O Medo na Era da Liquidez

O traço mais opressor do medo, nos dias atuais, é que ele se tornou difuso e abstrato: a ameaça pode vir de toda parte. Ele leva à exclusão do outro, do “diferente”, e sacrifica a liberdade em prol de um pouco mais de segurança.

*Por Renato Nunes Bittencourt

O desenvolvimento da ideologia de bem-estar pessoal, que exige de cada cidadão “produtivo” o dever de desfrutar a sua vida da forma mais aprazível possível, destoa da necessidade desse mesmo grupo social de abrir mão do seu gozo material em prol de uma disciplina cotidiana que muitas vezes lhe gera intensos transtornos afetivos. Para se manter um elevado padrão de vida, o preço é doloroso: a contínua dedicação ao mundo do trabalho, que rompe a esfera do ambiente estritamente profissional e avança vorazmente aos sagrados espaços domiciliares. Entretanto, apesar da situação estressante que a dedicação profissional impõe a cada um de nós, nos esforçamos em manter o funcionamento pleno desse sistema social, baseado no esgotamento individual em prol do sucesso profissional, processo que sustenta a organização civilizatória do mundo ocidental, cada vez menos sólido.

Mas há sempre um afeto que espreita a frágil sanidade de nossa sociedade “bem-sucedida”: o medo. Ora, tememos perder o fruto de nossas conquistas pessoais e nosso conforto material, seja pelas crises econômicas, seja pela insegurança e instabilidade da vida urbana e mesmo pelas catástrofes naturais, que não fazem distinção entre os países ricos e os em desenvolvimento.

A instabilidade econômica, a despeito dos transtornos que causa, pode ser resolvida com medidas políticas eficientes;os efeitos avassaladores da natureza podem ser atenuados com ações eficientes de prevenção e socorro capitaneadas pelas forças governamentais; entretanto, a situação de violência cada vez mais se amplia e é contra os transtornos dessa situação tensa que nossa ordem social mais se vê obrigada a elaborar mecanismos de fuga psíquica e defesa coercitiva. No auge da era da liquidez, o ser humano se despersonaliza e adquire o estatuto de coisa a ser consumida, para em seguida ser descartada, quando a outra pessoa se cansa do uso continuado do objeto “homem”, facilmente reposto por modelos similares.

Podemos dizer que essa disposição valorativa é uma espécie de violência simbólica contra a dignidade da condição humana. Esse processo de despersonalização do indivíduo, imerso no oceano da indiferença existencial, é a característica por excelência da ideia de “vida líquida” problematizada por Zygmunt Bauman, uma vida precária, em condições de incerteza constante: “A vida na sociedade líquido-moderna é uma versão perniciosa da dança das cadeiras, jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo” (Vida líquida, p. 10).

Imerso nesse processo rotativo de inclusão e exclusão instantâneas nas suas relações afetivas, a “humanidade líquida” cada vez mais teme afirmar a potência unificadora do amor, sentimento que, aliás, é dificilmente mensurável por critérios quantitativos e cálculos estatísticos. É possível expressarmos adequadamente tal afeto por alguém? Quando amamos, amamos a pessoa pelo que ela é ou pelo que ela representa para nós?

A “moralidade líquida” optou pela segunda possibilidade, fazendo sempre da figura do outro um estranho que só adquire importância quando se presta a satisfazer os nossos objetivos egoístas. Essa disposição afetiva não é uma cruel novidade da era da técnica, mas certamente encontrou o seu mais intenso nível de degradação existencial do homem em nossa Idade de Ferro, isto é, a “pós-modernidade líquida”.

No contexto da vivência líquida, amar se caracteriza sempre como um ato arriscado, perigoso, pois não conhecemos de antemão o resultado final das nossas experiências afetivas: só é possível nos preocuparmos com as consequências que podemos prever e é somente delas que podemos lutar para escapar, como diz Bauman (Medo líquido, p. 18).

Uma vez que o outro é encarado apenas como uma peça que rapidamente entra em processo de obsolescência, tranquilamente se usufrui o seu potencial pessoal para que logo após se possa dispensá-lo, sem que haja quaisquer crises de consciência da parte do indivíduo consumista de afetos, típica máscara de Don Juan.

