Vamos lá, enfrente, com coragem!

*Por Loraine Luz

A propósito do esforço heroico que é para muitos a inclusão regular de atividades físicas em seu cotidiano, conversamos com a psicóloga Angelita Scardua sobre coragem e os benefícios para a saúde que a superação de metas pode trazer. Confira a entrevista na íntegra abaixo.

Superar desafios/encorajar-se dá prazer? Por quê? A importância de enfrentarmos situações difíceis, e de superá-las, reside no fato de que o desafio nos força a avaliar o que realmente é importante para nossa vida. Quando algo é realmente importante para nós descobrimos que somos capazes do impensável. É nas situações difíceis que encontramos recursos emocionais, intelectuais e físicos que não imaginávamos ter. Quando a vida corre tranquila, serena, tendemos a nos acomodar, a fazermos tudo da mesma forma. Essa condição de vida rotineira nos traz segurança, mas não incentiva o crescimento pessoal, seja no campo emocional ou cognitivo. A ausência de desafios faz com que tudo na vida pareça igual; é como se a certeza de que os acontecimentos se darão de uma determinada forma nos levasse a uma espécie de letargia motivacional. Sentimentos associados à sensação de incerteza e insegurança têm um grande poder mobilizador, e isso é fundamental, pois, lutar contra um desafio requer muita energia, seja física, cognitiva ou emocional. Por isso o desafio nos ajuda a redefinir prioridades, a fazer escolhas baseadas no que realmente nos importa. Não dá para desperdiçar energia e tempo com o que não é significativo para a nossa vida. Aí reside o prazer da superação. Quando vencemos um desafio nos sentimos mais coerentes, mais de acordo com os nossos desejos e motivações. Superar um desafio dá a sensação de que investimos nossas energias físicas, emocionais e cognitivas em algo que naquele momento tinha grande valor para nós. Reconhecer o valor de uma ação nossa dá significado à vida que estamos vivendo, sentir que estamos dispostos a lutar pelo que queremos gera coragem e confiança, e isso dá muito prazer!

Metas e superações em atividades esportivas, por exemplo, podem repercutir em outras áreas, no sentido de encorajar a pessoa a ela se aventurar mais, arriscar mais? Claro que sim! Quando atingimos uma meta e/ou superamos um desafio, em qualquer área da vida, nos sentimos mais confiantes. A superação de um desafio sempre exige que desenvolvamos ou aperfeiçoemos uma habilidade. Ou seja, superação sempre está associada à transformação. Não é possível atingir uma meta, alcançar um objetivo, superar um desafio sem mudarmos algo em nossa forma de fazer, pensar e sentir. Por isso o efeito positivo obtido com a superação desencadeia todo um processo de reavaliação da auto percepção, nos levando a nos vermos como mais capazes. Tudo isso melhora a autoestima e nos predispõe a nos sentirmos mais motivados a correr riscos, a tentar coisas que nunca fizemos antes, ou a ir mais longe e mais fundo naquilo que já fazemos.

Coragem é risco? Tem uma relação com o desconhecido? Eu diria que coragem é o enfrentamento do medo. E, sim, isso tem a ver com o desconhecido! Todos nós, quando nos deparamos com algo que não conhecemos sentimos medo. Sentimos medo porque ainda não sabemos se temos os recursos para lidar com aquilo que acabamos de conhecer. Quando estamos familiarizados com algo – seja uma situação, uma pessoa, um sentimento, uma tarefa, etc., – somos conscientes dos nossos limites e das nossas possibilidades para gerenciar as emoções, os pensamentos e as sensações que isso nos causa. Mas quando temos que enfrentar o desconhecido não temos essas “certezas”, é como andar numa sala escura na qual nunca andamos antes: até sabemos como andar, e usamos os recursos táteis e olfativos para tentar evitar riscos, mas não podemos ter certeza de que não nos machucaremos ou de que não toparemos com algo pela frente. Ao enfrentar o desconhecido, o corajoso busca avaliar os riscos em relação aos recursos que ele sabe que tem, mas, mesmo assim, isso não garante totalmente o sucesso da empreitada. Ou seja, o enfrentamento do novo é sempre um risco! Por isso, a diferença entre coragem e covardia é basicamente enfrentar ou não enfrentar o medo. Aí, sim, podemos dizer que ser corajoso é arriscar-se, porque quando enfrentamos o medo que sentimos estamos correndo o risco de nos lançarmos numa situação sem saber se teremos plena condição de lidar com ela. A única forma, contudo, de descobrir se somos capazes ou não é enfrentando o desafio, é correndo o risco! Se ao nos arriscarmos descobrimos que não estávamos plenamente preparados para a situação, ainda assim a experiência é válida porque aprendemos nossos limites. Ao reconhecermos nossos limites podemos investir no nosso aprimoramento, aprendendo a melhorar aquilo que ainda não é bom o suficiente. Ao nos arriscarmos, enfrentando o medo e nos aventurando no desconhecido, também temos a oportunidade de avaliar se aquilo que estamos conhecendo realmente nos interessa. Afinal, não é possível fazer escolhas sobre aquilo que não conhecemos.

Coragem é genético? Boa pergunta… (risos)! Não saberia dizer se a coragem é uma característica de personalidade 100% genética. Ao contrário, posso afirmar que o medo é! O medo, assim como outras emoções primárias como prazer, raiva e alegria, está inscrito no código genético dos humanos e de outros animais. A função do medo é “avisar” ao organismo sobre os perigos presentes no meio. O medo, a princípio, é benéfico e tem uma função de nos motivar a buscar proteção/defesa, contribuindo para a sobrevivência da espécie. Já a ausência do medo, muito provavelmente, representaria risco de morte para o organismo. Pois, sem o medo, a pessoa tenderia a se envolver em qualquer situação de risco sem avaliar as consequências. Como eu já disse anteriormente, portanto, a coragem não seria a ausência do medo. Ter coragem tem a ver com confiar na própria capacidade, física ou moral. O corajoso, contudo, não confia em si de forma irrealista. A coragem assenta-se em bases sólidas, na avaliação dos próprios recursos e da ameaça enfrentada. O corajoso procura usar os recursos de que dispõe da melhor forma possível. Os recursos afetivos e cognitivos requeridos para lidar com o risco são os mesmos para todos os seres humanos: curiosidade, prazer de experimentar, flexibilidade intelectual e outros associados às qualidades especiais do hemisfério direito do cérebro. Mas, não só isso, a coragem se vale também de alguns atributos do hemisfério esquerdo como, por exemplo, o pensamento lógico orientado a um fim. A questão é que essas habilidades, tanto as do hemisfério esquerdo quanto as do direito, aparentemente, sofrem influência genética. Ou seja, algumas pessoas estão mais predispostas ao pensamento lógico ou à curiosidade do que outras. Se a coragem tem um fundamento genético, então, este seria uma maior tendência para a expressão dos recursos cognitivos e afetivos associados ao enfrentamento do medo, ao correr riscos. Há um fator, porém, que também pode exercer forte influência sobre o comportamento de alguém no que diz respeito à coragem. O tipo de relações afetivas que essa pessoa teve ao longo do seu desenvolvimento, e principalmente na infância. Como vimos antes, coragem tem muito a ver com autoconfiança e, consequentemente, com autoestima. Uma pessoa que foi positivamente incentivada na infância a explorar, buscar, questionar, etc., provavelmente terá mais chances de ser um adulto corajoso. Uma criança reprimida, criticada, negligenciada corre mais riscos de tornar-se um adulto covarde. O fato é que genética e ambiente caminham juntos, eles interagem e se influenciam mutuamente. Os recursos genéticos que nos predispõem à coragem precisam de um solo fértil para florescer, e esse solo é o acolhimento afetivo que encontramos ao longo da vida para expressar o que somos e o que podemos ser.

Que forças nos fazem hesitar? A coragem é recrutada frente a que medos? O que nos faz hesitar pode variar muito de pessoa para pessoa em função da história pessoal de cada um. Mas há alguns elementos que tendem a serem inibidores da coragem. Por exemplo, o risco de morte pode inibir a coragem porque nossa predisposição genética para buscar a sobrevivência tende a ser priorizada pelo cérebro. De forma geral, coragem tem a ver com autoconfiança, logo, baixa autoestima e pouca confiança na própria capacidade tendem a nos fazer hesitar frente ao desafio. Em função disso, o medo do fracasso leva muita gente a hesitar. Quando nos lançamos no enfrentamento de um desafio é fundamental considerar a possibilidade do insucesso, e se preparar para lidar com ele caso ocorra. A pessoa que se sente insegura, pouco confiante, não suporta pensar no fracasso. Isso acontece porque ela se vê como tão incapaz que não consegue pensar no fracasso como oportunidade de aprendizado e de correção das próprias limitações. Para pessoas desse tipo o fracasso não é uma condição passageira, mas uma característica pessoal, um estado de vida. Esse tipo de visão gera muita ansiedade, fortalecendo o medo que ganha força e leva à paralisação. Outro medo que também paralisa é o do sucesso. A possibilidade do sucesso gera medo porque ao sermos bem sucedidos criamos expectativas mais altas, sobre nós e sobre os nossos feitos. Quanto mais alta a expectativa maior o sentimento de responsabilidade, a necessidade de esforço e a vigilância dos outros sobre nós. Isso assusta! Ter sucesso é ficar no foco das atenções, e nem todo mundo sente-se seguro para lidar com isso. A diferença entre o medo do fracasso e o medo do sucesso é que, na média, temos muito mais consciência do primeiro, o segundo é quase sempre um processo inconsciente que nos leva a desenvolver comportamentos de autosabotagem. A inconsciência em relação a nós mesmos pode ser um bloqueador da coragem.

Por que isso acontece? Porque quanto mais consciência temos do que sentimos, pensamos e queremos, mais chances temos de identificar o que realmente nos importa, e o desejo é um dos grandes “gatilhos” para a expressão da coragem. Os medos associados a impossibilidade de obtermos, ou de perdermos, aquilo que queremos são os principais “recrutadores” dos comportamentos corajosos. A coragem é geralmente recrutada pelo medo da perda daquilo que amamos.

Por que somos mais “corajosos” em grupo? Ou a capacidade de fazer coisas mais audaciosas, na companhia de outros, tem outro nome e não é coragem real? Nossa predisposição para fazer coisas audaciosas em grupo não é coragem, ao contrário disso, a tendência a nos arriscarmos mais quando estamos em grupo tem muito mais a ver com covardia! A questão do grupo é que ele tende a funcionar como um organismo único é como se nossa identidade individual fosse diluída pela identidade grupal. Na torcida organizada eu não sou mais o fulano, eu sou o torcedor do time tal, eu sou “a galera”! Então, os meus valores, meus comportamentos, são subtraídos pelos ditames do grupo. Eu deixo de pensar, sentir e agir pautado pela minha consciência, eu me torno uma extensão da consciência grupal. Qual é o problema disso? Psicologicamente falando, no grupo eu não me percebo como um sujeito distinto, eu não me sinto responsável pelos meus atos. No grupo, as ações individuais perdem o caráter de causa e consequência, elas passam a ser motivadas pela necessidade de auto-afirmação da identidade grupal que, em geral, expressa um conjunto de valores asscoiados a busca de um espaço de poder, real ou fictício. O grupo caracteriza-se por uma só vontade, um só “corpo”, um só objetivo. A esse processo da psicologia grupal chamamos “Identificação”. O problema é que a identidade de um grupo só existe em contraposição a de outro. Um grupo, então, sempre tende a encarar outro como “rival”, concorrente… é como se a sobrevivência de um grupo dependesse da submissão, desqualificação, minimização e até mesmo da eliminação do outro. Como o nível de consciência individual é reduzido na dinâmica grupal, a tendência é a pessoa não calcular os riscos, envolvendo-se em ações que contrariam os próprios princípios para integrar-se ao grupo. Na verdade, o indivíduo não enfrentou o medo, ele apenas escondeu-se dele, misturando-se ao grupo, deixando-se guiar pelo suposto poder coletivo. Não há aí nenhum rasgo de autoconfiança, há, sim, baixa autoestima e muita insegurança, gerando medo, seja de não ser aceito pelo grupo seja de não ser bom o suficiente sozinho. Há condições de grupo que podem levar a comportamentos corajosos de verdade? Há, mas não é a maioria. Uma dinâmica grupal positiva demanda maturidade psicológica por parte dos integrantes do grupo. Um grupo positivo pauta-se em valores sólidos, em objetivos concretos e num conjunto de regras e limites que exijam um constante aprimoramento dos seus integrantes. Ao mesmo tempo, o grupo saudável, capaz de fomentar a coragem, cria possibilidades que permitem aos seus integrantes certa margem de questionamento do funcionamento do próprio grupo. Ou seja, o grupo “corajoso” é como a pessoa corajosa, esta sempre em desenvolvimento, sempre se aprimorando, sempre em transformação!

