Repensando a Família

Excertos de artigo de *Junia de Vilhena

Introdução

A família pode ser pensada sob diferentes aspectos: como unidade doméstica, assegurando as condições materiais necessárias à sobrevivência, como instituição, referência e local de segurança, como formador, divulgador e contestador de um vasto conjunto de valores, imagens e representações, como um conjunto de laços de parentesco, como um grupo de afinidade, com variados graus de convivência e proximidade… e de tantas outras formas. Existe uma multiplicidade de formas e sentidos da palavra família, construída com a contribuição das várias ciências sociais e podendo ser pensada sob os mais variados enfoques através dos diferentes referenciais acadêmicos.

É vasta a literatura tanto das ciências sociais como das humanas que apontam a importância da família no desenvolvimento psíquico da criança. Psicanalista que sou, não poderia discordar. Posso, contudo, indagar: de qual família estaremos falando? Qual família estaremos buscando? À qual família estaremos referidos? (…).

Há algum tempo escuto que foi decretada a “morte da família”. Fala-se muito em crise de valores e do tempo em que a família oferecia amparo, segurança e bons padrões de moralidade às crianças. (…). Contudo, é bom relembrar, como aponta Khel (2001), que esta mesma família “estruturada” deu origem às histéricas de Freud, às neurose obsessivas e a todo o mal-estar psíquico que varreu a Europa no final do século, dando lugar para o surgimento da psicanálise. Certamente não estou desconsiderando a importância da família no desenvolvimento psíquico do sujeito. Nem poderia! Minha indagação é de outra ordem: Qual seria a razão para este retorno nostálgico à família? Podemos encarar a família como uma prisão ou um lugar de abrigo. Um espaço de trocas ou de isolamento coletivo. Um agente de mudanças ou um dispositivo de alienação. De qual família estamos então falando e o que estaríamos buscando?

Família e Regulação Social

Depois de Durkheim, tornou-se lugar comum na sociologia da família, falar do casamento como o espaço que serve ao indivíduo de proteção contra a anomia. (…), ou seja, a família, favorece um engajamento social que cria para o indivíduo uma espécie de ordem, na qual sua vida adquire um sentido, constituindo-o como sujeito. Que a família vem mudando ao longo da história todos sabemos. O próprio conceito de família, tal qual a concebemos, data da idade moderna, sendo importante frisar, que estamos falando da família ocidental moderna. Tal família, fruto do Iluminismo como veremos a seguir, é caracterizada pelo predomínio dos valores democráticos e igualitários que tornaram possível, pelo menos ao nível das aspirações, a idéia de igualdade e dos direitos individuais entre homens e mulheres.(…)

(…). A família moderna, conforme dissemos anteriormente, é fruto do iluminismo e calcada em valores muito mais individualistas. De acordo com Sennett (apud Vilhena 2004), a implantação do capitalismo industrial nas capitais, acompanhado por essa crença secular, imprimiu uma força, sem igual, para a privatização familiar, iniciando a desestabilização existente entre as esferas pública e privada observada na atualidade. Segundo Pinheiro (2002) nesse momento, pressionadas e assustadas por terem que viver publicamente em um caos urbano e desconhecendo as coordenadas reguladoras do capitalismo, as pessoas passaram a se concentrar cada vez mais na esfera familiar, fazendo com que a família deixasse de ser percebida como um espaço diferenciado do público para se tornar um refúgio idealizado e moralmente superior.

Uma vez, supostamente, afastada da inspeção e intromissão externas, a família burguesa seguia regras rígidas e estáveis tornando segura a vida privada, sendo justamente essa idealização o que possibilitará que a legitimidade da ordem pública seja posta em questão. É o que propõe Habermas , ao afirmar que podemos observar, nesse momento histórico, a ocorrência de uma emancipação psíquica que corresponde à emancipação ocorrida no nível político-econômico. Ainda que, ilusoriamente, a família burguesa tenha se pensado como independente do controle externo, posto que, na verdade, sua constituição foi historicamente determinada, tal ilusão de liberdade ofereceu as bases para a noção de que a família se estrutura a partir de três coordenadas distintas:

-o caráter voluntário: as pessoas se unem por vontade própria, revelação plena do individualismo na medida em que as pessoas perdem sua inscrição social e passam a contar individualmente;

-o amor natural: fundamento da noção de que aquilo que mantém a união matrimonial é a natureza humana e seus aspectos subjetivos estruturados pelos laços fraternos da paternidade e maternidade sem interesses econômicos;

-a educação:a finalidade da família é interna e não externa.

De acordo com Pinheiro (op.cit) essas três coordenadas se articularam de forma a sustentar a idéia de uma humanidade que deve ser inerente à natureza humana, fundando uma esfera que se emancipa de finalidades exteriores a ela, criando suas próprias leis de organização cujas coordenadas principais são o amor (revelado pelos laços de parentesco) e a sexualidade. Com isso, a esfera privada pôde ganhar espaço e ser tomada como paradigma a partir do qual a sociedade pudesse ser avaliada, imprimindo um interesse cada vez maior pela intimidade, própria e dos outros, abrindo-a a exploração e ao desvelamento. Mas vejamos como estas se atualizam na família moderna.

Família, Individualismo e Consumo.

(…). Em nossa moderna cultura o indivíduo vale muito mais do que a comunidade; nossos laços são estabelecidos mais em função de uma satisfação pessoal do que de alianças e de tradições. Nossas identidades são negociadas e apoiadas, prioritariamente no real dos atos, tais como corpo, etnia, indumentária, preferência sexual, do que na cadeia das filiações simbólicas e geracionais e nas tradições. Nossos dramas são todos psicológicos e dizem respeito à subjetividade de cada um. O afeto toma primazia sobre os contratos e toda nossa relação com as instituições e suas leis são negociadas. Na modernidade o fato social passa a ser um drama interno do sujeito – se o adultério era antes crime, ele agora é uma questão ética individual; da mesma forma, dificilmente um criminoso escapará de ter seu perfil psicológico esmiuçado diante das câmeras de tv.

Enzensberger (1995), em seu magnífico ensaio sobre a guerra civil, nos diz que a modernidade fez desaparecer o conceito de crime, instaurando em seu lugar o “caso clínico”. A patologia social é, freqüentemente, reduzida a uma patologia psíquica. Da mesma forma, dizem os religiosos, o pecado foi substituído pelo “sintoma”. Estamos, com bastante assiduidade, buscando aonde o laço afetivo se rompeu, qual a rejeição sofrida, onde localizamos o trauma. Desta forma vamos construindo marcas identitárias cada vez mais segregadas e com menos elasticidade e plasticidade social. Assim temos: os gays, os negros, os índios, as vítimas de abuso, os menores infratores, as modelos, os que malham, os que consumem e os que consomem, apenas para citar alguns exemplos mais comuns. Da mesma forma, a eleição do amor, como eixo central de nossa escolhas e de nossas vidas, não poderia deixar de trazer conseqüências enormes para a família. Se ao invés da tradição, do compromisso com a comunidade, da perpetuação através das gerações, elegemos um afeto tão forte e tão frágil simultaneamente, como norteador de nossas vidas as conseqüências não tardam em se manifestar.

(…). Desse modo, ainda que a experiência concreta muitas vezes contradiga o lugar do amor nas relações familiares, permanece a crença de que só devemos nos casar por amor – qualquer outro critério de escolha é hipócrita ou decorrente da necessidade econômica. Em nossa modernidade qualquer outra razão simbólica, como assegurar a descendência, ou realista, mais braços para a lavoura, ameaçam a nossa sede de autonomia, uma vez que estão submetidas a razões externas a nossa vontade. Por isso devemos nos casar por amor. Mas amor a quem? Sabemos que o que fazemos por amor fazemos por nós mesmos.

Nossos Filhos Tão Queridos…

Amamos nossas crianças também como imagens de nossa própria felicidade. Esperamos delas que realizem o nosso projeto Queremos ser amigos, pares, iguais – e talvez por isso não consigamos mais estabelecer nenhum tipo de regra e autoridade. Toda a autoridade passa ser vivida como autoritarismo, como uma ameaça a esta felicidade desejada a este amor tão propalado. (…). Então, o que observamos? Qualquer ameaça a este amor tão fundamental, qualquer dúvida acerca de sua existência ou suficiência (e nunca é suficiente, pela própria demanda infantil), joga o adulto na mais profunda angústia e culpa, uma vez que representa uma ameaça a esta necessidade narcísica de ver suas crianças sempre felizes. (…)

Como bem apontava Freud amamos nossas crianças como ectoplasmas de uma perfeição que as contingências da vida de certa forma nos negaram. Delas esperamos que nos ofereçam uma imagem de plenitude e de felicidade com a qual possamos nos identificar e amar a nós mesmos. A criança é a caricatura da felicidade impossível. Mas nessa nova forma de amor, as crianças, que não mais se vestem de crianças, mas sim de adultos em miniatura, devem ser poupadas das agruras e responsabilidades da vida, inseridas em uma pedagogia de puro prazer. Os adultos para serem felizes, devem manter a infância distante daquilo que desgostam tanto – o peso da dívida com as gerações anteriores, o compromisso com a comunidade, a hesitação moral ou o rigor da lei. Nas palavras de Costa (1994) queremos que nossas crianças sejam anões, de férias, sem lei – e sem dúvida parece que estamos conseguindo.

A não imposição de limites, o “medo” de desaprovação que norteia o comportamento do adulto, redunda em uma espécie de abandono da função paterna – da responsabilidade e da autoridade. Não importa se não houve um abandono concreto, mas o adulto refém da aprovação infantil, renuncia, da mesma forma ao seu lugar na cadeia geracional. Para Khel o abandono das crianças mimadas e de família (a autora não está falando das crianças de rua) é o abandono moral. Nas sociedades tradicionais o amor parental é incondicional uma vez que as crianças são amadas pela garantia de reprodução, pela descendência. O mesmo não acontece na sociedade moderna, o que ajudaria a nos sugerir algumas pistas acerca da aparente contradição do nosso tão grande amor pelas crianças e o estado que estas se encontram no nosso país. Da prostituição infantil ao massacre deliberado, da mortalidade ao trabalho escravo, como conciliar este amor narcísico e tudo que vimos descrevendo com a realidade de nossa infância?