Amor sem riscos

De acordo com essa perspectiva mega-hedonista, o mais conveniente é se relacionar com alguém sem que haja afetivamente qualquer tipo de interação completa entre os parceiros, de modo que um acaba se tornando estranho ao outro, criando-se um jogo de superficialidade pseudoamorosa. Conforme Anthony Giddens, grande interlocutor intelectual de Bauman, “para que um relacionamento tenha a probabilidade de durar, é necessário o compromisso; mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a sofrer muito no futuro, no caso do relacionamento vir a se dissolver” (A transformação da intimidade, p. 152).

Temos então esse medo de amar plenamente alguém pelo fato de não querermos vir a ser usados no máximo das nossas capacidades e sermos excluídos posteriormente, quando a relação demonstrar os seus primeiros sinais de desgaste. Afinal, não queremos ser violentados afetivamente pelo desgosto da desilusão sentimental.

Muitas são as formulações possíveis para a erupção do medo humano, seja das expressões mais sutis e veladas às mais ostensivas, diferença que, aliás, não atenua o seu efeito subjugador do homem, pois o medo sempre motiva uma compreensão obtusa da realidade. Entretanto, o medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desdesvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivo claros; quando nos assombra sem que haja uma explicação visível, conforme salienta Bauman (Medo líquido, p. 8). Essa situação se manifesta nitidamente no problema da violência nos grandes eixos urbanos, onde descobrimos amargamente que em nenhum ponto da cidade estamos de fato a salvo dos efeitos destrutivos da discórdia humana.

Para que se lute contra os efeitos destrutivos da agressividade social, temos atualmente ao nosso dispor uma série de recursos de segurança, elaborada em prol da manutenção de nosso bem-estar pessoal e familiar ante as “ameaças” que sofremos diariamente diante do caos urbano e da onda de violência que impera em nossa vertiginosa e líquida sociedade tecnocrática. Todavia, apesar dessa imensa oferta de aparatos de proteção pessoal e dos mecanismos de afastamento e repressão aos elementos considerados “socialmente indesejáveis”, será que de fato estamos realmente seguros em presença das ameaças que espreitam nossa frágil organização familiar e profissional?

Tranquilidade em pílulas

Como complemento aos aparatos técnicos de proteção física proporcionados pela sociedade de controle, há que se lembrar que está a dispor do “homem pós-moderno” o consumo contínuo de remédios tranquilizantes, para que o seu sono e sua “sanidade psíquica” não sejam ameaçados pelo terror do pesadelo do “mundo dos outros”.

O medo público movimenta a economia social, seja na aquisição dos produtos de segurança, seja no consumo dos remédios que proporcionam momentamente uma sensação de alívio psíquico diante da realidade angustiante do mundo exterior, pavor que retorna continuamente, para nosso desgosto.

Proteção Ilusória

O sentimento de medo diante da massa social marginalizada estimulou a criação de sofisticados aparatos de segurança, mas apesar de utilizarmos todas as combinações possíveis de instrumentos de proteção, não nos sentimos a salvo dessas situações incômodas. Tanto pior, o medo, de tanto afligir a afetividade do homem pós-moderno, torna-se um sentimento abstrato, não sabemos mais efetivamente quem o motiva e por quê. Então, por um princípio de economia, transferimos a responsabilidade moral desse medo para o outro, sempre ele, e quem encarna a máscara da alteridade nesse jogo dicotômico é o grupo dos deserdados socialmente. Em decorrência da resolução dessa questão, cabe então que se faça outra: qual o critério valorativo para determinarmos o teor de nossos medos? Não seria ele talvez decorrente da incompreensão de nossas relações interpessoais e de nossos preconceitos cotidianos?

Massificação para iguais

Afinal, a massificação da cultura visa, acima de tudo, eliminar as supostas características discrepantes entre os indivíduos, de modo que todos venham a ser “iguais”, isto é, sigam os mesmos padrões de comportamento, consumam as mesmas coisas e se guiem fielmente pelos ditames da moda em voga. O fato de se ser diferente e destoar do padrão estabelecido é sinal de heresia social. Em nome da manutenção da nossa conservadora estabilidade social, é mais pertinente que toda a coletividade de indivíduos viva massificada sob o imperativo do anonimato, ainda que isso resulte em prejuízo para a inovação da cultura.

