Entenda por que gostamos de sentir medo

Filmes de terror como Atividade Paranormal aproveitam-se de uma característica pouco conhecida que nós, seres humanos, possuímos: gostamos de sentir medo. Nossa intrépida repórter conversou com especialistas e revelou por que é tão bom levar sustos.

*Por Rita Loiola

Uma casa mal-assombrada, um casal perseguido por fenômenos sobrenaturais e uma câmera para registrar tudo. Junte a isso uma produção mambembe, alguns sustos nos momentos certos e está feito o sucesso Atividade Paranormal. O filme arrecadou US$ 110 milhões nos Estados Unidos e estreou no Brasil entre os três títulos mais vistos da temporada de final de ano (por enquanto perde para as superproduções 2012 e Lua Nova). Em 15 dias, 606 mil brasileiros foram ao cinema movidos pela curiosidade de saber o que acontece enquanto os americanos Katie e Micah, o casal protagonista do filme, dormem. E isso porque foi feito em apenas uma semana e com um orçamento que não dá para comprar nem um carro popular: US$ 15 mil (Bruxa de Blair, por exemplo, custou US$ 100 mil).

Eu estava entre esses 606 mil destemidos brasileiros. Quase duas horas depois do início do filme, com as mãos suando e o coração aos saltos, eu previa uma noite insone pela frente. Mas, coisa incrível, a experiência não era ruim. E por que não? Será que eu e as pessoas naquela sala escura gostamos de sentir medo? O que está por trás do impulso aparentemente ilógico de dar dinheiro em troca de sustos? Para descobrir a resposta, fui atrás de psicólogos, psiquiatras, antropólogos e historiadores especialistas em medo. Investigando as respostas, surgiram algumas pistas para a solução do enigma. Ao que tudo indica, uma das razões é bem simples: as pessoas gostam do medo porque isso é bom. O terror controlado na tela ajuda a entender o mundo e a experimentar sensações que não existem em outro lugar. E a biologia é o primeiro passo para compreender o que se passa com o corpo de alguém exposto a monstros, sangue e atividades paranormais de mentirinha.

Obsessão Macabra

As aulas de ciências ensinam que medo, ansiedade e estresse ajudaram o homem a evitar o perigo e a progredir. Evolutivamente importantes, eles aumentam a eficiência do organismo, deixando-o pronto para a briga. Assim que o cérebro percebe uma ameaça, um sistema chamado circuito do medo entra em ação. Formado por núcleos cerebrais como a amígdala e o hipocampo, ele libera neuro-hormônios e neurotransmissores para defender o organismo. Dopamina, endorfina e adrenalina vão para o sangue, preparando o corpo para a reação. Só que, quando o monstro é de papelão, o cérebro percebe a pegadinha e suspende a produção das substâncias. E a alta da dopamina, que deixa o corpo atento e alerta durante esses momentos, dá sensação de prazer e calma. Como se o corpo ficasse chapado em segundos. “Liberações rápidas de dopamina provocam reações agradáveis e muito prazerosas”, diz Antônio Nardi, coordenador do Laboratório de Pânico e Respiração da UFRJ. “Só quando ela perdura no organismo vêm as reações ruins, como confusão mental e fadiga.”

Assim, dá para entender, por exemplo, por que os filmes de terror não dão sustos o tempo todo. É preciso um intervalo para causar as variações da dopamina e provocar o prazer. Mas só isso não explica o mistério do gosto provocado por quase duas horas de pavor frente à tela do cinema. Uma das hipóteses seria a de que os seres humanos são capazes de sentir emoções misturadas, de tensão e prazer, ao mesmo tempo. Assim, o medo prolongado faria sentido.

Pensando nessa possibilidade, Eduardo Andrade, professor da Universidade da Califórnia, e Joel Cohen, da Universidade da Flórida, resolveram testar seus alunos para ver o que acontece durante a projeção de cenas de terror. “Queríamos descobrir a razão de as pessoas se exporem a coisas que, aparentemente, não dão prazer, como esportes radicais ou cenas violentas”, diz Eduardo. Em uma sala com computadores, eles pediram aos estudantes que marcassem em uma escala o grau das sensações negativas ou positivas que experimentavam durante a projeção de filmes (documentário, terror e comédia). Ao final, a descoberta dos pesquisadores foi que os momentos mais horripilantes eram também os que mais davam prazer. “Pesquisas das duas últimas décadas mostram que somos capazes de ter os chamados ‘mixed feelings’, ou seja, ter emoções positivas e negativas ao mesmo tempo”, afirma Eduardo. “Sem isso fica difícil aceitar que alguém passe por um momento doloroso, como as cenas de terror, buscando prazer ou alívio”, diz. Quer dizer que sentimentos opostos, como amor e ódio, pavor e calma podem aparecer juntos enquanto alguém vê seres deformados perseguindo garotinhas meigas em corredores sem fim.

Jogos Mortais

No entanto, não é todo mundo que sente coisas boas e ruins com essas cenas. Há quem não se divirta com sangue de catchup e gritos de horror. Vídeos assim, afinal de contas, assustam. A explicação para algumas pessoas gostarem tanto — e outras nem um pouco — dos sustos está em um mecanismo mental chamado “distanciamento”. Alguém que se distrai com eles precisa estar em um ponto ideal entre o morrer de medo e o não acreditar em nenhum gritinho. “É preciso uma distância psicológica para que a narrativa de terror não fique real demais e saia do controle”, diz Paulo Dalgalarrondo, coordenador de psicologia médica e psiquiatria da Unicamp. “Alguém que não sente prazer com o terror dos filmes entra demais na história e sente tanto desconforto que bloqueia a diversão de saber que aquilo não é real. Ou, então, não acredita em uma vírgula do que os protagonistas dizem.”

Cultura, sociedade e até educação entram em cena para determinar se alguém vai se divertir ou não com Atividade Paranormal. Algumas reações ao medo podem ser condicionadas e vivenciadas por cada pessoa de maneira diferente. Pais, irmãos, colegas e amigos ensinam como se portar diante de fatos ameaçadores e, pouco a pouco, é possível aprender a não entrar em pânico quando um zumbi raivoso aparece em cena.

“Nossa mente é tão complexa que consegue associar o pavor a algo completamente oposto como o prazer”, afirma Márcio Bernik, diretor do Laboratório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP. “A intensidade do medo gera a parte física, como o suor nas mãos e o coração batendo, mas os sentimentos, pensamentos e emoções associadas a isso são condicionados. Por isso é possível transformar os estímulos de terror em algo positivo.” Assim, os meninos, normalmente, sentem menos medo que as garotas porque esse é o papel esperado dos homens. Mesmo que a sensação física do medo não desapareça e seja semelhante em todo mundo, a resposta emocional pode ser positiva ou negativa, prazerosa ou angustiante. No fim das contas, todos sabem (ou deveriam saber) que o monstro do filme não vai sair da tela e arrancar um pedaço dos espectadores.

É esse terror controlado nos limites da tela e a consciência de que, depois da sessão, o mundo volta aos eixos, o responsável por grande parte da diversão. As duas horas de sustos e gritaria só funcionam como entretenimento porque não passam de fantasia. Ali, a angústia tem hora certa para começar, acabar e transformar-se em prazer. “O apelo dos filmes de terror é grande porque o ser humano busca, por instinto, emoções fortes e primitivas, e o medo é a primeira delas”, diz Armando Rezende Neto, psicólogo da Unifesp. “Esportes radicais e filmes de terror são uma maneira de experimentar fisicamente essas sensações sabendo que as consequências estão sob controle.” Ou seja, o ser humano não gosta do medo pelo medo. Ele gosta das sensações de medo controlado, preso nas fronteiras do irreal e com um fim bem preciso. Assim, ele supre essa necessidade de adrenalina sem que o fim seja trágico. “Isso só é bom porque é uma emoção forte que depois acaba. A realidade, depois do terror, é sempre um final feliz”, diz o psicólogo.

O Exorcista

Emoções fortes, prazer, alívio. Também sentimos isso ao sair de férias, quando recebemos um aumento de salário ou uma boa notícia inesperada. Por que, então, escolher o terror e seu lado angustiante? Será que não vale mais a pena ficar só com o prazer e dispensar o lado negativo? A explicação está no papel cultural, psicológico e social do terror, um componente crucial na vida humana. E isso vem de longe, desde o começo da civilização ocidental. Quando o filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) resolveu definir o efeito esperado da tragédia, ele disse que ela devia provocar no público a catarse, por meio da piedade e do… adivinha? Terror. Só assim os espectadores conseguiriam purgar seus conflitos e se arrepender de seus pecados. As cenas terríveis de Édipo arrancando os olhos ou matando o pai tinham, na Grécia Antiga, a função de fazer a audiência depurar seus próprios sentimentos.

A definição faz sentido para o mundo de hoje quando lembramos que a arte é o espaço ideal para viver experiências que não seriam possíveis ou permitidas no mundo real. O principal dispositivo da arte é o pacto de que, durante certo tempo e em um ambiente definido, existe um faz de conta. “Coisas assustadoras ou censuradas são admitidas nesse lugar por meio da licença poética”, diz Mário Costa Pereira, professor de psicopatologia clínica da Unicamp e da Université de Provence, na França. “Há coisas da vida em sociedade que precisam ser abafadas para que ela funcione, como desejos homicidas, mesquinhos, medos e preconceitos. E a arte é onde o homem dá vazão a essas coisas muito profundas, onde ele demonstra esses sentimentos.”

Filmes de monstros e fantasmas, então, são os melhores lugares para deixar vir à tona o lado obscuro do ser humano. Não é à toa que inseguranças, dúvidas, sentimentos de solidão e abandono, pavor e sexualidade são os temas por excelência das histórias de terror. E o sucesso milionário das histórias vem do reconhecimento de algumas facetas dessas emoções. “Há um lado da personalidade humana que se identifica com aspectos do mal representado. Por isso, vampiros e perseguidores são personagens clássicas: há sempre um lado perseguidor e sugador dentro de cada um de nós”, afirma Mário. “Filmes de horror são chances de elaboração de questões pessoais por meio das imagens.”

Assim, essas histórias também viram oportunidades para, além de confrontar emoções sombrias, descobrir como lidar com elas, encontrar soluções ou mesmo iluminar áreas sentimentais escondidas. E o prazer que sentimos com o terror está ligado a essa descarga de sensações internas e ao triunfo sobre o medo e o pavor. No fim das contas, o que está em jogo seria a capacidade de resistir e dominar seus próprios fantasmas. “O horror é um fenômeno tão duradouro porque, no fundo, é muito mais que uma diversão. É um momento sério de contato com questões profundas do ser humano de forma muito crua e até física”, diz o professor. “Sem nos darmos conta, ele discute dilemas como a morte, o mal, o sentido da vida e até a existência de Deus. Existe algo mais sério do que isso?”

A Hora do Pesadelo

E se isso tudo é tão importante, por que diabos (opa!) ele adquire justamente a forma de bichos bizarros e seres de magia negra? Como se desconfia, a estética do horror está intimamente ligada aos pesadelos que, volta e meia, assustam as noites. E aí vem mais um indício para desvendar o fascínio humano pelo terror. Crianças, mesmo as menorzinhas, adoram histórias de monstros devoradores de gente, muito sangue e confusão. E é nesse período que elas têm mais pesadelos.

A explicação de Freud, o austríaco fundador da psicanálise, para o fenômeno é que a molecada precisa dessas narrativas apavorantes para construir seu psiquismo. Essas coisas assustadoras e disformes, parte do mundo interno e primitivo de qualquer um, vão tomando forma com as imagens dos sonhos ruins e das histórias pavorosas. “Essas narrativas tiram o medo que está dentro do ser humano, projetando para fora os objetos de pavor”, afirma o psicanalista Ernesto Duvidovich, diretor do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo.

Daí a contrapartida psicológica para o alívio físico sentido durante os filmes de terror. Quando um medo ou uma angústia sem sentido começa a ter forma e é direcionado, a sensação de desafogo vinda da explicação é boa. “Prazer e desprazer são polos opostos entre os quais o homem caminha o tempo todo. Quanto mais perto da realidade e mais arriscada for a cena, mais emocionante. Assim, a identificação com o que a pessoa está sentindo é quase perfeita”, diz o psicanalista.

O mesmo vale para a relação entre os contos de fada (que em suas versões originais sempre são mais violentos que as adaptações da Disney) e os longas de terror. “Os filmes de horror modernos têm para o adolescente a mesma função que os contos de fada para as crianças, ou seja, para avisar que existe mal nos lugares menos suspeitos”, afirma o psicólogo Jeffrey Goldstein, professor da Universidade de Utrecht, na Holanda, em seu livro Why We Watch: The Attractions of Violent Entertainment (Por que Assistimos: As Atrações do Entretenimento Violento, sem edição em português). “Além disso, um dos objetivos é o desejo de controlar imagens ameaçadoras ou demonstrar a habilidade de tolerá-las.”

Afinal, medos e fobias, em seu princípio mais primitivo, são apenas formas que encontramos para ensaiar o que fazer frente a situações angustiantes reais. Por meio de cenas imaginárias, treinamos as reações para sabermos exatamente o que fazer no mundo real.

Faces da morte

Por isso, cada época tem seus monstros. No início do século passado, os vampiros apavoravam as noites escuras e sem eletricidade com seus longos caninos. Nos anos 90, continuaram malvados, mas ganharam representação na pele pálida de galãs como Brad Pitt e Tom Cruise. Agora são adolescentes branquelos, quase inofensivos, que brilham como diamantes à luz do sol e tentam evitar pescoços apetitosos. A explicação para essa mudança está na cultura: até o conde Drácula precisa se adaptar aos novos tempos.

A forma de lidar com a morte e o perigo são únicas em cada época e essa é a razão por que nossos objetos de medo mudam. “Ensaiamos” melhor o que fazer quando o mal aparece. É só lembrar como, durante a Guerra Fria, explodiram filmes sobre invasões de aliens nos Estados Unidos. “Essa era a forma de experimentar o pavor da invasão russa por meio de símbolos e narrativas”, diz a historiadora Joanna Bourke, autora do livro Fear: A Cultural History (Medo: Uma História Cultural, sem edição em português). “A linguagem do terror transformou medos privados em eventos sociais, como prova decisiva de que o indivíduo não estava sozinho.”

De forma bem criativa, ela tem uma ligação estreita com a evolução do sagrado, do religioso e da morte através dos séculos. “Narrativas de desastre ou horror são jeitos seguros e rotineiros de brincar com a morte. Elas são respostas para o mais prosaico e persistente dos medos: o medo da morte”, diz Joanna.

Por isso, hoje, bactérias, micróbios e doenças fora de controle tomaram o lugar dos espíritos do mal de outras épocas e cientistas substituem as bruxas em uma era em que a ciência é tão ameaçadora como as pestes da Idade Média. As bombas, armas nucleares e as bactérias assassinas que horrorizam os cinemas do século 21 foram criados em laboratórios, da mesma forma que o mal dos tempos antigos era obra do capeta.

“Quem vê um filme de terror não está apenas tentando fugir da realidade, mas sim tentando entendê-la melhor”, afirma Adam Lowenstein, professor de cinema da Universidade de Pittsburgh e autor do livro Shocking Representation: Historical Trauma, National Cinema and the Modern Horror Film (Representações Chocantes: Trauma Histórico, Cinema Nacional e o Filme de Terror Moderno, sem edição em português). “O horror oferece uma forma de compreender a realidade atual que não existe em outro lugar.”

Ou seja, suando frio, com os olhos arregalados e o coração aos pulos, o conhecimento do mundo que o terror oferece é físico, além de intelectual. “Uma coisa é entender a sociedade, a política e a cultura com a cabeça e outra, completamente diferente, é compreender tudo isso com o corpo. O horror nos tira da zona de conforto e expõe coisas que, de outra forma, não teríamos coragem de enfrentar. E é essa combinação que atrai tantas pessoas para o cinema”, diz.

É possível dizer que foi a confiança contemporânea nos registros digitais, na honestidade simples dos filmes caseiros do YouTube e na tecnologia moderna que produziu o fascínio pelo fenômeno Atividade Paranormal. “Fazemos parte de uma sociedade na qual tudo pode ser gravado e essa é a única prova de que estamos vivos. E esse filme brinca com o fato que as gravações podem revelar coisas de nossa própria vida que, de certa forma, não queremos saber. Familiar e ao mesmo tempo assustador — porque, se pararmos para pensar, ninguém sabe ao certo como funciona um computador ou uma câmera digital. Apenas fingimos que controlamos a tecnologia”, diz Adam. “E o filme brinca com esse temor tecnológico inconfessável por meio de uma estética caseira, barata, que dá a ideia de que poderia acontecer com qualquer um de nós. E aí está o principal fator de medo da história: o terror está em toda parte.”

Em uma sala escura, feita para levar a audiência a um outro plano da realidade, cercado de pessoas que compartilham os mesmos temores (o slogan do filme é “não assista sozinho”), o espectador sente-se ao mesmo tempo aterrorizado e calmo ao ver e lidar com o horror. “O filme de terror funciona como uma vacina, é como usar o mesmo veneno que está te matando em pequenas doses para te curar”, afirma Lowenstein. O que significa que vou continuar com medo, mas, pelo menos, agora entendo por que isso pode ser tão fascinante.

FONTE: Galileu

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