O Bode Expiatório na Família

Excertos do artigo “O Complexo de Bode Expiratório na Dinâmica Ego – Sombra” de Eloisa Marques Damasco Penna e Juliana Martinez Serrano Guidugli

O ambiente familiar tem importância primordial para a formação da personalidade de uma criança e para a socialização desta. Isto porque a família é para a criança um modelo de referência que futuramente influenciará os relacionamentos que naturalmente o indivíduo desenvolverá com o mundo. Na relação com os pais a criança capta os valores que regem a vida familiar, percebe o que é aprovado ou desaprovado por eles, e dessa forma aos poucos vai podendo se adaptar e iniciar um convívio social mais amplo.

Segundo Neumann (1980) nos primeiros anos de vida a criança mantém uma relação simbiótica com a mãe, dependendo profundamente dos cuidados dela para garantir a sua sobrevivência. A criança experimentará vivências de prazer vinculadas ao alívio da tensão provocada pelas sensações de fome, dor, etc. Mas também em alguns momentos será frustrada por não poder ser atendida em todos seus desejos. A alternância da satisfação e da frustração é importante para o desenvolvimento da personalidade e da capacidade de integrar crises futuramente. Entretanto, se as vivências de desconforto forem muito intensas e prolongadas poderá se instaurar na criança uma insegurança básica e profunda.

Por ser o primeiro contato do indivíduo com o meio externo, a relação primal tem um valor fundamental para o desenvolvimento da estrutura psíquica do indivíduo. O ego para ser forte precisa ter passado por boas experiências com o materno a fim de desenvolver um sentimento de confiança básica. O sentimento de valor próprio na criança é decorrente da valorização e acolhimento fornecido pela mãe. Isto porque nesta relação inicial a criança não discrimina eu-outro e a percepção que terá sobre si mesma começa a ser desenhada pelo olhar e o desejo dos pais, muitas vezes até mesmo antes do nascimento. É justamente pela importância destas relações com as figuras parentais que torna-se necessário que os pais estejam em contato com as próprias sombras, pois caso contrário terão dificuldade em aceitar o lado escuro da criança e lidar com a sombra dos filhos. (Sanford, 1988).

Muitas vezes as questões não resolvidas pelos pais são passadas inconscientemente para os filhos. E é neste contexto que pode se estabelecer a identificação com o material da sombra familiar, que caracteriza a vivência de adultos identificados com o complexo de bode expiatório. De acordo com Perera (1991) é comum que as crianças identificadas com o bode expiatório sejam vistas pelos pais como perigosos observadores porque captam inconscientemente o conteúdo sombrio da família.

Quando a criança sente que não consegue corresponder às expectativas dos outros pode apresentar um comportamento inaceitável e tornar-se um bode expiatório para a projeção da sombra alheia. (Zweig & Abrams, 1994). Porém, apesar da projeção da sombra dos pais, ainda assim há um vínculo forte do bode expiatório com o perseguidor, e é justamente essa ligação que dificultará expressões de hostilidade para o pai ou a mãe que persegue, além do medo de retaliação. (Perera, 1991).

É importante que os filhos não sejam castigados pelos pais com rejeição, com a retirada do afeto e da aprovação. Isto porque, segundo Sanford (1988): “Quando isso ocorre, as crianças recebem a mensagem de que são más; além disso, elas se tornam responsáveis pelo mau-humor da mãe ou do pai, o que as leva a ter sentimentos de culpa e auto-rejeição” (p. 73).

De acordo com Perera (1991), aqueles que se identificam com o bode expiatório sentem-se portadores de comportamentos e atitudes vergonhosas que perturbam o casal parental e a sociedade como um todo. Os indivíduos identificados com o arquétipo do bode expiatório: “Sentem-se inferiores, rejeitados e culpados. Sentem-se responsáveis por algo além de sua parcela individual de sombra” (p.13).

Segundo Perera (1991) as famílias dos indivíduos identificados com o bode expiatório são bastante preocupadas com as normas coletivas, e projetam, de forma inconsciente, em algum ou em alguns membros familiares, aquilo que consideram negativo. Portanto, neste caso a família pode estar identificada com Azazel, o acusador, se pensarmos nas estruturas que formam o complexo de bode expiatório.

Geralmente possuem um forte superego, uma persona coletivizada, e uma identidade dependente da aprovação social. Portanto, na relação interpessoal, ainda que entre pessoas mais próximas, adotam papéis e tentam fazer valer suas regras também para os outros. Evitam o contato emocional direto por terem medo da exposição e operam defensivamente através de um pensamento concreto e prático. (Perera, 1991).

Os impulsos da sombra dos pais, que são negados por eles, muitas vezes irrompem no lar e são desprezados e atacados por eles. Portanto, é comum o confronto dos pais com esse material sombrio que destoa do padrão coletivo ao qual estão associados. (Perera, 1991). O adulto identificado com o bode expiatório resulta da criança que absorveu e passou a carregar a sombra familiar. E por isso, como já foi dito anteriormente, sente-se responsável por algo maior do que sua parcela individual de sombra.

“A inabilidade do bode expiatório adulto em desenvolver uma autoconfiança própria deve-se ao fato de ter sido sobrecarregado, desde muito cedo, com aqueles elementos desvalorizados, negativos, reprimidos e dissociados pelos pais, que, em primeira instância, representam o coletivo”. (Perera, 1991, p.41).

Além da autoconfiança o indivíduo identificado com o bode expiatório também herda outras características como resultado desta sobrecarga de material sombrio com o qual se identifica. A realidade é percebida de forma distorcida, pois adquiriu da família uma consciência rígida e julgadora. Assim, o bode expiatório tem uma visão fragmentada da realidade, tende a ver tudo como bom ou mau. Possui um ideal perfeccionista que reforça a vivência do fracasso, a auto-rejeição e o isolamento, que impedem ainda mais o próprio desenvolvimento (Perera, 1991).

“A típica distorção de percepção afeta a imagem física da pessoa de diversas maneiras. Geralmente, ocorre uma idealização de alguma parte da imagem coletivamente aceitável; esta parte torna-se o objetivo e o foco da visão que a pessoa tem do próprio corpo, pois parece residir ali a sua deficiência”. (Perera, 1991, p. 56).

Muitas vezes apresentam também uma rigidez corporal forte, e uma atrofia de sensações físicas em algumas regiões do corpo. Isto porque esta insegurança vem dos pais que possuem um forte tabu com o tocar e ser tocado, tanto fisicamente quanto emocionalmente. (Perera, 1991). Ainda segundo a autora, o indivíduo identificado com o bode expiatório pode apresentar dificuldade com vinculações, e a sentir-se acolhido com segurança. Esta dificuldade de envolvimento é também uma proteção para não ser ferido novamente com o material da sombra.

“Isso significa que nenhuma experiência poderá ser vivida em profundidade e nenhum relacionamento com um Outro exterior poderá desenvolver-se, pois qualquer abertura poderá acarretar mais sofrimento”. (Perera, 1991, p. 62).

FONTE: Boletim Clínico

Leia o artigo completo AQUI

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Uma resposta to “O Bode Expiatório na Família”

  1. Felipe Luiz Gomes e Silva Says:

    Texto profundo e claro. Fica uma pergunta. Se toda família é complexa, há problemas inconscientes arcaicos que podem se manifestar de alguma forma. Então todas famílias, são, ao seu modo, disfuncionais?


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