Analisando as infraestruturas das grandes metrópoles, podemos ver cada vez mais o desenvolvimento de uma arquitetura do medo, que modificou violentamente as disposições estéticas dos paisagistas urbanos, que se encontraram na urgência de planejar prédios e shoppings hiperseguros, como defesa contra as ameaças dos “outros”: nesse contexto, as pessoas que não são consideradas economicamente viáveis e os marginais sociais. Esta é a estética da segurança que impõe uma lógica da vigilância e da manutenção da devida distância aos tipos humanos estigmatizados como “indesejáveis”. Em nossa sociedade líquida, “manter-se à distância parece a única forma razoável de proceder”, diz Bauman (Medo líquido, p. 93). Uma vez que a realidade exterior se apresenta sempre diante de nossa limitada percepção como ameaçadora e violenta, os muros inexpugnáveis, as grades de proteção que delimitam nosso espaço vital e o mundo de fora e as câmeras de monitoração cumprem o papel de garantir psiquicamente nossa segurança pessoal, tornando-nos, todavia, dependentes desse paranoico sistema de controle. O preço dessa vigilância ostensiva contínua talvez seja a perda da espontaneidade: todos passam a viver como que participando da exibição ao vivo de uma peça de teatro, em que os papéis não foram devidamente encenados; então, para se evitar maiores vergonhas, cala-se o já mínimo discurso e esconde-se sob as malhas do impessoal. Aproveitando as ideias de Marshall Mcluhan, podemos dizer que os incólumes muros de proteção se tornaram extensões hiperbólicas do corpo humano, na sua sôfrega ânsia de se resguardar diante do tenebroso e agitado mundo exterior. Afinal, a necessidade de nos trancafiarmos em espaços hermeticamente fechados e vigiados continuamente motiva, em contraparte, nosso próprio encarceramento existencial.

Bauman argumenta que a liberdade sem segurança não tende a causar menos infelicidade do que a segurança sem liberdade, e que necessitamos de ambas – o sacrifício de qualquer um deles pode nos causar sofrimentos (A sociedade invidualizada, p. 58). Postulamos a impossibilidade de que nada pode nos afetar enquanto estivermos dentro do espaço confortável de isolamento que criamos em relação aos perigos do mundo externo, mas o preço disso é a redução de nossa amplitude de movimentos, de modo que nos arriscamos a ver despontar a infelicidade, a despeito da segurança material que obtivemos. “Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas”; “O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança”, diz Freud em O mal-estar na civilização (p.16 e p. 72).

Indústria do Medo

Pensemos na hipótese de, no futuro, o sentimento de medo ser completamente eliminado da condição humana. Qual seria a consequência imediata dessa revolução existencial? Certamente um prejuízo imensurável para a nossa já combalida economia, corroída pela grande crise financeira, afetando, assim, as indústrias automobilísticas, que cada vez mais elaboram modelos de veículos protegidos, as indústrias de aparatos técnicos de segurança, que dependem do clima de insegurança para que os seus instrumentos de proteção sejam adquiridos, assim como as indústrias farmacêuticas, que prosperam através do consumo dos remédios que eliminam temporariamente os inúmeros desgostos da existência. Conforme destaca Bauman, “grande parte do capital comercial pode ser – e é – acumulado a partir da insegurança e do medo” (Tempos líquidos, p. 18).

O medo se torna imprescindível para a manutenção da ordem social, por mais absurda que seja tal necessidade. Desse modo, será que de fato é conveniente que o medo humano se extinga? Segundo Bauman, “no medo, a indústria do consumo encontra a mina de ouro sem fim e autorrenovável que há muito procurava. Para a indústria do consumo, o medo é, plena e verdadeiramente, um “recurso renovável”.

Ainda há que se ressaltar que é por meio da elevação do índice de medo na população de uma sociedade que o poder estabelecido se outorga o direito de criar medidas de exceção contra as ameaças que avançam de todas as direções. Não para que se possa preservar o conforto material e existencial de um grupo beneficiado por tais ações coercitivas contra a grande massa humana considerada descartável, mas para se aproveitar da fragilidade e da desmobilização política da população como um todo, pois, quando o povo é dominado pelo temor e pelas incertezas em relação ao seu sombrio futuro, perde toda a sua força transformadora, tornando-se uma massa inerte, não obstante a quantidade numérica de seres humanos que constituem esse grupo intrinsecamente anárquico.

