Opinião e Fofoca

Fofoca” por Thomas Sully (1783-1872)

Pessoas acreditam em fofoca mesmo quando sabem a verdade, diz estudo

Em jogo que valia dinheiro, informações dadas por terceiros influenciavam comportamento. Apesar de verem dados sobre quem era confiável, jovens davam ouvidos a fofoca.

*Por Reinaldo José Lopes

A fofoca pode ter uma função social das mais importantes. E não estamos nos referindo só ao entretenimento que a prática proporciona aos desocupados. Um experimento conduzido por pesquisadores alemães e austríacos sugere que falar da vida alheia ajuda as pessoas a saber quem é confiável e quem não é dentro de um determinado grupo — tanto que as pessoas podem ter suas opiniões mais influenciadas pelas fofocas do que por fatos que elas próprias presenciaram.

A descoberta está numa pesquisa na última edição da prestigiosa revista americana “PNAS” . A equipe liderada por Ralf D. Sommerfeld, do Instituto Max Planck de Biologia Evolutiva (Alemanha), estudou o impacto de uma forma controlada de fofoca sobre a reputação de 126 universitários, todos cursando o primeiro semestre de biologia, e chegou a conclusões no mínimo curiosas.

Os estudantes de biologia, oriundos de três faculdades na Alemanha e na Áustria, participaram de um jogo de computador que valia dinheiro, divididos em grupos menores. O experimento é uma variação de uma série de outros estudos, cujo propósito é investigar como os comportamentos aparentemente generosos e altruístas aparecem na sociedade humana.

No jogo de computador, todos os participantes começam como anônimos. Cada um deles recebia uma quantia fixa no começo (10 euros, no caso do experimento em questão). A partir daí, os estudantes tinham a opção de apertar duas teclas, “sim” ou “não”. Se apertassem o “sim”, ficavam com 1,25 euro a menos, enquanto um parceiro de jogo recebia 2 euros; se escolhessem o “não”, ficavam com todo o dinheiro recebido originalmente.

Ora, o raciocínio dos que estudam a origem do altruísmo entre humanos é o seguinte: em interações simples, nas quais cada pessoa só lida com cada uma das outras numa única ocasião, ninguém tem muito incentivo para ceder nada ao outro. É claro, se todo mundo cedesse o valor mínimo, todos ficariam no lucro (2 euros menos 1,25 euro = saldo positivo de 0,75 euro), mas como saber que o parceiro é de confiança e que, além de receber o que você está dando, também daria a sua parte em vez de ser fominha e ficar com o valor total somado?

Contudo, se as interações se repetem várias vezes, e as pessoas passam a descobrir quem é generoso e quem é fominha, o altruísmo passa a valer a pena, pois os participantes com fama de generosos tenderão a ser os preferidos. Tecnicamente, esse sistema é conhecido como reciprocidade indireta — ser altruísta passa a valer a pena porque a fama de generoso de alguém lhe traz vantagens.

Fofoca “do bem”

E onde entra a fofoca nessa história? Bem, os pesquisadores germânicos deram um jeito de inseri-la de forma mais educada — por escrito. O que acontece é que, no jogo deles, além dos parceiros interagindo entre si e ganhando ou perdendo dinheiro, havia também um observador, que acompanhava por várias rodadas o comportamento dos parceiros, vendo quem era generoso e quem era fominha.

Esse observador, depois, podia contar para os futuros parceiros dos jogadores qual era o seu estilo de participar da brincadeira. A primeira conclusão tirada das fofocas é que, na maior parte das vezes, ela foi surpreendentemente confiável: valia a pena prestar atenção nela na hora de interagir com os jogadores.

O mais maluco, no entanto, foi quando as pessoas tinham acesso tanto à fofoca quanto aos dados matemáticos do grau de confiabilidade da pessoa que era alvo da fofoca. Nesse caso, se a fofoca era favorável a essa pessoa, o outro jogador tendia a tratá-la melhor, mesmo que os dados brutos mostrassem que ela não era tão confiável assim — e vice-versa.
Os pesquisadores ainda não têm certeza sobre as razões desse efeito curioso, mas é possível que as pessoas tenham uma tendência natural a usar a opinião de outros membros de seu grupo social como forma de calibrar seu próprio comportamento, de forma que a fofoca no jogo “soa” como uma bússola mais fácil de seguir do que os simples dados.

