Da Emoção à Lesão II – A Opção Somática das Emoções

*Por Geraldo José Ballone

É no Sistema Límbico que tem início nossa função avaliadora da situação, dos fatos e eventos de vida. Esse modo de avaliação sempre leva em consideração vários elementos, tais como, a personalidade prévia, a experiência vivida, as circunstâncias atuais e as normas culturais. É devido a esse aspecto multifatorial que uma dada situação vivida pelo indivíduo sofrerá um processamento interno envolvendo sua avaliação quanto à natureza do evento e sua possível ameaça, bem como um processamento interno acerca da escolha ou decisão da melhor maneira de enfrentamento, resultando, finalmente, numa dada resposta. Tanto os fatores constitucionais de personalidade, quanto as experiências anteriores de vida representariam o núcleo desse sistema de avaliação.

Desde a década de 60, Selye já dizia que a “preferência” de um agente estressor por um determinado órgão ou sistema, bem como a intensidade dessa resposta, parece ser determinada por fatores condicionantes internos e externos ao indivíduo, ou seja, depende de características herdadas e adquiridas.

De acordo com esse aspecto extremamente pessoal da resposta do sujeito ao objeto estresse, podemos entender porque diante de situações semelhantes, os diversos indivíduos reagirão de forma diferente. Isso refletirá sempre o modo peculiar de cada um avaliar as situações, e o que é estressante para um, pode não ser para outro.

Da mesma forma, também o modo de enfrentar cada situação é peculiar e particular a esse determinado indivíduo, conforme sua história, circunstâncias, aptidões e personalidade. Essas aptidões personais (de personalidade) são quem nos oferece maiores ou menores “opções” de enfrentamento da situação.

E a palavra “opções” foi colocada entre aspas por tratar-se de uma atitude intencional e involuntária. Pode-se dizer, então, que a opção mais elaborada de enfrentamento seria aquela de encarar a situação conscientemente, objetivamente, podendo falar sobre ela, discutir, refletir, superando-a conforme as características e os recursos à nossa disposição.

Quando não é possível encarar a situação objetivamente, seja porque o problema não está sendo consciente, seja porque faltam recursos disponíveis à personalidade, a tendência será lançar mão de outras formas mais atípicas de enfrentamento.

A forma mental de enfrentar a situação seria, por exemplo, fantasiar, racionalizar, negar, rezar. A maneira emocional atípica de enfrentamento seria deprimir-se, agredir, culpar os outros ou culpar-se, chorar, gritar. Outras atitudes de enfrentamento atípico, seriam isolar-se, exibir-se, brincar, arriscar-se, comer, beber, transar, fumar, trabalhar, tudo excessivamente e, finalmente, de particular interesse à psicossomática, surge uma maneira somática de enfrentamento, representada pelo adoecer.

Eis algumas “opções” de enfrentamento adotadas pela maioria das pessoas*:

1. Olhar o problema objetivamente.
2. Buscar alternativas para enfrentar a situação.
3. Falar sobre o problema.
4. Ter esperança de que as coisas melhorem.
5. Procurar apoio com familiares e amigos.
6. Agitar-se fisicamente.
7. Fumar, beber e usar drogas.
8. Comer e dormir em excesso.
9. Adoecer fisicamente.
10. Gritar e agredir.
11. Meditar e relaxar.
12. Isolar-se e ficar só.
13. Esquecer o problema.
14. Resignar-se.
15. Sonhar e fantasiar sobre o problema.
16. Rezar.
17. Ficar nervoso.
18. Preparar-se para o pior.
19. Deprimir-se.
20. Dedicar-se excessivamente ao trabalho.
(*MELO FILHO J – Psicossomática Hoje – Artes Médicas, 1992)

Para entendermos de forma mais clara, os processos da somatização devem ser considerados os tipos de resposta emocional resultante da avaliação que fazemos da realidade (e dos estressores) e nossos mecanismos pessoais e particulares de enfrentamento da situação. A escolha somática para eclosão das emoções parece depender de uma série de fatores ou mecanismos, desde os mais somáticos aos mais psíquicos.

Observando-se tanto os animais quanto as pessoas, notamos a presença de dois componentes no processo emocional de adaptação do sujeito às exigências da realidade. Existe o componente expressivo ou sinalizador e o componente comportamental ou de enfrentamento, propriamente dito.

As manifestações fisiológicas e/ou somáticas resultantes do estresse adaptativo, chamadas de somatizações, podem ser entendidas como uma forma não verbal de se expressar. E quanto menos eficientes são os mecanismos mentais ou cognitivos de sentir, falar e agir, mais o sistema somático será utilizado para expressar emoções. Isso significa que quanto mais “puras” forem as emoções, menos somáticas se tornarão.

A Síndrome Geral de Adaptação, descrita por Hans Selye e posteriormente identificada como o próprio estresse, é um conjunto de reações fisiológicas e eminentemente somáticas, de cunho sobretudo emocional, que surge quando o organismo é compelido adaptar-se à alguma situação alarmante. O processo que vai do estresse até o resultado somático final será sempre um processo fisiológico e biológico, atrelado às características da espécie mas, identificar ou considerar um estímulo como sendo estressante ou não, será sempre uma atribuição emocional e particular do sujeito (não mais e exclusivamente da espécie).

Na realidade, não será errado chamar o estresse de “extrema ansiedade”, uma vez que é produto de uma avaliação emocional acerca do potencial estressante dos estímulos. Será de natureza ansiosa, na medida em que aparece cada vez que o organismo se percebe ameaçado em sua integridade. Podemos, então, afirmar que a ansiedade é um estado de tensão interna do indivíduo no sentido da adaptação, diante de algo que o ameaça.

A resposta ao estresse envolve um nítido componente somático e a localização dessa resposta neste ou naquele órgão, neste ou naquele sistema dependerá, primeiramente, da natureza e intensidade do agente estressante, em segundo, da participação da estrutura orgânica do indivíduo e, finalmente, da possível hipersensibilidade ou fragilidade constitucional que tornaria tal estrutura menos resistente.

Somatização Desde Criança

Em se tratando de seres humanos, e considerando sua possibilidade de pensar, desde cedo tal atividade racional exerce um papel fundamental na avaliação e enfrentamento das situações com que se depara o indivíduo. A influência da pessoa que cuida da criança (em geral a mãe) é decisiva nesse processo de identificação de estressores e escolha dos modos de enfrentamento.

Na verdade, geralmente é a mãe que nomeia e valoriza para a criança tudo o que ocorre à sua volta. Havendo discrepâncias nesse relacionamento, seja por abandono, maus tratos, omissão, etc., a criança ficará à mercê de si mesma, lançando mão então do seu próprio corpo ou de suas fantasias para resolver a maioria dos conflitos que experimenta.

Nos casos de abandono na infância, é como se a criança voltasse a reagir de maneira primitiva, somática, a qualquer situação ameaçante. Provavelmente o que ocorre, nesse momento, é que somente através de reações físicas a criança consegue despertar o interesse, a atenção e os cuidados que necessita. Assim sendo, a criança aprende a usar o corpo como um meio de comunicação ee de defesa. E sempre que o comportamento dos demais privilegia essa somatização, acaba reforçando-a. Além da opção somática, a criança tem ainda como recurso adaptativo suas próprias fantasias e aprenderá a usá-las eficientemente.

Autores mais psicodinâmicos incluem como recursos intermediários entre o corpo e a fantasia, certas atitudes tais como comer, beber, fumar, usar drogas, manter atividade sexual ou atividade física de uma forma aditiva, etc.

Somatização Como Complexo de Culpa

A prática clínica tem mostrado que grande parte das manifestações somáticas pode ter como componentes básicos, uma forma primitiva de expressão e de defesa que é a culpa. O indivíduo, como vimos, aprende a falar e se defender com o corpo. Com o corpo ele obtém atenção e cuidados que necessita, com o corpo ele exprime desejos e fantasias, com o corpo ele enfrenta as situações estressantes e, muito provavelmente, com o corpo ele se recrimina e se culpa.

A utilização do corpo como meio de autopunição merece um destaque especial por sua característica psicodinâmica. Essa situação representa uma reação e defesa ao estresse interior proporcionado por algum conflito íntimo. É assim que o sujeito se impõe o sofrimento.

Muitas vezes ficam evidentes as condutas mórbidas e autodestruidoras de pacientes politraumatizados, portadores de diabetes melito, doença pulmonar obstrutiva crônica, hipertensão arterial, úlceras varicosas, como se eles agissem de forma a agravar suas doenças. Costumam ser descuidados, abusam da dieta, fumam, comem salgado e andam demais conseqüentemente.

Isso não quer dizer que todos os portadores dessas afecções exibem tal comportamento autodestrutivo, mas seus freqüentes “deslizes” em relação aos cuidados terapêuticos que deveriam tomar, apontam para uma forma inconsciente de perpetuar a doença, como forma de manter o autoflagelo.

A Desistência Depressiva

Outro tipo de situação capaz de gerar ou agravar doenças físicas é a desistência depressiva de viver. Trata-se de um estado de espírito típico dos deprimidos, onde o indivíduo “desiste” de viver, permitindo assim que a doença física o acometa. Situações de perda familiar, perda de situação econômica e social ou outras perdas que dêem ao indivíduo a sensação de não ter saída, parecem estar na base desse estado depressivo de auto-abandono.

Existem, principalmente, dois Mecanismos de Defesa capazes de gerar somatização. São eles a identificação e a conversão. Identificar-se é sentir-se como o outro. É tornar seu algo que é do outro. Na identificação, sentir-se doente pode ser uma forma de identificar-se com alguém que está ou esteve doente. Assim, por exemplo, o transtorno menstrual conhecido por dismenorréia pode ser conseqüência da identificação de uma adolescente com sua mãe, a qual apresentou ou apresenta esse quadro. As identificações também assumem importantíssimos papéis na dinâmica das patologias relacionadas aos estados histéricos e hipocondríacos.

Na conversão, por sua vez, o hipocondríaco é capaz de se sentir e acreditar-se doente e o histérico é capaz de expressar exuberantemente essa doença. Ele desmaia, paralisa, arma a cena e exibe seu sintoma. Parece ter uma ação mais expressiva que o hipocondríaco. Mas, mesmo assim, seus sintomas expressam seus conflitos reprimidos. É uma forma simbólica (e somática) de falar que utiliza o corpo como meio de comunicação.

Estresse, Sistema Imunológico e Infecção

Um tema que diz respeito diretamente à psiconeuroimunologia é o relacionamento entre os fatores psicológicos e o estresse com as doenças infecciosas. Uma das mais importantes funções do equilíbrio do organismo (homeostasia) é protegê-lo das agressões infecciosas, ou seja, impedir a multiplicação de agentes infecciosos e a formação de colônias em seu interior, bem como proporcionar resistência às infecções.

Como mecanismos inespecíficos desse sistema de defesa existem a integridade das barreiras naturais, compostas pela pele, pelos cílios e pelos, pela presença de ácidos nas superfícies, substâncias inibidoras da proliferação dos germes nos humores e outros. Os mecanismos específicos de nossas defesas estão representados por um combate muito mais eficaz conduzida pelo sistema imunológico.

Os anticorpos do Sistema Imunológico, por exemplo, facilitam extremamente a atração, a aderência e a fagocitose dos germes invasores pelas células brancas e macrófagos, participando também da neutralização de partículas virais circulantes. Graças à participação celular da resposta imunológica, as células infectadas por vírus ou por outros parasitas intracelulares podem ser destruídas e isso se dá às custas das células chamadas Linfócitos T.