Bauman salienta que desde o começo o Estado moderno foi confrontado com a tarefa assustadora de administrar o medo (Tempos líquidos, p, 65). O fator problemático é que o poder normativo do Estado depende da passividade pública que sucumbe perante o medo de vir a perder a parca qualidade de vida duramente conquistada e legitima suas ações arbitrárias mediante a ausência de uma genuína práxis transformadora no povo. É por esse motivo que as sociedades tirânicas apelam continuamente para a infiltração de elementos irracionais e supersticiosos na ideologia dominante, como forma de conter de antemão a possibilidade de surgir os ímpetos reivindicadores de uma dada população, quando esta se sente prejudicada pelos abusos do poder despótico.

O uso tendencioso do medo social pode auxiliar na legitimação das “guerras preventivas” (que, teoricamente, é uma contradictio in adjecto), situação percebida de forma excepcional pela equipe do governo de George W. Bush, que soube manipular a opinião pública norte-americana para estabelecer a destruição terrorista do território iraquiano. O discurso ideológico do medo, aliás, projeta sempre no outro a presença de características vis, quando na verdade é ele próprio que é constituído por tais “qualidades”. Ataca-se o outro pelo medo que a sua figura simbólica causa ao modelo existencial sustentado pela fragilidade psíquica das massas.

Show de audiência: horror, gozo e medo na tv

Os meios de comunicação, especialmente aqueles que se aproveitam dos mecanismos sensacionalistas de exposição das mazelas sociais, seriam afetados caso o medo fosse extinto, pois não haveria mais a possibilidade de explorarem a elevação dos níveis de audiência por meio dos estímulos estéticos fortes proporcionados pela exibição de cenas violentas, que exercem sobre a afetividade humana um impacto ambíguo: ao mesmo tempo em que geram a repugnância, geram também o desejo de contemplação do horror. A sociedade da informação, na era pós-moderna, continua sectária da “concupiscência do olhar”. Da mesma forma que um desastre desperta a curiosidade do indivíduo que se encontra próximo ao local desse acontecimento fatídico e vai ver todos os detalhes possíveis, assim também se dá quando os desastres são transpostos para as imagens da televisão. O máximo de prazer estético que pode ser fornecido ao telespectador por uma rede de TV é a exibição da morte de um indivíduo, ou, em circunstâncias mais atenuadas, dos conflitos entre as forças policiais e os criminosos, as ações de assaltantes, ou ainda as gravações secretas de repórteres sobre as vendas de drogas por traficantes. Em todas essas circunstâncias há no telespectador a erupção da repugnância, do horror e da lamentação, mas também um gozo secreto de prazer pela oportunidade que lhe é concedida de ver, sentado confortavelmente na poltrona, a destruição humana em múltiplas maneiras. O resultado existencial dessa soma de imagens, todavia, não tarda a aparecer, e é o medo.

Os muros protegem?

O indivíduo dominado pelo medo das ameaças sociais, protegido pela solidez dos muros que delimitam o mundo “bárbaro” e a sua vida privada, acredita talvez que sua existência seja de fato real. Será mesmo? Ora, o seu estreito mundo fechado, criado como uma fuga confortável perante o mal-estar da vida urbana, na verdade é uma ilusão agradável criada pela necessidade burguês-líquida do homem de se considerar efetivamente seguro na sua ilha simbólica rodeada de mazelas, ilusão similar a de uma “Terra do Nunca”, um conto de fadas pós-moderno.

A exaltação contínua da vida condominial decorre dessa ameaça social das classes com maior poder aquisitivo em se libertar definitivamente dos constantes problemas urbanos, de modo que todas as necessidades básicas da vida cotidiana encontram suas instituições nesses aglomerados de identidade.

Escolas, academias de ginástica, padarias, hospitais, bancos e até mesmo igrejas devem estar situados nesses locais. Não se trata aqui de se criticar a vida comunitária típica dos condomínios de segurança máxima, mas de se colocar em questão o desejo sôfrego de se obter o isolamento asséptico em relação aos problemas da vida social dos núcleos urbanos, reduzindo assim a amplitude de compreensão do “real” de todos aqueles que habitam tais espaços, que passam a acreditar simbolicamente que o limitado território ocupado pelo condomínio é uma cidade à parte em relação ao mundo exterior, tão próximo fisicamente, tão distante socialmente e existencialmente. “Os limites do mundo são os limites do meu condomínio”, esse deveria ser o lema adotado por esse grupo seleto de habitantes do Éden moderno-líquido. Segundo Bauman, “para pessoas inseguras, desorientadas, confusas e assustadas pela instabilidade e transitoriedade do mundo que habitam, a ‘comunidade’ parece uma alternativa tentadora. É um sonho agradável, uma visão do paraíso: de tranquilidade, segurança física e paz espiritual” (Identidade, p. 68).

