Quando é o Pai Que Fica em Casa

Conheça a história de Jeremy Smith, um pai norte-americano que “trocou” de papel com a esposa: ela trabalha para garantir o sustento da família e ele mantém a casa em ordem e cuida do filho.

*Por Paula Perim

“No meu mundo ideal, todos os pais terão direito a ficar um ano da vida do seu filho fora do escritório. As mães ficarão o primeiro ano inteiro sem trabalhar. Mas, no final desse ano, será a vez dos pais. Essa transição será marcada por um rito de passagem. Haverá uma festa de despedida no escritório e, na manhã seguinte, o pai acordará em sua nova vida. Como todo início, haverá dificuldades e ele terá de fazer malabarismos para dar conta de todas as tarefas, mas vai aprender. E enquanto os pais aprendem a cuidar das crianças, as mães terão apoio para voltar ao mercado de trabalho.” Para o jornalista Jeremy Smith, essa seria a realidade que ele tanto sonhou viver. Ainda estamos muito longe disso, mas, de acordo com as pesquisas, ele pode ficar bastante otimista. Desde 1965 até 2009, o número de horas que os pais passam com seus filhos triplicou. De 1995 para cá, mais do que dobrou. Em 2007, um censo feito nos Estados Unidos mostrou que 159 mil pais ficavam em casa. Há 12 anos, esse número não passava de 64 mil.

Quando Jeremy e sua esposa Olli, professora, se tornaram pais, decidiram inverter os papéis de uma família tradicional. A experiência virou o livro The Daddy Shift (algo como “A vez do papai”, ainda sem previsão de lançamento no Brasil). Em entrevista exclusiva a CRESCER, ele conta os desafios que teve de enfrentar como pai-que-fica-em-casa, as mudanças na relação com sua mulher e com o filho e demonstra esperança na luta por um novo modelo de família.

C: Quando você decidiu ser um pai-que-fica-em-casa? Foi uma escolha? Meu filho nasceu em 2004. Em 2005, minha carreira chegou em uma encruzilhada e então nós decidimos que seria uma boa ideia minha mulher tentar voltar a trabalhar e eu aprender a cuidar dele. Foi uma escolha e era algo que eu queria. Ela ficou muito dividida, mas acho que ela sabia que seria bom se meu filho e eu fôssemos capazes de criar um vínculo do nosso jeito.

C: Você foi criticado pelos amigos ou pela família? Pelos amigos, nunca. Pela família, um pouco. Um parente mais velho enviou um e-mail para mim, para meus pais e sogros, surpreso com a minha irresponsabilidade (!) de não estar trabalhando todos os dias para sustentar minha mulher para que ela pudesse ficar com nosso filho.

C: No começo, o que mais o surpreendeu e quais foram as principais dificuldades com o bebê em casa? A pergunta clássica que os pais-que-ficam-em-casa recebem é: “O que você faz o dia todo?” E a resposta a isso é que você fica prestando atenção, improvisando e mantendo a criança ocupada. É realmente cansativo. Nos primeiros anos da vida do meu filho – como acontece com a maioria dos pais – fui um espectador. Foi minha mulher quem deu à luz, quem lidou com a amamentação, quem era a principal responsável por todos os cuidados. Quando me tornei o protagonista da história, foi um choque perceber o tamanho dessa responsabilidade.

C: Você acredita que as mães podem se sentir culpadas por não ficar com seus filhos e os pais por não estarem trabalhando o dia todo? O fantasma da família tradicional ainda persiste mesmo na maioria das famílias não-tradicionais. Ainda é aquela velha discussão de como a maternidade mudou para incluir a carreira, mas ainda está baseada principalmente nos cuidados com a criança. E como a paternidade mudou para incluir a atenção às crianças, mas ainda está baseada no sustento da família. Não há um consenso sobre o que um bom pai faz. Quando mães e pais não estão seguros sobre seus papéis, eles sempre se sentem como se não estivessem fazendo alguma coisa que deveriam fazer.

C: Nos Estados Unidos, essa decisão é uma escolha ou acontece quando os pais perdem seu emprego ou as mães ganham mais? A crise econômica atual tem alguma relação com isso? A principal razão que faz com que os pais fiquem em casa é quando as mulheres ganham mais ou têm uma perspectiva de carreira melhor – o que acontece com um terço das mães norte-americanas hoje. O aumento da instabilidade no mercado de trabalho também contribuiu para o aumento dos pais-que-ficam-em-casa. Não existe mais aquela coisa dos homens terem um emprego vitalício nos Estados Unidos. É por isso que eu acho que as famílias tradicionais invertidas são uma adaptação evolucionária, uma maneira de sobreviver ao instável século 21.

C: É diferente a maneira como os pais tomam conta das crianças? Homens tendem a encorajar a independência, assumir riscos e fazer brincadeiras mais físicas. As mulheres tendem a encorajar as emoções e as expressões faciais, além de facilitar o desenvolvimento da linguagem e os comportamentos cooperativos. Pode parecer estereotipado, e há realmente muitas exceções à regra, mas os cientistas têm estudado essas coisas há décadas e os padrões são bem claros. O truque está em apreciar o que os pais podem trazer para a roda e o que seu cuidado proporciona às crianças, em vez de julgá-los por um ponto de vista da mãe.

C: Há pesquisas que mostram que ter um pai como o principal cuidador resulta em uma criança diferente? Sim, há um estudo da Universidade de Yale, aqui nos Estados Unidos, feito pelo psiquiatra Kyle Pruett, que diz que as crianças criadas por homens são menos ansiosas sobre sua identidade sexual quando se aproximam da adolescência. As crianças se sentem mais confortáveis com elas mesmas como indivíduos, não apenas preocupadas em agir como mocinhas ou machões.

C: Como os pais lidam com problemas diários? Os pais tendem a sofrer mais em silêncio. Eles são mais isolados e não dividem seus sentimentos. Isso pode ser ruim para a saúde deles – há dois estudos que mostram que os pais-que-ficam-em-casa são mais propícios a ter hipertensão. Por isso esses pais precisam sair no mundo para construir uma comunidade ao redor deles.

C: E a relação do casal? O que muda? No início, existe um desconforto, mas descobri, com minha própria experiência, que ele pode ser superado. Os casais mais felizes que entrevistei foram aqueles que conseguiam aproveitar o tempo com as crianças e eram capazes de articular o que eles ganhavam por meio de um acordo não tradicional. Eles valorizavam o trabalho e o cuidado com os filhos igualmente, e agradeciam um ao outro pelas contribuições que cada um trazia para a família. Esses casais também tinham senso de equipe: os pais se juntavam a grupos e os casais formavam amizades na vizinhança. Encontrar outros pais com acordos parecidos ajuda os casais a se tornarem mais confiantes.

C: Você acha que, com mais pais em casa, as mães que fazem o mesmo terão mais respeito da sociedade? Sim, com certeza. Cuidar do meu filho ampliou minha vida e me deu uma nova força. Me ajudou a apreciar a coragem de outras mães e o que elas contribuem para nossa sociedade – e isso é o que ouço de muitos pais-que-ficam-em-casa.

C: As mães sentem ciúmes em relação ao tempo que os pais ficam com as crianças? Sua mulher sentiu? Sim, sentiu um pouco de ciúmes. Mas acho que ela colocou na balança e percebeu o quanto nós ganhamos como família. Eu sei cuidar de meu filho, ela tem muito mais liberdade e, por fim, eu e meu filho temos uma relação muito mais próxima. Formar uma família requer compromisso e negociação constante e isso significa que cada um precisa abdicar de algo que gosta.

___________________________________________________3 Mitos Sobre Os Pais Que ficam Em Casa

*Por Bruna Menegueço

Muita gente acredita que pais não são preparados para cuidar de crianças. Veja por que isso pode não ser verdade

Mito 1 – Pais não são biologicamente preparados para cuidar de crianças
Sim, existem pessoas, sejam homens ou mulheres, que não têm nenhuma habilidade para cuidar de um bebê. Mas isso pode mudar por dois motivos. Em primeiro lugar, os indivíduos são diferentes uns dos outros. Em segundo, o homem pode aprender a cuidar do próprio filho, coisa que só acontece durante a convivência diária entre eles.

Mito 2 – Crianças criadas por homens têm mais problemas de saúde e desenvolvimento
Muitos estudos mostram os benefícios vividos por crianças cuidadas por homens. Um deles diz que o envolvimento dos pais facilita o aprendizado da criança durante a fase escolar e, inclusive, melhora a capacidade de se relacionar na adolescência. Outra pesquisa revela que existem poucas diferenças no desenvolvimento das crianças que são cuidadas apenas por mães solteiras ou por pais solteiros, por exemplo. Estar no mesmo páreo que as mulheres já é mais uma conquista desse pai-que-fica-em-casa.

Mito 3 – A razão para um pai ficar em casa é apenas uma escolha financeira
Normalmente, a decisão da troca de papéis acontece, sim, por questões financeiras, mas vão muito além. Com a oportunidade de cuidar do seu filho em casa, os homens se envolvem com os prazeres e dificuldades do dia a dia de uma criança e se sentem culpados, assim como as mulheres, quando têm que quebrar esse vínculo. Há ainda um estudo feito pela psiquiatra Jane Waldfogel, e publicado no livro What Children Need (“Do que as crianças precisam”, ainda sem tradução no Brasil), analisando que crianças que contam com a companhia de um dos pais no dia a dia têm mais facilidade no desenvolvimento racional e emocional. Vale a pena, não?

FONTE: Revista Crescer

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: