). (…). Na adoção, entretanto, a constituição da identidade parental demanda do casal um processo de identificação com os novos atributos através de uma gestação psicológica. Nesse momento, o conceito de subjetividade nos ajuda a compreender todo esse processo, pois permite explorar os sentimentos que estão envolvidos na produção da identidade de pais adotivos e que levam o casal a fazer um investimento pessoal nessas posições específicas de sujeitos: pai e mãe.

Subjetividade sugere a compreensão que temos sobre o nosso eu. O termo envolve os pensamentos e as emoções conscientes e inconscientes que constituem nossas concepções sobre ‘quem nós somos’. (…). Entretanto, nós vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual nós adotamos uma identidade (Woodward, 2000, p. 55).

(…). Quando se trata da adoção, tornamo-nos agudamente conscientes das representações sociais que constituem as identidades parentais aceitáveis do ponto de vista social. Como um bom pai e uma boa mãe devem ser, comportar-se, sentir, tudo isso está muito “claro”, e o casal que se propõe a adotar uma criança vai ser minuciosamente avaliado em cada um desses aspectos. Por outro lado, o próprio casal desejará corresponder a essas expectativas, e isso pode dificultar a construção do espaço que esse filho vai ocupar em suas vidas (Woodward, 2000). (…). Para Dolto (1981) “Um ser humano, desde a sua vida pré-natal, já está marcado pela maneira como é esperado, pelo que representa, em seguida, pela sua existência real diante das projeções inconscientes dos pais” (p.13). Isto também está presente na “gestação psíquica” dos pais adotivos, no tempo de espera pelo filho a ser adotado. Tudo o que é dito, sonhado e imaginado sobre o filho adotivo será determinante na constituição de sua subjetividade.

(…). Os adotantes vivem a fase da espera com uma tensão carregada de expectativas, preocupações e esperanças. A maneira como esses sentimentos serão vividos e enfrentados será relevante para a construção de atitudes flexíveis e acolhedoras, ou defensivas e de evitação, em relação à escolha efetuada. A adoção, quando desejada por cada um dos elementos de um casal, põe no mesmo plano mãe e pai, pelo fato de que os dois esperam o filho da mesma forma, estando, assim, em igualdade de condições. O pai se sente mais participativo no processo, pois também pode gestar emocionalmente o seu filho. Essa gestação emocional também ocorre na gravidez biológica, mas nesta, o fato de o filho ser gerado no corpo da mãe coloca a mulher numa situação privilegiada em relação ao homem no que diz respeito ao filho. (…). Diniz (2001) salienta que se a decisão da adoção não houver sido assumida com profundidade e incondicionalmente, os adotantes, com freqüência, tenderão a comparar o “filho real” com o filho que tinham imaginado e a considerar que os insucessos desse plano “tão altruísta” que haviam construído se devem às insuficiências, defeitos ou mesmo ingratidão do filho adotado.

A Origem Biológica

O desejo de adotar um recém-nascido, na maioria das vezes, encerra a expectativa de que assim o filho se apegará mais facilmente, pois não terá uma história prévia de eventuais sofrimentos, como freqüentemente acontece nas adoções tardias (crianças maiores de dois anos de idade). A maioria dos candidatos a pais com os quais convivemos na clínica e em grupos de apoio à adoção relutam em aceitar a adoção de crianças maiores, por temerem seus traumas anteriores, decorrentes de sua vivência em instituições de acolhimento ou no contato com as famílias biológicas. Eles receiam que essas crianças possam ter dificuldades de estabelecer vínculos com uma nova família e desligar-se da história anterior. (…). A história da vida passada da criança representa uma parte peculiar de sua identidade, que não pode ser anulada, mas que o filho adotado necessita que seja aceita e integrada à sua nova ligação afetiva. “Essa redescoberta do passado é parte do processo de construção da identidade” (Woodward, 2000, p. 12).

(…). Outra dificuldade importante é o medo que, mais ou menos explicitamente, nutre a maior parte dos adotantes, de que a criança possa ter uma hereditariedade patológica. Toda família tem uma carga genética e nela estão presentes, “bons” e “maus” genes. Essa preocupação exacerbada pode refletir a crença narcísica de que a sua hereditariedade é melhor que a dos outros. Quando esse medo se remete ao estado de saúde dos pais naturais, às suas condições de vida, entre outros aspectos, em certa medida, pode ser compreensível; mas quando se manifesta de forma extrema, muitas vezes expressa a angústia do casal de não poder reconhecer no filho real “aquilo que imaginaram e esperavam, tornando-se um estranho, uma espécie de objeto mau, com possível ativação da rejeição” (D’Andrea, 2002, p. 241). A flexibilidade ou a rigidez com que os medos são enfrentados permitirão ao casal viver essa escolha ou como um elemento de renascimento e de vitalidade, ou como uma pseudo-reparação.

Considerações Finais

(…). Se a adoção é um dos caminhos possíveis para se constituir uma família, é preciso que se dê maior atenção aos candidatos a pais, pois neste ato estão implicadas várias razões subjetivas que nem sempre acompanham as razões objetivas. A prática da adoção de crianças não pode estar associada a um caráter assistencial ou filantrópico, tampouco servir a fins egoístas para suprir faltas subjetivas dos adotantes. É necessário interrogar sobre o lugar que a criança ocupará na economia psíquica dos pais e que tipo de filiação irá se estabelecer. Este questionamento é fundamental, pois, dependendo do lugar que se reserve à criança, poderão advir conseqüências desastrosas do ponto de vista psicológico.

A relação filial se organiza a partir da relação parental, e neste sentido, as atitudes e a compreensão dos pais em relação às suas dinâmicas psicológicas são de fundamental importância. Se os pais adotivos conseguirem assimilar, integrar e elaborar as especificidades do processo adotivo, assumindo-se como “verdadeiros pais”, conseguirão desenvolver uma boa relação parental e um ambiente acolhedor para seus filhos. Assim, eles poderão perceber-se aceitos e compreendidos incondicionalmente nas suas diferenças e peculiaridades. (…).

*Suzana Sofia Moeller Schettini é Psicóloga e terapeuta, mestranda em Psicologia Clínica pela Universidade Católica de Pernambuco

**Maria Cristina Lopes de Almeida Amazonas é Doutora. Professora e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco

***Cristina Maria de Souza Brito Dias é Professora e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco.

Leia o artigo na íntegra clicando AQUI

FONTE: Revista Psicologia em Estudo (Psicol. estud. vol.11 no.2 Maringá May/Aug. 2006)

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