Família, Amor e Futuro

*Por Patricia Paladino

A transformação do sistema patriarcal e as conquistas da mulher ao longo do século XX atingiram em cheio a célula mater da sociedade: a família. Hoje, novas formações familiares tornam-se alternativas ao núcleo tradicional, formado por pai e mãe casados, com filhos de ambos. Para a psicanalista Malvine Zalcberg – doutora em Psicologia Clínica e que exerceu, por 25 anos, as atividades de coordenação, ensino e pesquisa no Serviço de Psiquiatria do Hospital Universitário Pedro Ernesto e no Instituto de Psicologia -, não existe uma “nova” família. “O que há são várias maneiras de se constituir família, uma invenção simbólica da sociedade e que, por isso mesmo, sempre se ajusta às contingências histórias e às novas condições sociais, econômicas, políticas e culturais de cada sociedade”, explica Malvine.

Estamos em um período de transição. Há pouco mais de uma década, o conceito de globalização tornou-se uma realidade e o mundo, enfim, passou realmente a ser uma aldeia. “Os efeitos da globalização não poderiam deixar de repercutir nas novas formas de a família se apresentar em nossos dias. Nesta transitoriedade, certos modelos mais tradicionais de composição familiar vão se constituindo paralelamente a tantos outros modelos que, embora pareçam romper completamente com os tradicionais, procuram manter algumas de suas características fundamentais”, explica Malvine Zalcberg.

Entre os diferentes estilos de família que vêm se constituindo estão os casais que não têm filhos por opção, casais homossexuais buscando legitimação da união, filhos sendo educados por apenas um dos pais, casais recorrendo aos recursos tecnológicos da medicina para gerar seus filhos. Estamos vivendo uma época que propicia os laços afetivos – o que, com a busca pela realização do desejo e da liberdade de sentimentos, deságua em novas constituições da família e novos laços de filiação. Mulheres do Século XXI, chegamos ao momento em que podemos pensar como “eu” e não somente como “nós”. Aos 20 anos, propiciadas por tudo o que vimos nesta série de reportagens – que traçou o percurso emocional, cultural e social feminino a partir da década de 1960 – estamos com as armas necessárias para exercer o direito que conquistamos: o direito elementar e essencial de fazer escolhas.

Investimento e conciliação

A economista e antropóloga Renata Curcio, 39 anos, é um desses exemplos da Mulher XXI. Entrando na fase adulta na década de 1990, tinha o manancial necessário para fazer suas escolhas. Ao contrário da geração anterior, não precisou brigar por isso. Foi um caminho natural, de conquistas e não de sofrimento. Renata resolveu investir em si mesma – profissional e emocionalmente. Sem exclusão.

Ao mesmo tempo em que construiu, passo a passo, sua carreira profissional – é graduada em Economia, fez mestrado em Relações Internacionais e doutorado em Antropologia – manteve um modelo considerado não tradicional de casamento por 12 anos. Aos 25 apaixonou-se e passou a dividir a vida com um homem 20 anos mais velho, geógrafo, que era pai de sete filhos e tinha cinco ex-esposas. E soube administrar esta “família emprestada” muito bem.

A fórmula foi a naturalidade. Havia os filhos dos casamentos anteriores (que iam de 2 a 20 anos de idade), havia a convivência com as ex-mulheres – bastante pacífica, e em dois casos, até bem íntima -, havia uma parceria profissional com o marido, em uma empresa que montaram juntos. “Sempre aceitei muito bem a presença dos filhos dele em minha casa, antes mesmo de ter o meu. Eu realmente gostava da presença das crianças e quando meu filho nasceu, eram seus irmãos que estavam ali”, conta.

Renata levou adiante seus projetos profissionais: era professora de Relações Internacionais em uma universidade, terminava o doutorado e tinha seu filho, Gil Pedro, hoje com 12 anos. Em 2003, durante o doutorado em Antropologia, precisou transferir-se para Brasília a fim de fazer seu trabalho de campo. O marido foi por causa dela. Ambos passaram a trabalhar na Funai, até a separação, em comum acordo, quando Renata resolveu voltar para o Rio de Janeiro. Hoje trabalha como economista do Museu do Índio, está solteira, voltou a morar com os pais por uma questão financeira e se diverte muito com Gil Pedro – a última empreitada de mãe e filho foi escalar o Pão de Açúcar.

“Eu acho que uma característica da minha geração é não cristalizar muito seus planos. Eu não projetei minha vida, ela foi se construindo com as circunstâncias, as coisas foram se compondo”, conta Renata, que admite nunca ter tido o modelo tradicional de casamento – como seu próprio núcleo familiar, com pais casados há mais de 40 anos – como ideal. “Na verdade, eu sempre tive horror a essa coisa do ‘casamento para sempre’. Como o meu casamento não seguiu esse padrão, tudo bem, casei. E quando me dei conta, havia passado mais de 10 anos!”, brinca.

A barra pesou mais após a separação – e não por uma questão pessoal. Se a sociedade, de forma geral, não “estranhou” esta nova formação familiar, composta por muitos filhos, muitos meio-irmãos e muitas ex-mulheres, cobra dela a condição de solteira. “Isso foi o que mais me impressionou: a necessidade que as pessoas tinham de me arranjar outro par. Era quase como se dissessem: ‘Se você está sozinha é porque tem alguma coisa errada’. Me sentia um bicho esquisito”, conta Renata. “É incrível que isso aconteça: mulheres sozinhas ainda são vistas como ameaça às casadas.”

Cadê as crianças?

Para a psicanalista Malvine Zalcberg, a família é amada, sonhada e desejada por homens, mulheres, crianças de todas as idades, de todas as orientações sexuais e de todas as condições. “A diversidade das uniões – família nuclear tradicional, família reconstituída, família mono-parental, família homossexual, família adotiva, família por fertilização assistida – atesta a permanência da família como instituição”, completa Malvine, autora de A relação mãe e filha e Amor paixão feminina, ambos editados pela Campus.

Porém, quando filhos não fazem parte da constituição de uma família, isso soa, aos ouvidos da maioria, como “estranho”. Este sentimento não é novidade para a professora universitária C.S.V – que prefere dar apenas as iniciais, e vocês vão entender por quê: simplesmente porque decidiu não ter filhos.

Casada há 10 anos com um engenheiro, C., de 41 anos, assume, com muita tranqüilidade, sua opção. “Eu já pensei em ter filhos, mas nunca seriamente. Isso não é uma bandeira para mim, é apenas uma escolha”, diz. Pode ser natural para ela, mas não para a sociedade – e por isso ela preferiu não revelar o nome. “É incrível como as pessoas me cobram o fato de não querer ter tido filhos. Há pouco uma colega de trabalho chegou para mim, muito constrangida, e perguntou se eu não tinha filhos porque tinha algum problema de saúde. Quando eu disse que a saúde estava ok, que não tinha filhos porque não queria, ela arregalou os olhos como se eu fosse uma psicopata”, conta. “Ou seja: se você tem algum problema que te impeça de engravidar, as pessoas pensam: tadinha. Se é porque você não quer, acham que você é alguém muito esquisito”, finaliza.

A decisão de C.S.V. foi tomada em comum acordo com o marido. “Não era a coisa mais importante da vida, nem para mim, nem para ele. Nunca tive o que chamam de ‘instinto materno’. E as contingências da nossa vida não nos deixavam pensar nisso com mais seriedade.” No mesmo ano em que casou, C. entrou para o mestrado. Deixou para pensar em filhos quando terminasse. Em seguida emendou com o doutorado. Mais uma vez deixou para pensar depois. Quando viu, sete anos se passaram. “Muitas pessoas tem filhos pelos motivos mais esdrúxulos. Definitivamente, eu não sou uma delas”, conta C., que se surpreende com a cobrança da sociedade com relação às mulheres. “Quando a mulher está namorando, todos perguntam: quando vai casar? Quando casa, a pergunta é quando vai ter filhos. Por que não nos perguntam quando vamos nos formar no doutorado, quando vamos ter aumento?”, brinca. Mas fala muito sério.

A antropóloga Mirian Goldenberg faz uma observação sobre este espanto sentido por C., e sobre a qual devemos parar um momento e refletir. Ela concorda que as mulheres que fazem suas escolhas com base no desejo sofrem um olhar diferente. Mas porque provocam a reflexão do espelho: a mulher que escolhe não ter filhos, ao conversar com outra que os têm, ouve: “É um sentimento tão maravilhoso, uma coisa linda da vida, só sabe o que é quem tem filhos, etc e tal”. Claro, com base na certeza de sua escolha. “A mulher sem filhos questiona a escolha das que tiveram. Pelo reflexo do espelho do outro, esta certeza fica balançada ou questionada por elas mesmas. É um processo produtivo, de reflexão, de amadurecimento de decisões, de desejos”, diz Mirian.

Para onde caminha o amor?

Este questionamento de desejos, a liberdade de escolhas e as novas formações dos núcleos familiares nos remetem a uma pergunta fundamental: como está o amor nesta quase virada de década do século XXI? Para onde caminhamos em nossos vínculos amorosos? Ainda estamos presas ao “amor romântico”? Liberdade conquistada é liberdade garantida?

Convocamos as teóricas que nos ajudaram, durante toda a série, a decifrar os caminhos que percorremos até aqui. Para Mirian Goldenberg, a base é o desenvolvimento do ponto de equilíbrio nas relações: “Criar um relacionamento sem tentar dominar o outro, mas sem deixar-se submeter ao outro. Uma relação de parceria, de respeito e, principalmente, de igualdade e de liberdade de expressão dos desejos”.

A psicanalista Malvine Zalcberg aborda a questão da diferença de expectativa de homens e mulheres em relação ao amor: para ela, a igualdade entre os sexos, embora cristalizada na sociedade, não tornou as exigências amorosas similares para homens e mulheres. “As conquistas de emancipação feminina não fizeram desaparecer a forma privilegiada com a qual as mulheres, mais do que os homens, investem no fenômeno amoroso”, diz Malvine, para quem as mulheres continuam esperando mais do amor do que os homens. “A mulher tem uma verdadeira paixão pelo amor, a paixão de ser amada. Mais do que amar, ao contrário do que muitos pensam. As mulheres brasileiras não são diferentes das mulheres do resto do mundo, porque a busca do amor como resolução da identidade feminina é uma questão que atravessa toda a subjetividade especificamente feminina.”

Já a sexóloga Regina Navarro Lins aponta para novos caminhos. Para ela, o conceito de amor romântico – que fez parte da formação do amor no Ocidente desde o século XII – entrou em um processo de sair de cena. Em seu livro, A cama na varanda, há um capítulo dedicado aos rumos do amor nos novos tempos. No livro, ela pergunta: com tantas opções e possibilidades que se abriram nesta primeira década do século XXI, o que homens e mulheres mais desejam: estabilidade nas relações amorosas ou liberdade? É um desafio, sem dúvida. Conciliar sua individualidade com a individualidade do outro; negociar o desejo de ambos; adaptar nossa dualidade com a do outro, ajustando as evoluções. Diz Regina: “O peso do indivíduo coloca o casal em xeque”.

Hoje em dia há tantas maneiras de amar quanto de se encontrar o par amoroso. A Internet, acusada de aumentar a solidão e de não promover encontros “reais”, na visão de Regina é mais um meio extraordinário de travar conhecimento. “Os solitários conheceram gente, os tímidos ganharam coragem para trocar idéias, muitos grupos se formaram”, escreve Regina em A cama na varanda. Para ela, o futuro aponta para novas formas de experimentação amorosa. “A prática de relações amorosas virtuais múltiplas abre espaço para se amar várias pessoas ao mesmo tempo também no mundo real.” Ela aponta um caminho que já vem observando atualmente: o poliamor. Precisaríamos de uma matéria inteirinha só para tratar deste tema. Mas, de maneira geral, como cita Regina Navarro Lins, “o poliamor é baseado mais no amor do que no sexo e se dá com total conhecimento e consentimento de todos os envolvidos, estejam estes num casamento, num ménage à trois, ou no caso de uma pessoa solteira com vários relacionamentos”.

