O Símbolo Animal e os Sonhos

Os Cavalos de Netuno” por Walter Crane (1845-1915)

*Por Cristiane Ennes Fridlund

A riqueza de símbolos animais em todas as manifestações culturais da história da evolução humana seja na religião, lendas, crenças, fantasias, contos de fadas, mitos, sonhos, na alquimia, nas artes e demais produções do imaginário, reflete a importância do símbolo animal na vida humana e o quanto é necessário integrar estes assuntos psíquicos vitais.

A Natureza é uma obra de arte em si mesma, um grande projeto dinâmico, onde os seres habitam e vivem, respeitando certos parâmetros naturais. O homem, no processo de civilização, encontrou outros valores se afastando da natureza. Em consequência, sofre com isso – pois ele é parte da natureza, ao se afastar desta, afasta-se de si próprio.

Jung, no decorrer de sua vida e de seu trabalho, desenvolveu uma escola de pensamento por ele denominada de Psicologia Analítica. Sua obra baseia-se em sua própria experiência com os seres humanos normais, neuróticos e psicóticos. Sua psicologia é uma ciência com base empírica e abrange teoria, pesquisa, reflexão apoiada em textos e pratica clínica psicoterapêutica. Escreveu extensivamente sobre a psique humana, proporcionando-nos uma visão bastante ampla e abrangente a respeito do assunto, servindo de inspiração e ponto de partida para outros autores, que podemos chamar depós-junguianos.

Sonhos Para Jung

• É o resíduo de uma atividade que se exerce durante o sono.
• É um produto involuntário, espontâneo do inconsciente e se expressa por uma linguagem simbólica.
• É a fotografia nua e crua da realidade psíquica de um indivíduo, em determinado momento.
• Todos os sonhos são compensatórios, visam estabelecer o equilíbrio psíquico normal e são auto reguladores de posições unilaterais da consciência ou demasiado antinaturais, estabelecendo uma dialética entre consciente e inconsciente, que caracteriza a dinâmica da vida psíquica.

Para dar sequência à minha pesquisa sobre sonhos dentro do enfoque da psicologia analítica, quero agora introduzir um autor que, ao meu ver, tem um dom especial para escrever e elaborar o seu raciocínio: James Hillman, um expoente da psicologia junguiana, nos traz uma nova abordagem de como pensar a psicologia. Aprofunda e desenvolve alguns conceitos já apresentados por Jung. Denomina sua psicologia de “arquetípica” por lhe parecer o nome mais adequado para refletir a abordagem característica de Jung, abrangendo a teoria, a pratica e a vida em geral. É uma psicologia da imaginação e da interioridade.

Sonhos Para Hillman

• Os sonhos estão relacionados com a morte, com o morrer, com a depressão, com o mundo das trevas, o mundo inferior e seus deuses.
• A tradução terapêutica dos sonhos para o mundo desperto da vida, tira o sonho de seu mundo noturno e de sua natureza.
• Faz o movimento inverso, puxa as questões da vida diurna para o mundo noturno, as vivências de nossa vida diária são cozinhadas em substância psíquica e transformadas em alma.
• Os sonhos como fenômenos que emergem de um “lugar” arquetípico específico e que correspondem a uma geografia mítica distinta, para a reflexão desse mundo inferior em uma teoria psicológica.
• É necessário que o ego tenha uma atitude de ajuste para com o mundo noturno, para poder alcançar o sonho em sua terra natal.
• Abandonar as concepções diurnas, a idéia de compensação e de tradução e se ater às imagens.

Os sonhos revelam o que somos, não o que podemos vir a ser, eles refletem a essência. Nos mostram que somos plurais e que cada uma das formas que lá figuram são “o próprio homem inteiro”, potenciais inteiros de comportamento.

• mundo das trevas é psique
• mundo das trevas se refere a uma perspectiva totalmente psíquica, onde todo o nosso ser foi desubstancializado, destituído de vida natural, e ainda assim é em toda forma, o sentido e o tamanho, a réplica exata da vida natural.
• sonho é uma afirmação das profundezas ctonicas; um estado frio, denso, imutável, onde não se encontra o sentido de moralidade, nem sentimentos humanos, e nem uma noção de tempo.
• Diferença entre alma e emoção.
• Cada manifestação onírica é uma expressão arquetípica, é um deus falando através da imagem.
• A imagem como fator essencial para a compreensão dela mesma no sonho.
• A proposta de Hillman é a reflexão; estou espelhado neles, e eles estão espelhados em mim, não para ser entendido em um sentido compensatório, mas para uma reflexão de onde eu estou, e o que eu estou fazendo.

Podemos sonhar com vários temas, escolhi o motivo onírico do animal: sonhos onde animais aparecem. Sonhar com animais é um fato comum presente na humanidade. Desde os primórdios da existência do homo sapiens, os animais sempre tiveram importante participação na vida do homem fornecendo alimento, vestuário e até proteção ao estabelecer relações íntimas. Animais participam da vida externa e da vida interna da humanidade desde sempre, e uma vez que os animais são parte integrante da natureza, me é natural que a psique utilize imagens de animais para se expressar.

O Motivo “Animal” Para Jung

• A imagem do animal simboliza a natureza primitiva e instintiva do homem.
• Formas animais designam movimentos e experiências psíquicas, que surgem freqüentemente nos sonhos e em outras manifestações do inconsciente.
• Quanto mais primitivo o animal, mais profundo o extrato do inconsciente que ele representa.
• Conteúdos das camadas mais profundas da psique tornam-se mais difíceis de assimilar, pois estão mais afastados da consciência comum.(Ex.: cavalo e cobra)
• A maneira pela qual os animais nos aparecem nos sonhos e desenhos indica a nossa atitude em relação ao inconsciente.
• simbolismo associado a um animal baseia-se em seus atributos naturais; as associações do sonhador com o animal são relevantes.
• Reconhecido e respeitado na vida do indivíduo, o “ser animal”, que é a sua psique instintual, permite desenvolver uma relação com os padrões instintivos intimamente gravados presente nos seres humanos, podendo proporcionar criatividade, refletindo o significado e a sabedoria coletiva.

O Motivo “Animal” Para Hillman

• A imaginação é, ela própria, um grande animal, ou uma arca de imagens, que estão todas vivas e se movem independentemente. Elas vêm e vão. Em todos os formatos e tamanhos.
• Entende o animal isento de projeções, nossa percepção e compreensão sobre eles está conectado nas vivências, conceitos, parâmetros e histórias humanas.
• Estamos sempre interpretando e buscando um significado para atender a nossa necessidade de esclarecimento, e os documentários sobre a vida animal são reflexos destas interpretações.
• Preocupação com a extinção e o paradoxo desta: documentários e reportagens proliferam na TV, na mesma medida que estes animais estão desaparecendo do planeta.
• Animais como eternas imagens arquetípicas, como habitantes da imaginação, podem morrer, mas não ir embora.
• Fascinação com os dinossauros, ou espécies extintas ou lendárias é uma demonstração da autonomia e imprevisibilidade do animal interior, que continua se desenvolvendo na imaginação.
• É pela imagem que os animais se reconhecem, e talvez, nos reconheçam, e nós ao olharmos para eles possamos nos reconhecer.
• Os sonhos podem estar refletindo a forma de comunicação natural entre os seres, a aparência física, a imagem, sua beleza e traços individuais.
• É fundamental que, ao olhar para o animal estamos desenvolvendo a nossa subjetividade.
• Talvez, esta seja a função maior da imagem, nos fazer descobrir a subjetividade.
• Quem somos, aquilo que nos forma e nos organiza sob o jugo de qual fantasia arquetípica.
• Para Hillman os animais acordam a imaginação. Os sonhos com animais podem fazer isso também – despertam as pessoas, provocam os seus sentimentos, as faz pensativas, interessadas e curiosas.
• À medida que penetramos na imaginação, nós nos tornamos mais parecidos com os animais – não bestiais, mas, mais vivos instintivamente e com mais compreensão, um nariz aguçado e um ouvido afiado.
• Os animais do mundo refletem nossos seres interiores – Os contos com animais nos fazem retornar para este ser interior, ajudando-nos, adultos e crianças a nos instruirmos sobre nós mesmos.
• Nos sonhos, nossas almas se encontram com outros seres, como imagens. Os sonhos são passagens abertas através do fundo em comum que todos compartilhamos, possibilitando a intercomunicaçao das almas.
• Se compartilhamos com vários seres o planeta, os elementos, as subestruturas genéticas, compartilhamos também o mesmo campo psíquico.
• Todos temos a mesma origem na natureza, nós humanos não somos os personagens principais no mundo dos sonhos. Estamos, sob este prisma, na mesma condição de igualdade com toda a manifestação animal.

Analisarei mais especificamente a simbologia referente ao cavalo, na intenção de fazer uma apreciação das analogias a ele ligados, e observar as possíveis aplicabilidades deste símbolo no estudo dos sonhos.

Os sonhos para Jung são a expressão natural e espontânea do inconsciente. É a psique falando pelas imagens e o modo como o inconsciente se comunica com a consciência. Jung foi consultado sobre a suspeita de histeria, em uma paciente de 17 anos. Transcrevo aqui o sonho que ela relatou:

“Não faz muito tempo sonhei que estou chegando em casa. É noite. A porta que dá para o salão está entreaberta e vejo a minha mãe enforcada no lustre, seu corpo balançando ao vento gelado que entra pelas janelas abertas. E depois também sonhei que havia um barulho terrível dentro de casa. Vou ver o que é, e vejo um cavalo espantado correndo feito doido pelo apartamento. Por fim ele encontra a porta do corredor e pula pela janela do corredor para a rua. O apartamento fica no 4º andar. Vi, horrorizada, seu corpo estendido lá embaixo, todo espatifado.”(Carl Gustav Jung. C.W. XVI $ 343).

Esta será uma demonstração clássica de como Jung trabalha com os sonhos. Num primeiro momento, ele observa que “mãe” e “cavalo”, devem ser equivalentes, pois neste sonho os dois símbolos se comportam de forma similar; se suicidam. Vejamos as associações que Jung faz:

““Mãe”é um arquétipo que indica origem, natureza, o procriador passivo (logo, matéria, substância) e portanto a natureza material, o ventre (útero) e as funções vegetativas e por conseguinte também o inconsciente, o instinto e o natural, a coisa fisiológica, o corpo no qual habitamos ou somos contidos.

“Mãe”, enquanto vaso, continente oco (e também ventre), que gesta e nutre, exprime igualmente as bases da consciência. Ligado ao estar dentro ou contido, temos o escuro, o noturno, o angustioso (angusto=estreito). Com estes dados, estou reproduzindo uma parte essencial da versão mitológica e histórico-linguística do conceito de mãe, ou do conceito do YIN da filosofia chinesa. Não se trata de um conteúdo adquirido individualmente pela menina de 17 anos, mas de uma herança coletiva. Esta herança permanece viva na linguagem, por um lado, e, por outro, na estrutura da psique. Por esta razão é encontrada em todos os tempos e em todos os povos.”(Carl Gustav Jung C.W. XVI $ 344)

Jung percebe que a “mãe” do sonho, enquanto símbolo “designa algo que no fundo se opõe obstinadamente à formulação conceitual, algo que se poderia definir vagamente e intuitivamente como a vida do corpo, oculta e natural.”(Carl Gustav Jung C.W. XVI $ 345). O inconsciente; “a vida inconsciente se destrói a si mesma”.(Carl Gusrav Jung C.W. XVI $ 346).

“Cavalo”é um arquétipo amplamente presente na mitologia e no folclore. Enquanto animal, representa a psique não humana, o infra-humano, a parte animal e, por conseguinte, a parte psíquica inconsciente; por este motivo encontramos no folclore os cavalos clarividentes e “clariaudientes”, que às vezes até falam. Enquanto animais de carga, a sua relação com o arquétipo da mãe e das mais próximas (as valquírias que carregam o herói morto até Walhalla, o cavalo de Tróia, etc.) Enquanto inferiores ao homem representam o ventre e o mundo instintivo que dele ascende. O cavalo é “dynamis” e veículo, somos por ele levados como por um impulso, mas como os impulsos está sujeito ao pânico, por lhe faltarem as qualidades superiores da consciência. Tem algo a ver com a magia, isto é, com a esfera do irracional, do mágico, principalmente os cavalos pretos (os cavalos da noite), que anunciam a morte.”(Carl Gustav Jung. C.W. XVI $ 347).

“Assim sendo, o “cavalo” é um equivalente de “mãe”, com uma tênue diferença na nuança do significado, sendo o de uma, vida originária e o de outra, a vida puramente animal e corporal. Esta expressão, aplicada ao contexto do sonho, leva à seguinte interpretação: A vida animal se destrói a si mesma.”(Carl Gustav Jung.C.W. XVI $ 348).

O nosso irracional, o inconsciente é a mãe do racional, a consciência. Segundo Jung, o sonho não está falando da morte da sonhadora, ele está indicando uma doença orgânica grave, com desfecho letal. O prognóstico acabou sendo confirmado.

De um modo geral, a figura do cavalo designa a força vital animal do homem, também, muito associada a “mãe”.”Como o cavalo é o animal de montaria e de trabalho do homem e este até mede a energia em ‘forças de cavalo”, o corcel significa uma quantidade de energia à disposição do homem. Ele representa assim a libido que penetrou no mundo”.(Carl Gustav Jung.C.W. V. $ 658)

Stephen Larsen em Imaginação Mítica, pontua que podemos entender o cavaleiro como a psique consciente, e o cavalo como o inconsciente e mesmo o corpo físico. Pelos sonhos podemos observar como vai esta relação; um está cooperando com o outro? Quando aparecemos cavalgando, como é a nossa atitude para com o cavalo, e o cavalo nos obedece ou faz o que bem entende? Com esta imagem de parceria podemos perscrutar como anda o nosso dinamismo psíquico – como anda a conversa entre nossos fundamentos inconscientes e nossa consciência.

A garota de 17 anos, deve ter atingido um ponto em que este aspecto vital representado pelo cavalo no sonho, não teria mais condições de recuperação. Sua conduta neurótica, provavelmente, não conseguiu ou não teve condições de compreender as mensagens provindas do inconsciente, persistindo em um comportamento unilateral, defasando um aspecto de si mesma.

Hillman escreve em “Dreams Animals”, no capítulo “Horses and Heroes”, uma analogia com a psicologia alquímica e o cavalo. No calor da barriga do cavalo se encontra a concentração interna necessária para a formação e transformação da alma.

A proposta alquímica é, ao invés de matar o cavalo e libertar sua força deixando o calor escapar, entremos dentro da barriga do cavalo, penetremos nele, como Jonas na baleia. Olhar o estrume do cavalo, é analisar o que você processou, conscientizar-se do resultado da vida que você vem levando. Segundo Hillman, escremento é a imagem da sua matéria psicológica residual da sua energia cavalo., o cozinhar na fermentação forma um outro tipo de consciência.

O cavalo de Tróia é uma boa ilustração do “entrar na barriga”. O cavalo era oco e em seu interior havia guerreiros gregos armados. Os troianos decidiram trazer o cavalo para dentro de seus muros impenetráveis. Dessa forma, os gregos invadiram Tróia.

Hillman analisa o porquê dos troianos não suspeitarem do cavalo; por falta de imaginação. Faltou para os troianos o que os gregos estavam desenvolvendo. Eles conseguiram literalmente entrar no cavalo, penetraram em seu poder vital e foram extremamente imaginativos. Tomaram Troia imaginarivamente, metaforicamente, pela imaginação conseguiram por um fim à guerra, e o cavalo oco foi a figura imaginada para esta cena, não outro animal.

O cavalo tem um valor histórico como animal de montaria e de carga. Pela reflexão que sua imagem nos traz, o seu símbolo parece estar ligado à atividade imaginativa.

As ideias de Jung muito têm contribuído para o entendimento da alma em suas manifestações. Os sonhos como expressão da psique, comunicando à consciência aspectos outros do si-mesmo, incitam à analise e à busca de compreensão dessas mensagens.

O trabalho de outros estudiosos, como o Hillman, vem acrescentar e despertar novos pontos de vista, ampliando nossa visão particular e pessoal, favorecendo a prática clínica.

O animal em um sonho pode estar personificando conteúdos instintivos; pode estar nos contando como nos relacionamos conosco mesmo; pode estar ensinando alguma coisa que escapa à consciência e só ele tem condições de alcançar e expressar nos sonhos, e pode estar se exibindo, inflando nossa subjetividade com sua beleza e energia.

Uma imagem não surge só de dentro para fora, o fenômeno também acontece de fora para dentro. Quando apreciada a imagem pode evocar a alma, quando manifestada é a alma quem fala. Devemos considerar que um não exclui o outro. O interno e o externo se movimentam sincronicamente, proporcionando um significado da existência.

Nossa consciência não pode captar todo esse movimento, então é tomada por afetos e humores. Mas, a possibilidade de olhar para essas imagens em forma de animais, e entender alguma coisa que escapa à conceituação racional, podendo inclusive fornecer subsídios para lidar com as dificuldades existenciais, já é interessante.

Vistas estas ideias, conclui-se que se a psique fala por imagens, se não há distinção entre natureza e imaginação, se os animais são parte integrante do mundo natural, então, é natural que eles sejam manifestados como expressão da psique. Eles podem ser vistos como a psique imaginando a si própria.

*O presente trabalho é um resumo da monografia apresentada à Coordenação do Curso de Psicologia Analítica, sob a orientação de Renata Cunha Wenth, como exigência parcial para obtenção do título de Especialista, em Setembro de 1998.

FONTE: Symbolon 

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