Talvez uma situação também absurda, mas possível de vir a acontecer no “futuro líquido”, seria a de um indivíduo nascer, amadurecer e morrer no espaço condominial sem conhecer a realidade externa, sendo sepultado no torrão natal que tanto amou ao longo de sua vida líquida (de máximo controle e mínima emoção), localizado nos fundos desse território.

Podemos afirmar que o elemento mais paradoxal desse mecanismo de controle permanente das aspirações individuais, conforme efetivado pelos aparelhos normativos da sociedade de vigilância, reside na ideia de que o bem-estar que o indivíduo tanto deseja obter somente pode ser conquistado pela supressão de sua liberdade pessoal, pois é justamente a excessiva flexibilidade das suas ações que acaba motivando as circunstâncias que prejudicam a ordem da frágil estabilidade social. Bauman destaca que “o mal-estar da pós-modernidade nasce da liberdade, em vez da opressão” (O mal-estar da pós-modernidade, p. 156). Essa liberdade, todavia, se revela como um grande engodo, pois em troca da segurança prometida pela ideologia do conforto material, a vida em comunidade parece nos privar dessa ansiada liberdade, sinal nítido da degeneração do sentimento da esquálida paz e tranquilidade da nossa organização civilizatória.

Ao trazer à tona os contundentes sintomas de empobrecimento e dissolução das relações pessoais, Bauman nos faz a seguinte pergunta retórica: “Você quer segurança? Abra mão de sua liberdade, ou pelo menos de boa parte dela. Você quer poder confiar? Não confie em ninguém de fora da comunidade. Você quer entendimento mútuo? Não fale com estranhos, nem fale línguas estrangeiras. Você quer essa sensação aconchegante do lar? Ponha alarmes em sua porta e câmeras de TV no acesso. Você quer proteção? Não acolha estranhos e abstenha-se de agir de modo esquisito ou de ter pensamentos bizarros. Você quer aconchego? Não chegue perto da janela, e jamais a abra. O nó da questão é que se você seguir esse conselho e mantiver as janelas fechadas, o ambiente logo ficará abafado e, no limite, opressivo” (Comunidade, p.10).

Ser livre pressupõe uma responsabilidade difícil de suportar perante a líquida vida social, cada vez mais diluída na ausência de uma autêntica compreensão e valorização da figura do “outro”, que é sempre imputado como o estranho, jamais um potencial indivíduo capaz de interação. As parcerias não se fortalecem e os medos não se dissipam.

Nunca a humanidade conseguiu se livrar por grande espaço de tempo do poder opressor desse ameaçador inimigo que é o medo, encarnado em diversas figurações sociais e existenciais. E certamente nunca conseguiremos nos libertar plenamente dele, situação que seria de fato uma utopia e não uma análise concreta da dinâmica fluida do mundo real, marcado pelas suas inúmeras contingências e contradições. Todavia, podemos tornar a nossa vida, ainda que espreitada pelo medo, mais saudável e afirmativa se aceitarmos a finitude da condição humana e nos esforçarmos pela instauração de uma prática ética que valorize de fato a interatividade entre as pessoas, interatividade essa que é cada vez mais liquefeita nos nossos ansiosos tempos pós-modernos.

O discurso de Bauman apresenta nitidamente a crueza da “vida líquida”, mas a sua consistência se manifesta justamente na possibilidade de analisarmos o rumo existencial que escolhemos seguir e a capacidade de desenvolvermos uma orientação de vida mais sólida e substanciosa, mediante a valorização das diferenças.

Zygmunt Bauman (1925) é um sociólogo polonês conhecido por suas análises do consumismo pós-moderno. Foi um dos principais popularizadores do termo “pós-moderno”, mas atualmente prefere empregar a expressão “modernidade líquida” para designar a sociedade contemporânea.

O medo resulta de ameaças reais ou imaginárias. Antes do medo, surge a ansiedade – o temor de encontrar o objeto causador do medo. Há graus de medo, que vão da leve ansiedade ao pavor. Quando compromete as relações sociais e causa sofrimento psíquico, torna-se uma doença: a fobia.

*Renato Nunes Bittencourt é doutorando em Filosofia pelo programa de pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

FONTE: Ciência & Vida

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: