Como Funciona a Fofoca

Fofoca” por Nikolaos Gyzis (1842-1901)

*Por Tracy V. Wilson

Introdução

Mesmo que você nunca tenha tido aulas sobre a história da Rússia do século XVIII, é provável que já tenha ouvido a história de Catarina, a Grande. Segundo dizem, Catarina II, imperatriz da Rússia, morreu em circunstâncias questionáveis envolvendo um cavalo. No entanto, se você perguntar a alguém que se interessa por história vai descobrir que essa não é verdadeira. Na verdade, Catarina II morreu de derrame e não havia nenhum cavalo presente. A história da imperatriz russa e o cavalo não é uma invenção recente – ela começou como fofoca há mais de 200 anos. Não se trata apenas de uma história picante, é um bom exemplo da natureza da fofoca. É quase impossível descobrir quem foi o primeiro a contar a história.

Historiadores acreditam que nobres franceses inventaram isso com o objetivo de destruir a reputação de Catarina. Tudo começou com uma tentativa maldosa de caluniar alguém e, possivelmente, dar reconhecimento social à pessoa que inventou a história. Quando as pessoas repetem esse história hoje, acreditam que seja verdade, apesar de sua inerente estranheza. A história é persistente e amplamente difundida circulando já há centenas de anos. E, mesmo com muitos historiadores negando, as pessoas a continuam espalhando. É o tipo de boato que a maior parte das pessoas não consegue deixar de espalhar, mesmo tendo decidido fofocar menos.

Mesmo que alguns detalhes possam ter mudado, a base da história é a mesma de 200 anos atrás. Assim, podemos dizer que a fofoca de verdade é diferente daquela brincadeira do “telefone sem fio”, que geralmente é usada para ensinar às crianças sobre as conseqüências da fofoca. No entanto, ao contrário da história de Catarina II, nem todas as fofocas são maldosas ou falsas. Assim como os palavrões, outro uso da língua que muitas pessoas procuram evitar, a fofoca desempenha diversas funções dentro de grupos sociais, podendo algumas ser, de fato, úteis.

Sociólogos, lingüistas, psicólogos e historiadores pesquisam sobre a fofoca e como ela funciona na sociedade. De qualquer modo, é um fenômeno complicado de se estudar. Como normalmente as pessoas fofocam espontaneamente e em particular, é quase impossível estudar a fofoca em ambiente laboratorial. Assim, muitos pesquisadores estudam a fofoca escutando a conversa dos fofoqueiros.

Além disso, quando os pesquisadores estudam a fofoca, nem todos usam a mesma definição. A maior parte começa com uma idéia básica: a fofoca é uma conversa entre duas pessoas cujo tema é uma terceira pessoa que não está presente. Alguns pesquisadores acrescentam outras condições, como:

  • é uma conversa que acontece reservadamente;
  • as pessoas que estão conversando transmitem informações sobre as quais não têm certeza como se fossem fatos;
  • as pessoas que estão fofocando e a pessoa que é o alvo da fofoca se conhecem na vida real. Segundo essa definição, a fofoca sobre celebridades não é bem uma fofoca, a não ser que o contador e o ouvinte sejam amigos da celebridade em questão;
  • algo na linguagem corporal ou no tom de voz do contador sugere um julgamento moral sobre as informações que estão sendo passadas. Por exemplo, a frase “Clara tem um cachorrinho” parece ser neutra. Mas se Clara mora em uma república de estudantes que não permite animais e a entonação da pessoa que está falando é de quem está escandalizada, a frase passa a ser fofoca;
  • de certa forma, os fofoqueiros se comparam à pessoa que é alvo da fofoca, considerando-se superiores a ela.

Para este artigo, usaremos uma definição básica: quando duas pessoas falam sobre uma terceira que está ausente e a conversa inclui murmúrios, julgamento ou tom de segredo, isso será considerado fofoca. A seguir, veremos um pouco sobre como a fofoca rege os grupos sociais.

Fofoca x boatos

Tanto os boatos como a fofoca possuem conotação desagradável, mas os pesquisadores discordam quanto a serem a mesma coisa. Vamos ver um resumo dos diferentes pontos de vista sobre a fofoca e os boatos:

  • são a mesma coisa;
  • os boatos são um tipo específico de fofoca;
  • a fofoca se baseia em fatos, ao passo que os boatos se baseiam em hipóteses;
  • a fofoca é uma ferramenta para manter a ordem social, já os boatos são uma ferramenta para explicar coisas que as pessoas não entendem;
  • a fofoca tem a ver com algo que as pessoas pensam que aconteceu, mas os boatos expressam o que as pessoas esperam ou temem que aconteça.

A má reputação da fofoca

O fofoqueiro não tem boa reputação e quase todas as principais religiões do mundo alertam contra a fofoca e o ato de espalhar boatos. Por exemplo, o livro de Levítico, encontrado na Bíblia cristã e na Torá judaica, afirma: “Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo” [ref – em inglês]. A fofoca também é contrária ao conceito de palavra correta, que faz parte do caminho óctuplo (em inglês) para o esclarecimento, que é a base do Budismo. Muitos textos islâmicos proíbem tanto contar como escutar fofocas.

Em geral, o mundo laico também condena a fofoca. Os pais, os livros de auto-ajuda e os conselheiros ensinam que as pessoas devem evitar a fofoca. Livros sobre gerenciamento empresarial apresentam a fofoca como uma ameaça à saúde e à estabilidade de uma organização porque ela diminui a moral e desperdiça o tempo dos funcionários.

Fofoca no trabalho

Algumas empresas permitem comunicadores instantâneos – instant messaging – no ambiente de trabalho (como o MSN Messenger e o ICQ, por exemplo). Essa é uma ferramenta de comunicação muito eficaz quando o funcionário sabe utilizá-la de maneira consciente, separando a hora do trabalho da hora de conversar com amigos. Infelizmente, por muitos, acaba sendo utilizada como um facilitador de fofocas.

Pesquisadores aconselham que as empresas utilizem de algum tipo de controle sobre essa ferramenta para evitar o uso abusivo no horário de trabalho, vírus em seus computadores e o vazamento de informações confidenciais da empresa. Além disso, a fofoca no ambiente de trabalho pode causar danos e aborrecimentos à pessoas que são alvos dos comentários.

Nos Estados Unidos, a organização sem fins lucrativos Words Can Heal (em inglês) alerta que a fofoca é perigosa e prejudicial e oferece ajuda sobre como parar de fofocar. Mas a maior parte das pessoas fofoca mesmo – e apesar da má fama da fofoca, nem sempre se trata de espalhar mentiras ou difamar. Pesquisas indicam que os adultos – independentemente de serem homens ou mulheres – gastam entre um quinto e dois terços do tempo de que dispõem para conversar fofocando, mas que somente 5% desse tempo é gasto com fofocas negativas.

Tratado geral sobre a fofoca

O conhecido psiquiatra José Angelo Gaiarsa, dono de opiniões polêmicas e que durante alguns anos trabalhou em um programa de variedades em uma conhecida rede de televisão, em seu livro “Tratado Geral Sobre a Fofoca” fala a respeito da fofoca de maneira séria e bastante sugestiva.

Gaiarsa afirma que somente 20% das informações trocadas entre as pessoas são realmente úteis e que a fofoca está diretamente ligada a insatisfação que as pessoas sentem com relação às suas vidas. Ele argumenta também que nós estamos sempre envolvidos em fofoca, seja como vítimas, seja como agentes. Veja um trecho (extraído do capítulo 3 – “Uma Hipótese Chamada Fofoca”):

“Todos nós nós sentimos VÍTIMAS da fofoca – quando ela chega a nós. Mas ninguém se sente AGENTE da fofoca. Estranho, não? É que fofoca MESMO só “ELE” faz…
– Eu?
– NUNCA!!!”

Nesse livro tão contundente, ele também dá algumas dicas bem humoradas de como se proteger das fofocas.

De modo geral, os pesquisadores começaram a se interessar pela fofoca há pouco tempo. A fofoca é tão corriqueira que algumas pessoas fofocam sem se dar conta. Isso fez com que alguns pesquisadores a considerassem algo a ser ignorado em vez de estudado. Em outras palavras, lingüistas e cientistas sociais viam a fofoca como um bate-papo despropositado.

No entanto, quando os cientistas estudaram a fofoca, criaram teorias e conclusões bem interessantes. Alguns pesquisadores acreditam que a fofoca começou como uma forma pela qual os primeiros humanos conheciam seus vizinhos para determinar em quem podiam confiar, o que a tornava uma ferramenta necessária para a sobrevivência. Robin Dunbar, autor de “Grooming, Gossip and the Evolution of Language”, apresenta uma teoria segundo a qual a fofoca nas sociedades humanas tem o mesmo papel que o coçar nas sociedades primatas, porém com mais eficiência. Dunbar foi mais longe e afirmou que a linguagem evoluiu para que as pessoas pudessem fofocar e, assim, estabelecer e defender seus grupos sociais de forma mais eficaz.

A idéia de Dunbar pode parecer um pouco forçada, mas pesquisadores relatam que a fofoca tem muito em comum com o coçar, além do estereótipo de mulheres fofocando em um salão de beleza:

  • fofocar é gostoso. Muita gente fofoca só para se distrair ou para desabafar;
  • quando você fofoca com alguém, você e a pessoa com quem você está falando estão demonstrando confiança mútua. As pessoas que você escolhe para fofocar são pessoas que você acredita que não irão usar o que você está contando contra você;
  • a fofoca reforça os laços sociais. As pessoas com quem você fofoca passam a fazer parte de um grupo – os demais estão fora desse grupo.

A fofoca pode desempenhar papéis diferentes nas interações sociais. Ao fofocar, as pessoas:

  • se distraem
  • influenciam a opinião umas das outras
  • trocam informações importantes
  • apontam e reforçam regras sociais
  • aprendem com os erros dos outros

Na maior parte das vezes, as pessoas podem assimilar as mesmas informações sobre regras e padrões sociais pela observação. No entanto, observar o comportamento das pessoas leva mais tempo e exige mais esforço que a fofoca. Em outras palavras, a fofoca pode ajudar as pessoas a aprenderem como se comportar e como entender o funcionamento social de forma mais rápida e eficiente que a observação direta.

Contudo, isso não significa que todas as fofocas sejam boas. Muita gente faz fofocas maldosas pelo simples desejo de prejudicar os outros ou por um inexplicável prazer. Às vezes, o fazem por gostar do sentimento de superioridade, presunção, vingança ou de schadenfreude – palavra de origem alemã que significa satisfação obtida com a desgraça alheia. Tem gente que espalha fofocas negativas para aumentar seu próprio status social à custa dos outros.

Por tudo isso, é difícil apoiar a fofoca como uma ferramenta social necessária ou depreciá-la como um mal social desnecessário. A seguir, analisaremos essas questões complexas, usando alguns exemplos específicos.

Fofocas em suas diversas modalidades

A fofoca é um poço de contradições. As pessoas fofocam mesmo acreditando que não deveriam fazê-lo. A fofoca pode proteger a reputação de uma pessoa e ao mesmo tempo destruir a de outra, podendo ainda estabelecer um laço entre duas pessoas que estão traindo a confiança de uma terceira. Quem fofoca demais pode ficar com fama de não ser digno de confiança ou de falar demais. Mas quem não fofoca pode ser considerado distante, fechado ou esnobe. Esses exemplos exploram os diferentes lados da fofoca e suas implicações morais.

Maldade proposital

Mário, Emília e Jonas estão no primário. Mário diz a Emília que Jonas foi reprovado em uma prova. Com essa fofoca, Mário estabelece que é mais inteligente que Jonas, implicando que Emília também seja. Emília e Mário se posicionam como melhores que Jonas, o que pode elevar sua distinção social em relação a este último e ao resto da classe.

Essa fofoca provavelmente fará com que os colegas de classe caçoem de Jonas, deixando-o magoado. Além disso, Mário e Emília terão de continuar fofocando sobre seus colegas de classe para manter sua posição de maior popularidade dentro do grupo social. Isso é muito comum quando o assunto é fofoca – pessoas se comparam favoravelmente a outras, o que eleva seu próprio status dentro de um círculo social e rebaixa o de outra pessoa. A fofoca falsa ou difamatória geralmente funciona dessa mesma forma.

Nós contra eles

Mírian faz parte de um coral e, depois de ser escolhida como uma das líderes do grupo, começa a relaxar: falta aos ensaios, chega atrasada e vai embora mais cedo. Dois outros membros do grupo, Vera e Davi, geralmente chegam cedo e ficam até mais tarde para ajudar os colegas. Também se candidataram para organizar e guardar todas as partituras do grupo. Um dia, entra no coral um novo membro chamado Michel. Depois do ensaio, Vera e Davi levam Michel para jantar e contar sobre os hábitos de Mírian.

Essa conversa permite às três pessoas envolvidas criarem um laço – em geral, pessoas que se unem contra um problema ou inimigo comum ficam mais próximas. De fato, o grupo como um todo pode ficar mais forte e compensar a ausência de Mírian. Esse é outro uso comum da fofoca – um estudo mostrou que a quantidade de fofoca em um ambiente grupal chega a seu máximo quando a equipe considera um de seus membros ineficiente ou incapaz.

Essa fofoca também serve para que Michel saiba o que Vera e Davi esperam dele. Ele já fica sabendo antes sobre os problemas que pode enfrentar com Míriam. No entanto, alguns diriam que Vera e Davi estão apenas falando mal de uma colega e não tomando medidas para tentar resolver o problema.

Assuntos delicados

Roberto foi demitido repentinamente. Seus companheiros de trabalho começam a se preocupar com os próprios empregos, já que Roberto era querido por todos e eficiente e foi mandado embora sem motivo aparente. A preocupação começou a tomar conta de todos à medida que cada um achava que poderia ser o próximo. Logo, o pessoal descobriu por vias secretas que Roberto estava roubando dinheiro da campanha de fundos para caridade da empresa da qual era coordenador.

Os colegas de Roberto precisavam dessa informação para se sentirem seguros no trabalho, mas não seria apropriado para a empresa divulgá-la. Nesse tipo de situação, as fontes de informação oficiais da empresa não podem responder às perguntas de seus funcionários, que então recorrem a fontes não-oficiais. Por isso, a fofoca é corriqueira em empresas em que não há uma boa comunicação com os funcionários.

A divulgação dessas informações poderia ser considerada uma violação da privacidade de Roberto ou um tipo de agressão a ele. Além disso, pode-se dizer que a confiança das pessoas em Roberto é mais importante que a certeza de segurança dessas pessoas em relação ao trabalho.

Esse exemplo também demonstra uma característica comum de muitas fofocas. Muita gente provavelmente reagiria à notícia dos roubos de Roberto com descrença. Entretanto, todos acreditam que a fonte da informação está dizendo a verdade – então a descrença desaparece. Embora a idéia de que alguém respeitável e responsável como Roberto pudesse ser um ladrão pareça absurda, as pessoas passarão essa idéia adiante se acreditarem que ela é verdadeira.

Ajudando uns aos outros

Amanda mora em um apartamento. Uma noite, alguém entra no apartamento de cima. Amanda sabe que seus vizinhos de cima eram traficantes de drogas e que haviam sido presos recentemente. O proprietário do prédio os expulsou, mas eles deixaram a maior parte de suas coisas no apartamento. A polícia supõe que o ladrão comprou drogas dos vizinhos e invadiu o apartamento procurando drogas ou dinheiro.

Amanda está surpresa, pois pensava estar em um bairro seguro. O proprietário limpa o apartamento de cima e o aluga para uma família que tem uma filha jovem. Preocupada com a segurança dessas pessoas, Amanda conta aos novos vizinhos sobre os antigos moradores e a invasão.

A maioria das pessoas considera a fofoca algo negativo, mas nessa situação Amanda pode se sentir moralmente obrigada a fofocar. Ela está dando a seus vizinhos informações que eles precisam ter para garantir sua integridade física. Ela e os vizinhos também desenvolvem, durante a conversa, um laço de confiança que facilitará que, no futuro, eles confiem uns nos outros e possam se ajudar.

Fofoca na mídia

O jornalista precisa estar sempre atrás de notícias. E com o jornalista ou fotógrafo especializado em fofocas essa correira em busca de notícias é muito semelhante a uma corrida. A fofoca vende revistas, dá audiência aos programas de televisão e rádio. As fofocas e boatos envolvendo famosos sempre chamaram a atenção das pessoas. Normalmente são histórias curtas, com certo tom de malícia e que tem passagem muito rápida pelos meios de comunicação.

Como mostram esses exemplos, a fofoca e os boatos podem conscientizar as pessoas de regras sociais geralmente não faladas e oferecer uma advertência acerca do que pode acontecer se as regras forem desobedecidas. A fofoca também pode assumir vida própria, espalhando-se por lugares bem distantes do círculo social em que se originaram. Muitas vezes, as pessoas acreditam sem questionar nos boatos que ouvem, mesmo com provas de que não são verdadeiros.

FONTE: Como Tudo Funciona 

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Uma resposta to “Como Funciona a Fofoca”

  1. Por que “os” evangélicos são fofoqueiros e intolerantes? | +Cartas e Reflexões Proféticas Says:

    […] de um debate promovido por site sério sobre este tema. Trata-se do Papeando com a Psicologia, que define esse fenômeno como “… poço de contradições. As pessoas fofocam mesmo […]


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