Os Efeitos dos Modelos Parentais na Construção da Personalidade

Se há algo a que podemos nos referir como universal é a família. Em qualquer civilização, em toda a classe social, há uma referência importante feita, pelo indivíduo, à família. Seja de forma positiva ou negativa, todo o ser humano carrega uma idéia de referência sobre sua família. O pai herói ou o pai carrasco, a mãe boa ou a mãe terrível povoam a psique, o imaginário e as emoções humanas. As idealizações e as fantasias são peculiares ao homem. No decorrer da vida existem oscilações entre a idealização dos pais e a decepção com eles e, na relação com os pais estão envolvidos, além dos reais, os pais arquetípicos que produzem consideráveis efeitos emocionais no sujeito.

Os abusos, os mimos, os cuidados e os descuidos, as vivências em geral ficam impressas no sujeito e emaranham-se às emoções que são produzidas, para moldarem a personalidade. Jung (O.C., 1986) sugere que a personalidade se desenvolve a partir da necessidade, seja pela coação de acontecimentos internos ou externos. É sabido que, pela necessidade de aceitação que a criança tem, sua principal tarefa durante a infância é a adaptação às exigências familiares. A partir do nascimento a criança depara-se com um sistema familiar em funcionamento, repleto de regras e normas das quais passa a fazer parte e é treinado para ajustar-se. Na relação com o meio a criança desenvolve um comportamento coerente com as expectativas que os pais têm a seu respeito. Etimologicamente, comportamento significa levar em conjunto, transportar para o mesmo lugar. Isso faz muito sentido quando nos referimos ao comportamento e à formação da personalidade.

Qual pessoa prescinde dos valores, dos pontos de vista e da visão de mundo apresentada pelos pais? Para tal fato não existe salvação! Inevitavelmente o sujeito carrega em si, enredado aos seus aspectos pessoais, os modelos parentais. A criança tem uma psique, extremamente, maleável e, desta forma, grande capacidade para absorver as informações que lhe chegam através das figuras educadoras. Aliado a isso, a criança ainda não tem seu psiquismo totalmente desenvolvido e, vive no âmbito psíquico dos pais. Apesar de poderem ser percebidas na criança características peculiares em seu temperamento, ela ainda não tem a consciência desenvolvida. Portanto, as perturbações vividas na infância são decorrentes da conflitiva dos pais. Sob o ponto de vista psíquico, Jung (O.C., 1986) afirma que a criança ainda não existe e, é somente a partir da adolescência que a psique começa a ganhar alguma autonomia. A consciência vai se desenvolvendo aos poucos e no decorrer de toda a vida. Por longo tempo, os filhos partilham da forma de pensar e imitam a atitude dos pais. O aprendizado sofrido na infância é, sempre, carregado de afeto e repleto de sentimentos, talvez por isso estenda suas raízes tão profundamente.

Jung sustenta a idéia de que o fator de maior importância, a exercer influência sobre o caráter da criança, é “a atitude emocional, pessoal e inconsciente dos pais e educadores” (O.C., 1977, § 1007). Assim, pode-se perceber que no comportamento humano são transportados, ou levados em conjunto fortes influências do meio familiar. E, se grande parte da vida de uma pessoa é moldada pelo influxo do meio, então o livre arbítrio é relativo e estreito, pelo menos enquanto prepondera a atitude inconsciente.

Jung (O.C. 1989) enfatiza que até o quinto ano de vida – fase mais intensa da absorção dos modelos – acontece uma espécie de contágio psíquico na criança, causado pelos pais na relação afetiva com o filho. A partir daí, a criança adota os referenciais parentais, que muitas vezes entram em conflito com suas predisposições herdadas psiquicamente. Para o autor, a constelação familiar causa um impacto muito forte no psiquismo, gera grande embate na aquisição de autonomia e pode, até, levar à neurose. Acrescenta, ainda, que os modelos parentais atuam como verdadeiras forças demoníacas na alma humana.

Todo o psicólogo clínico está familiarizado com essa realidade em seu consultório. Muito tempo de análise transcorre na exorcisação dos demônios parentais até que se possa tocar a alma que, comumente, está em situação de grande sofrimento, com feridas imensas que nunca cicatrizarão por completo.

Felizmente, a constelação familiar influencia o sujeito, mas não determina o seu caráter. Conforme Jung (O.C. 1989), o homem não nasce tábula rasa, mas inconsciente. Traz consigo, ao nascer, um sistema psíquico organizado, porém latente, o qual vai se desenvolvendo na interação com o meio. A confiança que a criança deposita no adulto/educador, atua como uma espécie de condutor que transporta as informações, como verdades, para sua vida emocional. A criança é receptiva à influência dos pais e, na maioria dos casos, afasta-se de suas predisposições originais para aderir às imposições da educação. Na medida em que cresce, vão aparecendo e acentuando-se os conflitos entre os conteúdos adquiridos e os originais. Mas, o conflito, ainda que desconfortável, é salutar, pois favorece o surgimento da consciência. Conflito diz respeito ao ato de atacar em conjunto. Informações antagônicas atacam o eu simultaneamente, causando-lhe consideráveis aflições. Forças psíquicas lutarão entre si, até que uma delas se sobreponha e ganhe espaço na consciência.

Este é um longo e doloroso processo, que dura uma vida inteira. Costumo me divertir com a fantasia de que em mundos mais evoluídos a infância pudesse ser pulada e a vida começasse a partir da meia-idade, talvez deste modo, com menos informações, as pessoas não se confundissem tanto. É muitíssimo comum as pessoas buscarem o tratamento psicológico, em grande sofrimento, presas em etapas anteriores e nas mazelas parentais. Além disso, carregam uma auto-imagem distorcida e pontos de vista viciadamente neuróticos. O sujeito cria para si uma verdade capenga, contaminada e bastante deformada acerca de si próprio e de sua realidade. É como se enxergasse a vida como uma imagem estática, na qual se move em torno e povoa de impossibilidades. Cada ser humano vive um universo à parte, abarrotado de meias-verdades, mas relaciona-se com elas como se fossem Grandes Verdades. Essa situação me faz lembrar a metáfora de Cristo: “Há muitas moradas na casa de meu Pai” (S. João, cap. XIV, v. 1.).

Pensem! Que arte exige a relação humana! Nas relações que estabelecemos, universos singulares se encontram e precisam descobrir uma maneira de decifrarem, um a linguagem do outro, para partilharem uma família, filhos, percepções, sentimentos, a profissão e até o tratamento de análise. Como se dá o encontro entre esses seres alienígenas que vivem em mundos tão diferentes? Como estabelecer comunicação, onde possa haver algum entendimento entre eles? Haverá essa possibilidade?

Entrar, de fato, em relação com alguém é algo que exige dedicação, emoção, respeito e desprendimento. Relacionamento não é empreendimento de fácil execução. Para nos mostrarmos a alguém é preciso confiar na outra parte. E, a recíproca é verdadeira. Entretanto, a criança, contida no adulto, mantém suas lembranças e, é justamente por ter confiado e se entregado aos pais que ficou emaranhada e confusa. A experiência da infância gera feridas, que criam crostas grossas, carapaças defensivas, que lembram ao adulto do perigo existente nas relações. Viver uma relação traz, às pessoas, sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo em que recursos defensivos são acionados há, no homem, uma necessidade vital de contato, pois o outro é elemento fundamental, como um parâmetro que o reflete e que serve de alvo para as inevitáveis projeções. Portanto, é na relação que o indivíduo se confunde e também se enxerga, isto é, a relação é o veneno e o antídoto.

Relações, desenvolvimento da personalidade, distorções, conflitos, necessidades, aquisição de consciência, são como engrenagens do funcionamento humano. Esta é uma generalização na qual estão envolvidas todas as pessoas. Esse mecanismo põe em movimento todos aqueles universos, que contêm em si suas singularidades. A singularidade, nos pais, que é tida como Verdade ou abriga um segredo, quando é transmitida contagia o filho com perturbações e contamina suas atitudes. Nesse cenário, o contágio pelos modelos faz com que os filhos imitem ou compensem os pais.

Estou, aqui, me referindo aos casos mais comuns nas relações entre pais e filhos, que vão sendo transmitidos e perpetuando-se por várias gerações. Refiro-me às pessoas que não tomaram consciência de seus males e dores, que vivem empenhadas na analgesia, enquanto a infecção se alastra. Com freqüência podem-se observar pessoas neuróticas adoecendo o corpo, pelo deslocamento das dores da alma que não foram percebidas. Assim, vão procurando o alívio para os sintomas do corpo, enquanto a alma arde em febre, na inflamação de sua dor.

Essa atitude inconsciente é um grande mal que contamina e vai, em cadeia, adoecendo as gerações posteriores, que herdam a responsabilidade de resolver os problemas que os ancestrais deixaram pendentes. Em tal condição, me questiono em que lugar na fila fica o envolvimento do sujeito consigo próprio e com o tema original de seu processo de individuação. É certo que no primeiro lugar não está.

Deste modo, a neurose tem sido o maior legado em grande parte das famílias. É transmitida geração após geração, como verdadeiras hamartias, na qual o sujeito fica amaldiçoado pelas faltas das gerações anteriores. Jung (O.C., 1986) assevera que “o sofrimento neurótico é um logro inconsciente e não tem mérito pessoal por coisas verdadeiras” (§ 154). Isso quer dizer que, nessa condição, o homem sofre e chora as dores alheias e não as suas próprias. O autor acrescenta que, é somente a conscientização dos pais a respeito de seus problemas e a atitude sincera frente a eles, é o que pode preservar a criança desses danos psíquicos. Ou seja, é pela conscientização de sua singularidade, subjetividade e individualidade que os pais liberam os filhos para viverem suas próprias vidas. A absolvição do filho se dá, então, pela tarefa de aquisição de consciência e construção da personalidade dos pais. Personnalité, a origem da palavra significa aquilo que constitui a pessoa em geral, a possessão de si mesmo, ou seja, estar investido de um caráter individual. Somente é possível construir uma personalidade quando a pessoa está em condições de se opor ao que está estabelecido, ao que é esperado e é capaz de fazer suas próprias escolhas, mesmo que essa atitude implique em desaprovação pelo coletivo. O desenvolvimento da personalidade indica: “fidelidade a sua própria lei” (§ 295).

Uma vida só é verdadeiramente vivida se há um indivíduo consciente que a conduza, capaz de fazer escolhas e de escrever sua própria história. Em potencial, todas as pessoas podem construir uma personalidade e viver aquilo que lhes é inato. Todo o ser humano carrega em si uma diretriz que lhe é própria e que está acima das convenções. E, esta é uma realidade psíquica. É esta diretriz que traz significado à vida e que torna o homem um indivíduo singular. A totalidade só é possível a partir da unidade. Jung (O.C., 1986) afirma que:

“Somente pode tornar-se personalidade quem é capaz de dizer um “sim” consciente ao poder da destinação interior que se lhe apresenta; quem sucumbe diante dela fica entregue ao desenrolar cego dos acontecimentos e é aniquilado” (§ 308).

Assim, entendo que a responsabilidade recai sobre cada indivíduo em relação à construção de uma existência com sentido. Quando há fidelidade à alma, a personalidade desabrocha e, com ela, o sentido colore de nuances singulares a vida humana. Nesse estágio, já não é mais necessário que outras pessoas sejam usadas como alvo de projeções, nem que os filhos se encarreguem de completar o que os pais deixaram inacabado.

Viver é uma atividade complexa, pois exige o homem inteiro. Entretanto, o homem vive aos pedaços, pois sofre uma deformação, causada pela educação que recebe – o que o faz refém da neurose. A neurose imobiliza o sujeito e o mantém distante de sua alma. É a alma – psique – que dá vida à experiência humana. É quem atrai Eros – elemento impulsionador para uma relação criativa e amorosa para com a vida. Viver com alma garante Eros e afasta a neurose. Este é um relacionamento de inteireza e que carrega amor. Para Jung (O.C., 1986), “o homem desprovido de amor ao destino (amor fati) é o neurótico. Ele se descuida de si mesmo” (§ 313). Descuidado de si o homem não é capaz de ouvir os apelos da alma. Será necessária a concentração nos ruídos psíquicos e a convergência dessa escuta para a consciência. Na medida em que haja uma concentração do indivíduo nele próprio, gradativamente surge a discriminação, a qual permite o alargamento da consciência e a estruturação de uma vida, realmente, íntegra.

A liberdade do outro inicia no reconhecimento que o homem é capaz de fazer a respeito de si próprio. A partir dessa condição a personalidade é possível.

Assim como uma grande personalidade atua na sociedade liberando, salvando, modificando e curando, da mesma forma o surgimento da própria personalidade tem ação curativa sobre o indivíduo. É como se um rio, que antes se perdesse em braços secundários e pantanosos, repentinamente descobrisse seu verdadeiro leito. Também se poderia comparar com uma pedra colocada sobre uma semente a germinar; tirada a pedra, o broto retoma seu crescimento normal” (O.C., 1986, § 308).

Este é o melhor legado que pode ser transmitido às gerações posteriores: a tarefa de aquisição de consciência para a realização do “sentido inato da existência” (§ 308).

FONTE: IJRS (Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul)

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