A coragem pra esportes é diferente da coragem emocional? Falar sobre sentimentos exige coragem? Existem tipos de coragem? Não sei se quando falamos em esportes, de forma geral, estamos falando de coragem no sentido em que venho falando até aqui. Veja bem, quando falamos de esportes dificilmente estamos falando do enfrentamento do desconhecido. No mundo esportivo – tirando o dos esportes radicais – quase tudo é muito conhecido: as regras, os adversários, as condições físicas do esportista e do local em que o esporte será praticado… ou seja, há muito pouco risco no sentido de estar enfrentando algo que eu não conheço. Quando o risco existe, ele é cuidadosamente calculado, previsto e sempre há toda uma estrutura previamente organizada para minimizar ou eliminar as suas consequências. E mesmo nos esportes radicais quase tudo já é sabido, é arriscado, mas é minimamente conhecido. Muito do que é requerido para a prática de esportes, então, pode ser entendido como audácia, mas, talvez, não como coragem. Penso que o atleta é corajoso num aspecto específico: o de colocar-se à prova, de submeter-se ao crivo da competição, da análise, do julgamento. Além disso, o atleta está sempre estabelecendo novas metas, novos desafios para o próprio desempenho, ou seja, está sempre lidando com o risco do fracasso. Seguramente, enfrentar o medo de fracassar requer coragem! Ao pensar na coragem do esportista, e ao tentar defini-la dessa forma, me questiono se podemos falar em vários tipos de coragem. Talvez devêssemos pensar em diferentes formas de expressar coragem, que são diferentes formas de enfrentar o próprio medo, o que envolve algumas condições:

– enfrentamento do desconhecido;
– enfrentamento de riscos, baseado numa avaliação prévia dos próprios recursos e das condições adversas;
– desejo de superação dos próprios limites;
– disposição para lutar de todas as formas pelo que se ama;

Podemos pensar se essas condições são necessárias para a expressão dos nossos sentimentos. Eu penso que sim! O outro, o que ele pensará/sentirá e como reagirá à exposição dos nossos sentimentos, é sempre uma incógnita. Nada nos garante que ao nos expormos afetivamente seremos compreendidos e acolhidos, por mais que conheçamos o nosso interlocutor afetivo há sempre um risco. O coração e, também, a mente de um outro alguém é sempre um terreno desconhecido. Assim, quando nos dispomos a falar dos próprios sentimentos, há que se calcular os riscos de sermos rejeitados, incompreendidos, etc. Por isso é importante avaliar os recursos que temos para nos lançarmos na empreitada: tenho condições de lidar com isso? Como me sentirei se as coisas não saírem como desejo? Como posso usar as palavras, os gestos e tudo o mais para fazer isso?… Quando nos propomos a falar dos próprios sentimentos estamos, de alguma forma, desejando superar alguns limites, sejam estes o isolamento, a dúvida, a frieza… então, penso que, no fundo, ser corajoso é ser capaz de enfrentar o próprio medo, sempre. O medo pode surgir em qualquer situação em que nos lançamos numa jornada ao desconhecido, seja este a avaliação de uma capacidade nossa ou a declaração afetiva que fazemos a alguém.

Coragem e coração: podíamos brincar com o fato de as duas palavras começarem com CORA e agem =agir =ação? Tem a ver? Podemos sim! Aliás, devemos. A palavra “Coragem” vem do latim “cordis”, que quer dizer coração. Ou seja, ter coragem tem a ver com ser capaz de pôr o coração naquilo que se faz. É por isso que não devemos confundir coragem com audácia. A audácia seria o impulso que nos leva a fazer coisas que consideramos difíceis, arrojadas, etc. Ser audacioso tem muito de atrevimento. Ser corajoso, entretanto, tem a ver com superar os próprios medos quando queremos alcançar algo, e para isso é fundamental desejarmos muito aquilo que buscamos. Quando nosso coração está em alguma coisa temos a confiança necessária para lutar por ela, e isso sim é coragem! Se na audácia somos levados a desafiar a vida, na coragem buscamos a realização dos potenciais que ela tem. Quando deixamos um emprego seguro para correr atrás de um sonho antigo, fazendo algo que a princípio não parece muito promissor, estamos sendo tão corajosos como quando enfrentamos um ladrão que ameaça a vida de alguém que amamos muito. Somos corajosos quando, contra todo o cansaço, trabalhamos em dois turnos para poder cobrir os custos de cuidar de um pai muito idoso e doente ao invés de abandoná-lo. E somos corajosos quando enfrentamos preconceitos e incertezas para viver um grande amor que atravessa o nosso caminho. Também somos corajosos quando resolvemos voltar ao banco da escola depois de muitos anos sem estudar porque desejamos aprender, e quando lutamos contra uma doença que ameaça nos afastar da vida que tanto prezamos… Há muitas formas de ser corajoso, e a maioria delas nãos envolve feitos heroicos, força descomunal ou grandes malabarismos, mas exige uma enorme dose de disposição para agir de acordo com o próprio coração.

Fonte: Unimed Espaço Vida

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