Amor Animal

A Tentação de Santo Antônio” por John Charles Dollman (1851-1934)

O fenômeno das relações fluidas e descartáveis estimula análises profundas sobre a extimidade humana e pauta pesquisas sobre o vínculo afetivo com o bicho de estimação, com resultados imprevistos.

*Por Andreia Calçada

Será que o afago de um bicho de estimação, um abanar de rabo do cachorro ou um miado do gato podem substituir o afeto oriundo do relacionamento com um ser humano? O animal não discute, pode ser punido sem maiores problemas e provavelmente não vai trocar de dono. Controlá-lo é muito mais fácil e confortável. Mas isso basta?

O artigo aqui proposto foi pautado em pesquisa realizada em diversos países pela Ipsos/Reuters, que aponta que um em cada cinco cidadãos do mundo prefere passar o Dia dos Namorados (comemorado em 12 de junho no Brasil e 14 de fevereiro em outros países) com o animal de estimação em vez do parceiro. A Ipsos é referência mundial em pesquisa de mercado e interpretação de dados. Criada em 1975 na França, presente no Brasil desde 1997, consolidou-se como uma das maiores empresas de pesquisa do mundo.

A pesquisa, realizada globalmente, aponta que um em cada cinco adultos (21%) em 23 países (que representam 75% do PIB mundial), se pudesse optar, passaria o dia com sua mascote, e não com seus companheiros. Mas 79% discordam e preferem passar o dia com seus parceiros ao animal de estimação. No Brasil, o número chega a 18%, ficando atrás da Argentina e da Espanha, por exemplo.

Contrariando o estereótipo, a pesquisa revelou que não é o sexo que determina essa vontade, mas sim a idade. Os mais velhos estão menos propensos a trocar o parceiro pelo animal de estimação.

A pesquisa realizada com mais de 24 mil adultos – mais de mil por país – mostra que os entrevistados da Turquia (49%) são os mais propensos a passar o tempo com um animal de estimação e não com o parceiro, seguidos pelos da Índia (41%), do Japão (30%), da China (29%), dos EUA (27%) e da Austrália (25%).

Por outro lado, na lista dos países onde as pessoas estão menos dispostas a passar o dia com um animal de estimação e não com os seus parceiros, aparece em primeiro lugar a França (10%), seguida por México (11%), Holanda (12%) e Hungria (12%).

A pesquisa ainda revela que os que estão menos propensos a passar o Dia dos Namorados com os animais de estimação deixando de lado os parceiros são homens (79%) e mulheres (70%), com mais de 50 anos (86%), seguidos por aqueles que têm entre 35 e 54 anos (82%) e dos que estão abaixo de 35 (75%), de classe média (80%) e alta (80%), seguidos pela classe baixa (76%).

Apesar do número de pessoas que prefere, claro, passar o Dia dos Namorados com o companheiro ser maioria, o que nos chama a atenção nesta pesquisa é a elevada estimativa dos que não hesitam em trocar a companhia do parceiro pelo fiel bicho de estimação.

Grandes benefícios

De acordo com a literatura pertinente, a companhia dos animais pode trazer benefícios para a saúde e para o estado emocional do ser humano. Há comprovação científica na ajuda do controle do estresse, da pressão arterial e de problemas cardiovasculares.

Tem grande importância para os idosos, pois se deixam tocar e acariciar. São indicados em casos de depressão, tornando-se motivação de vida e ocupando vazios existenciais na vida das pessoas. Estudos demonstram que esta relação aumenta a produção de endorfina, o que melhora sentimentos depressivos. Diminui ainda a percepção “da dor” e aumenta o número de células de defesa do organismo

A convivência com bichinhos de estimação ensina as crianças a respeitarem a natureza, além de torná-las mais calmas e carinhosas. Aquelas com problemas psicológicos também se beneficiam deste contato. Pesquisadores já demonstraram que a posse de um animal de estimação durante a infância é uma influência extremamente importante para a construção de uma conduta adulta favorável e para alcançar um ótimo desenvolvimento social.

O dado de maior relevância nesta pesquisa, que se mostra superficial, já que não foram investigados os motivos sobre a preferência animalesca dos entrevistados, é de que tal preferência estaria mais vinculada à idade e não ao sexo. Estas respostas foram associadas a pessoas mais jovens.

Inevitavelmente, vinculamos a possibilidade da ocorrência de tal resultado a questões culturais e sociais do mundo contemporâneo. Os mais jovens nascem em uma época de consumismo exacerbado, da internet, das informações fugazes e extremamente rápidas que se modificam a todo o momento. Diferentemente do que os mais velhos viviam há poucas décadas, os jovens vivenciam as relações mediadas pelas redes sociais que facilitam a interação por um lado e dificultam por outro. A facilidade hoje é viver o que se chama de extimidade, contrariamente ao que chamaríamos de intimidade. Os segredos, acontecimentos e sentimentos são vividos em exposição pública, divididos nas redes sociais para quem quiser olhar. É a intimidade para que todos olhem.

Sem troca mútua

Ressalto que não há aqui julgamento de valor, mas sim de vivências inerentes a uma época que traz, sim, a dificuldade de viver a intimidade. É comum hoje ver crianças, adolescentes e adultos jovens brincando ou sentados juntos, porém, individualmente vinculados aos seus games ou celulares, buscando e-mails e acessando suas redes sociais. Sem palavras. Sem a observação do outro. Muitas vezes, sem a observação sobre si mesmo. A vida se modifica, o tempo corre e não dá tempo para troca mútua. E quando estamos juntos, a tecnologia media a relação. Será isto preconceito de alguém em torno dos 40? Será que isso se vincula ao resultado da pesquisa?

Relacionar-se é difícil e dá muito trabalho e, além disso, pode gerar dor e sofrimento. Aliás, muitas vezes é o que acontece. É natural. A dor do término, da rejeição, da traição, mas há também a dor da mudança, do crescimento que pode ser alcançado dentro de um relacionamento. A ameaça do abandono e o medo de envolvimento podem ser um dos principais motivos para se querer passar o Dia dos Namorados apenas com o animal de estimação. Nada contra esse desejo, desde que isso seja uma exceção à regra, e não uma constante e feita de forma consciente. Defender-se do amor gera desamor contínuo e infelicidade.

No casamento contemporâneo, tal encontro é ainda mais dificultado pelo individualismo como padrão social estimulado. O eu é priorizado em detrimento ao nós, o que gera dificuldades no relacionamento. A questão então é como se equacionar para que o “NÓS” seja priorizado sem que o “EU” seja totalmente colocado de lado. Segundo a psicóloga Therezinha Feres Carneiro (1998), a constituição e a manutenção do casamento contemporâneo são muito influenciadas pelos valores do individualismo. Os ideais contemporâneos de relação conjugal enfatizam mais a autonomia e a satisfação de cada cônjuge aos laços de dependência entre eles. Por outro lado, constituir um casal demanda a criação de uma zona comum de interação, de uma identidade conjugal. Ainda segundo ela, o casal contemporâneo é confrontado, o tempo todo, por duas forças paradoxais que denomina de “o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade”. Se, por um lado, os ideais individualistas estimulam a autonomia dos cônjuges, enfatizando que o casal deve sustentar o crescimento e o desenvolvimento de cada um, por outro, surge a necessidade de vivenciar a conjugalidade, a realidade comum do casal, os desejos e projetos conjugais.

Vaidade da exposição

Impossível não remeter, ao falar deste assunto, ao Hedonismo e ao Narcisismo, que minimamente a própria cultura incute e expande. A beleza cultuada ao extremo, a vaidade que em algumas pessoas precisa ser mostrada pelo carro maior e mais caro, roupas e acessórios. A necessidade muitas vezes de mostrar ostentação nas redes sociais, por meio de fotos de viagens e conquistas anunciadas. Até mesmo pela quantidade de amigos que se tem no Facebook. A competitividade e o individualismo exacerbados no capitalismo fazem que as pessoas se entorpeçam pela imagem de poder e ali se perdem suas relações.

O Hedonismo é a doutrina que afirma ser o prazer individual e imediato o supremo bem da vida humana. O Hedonismo moderno procura fundamentar-se numa concepção mais ampla de prazer, entendida como felicidade para o maior número de pessoas. Portanto, o prazer individual se estabelece e prepondera sobre o outro. Se há conflito na relação, esta deve ser colocada de lado.

Os ideais contemporâneos de relação conjugal enfatizam mais a autonomia e a satisfação de cada cônjuge aos laços de dependência entre eles.

O termo narcisismo e o nome Narciso derivam da palavra grega narke, que significa “entorpecido”, de onde também vem a palavra narcótico. Assim, para os gregos, Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade, visto que ele era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se apaixonaram por sua beleza.

O narcisista apresenta dificuldades em estabelecer vínculos reais, baseados em relações de troca, em que a empatia se mostra presente numa postura de respeito e consideração ao outro. Suas relações normalmente são superficiais e de controle, e as principais manobras acontecem por meio do poder de manipulação e persuasão, ou poder de coerção e intimidação. Contrariá-lo pode gerar graves conflitos. Preservar a própria individualidade de quem convive com eles é um grande desafio. Normalmente, seus parceiros são pessoas submissas, com baixa autoestima. O outro existe para satisfazer suas necessidades, mesmo que para isto precise feri-las (em vários sentidos). Em Psicologia e Psiquiatria, o Narcisismo excessivo se configura no que chamamos de Transtorno da Personalidade Narcisista. Talvez aqui, relacionar-se apenas com seu bicho de estimação seja uma boa saída. Os bichos de estimação não reclamam e dificilmente haverá conflitos nesta relação.

