“Família Mosaico” é o Retrato do Século XXI

*Por Rosana Ferreira

Antigamente era fácil visualizar a família: pai, mãe e filhos. A mãe ficava em casa cuidando dos filhos e o pai trabalhava fora para sustentar o lar. Hoje há um novo conceito de família se materializando, e vários fatores explicam essa mudança de rumo. A começar pelo direito de descasar: a cada quatro casamentos, um termina em divórcio no Brasil. Além disso, as “potenciais donas de casa” ganharam espaço no mercado de trabalho e muitas são responsáveis pelo sustento da casa, como indica levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que aponta aumento no número de mulheres consideradas chefes de família. Com a mulher dona do seu próprio nariz, a liberdade para se divorciar e, conseqüentemente, ter outros casamentos, um novo organograma das famílias está em franco crescimento. Agora é comum ouvir o “marido da mãe”, a “mulher do pai”, os “filhos do marido”, os “filhos da mulher do pai”, o “irmão por parte de mãe” e por aí vai. Uma rede de parentes e meio-parentes que lembra um patchwork ou, para citar um termo usado pelos especialistas, família mosaico.

Mas como lidar com os desafios que surgem ao juntar famílias? Pode ser natural para pais e filhos? Os especialistas são unânimes: o sucesso dessas junções vai depender de como a separação foi feita (amigável ou conflituosa) e de como foi colocada a nova configuração familiar. “Não é fácil, mas, hoje, a situação é mais aceita pelos jovens do que há décadas. As crianças convivem muito com isso na escola, por exemplo”, diz a terapeuta de casais e família Magdalena Ramos, professora do Núcleo de Casal e Família da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), onde atua há 30 anos.

Para o psicólogo Miguel Perosa, professor do Departamento de Psicologia da PUC-SP, o importante é dar o tempo necessário para analisar o que deu errado no casamento desfeito antes de formar uma nova família. “Ao se comprometer com outro de imediato, a pessoa tende a repetir o padrão de comportamento e talvez encontre problemas semelhantes no novo relacionamento”, afirma o psicólogo. E tentar esconder dos filhos um novo companheiro é arriscado. “Quando descobrir, a criança pode se sentir traída, o que gera desconfiança e rejeição”, avisa a psicóloga Angélica Capelari, professora de psicologia da Universidade Metodista de São Paulo.

Na TV e na vida real

Essa nova família é vivida no seriado Tudo Novo de Novo, da Rede Globo, que vai ar às sextas-feiras à noite. As profissões de Carla (Júlia Lemmertz) e Miguel (Marco Ricca), arquiteta e engenheiro, respectivamente, não são por acaso. Eles se conhecem numa obra em que trabalham e começam uma história de construções e desconstruções, cujo mote é a busca do re-casamento, mas ambos têm de conciliar o “kit de filhos e ex-companheiros” com o namoro.

Clara é mãe de Carol (Daniela Piepszyk) e Léo (Matheus Gabriel), filhos de casamentos diferentes. Por isso, ela tem de conviver com os seus ex-maridos Fred (Marcelo Spektor) e Paulo (Guilherme Fontes) e com a enteada Bia (Marina Ruy Barbosa). Miguel, recém-separado é muito ligado à filha, a adolescente Júlia (Polliana Aleixo), fato “bem aproveitado” pela ex-mulher Ruth (Arieta Correa), que não larga do seu pé. Com redação final de Lícia Manzo, supervisão de texto de Maria Adelaide Amaral e direção de Denise Saraceni, a série se baseou em situações reais, com as quais muita gente se identifica.

Foi o que aconteceu com a família de Lilia Prandini e Luiz Américo Sodré. Os dois estão no terceiro casamento. Para esse novo relacionamento, ela trouxe um filho adotado no segundo casamento, que mora com eles; ele, dois filhos adultos e dois netos do primeiro casamento e três filhos do segundo, que moram com a mãe. O casal teve uma filha, hoje com 2 anos e meio. “Não tive problemas com os filhos dele. Os do primeiro casamento já são adultos e aceitaram. Os três do segundo casamento, com 11, 12 e 16 anos, também se adaptaram sem conflitos, mas a mãe deles não aceitou bem a nova relação do ex-marido e impõe restrições. Os meninos não visitam o pai desde outubro”, conta.

Para lidar com situações desse tipo, Perosa diz que o novo casal precisa estar muito unido. E é exatamente a relação saudável que ameniza tudo na casa de Lilia e Luiz Américo. “Não discutimos o assunto na frente das crianças, então elas não sentem muito. Temos o equilíbrio que faltou aos outros casamentos”, analisa Lilia.

A situação de Lilia e Luiz Américo vai ao encontro da hipótese levantada por Magdalena Ramos baseada nos seus 30 anos de profissão na área familiar. “O homem aceita melhor os filhos da nova companheira do que a mulher os filhos do novo marido”, diz. Segundo ela, para a mulher os filhos do marido aparecem como “intrusos” na casa e mudam uma situação já pré-estabelecida. (Veja no link depoimento de Lilia Prandini)

_______________________________________________”O que salva é o nosso equilíbrio”, diz bancária

Lilia Prandini, 42 anos, de São Paulo, conta sua experiência nesta nova configuração da família contemporânea. Em seu terceiro casamento com Luiz Américo Sodré, 52 anos – que também se casou três vezes – eles juntaram filhos e netos vindos dos outros relacionamentos e ainda tiveram uma filha.

“Eu entrei no banco em 1990, onde trabalho até hoje. Era noiva e conheci o Luiz Américo, meu atual marido. Ficamos muito amigos, tanto que o convidei para padrinho do meu casamento. Ele estava se separando do primeiro casamento. Fiquei casada durante três anos e também me separei, porque fui “mãe” do meu marido por dez anos (juntando namoro e casamento).

Fiquei cerca de quatro anos sozinha. Conheci meu segundo marido, namoramos por dois anos e ficamos casados durante cinco. Foi uma relação difícil. Nesse tempo não tive filhos. Nesse segundo casamento fiz uma série de exames, porque não conseguia engravidar. No primeiro casamento não tentei engravidar, mas também não evitava. Nesses exames descobri que eu tinha problemas de trompas e seria impossível ter filhos. Isso foi em 2003. Meu segundo marido tinha um filho do primeiro casamento dele. Então adotamos uma criança. Fiquei três anos tentando adotar. Mesmo antes de saber que não poderia ter filhos, já tinha entrado no cadastro de adoção. Quando estava desistindo de tudo (fui até Rondônia buscar uma criança e não deu certo; esperei sete meses uma criança nascer de uma mãe que queria doar o filho e ela nasceu morta), encontrei o Matheus, que é um dos meus filhos hoje. Só que meu casamento era muito complicado. Na época que estava adotando, o casamento já estava muito difícil de conviver e acabamos nos separando.

Eu tinha ficado alguns anos longe do Luiz Américo, que era meu amigo, até porque meu segundo marido era muito ciumento e fui me afastando das pessoas. Mas depois da minha separação acabei reencontrando o Luiz Américo. Ele também tinha acabado de se separar da segunda mulher e tinha dois filhos do primeiro casamento e três do segundo. Ele confessou que era apaixonado por mim há alguns anos e, agora que eu estava sozinha e ele também, poderíamos tentar uma relação juntos. Eu acabei me apaixonando por ele muito rápido e três meses depois estava grávida, não sei como. Como a medicina já tinha diagnosticado que não poderia ter filhos, eu não evitava. Hoje a Mariana tem 2 anos e meio e o Matheus tem 6 anos.

Os dois filhos mais velhos dele já são adultos. A Flavia, 28 anos, é casada e tem filhos gêmeos. O Fábio, 26, é solteiro, morou na Austrália e voltou recentemente. Os três filhos do segundo casamento – Felipe, 16, Caio Guilherme, 12, e Carlos Eduardo, 11 – moram com a mãe no interior de São Paulo.

O Matheus ficou muito bem com o meu terceiro casamento. Ele tinha 3 anos na época, não ficou enciumado; o ciúme apareceu quando a Mariana tinha 1 ou 2 anos, e ele começou a disputar a atenção. Sei que para ele perder o pai não deve ter sido fácil, mas ele é dócil e está se adaptando muito bem.

Eu e o Luiz temos uma relação bastante saudável, não discutimos na frente das crianças. É uma relação de casal, com altos e baixos, mas de equilíbrio dentro da casa, o que faltou aos outros casamentos. Então as crianças não sentem muito. O Mateus diz que tem dois pais, então eles se dão bem. O que salva é isso: a relação boa em casa.”

_______________________________________Especialistas dão dicas de como lidar com a nova família

– Em toda separação é necessário que pai e mãe continuem presentes na vida dos filhos.

– Nunca veja na criança a imagem da ex-mulher ou do ex-marido do seu novo companheiro. Olhe a criança em sua individualidade.

– O mesmo pode acontecer com a criança, que vê no padrasto ou na madrasta a representação da pessoa que “roubou” seu pai ou sua mãe. O novo casal precisa estar muito unido para lidar com essa situação.

– Se as crianças têm de 3 a 6 anos e se a nova configuração familiar foi bem feita – no sentido de não levar de repente um homem para dormir em casa, no caso da mulher, ou o novo companheiro aceitar as crianças e colocar o convívio aos poucos -, elas podem aceitar bem. Ao contrário, se essa relação for imposta ou muito rápida, a situação pode complicar.

– Há também complicações com os filhos adolescentes, porque eles podem se sentir “roubados”. Ou seja, é a hora deles namorarem e, por isso, acham ridículo ver o pai ou mãe namorar. E costumam reagir mal a essa situação.

– Geralmente a rejeição das crianças ao novo(a) companheiro(a) do pai ou da mãe acontece porque foi imposto ou aconteceu de forma prematura. É importante que essa pessoa rejeitada tenha disponibilidade para conquistar a confiança das crianças, para se interessar por elas. As crianças sentem – e rejeitam – quando o novo companheiro não se interessa por elas.

– A amizade com padrasto ou madrasta nunca deve ser imposta. Amizade se conquista com o tempo, como em qualquer relação.

– Os novos companheiros devem ter em mente que não são os pais das crianças. É preciso ter regras na casa, sim, mas também é necessário respeitar o desejo das crianças ou adolescentes, que podem não se sentir à vontade em dividir certos assuntos, como sexualidade.

– As pessoas precisam trabalhar os conflitos e aprender a lidar com essa nova situação familiar, porque acarreta muito sofrimento para todos os lados – os filhos, para os ex, para os novos companheiros. Na medida do possível precisa ser melhorada, mesmo que seja necessária a presença de um profissional.

Fontes: Terapeuta Magdalena Ramos, professora do Núcleo de Casal e Família da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo); psicólogo Miguel Perosa, professor do Departamento de Psicologia da PUC-SP; e psicóloga Angélica Capelari, professora de psicologia da Universidade Metodista de São Paulo

FONTE: Mulher Terra

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