Regina conta que há pouco tempo fez uma pesquisa através de seu site, em que propôs o tema: Você faria sexo a três?. “O resultado foi impressionante: 80% responderam que sim”, conta Regina, que também em consultório vê este assunto colocado como pauta. Para ela, isso se deve à mudança da própria estrutura familiar. A relação dentro deste núcleo se transformou e, como conseqüência, a relação com o amor também está se transformando.

“O amor é uma construção social, e nós ainda vivemos sob o mito do amor romântico do século XIX. O problema é que o amor romântico é calcado na idealização: você atribui à pessoa amada características que ela não tem, mas sim que você gostaria que tivesse. E passa a vida infernizando a pessoa para mudar e se encaixar no seu ideal. Quem ainda hoje não ouve alguém dizer que “ama estar amando” ou “se apaixona pela paixão”?”, coloca Regina.

Para a sexóloga e psicanalista, o problema é que o amor romântico prega a fusão entre os amantes. Os dois são um só. Em uma época em que vivemos em busca da liberdade e da individualidade, o que acontece é um paradoxo: como saber mais sobre si mesmo, explorar potencialidades, se o amor romântico bate de frente com essa busca? Este é um primeiro sinal de que há um questionamento sobre o modelo de amor romântico. “Ao sair de cena, ele leva junto a exigência da exclusividade e da fidelidade (um de seus pilares), os olhos voltados só para o ser amado e o conceito de que um precisa completar o outro. Isso é fantasia, ilusão”.

Para Regina Navarro Lins, caindo a exigência de exclusividade, os casais abrem espaço para outras formas de relacionamento. Ser possível verdadeiramente amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, relacionar-se sexualmente com alguém fora da relação, trazer outra pessoa para a relação, sem que isso signifique necessariamente o desmoronamento do relacionamento. “Não é ruim querer novidade, variar, experimentar. É isso o que eu vejo como tendência atualmente. Somos todos fracos e fortes, passivos e ativos, corajosos e medrosos. Isso independe de sexo, depende das características de cada um e das circunstâncias do momento. O modelo estanque está enfraquecendo. A hora é de ‘eu quero ser tudo’. Isso nunca foi tão possível quanto agora.”

São muitas as possibilidades, são muitas as opções de escolha, são caminhos muito abertos, os que temos pela frente. Esta série de reportagens começou fazendo perguntas: Qual o nosso papel no mundo? Como chegamos até onde estamos? Para onde iremos a partir de agora?

Não é fácil responder. Podemos apontar caminhos, ouvir o que temos a dizer – teóricas sobre o assunto e mulheres comuns, que buscam o mesmo que todas nós. Mesmo eu, após ouvir depoimentos de mulheres tão interessantes, filtrar todas as informações e vivências, e tentar resumir duas semanas de entrevistas, conversas e pesquisas, saio desta jornada ainda cheia de questionamentos.

Ouvir mulheres tão brilhantes quanto a antropóloga Mirian, a sexóloga Regina, a psicanalista Malvine, e me ver refletida – do lado certo ou do avesso – nas histórias de dona Wilma, dona Ana, Inês, Renata e C. me fizeram pensar muito sobre minhas próprias escolhas. Compreendi melhor que, no fim das contas, recebi muitas das conquistas do mundo feminino de mão beijada, pela luta da geração anterior. E que agora eu devo honrar todas as mulheres que abriram caminho para que eu pudesse ser quem eu sou. Quem nós somos. Por que, casadas ou solteiras, aos 20, 30 ou 40 anos, donas-de-casa ou mulheres independentes, com filhos ou sem filhos, todas precisamos refletir sobre nosso espaço no mundo – e o que fazer com ele daqui para a frente.

FONTE: Bolsa de Mulher

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