Daqui Eu Não Saio

Uma geração de jovens que já trabalham e ganham seu dinheiro mas resistem à ideia de deixar a casa dos pais estabelece um novo padrão de comportamento.

*Por Carolina Romanini

O natural que os jovens, assim que começam a trabalhar e a ganhar o próprio dinheiro, sonhem em deixar a casa dos pais. Conquistar a independência, ter o seu canto, receber os amigos e namorados na hora que quiser – tudo isso faz parte do rito de passagem para a fase da vida em que a noção de responsabilidade adquire um significado mais amplo. Essa ordem natural das coisas vem sendo desafiada por muitos adultos jovens. Embora já trabalhem, eles preferem permanecer na casa da família – e nem sequer têm planos de morar sozinhos. São os chamados jovens cangurus, uma analogia com os mamíferos da Austrália que andam de carona na bolsa abdominal da mãe. Segundo o instituto de pesquisas LatinPanel, de São Paulo, há hoje no Brasil 3,3 milhões de famílias das classes média e alta com filhos cangurus. Isso equivale a 7% das famílias do país. A maioria deles se encontra na faixa dos 25 a 30 anos, mas, entre os já quase quarentões, 15% ainda moram com os pais (veja o quadro abaixo). Quando se considera que até meados do século XX as mulheres – e muitos homens – só deixavam a casa paterna para casar, surge a questão: terá havido um retrocesso na independência conquistada pelos jovens? Não é bem assim. Os jovens cangurus têm boas razões para ficar em casa.

O primeiro motivo que desestimula os jovens de conquistar o próprio espaço é que eles desfrutam em casa toda a liberdade que desejam. Filhos cangurus quase sempre têm pais liberais, que respeitam sua individualidade e não entram em conflito com eles – desde que o respeito seja mútuo, é claro. A família do engenheiro Ricardo Saporiti e de sua mulher, Denise, advogada, de Florianópolis, se encaixa nesse modelo. Seus filhos, os gêmeos Roberto e Mônica, de 31 anos, são formados, pós-graduados e independentes do ponto de vista financeiro. Ele é advogado e ela, analista de RH. Nenhum dos dois pensa em sair de casa. Explica Mônica: “Quando pesamos os prós e os contras para ficar em casa, só vemos prós. Nunca tivemos problema em trazer os amigos para cá. Os namorados também sempre foram bem-vindos, e, quando éramos adolescentes, meus pais não brigavam se quiséssemos tomar uma cerveja”. Diz Roberto: “Não vejo sentido em sair daqui para morar sozinho, na mesma cidade que meus pais. Só quando casar”. O psiquiatra Içami Tiba, autor de vários livros sobre o comportamento dos jovens, avalia que a cumplicidade está na base da relação entre jovens cangurus e seus pais. “Essa nova relação familiar só é possível quando os pais deixam de ver os filhos como subordinados a eles e se tornam seus companheiros”, diz Tiba.

A liberdade que os jovens cangurus têm na casa dos pais leva ao segundo motivo citado por eles para não deixá-la – a manutenção do padrão de vida que desfrutam. Roupa lavada, empregada doméstica à disposição e comida na mesa são alguns dos luxos dos quais teriam de abrir mão. “Sair de casa só quando eu tiver condições de manter o meu padrão de vida ou melhorá-lo”, diz Mariane Ferraresi, especialista em marketing de 26 anos, de São Paulo. Ela já pensou em dividir um apartamento alugado com uma prima, mas voltou atrás. Seus pais, Rivail Ferraresi, empresário, e Miriam Miguel, assistente de vendas, deram apoio total à sua decisão. Enquanto continua na casa dos pais, Mariane investe em uma nova carreira como chef de cozinha. Ela aproveita o dinheiro que sobra no fim do mês para comprar livros de culinária, utensílios de cozinha e ingredientes para testar receitas. “Se eu tivesse escolhido morar fora, provavelmente não teria me permitido o luxo de investir nessa nova carreira”, explica.

O terceiro motivo que leva os jovens cangurus a permanecer na casa dos pais é a possibilidade de usar o próprio dinheiro no aperfeiçoamento de sua formação acadêmica. A competitividade do mercado, em todas as áreas, exige que os jovens tenham um currículo cada vez mais atraente. Além disso, os empregadores fazem questão de experiência anterior na área – que geralmente é adquirida em trabalhos mal remunerados. “É mais fácil investir em qualificação profissional sem preocupações com o aluguel e tudo o que envolve a manutenção de uma casa”, diz o publicitário paulista André Grilo, de 37 anos. Com remuneração suficiente para deixar a casa dos pais desde que concluiu a faculdade, em 1997, André preferiu investir o dinheiro em um ano de intercâmbio em Londres e seis cursos de especialização. Há quatro anos, montou sua própria agência de publicidade e, se tudo correr como planeja, antes de completar 40 anos terá guardado quantia suficiente para sair de casa.

A permanência de jovens adultos que já trabalham na casa dos pais é comum em muitos países. Na Itália, esse tipo de conduta é uma tradição. Os italianos chamam esses personagens de bamboccioni, ou crianças grandes – é voz corrente no país que as mães estimulam a permanência em casa pela afetuosidade exuberante que demonstram com relação aos filhos. Já os japoneses são menos simpáticos ao se referir aos jovens cangurus. Eles são chamados de solteiros parasitas. “Em países como o Brasil, a Itália e o Japão, a demora para sair de casa é típica de uma geração que posterga a adolescência, o casamento e a paternidade, quando não desiste de vez dos filhos”, disse a VEJA a psicóloga Barbara Hofer, da Universidade de Middlebury, em Vermont, nos Estados Unidos, que estuda o fenômeno há quatro anos.

Nos Estados Unidos, os jovens cangurus são chamados de filhos bumerangues e têm um perfil diferente. Pelos costumes americanos, ao ingressarem na faculdade, os jovens saem de casa e vão morar em repúblicas de estudante ou no próprio câmpus. Depois de formados, espera-se que eles logo arrumem emprego na área em que se especializaram e não voltem mais para a casa dos pais. Essa tradição é interrompida quando o nível de desemprego nos Estados Unidos se eleva. Foi o que aconteceu em 2003, quando mais da metade dos recém-formados americanos retomou o caminho de casa. “Com a crise econômica atual, espera-se um número recorde de estudantes que não conseguirão emprego ao se formar e terão de voltar a morar com os pais”, prevê a psicóloga Barbara Hofer. Embora os costumes no Brasil sejam diferentes, é bem provável que esse efeito colateral da crise também se abata sobre o país, multiplicando a quantidade de jovens cangurus.

FONTE: Revista Veja 

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2 Respostas to “Daqui Eu Não Saio”

  1. Bule Voador » Brinquedo é coisa séria Says:

    […] um mínimo de independência para quando saírem de casa. No nosso país algumas reportagens (como essa e essa) comentam que @s filh@s da classe média têm retardado cada vez mais a saída da casa dos […]

  2. Elil Says:

    tenho 48 anos e nunca passou pela minha cabeça sair da casa de papai e mamae. fizemos 2 apartamentos em cima da casa de nossos pais. minha irma mora em com marido e 4 filhos e eu moro no outro com esposa e 2 filhos. acho a vida aqui maravilhosa. as crianças adoram a casa dos avòs que por sua vez se apegaram muuuiuito com as crianças. elas sempre dizem que náo sabem o que seria delas se náo morassem onde moram. no final ficou bom pois o IPTU è compartilhado por todos e quanto os gastos com internet e tv a cabo… fizemos um pacote que serve para a casa inteira, pois espalhamos roteador. aqui pelo menos eu acho maravilhoso. meus pais jamais saberáo o que è a sìndrome do ninho vazio. jamais provaráo a solidáo. diferernte dos meu avós que tiveram mais de 10 filhos e no final ficaram sozinhos naquele sitio no interior e piorou quando ficaram viùvos. aì ficou morando sozinho naquela casa enorme. era uma tristeza….


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