Freud acreditava que algum nível de Narcisismo constitui uma parte do desenvolvimento humano. Em Psicanálise, o Narcisismo representa um modo particular de relação com a sexualidade, sendo um conceito crucial para a formação da teoria psicanalítica tal qual conhecemos hoje. Portanto, o Narcisismo não é apenas uma condição patológica, mas também importante na estruturação da personalidade, um protetor do psiquismo. Constitui uma imagem integrada de si mesmo. Vai além do autoerotismo para fornecer a integração de uma figura positiva e diferenciada do outro.

Entre homens e mulheres

Segundo o sociólogo Clairton Lopes, o contexto cultural que garantia a estabilidade das relações amorosas e de casamento hoje mudou drasticamente. As relações afetivas não são mais garantidas por um quadro normativo e a família não é mais o único espaço de relações de convivência entre homens e mulheres. Os relacionamentos ocorrem por escolha das pessoas, não havendo garantia de estabilidade.

Ainda segundo o sociólogo, os elos das relações afetivas e amorosas são cada vez mais frágeis. As relações são rompidas ou mantidas com base em escolhas que devem ser continuamente confirmadas, exigido contínuo investimento para sua manutenção. As relações entre os sexos, principalmente as amorosas, tornaram-se um trabalho que requer investimento de tempo e energia. E transformaram-se, assim, em um novo fator de estresse. Em primeiro lugar, porque a incerteza é emotivamente ameaçadora e, em segundo, porque o investimento afetivo sobrepõe-se e entra em conflito com outras exigências e outros tempos de nossa vida cotidiana.

Segundo Therezinha Feres Carneiro (2008), o atual momento social é descrito como uma era cujas mensagens e fenômenos são confusos, fluidos e imprevisíveis. O sociólogo Zygmunt Bauman (2003) in Carneiro, denomina esta era como “modernidade líquida” e compara o momento atual com o mundo darwiniano, onde o melhor e mais forte sobrevive. Os sentimentos são descartáveis, assim como os relacionamentos, em prol da sensação de segurança. Assim, a sociedade contemporânea enfrenta um paradoxo. A fragilidade do laço e o sentimento de insegurança inspiram um conflitante desejo de tornar o laço intenso e, ao mesmo tempo, deixá-lo desprendido.

Demandas paradoxais

O amor passou a ser temido como a morte, sendo encoberto pelo desejo e a excitação de consumir, de ter tudo rapidamente e de poder descartar quando não houver mais prazer. Como se o desejo estivesse submetido à lei da compulsão, posto que não há tempo para o cultivo e a semeadura do desejo. Homens e mulheres mostramse ansiosos por um relacionamento em que não se sintam descartáveis, porém, apresentam temor com a possibilidade de estarem continuamente vinculados. O compromisso é visto como limitador da liberdade e provoca sentimentos tidos como intoleráveis. Como o casamento não é mais uma relação tida como “natural”, pode ser rompida a qualquer momento.

A conclusão é que a referida pesquisa, que em um primeiro momento se mostra superficial, merece maiores aprofundamentos que possam se articular aos questionamentos aqui realizados.

Querer conviver com animais é importante, porém, o animal não pode ser substituto das relações humanas. Trocas afetivas amorosas são fundamentais para o crescimento pessoal e social e não podem ser substituídas de forma rígida e inflexível pelo convívio com o animal, correndo o risco de se transformar em defesa neurótica contra o medo do abandono. Amar é risco, se doar é risco, ouvir e ser ouvido é sempre bom.

Olhar as relações como aprendizado talvez seja uma boa forma de continuar investindo e fazendo a sua parte. “Que seja eterno enquanto dure”! Mas com qualidade e equilíbrio. Equilíbrio não só com relação à necessidade desmedida de buscar prazer, mas de buscar dar prazer ao outro. Que o mito de Narciso seja metáfora útil para que não definhemos ao beber a própria imagem, isolados e acompanhados apenas do bichano da vez. Olhe a si mesmo, mas olhe também àquele que está ao seu lado, com suas necessidades, defeitos e beleza.

*Andreia Calçada é psicóloga, psicoterapeuta, Ludoterapeut. Autora de diversos livros, entre eles Falsas acusações de abuso sexual – O outro lado da história.

FONTE: Portal Ciência & Vida

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