FONTE: G1 Ciência e Saúde

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Poder da fofoca para mudar opiniões surpreende cientistas

Mesmo quando têm a informação correta, pessoas ajustam sua percepção para levar em conta a opinião alheia

*Por Carlos Orsi

Uma pessoa pode ter bons motivos para acreditar que você é honesto, mas ainda assim desistir de lhe dar confiança num momento crítico se ouvir uma única fofoca negativa a seu respeito.

Esse “forte potencial manipulador da fofoca” é a principal conclusão – considerada “surpreendente” pelos estudiosos – de uma pesquisa realizada por biólogos e matemáticos alemães e publicada nesta semana na edição online do periódico Proceedings of the National Academy os Sciences.

Para realizar o estudo, os cientistas recrutaram 126 estudantes e os submeteram a uma maratona de jogos onde, a cada rodada, os participantes eram divididos em duplas e recebiam a opção de “cooperar” ou “desertar”. Com um capital de 10 euros (R$ 25), o jogador que decidisse cooperar perderia 1,25 euro (R$ 3) e faria com que o colega de dupla recebesse 2 euros (R$ 5). Se ambos cooperassem, cada um terminaria a rodada com lucro de 0,75 euro (R$ 2), saldo final correspondente a R$ 27. Se os dois desertassem, ninguém ganharia nem perderia nada. Se um cooperasse e o outro desertasse, o desertor terminaria a rodada com o equivalente a R$ 30, e o cooperador amargaria um saldo final correspondente a R$ 22.

Dadas as regras, desertar parece a decisão mais inteligente, exceto por dois fatores – primeiro, o outro jogador também sabe disso; segundo, o experimento levava em conta a construção de reputações. “A teoria da reciprocidade indireta afirma que você deve levar em conta a reputação das outras pessoas, para dirigir sua ajuda para as pessoas que ajudam”, explica o biólogo Ralf D. Sommerfeld, do Departamento de Ecologia Evolucionária do Instituto Max Planck da Alemanha e principal autor do trabalho. “Em outras palavras: quem dá, recebe”.

Sommerfeld diz que o princípio já havia sido testado em experimentos onde os participantes tinham acesso a informações precisas sobre o comportamento pregresso uns dos outros. Faltava estudar uma variável presente na sociedade, mas até então ausente do laboratório: fofoca. “Em uma situação natural é improvável que possamos observar todas as pessoas com quem interagimos todo o tempo. É particularmente impossível ‘ter estado observando’ pessoas com quem só vamos interagir no futuro”, pondera. “Antropólogos e biólogos evolucionários supunham que essa informação (que não vem da observação) é adquirida por meio da fofoca”.

Segundo o pesquisador, o novo estudo confirma a hipótese de que a fofoca transmite informação, e que essa informação é levada a sério. Só não se esperava que fosse levada tão a sério. Em uma das rodadas do jogo, os participantes receberam relatórios com todas as jogadas anteriores feitas pelos colegas – quantas deserções e quantas cooperações – além de uma fofoca artificial, que podia ser tanto positiva quanto negativa.

A expectativa dos cientistas era de que, tendo o relatório para se basear, os jogadores ignorariam a fofoca na hora de decidir como interagir com o colega. A suposição se mostrou falsa: 44% dos participantes do jogo mudaram de decisão ao tomar conhecimento da fofoca. Desses, 79% (ou 35% do total) decidiram cooperar sob a influência de fofoca positiva ou desertar na presença de fofoca negativa.

“Fofoca tem um forte potencial para manipulação, que pode ser usado por trapaceiros para mudar a reputação de terceiros ou a própria”, diz o estudo. Com o nível de cooperação médio do jogo na ausência de fofoca em 62%, a presença de fofoca positiva elevou a taxa a 75%. Já a de fofoca negativa reduziu-a a 50%. “De acordo com a teoria, não esperaríamos efeito nenhum”, disse Sommerfeld. “Se uma pessoa sabe exatamente o que a outra fez, o que os outros dizem não deveria importar. No entanto, parece que as pessoas adaptam suas percepções pessoais de um certo comportamento à ‘percepção geral’ da população. Ajustamos nossas opiniões de acordo com a opinião dos outros”.

FONTE: Estadão Ciência

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