O Mecanismo de Construção de Sentidos do Fenômeno Social “Fofoca”

Fofoca” por Oliver Rhys (datas de nascimento e morte desconhecidas)

*Excertos de Apresentação de Catarina Satiko Tanaka

A fofoca na história

A fofoca foi estudada em vários contextos sociais, em tempos diferentes e com diferentes significados. Na Idade Média, por influência da Bíblia (SCHEIN, 1994) e do Tora (WYLEN, 1993), o “olhar da moral”, dos bons costumes e da religião fundamenta a leitura da fofoca e, como sanção moral aos ofensores, eram impostas punições, tais como humilhação pública, castigos físicos, torturas, incluindo a morte na fogueira (EMLER, 1994). Essas punições também aconteciam nas sociedades tribais da África (STIRLING, 1956). Segundo Schein (1994), os fatores que caracterizavam a Idade Média – a credibilidade da informação oral; o estrito código de comportamento para todas as classes sociais; bem como a imobilidade social (estagnação topográfica); e o fato de a comunidade ser relativamente pequena, – davam à fofoca um grande poder.

Na visão contemporânea, vários estudos atestam que a desaprovação é mais moderada. Os autores como Ben-Ze’ev (1994), Souza, (1994), Bergmann (1993), entre outros, se contrapõem à visão tradicional e identificam certas virtudes na fofoca. Análises antropológicas, psicológicas e sociais permitem alegar, em defesa da fofoca, que ela, em alguns casos, promove amizade e coesão de grupos, ajuda a sustentar normas grupais, e freqüentemente serve para transmitir informações efetivamente importantes.

Em relação à opinião de que a fofoca é tipicamente uma forma feminina de comunicação, ou de que é mais acentuada em mulheres do que em homens, estudos revelam que homens dificilmente perdem para as mulheres quando se trata de fofocar. Spacks (1985), Levin & Arluke (1985 e 1987), Bergmann (1993), Nevo et al (1994), indicam que mulheres e homens despendem quantidade semelhante de tempo em conversação fútil; o que difere são os tópicos de discussão: as mulheres tendem a falar mais sobre outras pessoas, e os homens enfatizam pessoas do universo esportivo, da política e negócios.

Atualmente, as revistas especializadas em fofoca, as colunas dos jornais, tablóides, internet são também grandes provedores dessa alquimia (LEVIN & ARLUKE, 1987). A mídia tem tornado possível um novo tipo de fofoca – a fofoca visual, na forma de fotografias, filmes e programas de televisão ao vivo.

Apesar, porém, do desenvolvimento crescente da mídia, o público continua a buscar informações através do ouvir-dizer. Ao mesmo tempo, a mídia, longe de suprimir o boato e a fofoca, oferece um número cada vez maior de revistas especializadas em expor ao público a vida privada e escândalos da vida política e das celebridades. (ECO, 1998; THOMPSON, 2002). A esse respeito, Umberto Eco (1998) alerta para que “tanto a mídia quanto ao mundo político … olhem mais para o mundo e menos para e espelho” (p.89).

A definição e a natureza da fofoca

São várias as visões a respeito da definição, do conceito e da natureza do fenômeno fofoca. Rosnow e Fine (1976), Elias (1985), Levin e Arluke (1987), Bergmann (1993), Taylor (1994), Thomas (1994), Ayim (1994), Goodman & Ben-Ze’év (1994) apresentam suas conceituações de diferentes formas; no entanto, convergem em características comuns, definindo ao mesmo tempo as condições necessárias para a fofoca: é conversa informal; o cerne do assunto é altamente pessoal (relativo à intimidade); é conduzida dentro de um grupo pequeno de participantes que se conhecem bem uns aos outros, têm confiança mútua; e as pessoas-alvo estão ausentes.

O mecanismo de construção de sentidos da fofoca

O estudo da fofoca como fenômeno sociolingüístico será fundamentado na abordagem teórico-metodológica da produção de sentidos a partir das práticas discursivas. É a produção de sentidos tomada como forma de conhecimento e que se filia mais fortemente à perspectiva construcionista.

Optamos pelo construcionismo porque este convida a um tipo de auto-refexão crítica, que promove a reconstrução contínua nas várias alternativas de entendimento, e tem entre as suas preocupações centrais não os indivíduos mas as redes relacionais.

Embora a literatura referente à abordagem construcionista tenha múltiplos matizes teóricos, daremos especial atenção à teoria que se apóia na premissa de que o ser humano é gerador e usuário da linguagem, simultaneamente gerador de sentido, e que, segundo Spink, M.J. (1999)…

a produção de sentidos se processa no contexto da ação social. Alia-se à tradição hermenêutica de processo criativo mediado pelas expectativas e pressupostos que a pessoa traz para a situação, à tradição interacionista da valorização da presença – real ou imaginária – do outro, e à onipresença da linguagem na perspectiva das práticas discursivas (p.59).

O modelo interativo deve dar conta do fato de que várias fontes de informações são ativadas paralelamente e, integrando-se aos inúmeros microacontecimentos e/ou macroacontecimentos, torna possível produzir microinformações e/ou macroinformações. Conseqüentemente, lidamos com a realidade polissêmica, pela multiplicidade de significados incluídos no contexto da interação social.

*Catarina Satiko Tanaka é Doutora em Psicologia e Professora da Universidade estadual de Maringá.

FONTE: Anais do III Congresso Internacional de Psicologia e IX Semana de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá (2009)

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