Mitos, Medos e Preconceitos da Adoção

Em seus trabalhos: Mitos e Verdades no Processo de Adoção e Filhos Adotivos e Rendimento Escolar, Lídia Weber consubstancia históricos, resultados de pesquisas e depoimentos para uma discussão reflexiva sobre os mitos, medos e preconceitos ainda tão presentes no processo de adoção no Brasil e no mundo. Especialista dessa temática, pontua, com muita propriedade, o quanto necessitamos pesquisar e estudar sobre o assunto.

Em todos os tempos e em todas as civilizações existiram, e continuam existindo, pessoas que têm um grande desejo de ter filhos e pessoas que não querem, ou não podem, criar seus filhos. Dentre aquelas que têm desejo de ter filhos, uma parte significativa não pode tê-los, e, dentre todas as crianças, existem muitas que ficam sem pais. Portanto, a organização social das mais diferentes culturas encontrou maneiras de estabelecer diferentes tipos de relações familiares que não as biológicas. O objetivo principal seria proteger a criança, embora nem sempre tenha sido desta forma. Existe, porém, um fim mais subjetivo para aqueles que são pais: fazer sua inscrição na história, criar suas raízes e supor uma fuga da finitude. O objetivo de um filho será sempre, de uma certa maneira, a própria sobrevivência.

A adoção é uma realidade biológica e, ao mesmo tempo, uma realidade social, que está marcada pelo sobrenome. O sobrenome é a indicação e o reconhecimento social de que pertencemos a uma família. O nome é dado, mas o sobrenome é transmitido. Da mesma forma, a adoção está inserida numa realidade psicológica e afetiva: a filiação significa pertencer a uma história, a um passado, ligar-se por raízes a uma criança. Para os pais, a adoção significa ter um filho.

Apesar da adoção ser uma prática antiga, a falta de estudos científicos sobre o tema no Brasil fez com que a adoção permanecesse sendo tratada de forma preconceituosa, alimentando fantasias e mitos. Esses estereótipos em relação à adoção advêm da mídia e do boca-a-boca, que generalizam casos mal sucedidos de adoção, e também pela generalização de casos clínicos dramáticos, que colocam a perda inicial dos pais biológicos como irreparável para a criança adotada e determinante de todos os problemas da adoção. Forma-se, desta maneira, uma representação limitada e errônea em relação à adoção e, principalmente, em relação aos filhos adotivos, vistos como crianças problemáticas, revoltadas, ingratas com quem lhes acolheu, incapazes de superar o “trauma” do seu abandono e fadadas a repetir comportamentos, supostamente inadequados, de seus pais biológicos (o medo da hereditariedade desconhecida da criança).

Desta forma, a associação dos mitos, da falta de esclarecimento e a valorização dos “laços de sangue” fazem com que, ainda no Brasil, a “adoção” tenha o significado de um “sintoma”. Esse significado vem tanto das pessoas em geral, quanto dos psicólogos, psiquiatras, professores e também dos pais adotivos. A população brasileira ainda fala “baixinho” sobre adoção. Terrel e Modell (1994) argumentam que muitas pessoas na sociedade ocidental pensam que a adoção é a segunda melhor maneira de constituir uma família, mas devem saber que outras pessoas, em diferentes partes do mundo, podem ver a adoção de diversas maneiras, que não se parecem com o viés ocidental de parentesco. O tratamento da adoção na literatura antropológica mostra que o conceito é tido como não-problemático, no entanto, a doação de crianças pode ser analisada como um dos aspectos de parentesco, uma forma de solidariedade social ou uma resposta a condições demográficas.

No Brasil, o início da investigação sobre adoção é muito recente. Santos (1988) realizou um estudo comparativo entre um grupo de pais e filhos adotivos e outro de pais e filhos biológicos para avaliar aspectos como afetividade e cooperação entre pais e filhos. Não encontrou diferenças significativas entre eles.

Realizei a primeira pesquisa com uma boa amostragem de famílias adotivas (Weber, 1996), verificando que, sob a óptica dos pais e filhos adotivos, as relações entre eles são plenamente satisfatórias. Levando em conta as dificuldades escolares, elas são compatíveis com aquelas que ocorrem em famílias biológicas.

Entretanto, as pesquisas européias e, especialmente, americanas sobre os diversos aspectos da adoção, são numerosas e, boa parte delas, indica que existe um excesso de distúrbios de adaptação em crianças adotivas, se comparadas com a população em geral. Em uma revisão sobre o tema, Hersov (1990) apresenta oito fatores que poderiam explicar essa situação:

1. Fatores biológicos e sociais relacionados com a gravidez e a experiência pré-natal de crianças vindas de lares desfavorecidos;
2. Experiências anteriores à colocação final da criança na família adotiva, incluindo casas de passagem ou famílias de apoio, com novas perdas de figuras de apego;
3. Interferência na formação de vínculos na primeira infância com os posteriores efeitos na personalidade e relacionamentos;
4. Adoção realizada depois de viver a infância em instituições;
5. O estigma social que envolve a adoção;
6. Problemas de identidade na adolescência provenientes da confusão ou desconhecimento de suas origens;
7. Riscos de fatores genéticos que predispõem à psicopatologias; e
8. Dificuldades provenientes do processo de “revelação” podem afetar relação familiar.

Um belo estudo espanhol (Palacios e Sánchez, 1996) realizou uma extensa investigação comparativa com 865 crianças entre 4 e 16 anos de idade, procedentes de quatro grupos: adotadas, companheiras das adotadas, crianças das mesma zonas de origem das adotadas e crianças institucionalizadas. As comparações foram realizadas em três áreas: problemas de comportamento, auto-estima e rendimento acadêmico. Os resultados mostraram uma grande semelhança entre os adotados e seus companheiros atuais, as crianças institucionalizadas obtiveram os piores resultados no conjunto das comparações.

Na verdade, as respostas que temos até o momento não são conclusivas em relação à adaptação geral da criança adotada, embora seja possível tirar algumas breves conclusões:

*Os problemas emocionais e escolares, apresentados por adotados e não adotados, dependem de uma multiplicidade de fatores que interagem em conjunto e, desta forma, é metodologicamente complicado o isolamento de cada uma das variáveis de interesse, como por exemplo: herança genética, cuidados pré-natais, reações à separação da mãe biológica, nível social e econômico dos pais adotivos, cuidados maternais recebidos antes da adoção, número e qualidade dos locais de acolhimento prévios à adoção, idade em que ocorreu a adoção, atitudes dos pais adotivos em relação à infertilidade, preconceitos e estereótipos sociais, cultura e país de origem da criança adotada etc;

*A motivação para a adoção tem tido pouca importância para o sucesso da relação, como mostram estudos realizados no Brasil (Weber, 1996, 1997), indicam ainda que a natureza da adoção (legal ou ilegal) não tem influência sobre a dinâmica familiar e os problemas ocorridos nela e no rendimento escolar acontecem muito mais por causa de uma variável importante, que é a revelação tardia, inadequada ou feita por terceiros da adoção para a criança;

*Os estudos sobre o tema revelam que ainda precisamos de muitas pesquisas para tentar entender as condições de apego em famílias adotivas, mas a simples condição de “adotado” não deve mais ser um sinônimo de “sintoma” ou de “doença”, pois este não é um fator que determina o destino social, pessoal ou acadêmico de um indivíduo; e

*Os pais adotivos mostram-se muito exigentes e pressionados socialmente pela sua função “adotiva” e tendem a encaminhar seus filhos a profissionais especializados com maior freqüência do que pais não adotivos. Pais adotivos, assim como profissionais da saúde mental e da educação, estão, juntamente com o restante da população, sob a influência dos preconceitos que ainda existem na questão da adoção e percebem-na como um fator de risco natural.

Parece que o mais importante é uma dinâmica familiar na qual exista compreensão, capacidade de tolerância e de doação para com o outro e isto independe da família ser adotiva ou não. Em um ambiente escolar deve-se entender a adoção como um outro tipo de parentalidade e filiação, tão importante e com a mesma essência quanto a biológica, e não como um fator de risco. A questão da adoção no Brasil é bastante interessante, pois nós temos uma espécie de “laboratório natural” que mostra o quanto a construção de laços afetivos é poderosa e repleta de variáveis ainda desconhecidas.

Enquanto os técnicos dos Serviços de Adoção do Poder Judiciário no Brasil tentam criar condições perfeitas (encontrar candidatos perfeitos para bebês perfeitos), a maioria das adoções em meu país é classificada como “inadequada” pela maioria dos profissionais da área da psicologia, são adoções singulares: baseadas em mentiras (registrar uma criança como filho biológico); a motivação mais freqüente é egoísta, ou seja, é a satisfação de um desejo de maternidade; a preparação dos adotantes e das crianças é praticamente inexistente; entre outros aspectos desfavoráveis.

No entanto, pesquisas recentes (Weber, 1996, 1997) mostram que as famílias adotivas brasileiras estão bem! Parece que a existência de uma experiência emocional poderosa tem a capacidade de atenuar essas “inadequações” de todo o processo. Vale a pena estudar e pesquisar cada vez mais sobre o tema. Nessa época atual, não podemos mais contar com verdades absolutas e precisamos duvidar de argumentos dogmáticos e transformar as respostas em novas questões!

Fonte: Revista Construir Notícias

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