(…). Segundo Calligaris (1996) nosso amor narcísico, ao contrário das sociedades tradicionais, impõe condições e, em condições de miséria real, a criança que não corresponda aos nossos devaneios, não é mais nada – se as crianças não são amadas por serem descendência, mas sim por serem a imagem da felicidade, um defeito físico, ou a miséria real comprometem o investimento parental. (…). Desta forma, o que me importa a imagem da criança do vizinho? Imagem só a minha. Assim, seu corpo desinvestido narcísicamente, se oferece ao sexo, sua morte não me afeta, uma vez que ela jamais poderia espelhar a minha felicidade. A partir daí voltamos à nossa indagação inicial: qual a família que queremos construir?

A Família Que Queremos Construir

(…). Sabemos que a aceitação dos limites impostos pela realidade objetiva constitui uma tarefa inelutável. O ser humano vive permanentemente a tensão de ter que relacionar a realidade interna – subjetivamente concebida -, com a realidade externa – objetivamente percebida. Abrir mão da fantasia onipotente, “cair na real”, dói muito! No entanto, essa negociação entre a fantasia e a realidade é necessária para que os desejos se realizem fora da patologia Mas, paradoxalmente, não se trata de uma passagem definitiva, derradeira. O desejo está sempre ali, criando tensão, buscando realização. E cada um negocia como pode… na pobreza e na riqueza de seus recursos psíquicos! (Vilhena & Santos,2000a). Ao afirmar que “não existe um bebê sem a sua mãe”, Winnicott estava referindo-se a um princípio fundamental para a compreensão do seu conceito de self, que, segundo sua teoria do relacionamento parental, está presente a cada momento do processo maturacional do indivíduo: não existe o self sem o outro; o self acontece no mundo. Em 1967, Winnicott assinala que quando se fala de alguém, fala-se dessa pessoa com a soma de suas experiências culturais.

(…). Se as culturas como sabemos, são invenções, se não obedecem a uma determinação histórica a tarefa que se impõe, não apenas em nossa clínica, mas em toda nossa vida é, no mínimo, a de tentar repensar nossa relação e compromisso com o outro. Em um trabalho intitulado “Provisão para a criança na saúde e na crise” (1962), Winnicott esclarece que ao se falar de provisão para a saúde o que interessa é o desenvolvimento emocional da criança e o estabelecimento das bases de uma vida de saúde mental. Segundo ele, prover para a criança é uma questão de prover o ambiente que facilita a saúde mental individual e o desenvolvimento emocional. Parte do pressuposto de que as forças no sentido da vida, da integração da personalidade e da independência são tremendamente fortes, realizando seu potencial segundo os cuidados oferecidos pelo contexto ambiental.(Santos 2001). Winnicott nos fala de dois tipos de ambiente: o meio facilitador do desenvolvimento dos processos maturacionais inatos do indivíduo, e um outro, onde falhas grosseiras induzem ao trauma e ao aparecimento do falso-self. Um sujeito encarnado conhece o viver criativo pulsional; conquista um self pessoal psicocossomaticamente integrado, pronto para as trocas com o outro e com o ambiente. (…)

É neste sentido que minha indagação permanece. Qual será o tipo de ambiente que seremos capazes oferecer às futuras gerações? Certamente não é justo que toda a fatura de nossas falências seja colocada na família. Afinal de contas, parece-nos que o Estado vem relegando, cada vez mais, suas responsabilidades para as Organizações Não Governamentais, comunidades, igrejas e outros atores sociais. Do Estado mínimo estamos passando rapidamente para o Estado nulo. Contudo quais os artifícios que poderemos usar para reinventar as nossas famílias? Se a teoria freudiana pontua e acentua o inevitável mal-estar e ódio pulsional, acredito que Winnicott acene com uma perspectiva mais animadora. Para Winnicott nada que diga respeito às pulsões vitais prejudica o desenvolvimento, salvo nos casos onde houve falhas na provisão ambiental. A cultura, para o autor, é um centro de vitalidade e de criação entre pares (não entre iguais) que reconhecem no outro e em si mesmo a responsabilidade pelo destino a ser construído.

Acredito que é neste “cuidar” de nossa cultura, de nossas heranças e de nossas tradições, sem nostalgias e com criatividade, que poderemos evitar o desmantelamento da rica vida associativa, fundamental no direcionamento das demandas coletivas e de uma sociabilidade positiva, solidária e fraterna.

*Junia de Vilhena é Doutora em Psicologia. Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Psicanalista.

Leia o artigo na íntegra clicando AQUI

Fonte: Psicologia.Portugal

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