O estresse desempenha importante papel no Sistema Imunológico, inibindo ou estimulando seus componentes, ou seja, aumentando a morbidade e mortalidade, por excesso ou por falta desses mecanismos. Plaut e Friedman (1981) reportam uma tremenda variabilidade da morbidade e mortalidade por invasão de germes em animais de laboratório, dependendo da natureza do organismo patogênico, da qualidade e quantidade do estresse e de fatores genéticos e ambientais.

Depois de enfatizar a natureza multifatorial das doenças infecciosas, Amkraut e Solomon (1975) escrevem: “Pequenas mudanças no processo imunológico podem causar alterações iniciais para permitir o estabelecimento de infecções, alterar o curso da doença depois da infecção instalada, ou mesmo, permitir a invasão de organismos não patogênicos, como acontece no caso da gengivite aguda necrozante, a qual é fortemente associada com o estresse emocional”.

Esses autores também ilustram sua posição dando como exemplo o caso da infecção pneumocócica, lembrando que este germe costuma estar naturalmente presentes no trato respiratório de pessoas normais e nem atravessam a mucosa ou entram nos pulmões em número significativo. Em condições normais a natureza da mucosa, as secreções desta e a flora normal impedem a proliferação e penetração dessas bactérias. Entretanto, essas condições normais da mucosa e a flora normal que aí se encontra podem ser modificadas pelo estresse, permitindo a multiplicação e passagem de microrganismos.

Quando essas bactérias invadem a mucosa em pequeno número, podem ser eficazmente atacados por células da defesa, os macrófagos. Mas, não obstante, a vigilância dos macrófagos pode ser afetada por hormônios ou pelo estresse, possibilitando o início da doença. Macrófagos alterados pelo estresse podem ser menos eficientemente.

Também devemos levar em conta que as proteínas capsulares dos pneumococos estimulam os linfócitos B diretamente e, por causa do estresse, uma leve diminuição da atividade destes, pode levar a uma produção inadequada de anticorpos. Também, lembram os autores, que esta inibição da capacidade de remover as bactérias encharcadas de anticorpos dos macrófagos pode diminuir significativamente as defesas imunológicas.

Contribuindo ainda para a deficiência da vigilância imunológica, a redução dos níveis de complemento do paciente (proteínas que se ligarão aos agressores) ou de um particular componente do sistema de complemento, pode aumentar a severidade da doença infecciosa.

Tem sido muito observado por aqueles que lidam com a tuberculose, as relações entre melhoras e pioras dos pacientes e seus problemas emocionais. Já em 1919, Ishigami, citado por Schindler, escreveu sobre isso quando, estudando a fisiopatologia da tuberculose, observou a diminuição da atividade fagocitária das células imunológicas durante episódios de excitação emocional, atribuindo-os ao estresse da vida.

Wittkower, já na década de 1950, escrevia que “algumas vezes pode ser mais adequado firmar o prognóstico do paciente na base de sua personalidade e conflitos emocionais que na base das imagens de suas radiografias”. Por causa dessas observações é que se firmou o ditado, segundo o qual, na doença, “a agressão depende mais do agente agredido que do agente agressor”.

A própria psicoterapia de grupo nasceu, na década de 30, para o atendimento de pacientes tuberculosos em pequenos grupos, para possibilitar um processo educativo em relação a suas enfermidades, bem como a perspectiva de melhor lidarem com elas, favorecendo a alta e a reabilitação.

Também servem de exemplo da influência das emoções no curso e evolução das doenças, os famosos trabalhos de Renée Spitz, sobre crianças internadas em instituições. Várias situações mórbidas descritas pelo autor, como por exemplo a Depressão Anaclítica, marasmo e hospitalismo, ele constatava também um expressivo aumento da mortalidade por maior suscetibilidade a infecções. Em suas preciosas observações, Spitz descreveu como a simples presença da mãe, junto à criança internada, fazia reverter o curso, evolução e prognóstico das doenças.

Jacobs, em 1969, propôs-se a estudar os problemas psicossomáticos da pneumologia, e constatou que as pessoas em situações de mudança de vida, que estavam usando mal seus mecanismos psicológicos de adaptação adoeciam, sobretudo, de infecções das vias aéreas superiores. De fato, tanto os médicos quanto os leigos, sabem que as situações de resfriado, gripe ou bronquite ocorrem em pessoas fatigadas emocionalmente ou mesmo deprimidas.

Para sistematizar academicamente as antigas suspeitas da influência das emoções sobre a recuperação de doenças infecciosas, Greenfield e cols, em 1959, realizaram um interessante trabalho experimental. Aplicaram um inventário de avaliação psicológica, o Minnesota Multiphasic Personality Inventory (MMPI), em 38 pessoas que estavam em recuperação de um processo de mononucleose infecciosa.

Eles dividiram os pacientes em dois grupos: os de longa recuperação e os de curta recuperação. O grupo que se recuperou mais rapidamente apresentava significativos escores de maior força de ego do que o grupo que se recuperou mais lentamente. Na discussão desse trabalho, escrevem, “… parece-nos que há uma substancial evidência empírica para a assertiva de que a saúde psicológica e a somática são separáveis apenas arbitrariamente.”. Bioquimicamente é importante também o trabalho de Gruchow (1979), que conseguiu detectar elevações de catecolaminas três dias antes de episódios infecciosos.

Oliveira, na área da Hanseníase em 1988, por várias vezes constatou uma recorrência dos sintomas e das lesões cutâneas durante ou após episódios traumáticos ou conflitivos intrafamiliares. Após três anos de psicoterapia grupal, mantida a medicação que já faziam uso anteriormente, praticamente todas as pacientes se mostraram beneficiadas por este processo, fosse através de uma melhoria de suas enfermidades, fosse por uma atitude menos hipocondríaca, culpada ou submissa. E as exacerbações das lesões cutâneas que se seguiam aos estresses praticamente desapareceram.

O Herpes Simples é uma das viroses que mais tem estimulado estudos psicossomáticos. Amkraut e Solomon (1975) recordam que os anticorpos contra o vírus do Herpes coexistem tanto com a infecção aberta quanto com a inaparente. A doença se dissemina por transferência do vírus, célula a célula. Trata-se de uma falência da vigilância imunológica dos linfócitos T, os quais deveriam estar diuturnamente monitorando as células infectadas. Esses linfócitos podem destruir os vírus diretamente, por ação citotóxica, ou através da ativação de macrófagos da vizinhança.

Pois bem. O estresse perturba o equilíbrio presença de vírus-defesa do organismo, possibilitando a proliferação do vírus, o que também se dá por febre ou radiação ultravioleta. Um dos alvos sabidos do estresse são as células NK, ou células matadoras (natural killers) de vírus e de outras células neoplásicas.

Na prática médica, qualquer clínico experiente constata, facilmente, a interação entre situações de estresse e crises herpéticas. Até mesmo os próprios pacientes, com o tempo, aprendem a diagnosticar as situações de estresse que serão capazes de desencadear a recaída da doença. Não é raro encontrarmos crises de herpes genital relacionadas com a situação conjugal.

Atualmente a AIDS tem sido outro terreno muito fértil para a pesquisa psicossomática. Além de tratar-se de uma doença infecciosa, de uma virose, ela provoca várias situações somatopsíquicas. Desde o estresse representado por seu diagnóstico até as angústias sócio-culturais atreladas à doença.

Atualmente muito se tem pesquisado sobre as implicações do abuso de drogas, do excesso de parceiros e do coito anal na incidência da AIDS. Outro grupo procura estabelecer relações sobre o estresse cultural do homossexual, o qual vive numa sociedade homofóbica, e das comorbidades emocionais dos usuários de drogas, embora não se negue, de forma alguma, a capacidade imunossupressora dos opiáceos exógenos intravenosos. Se um sistema imunológico já está comprometido por opiáceos ou por infecção virótica, é compreensível que o estresse possa ser mais imunossupressor agravante.

Doenças Auto-Imunes

Doenças Autoimunes ou de auto-agressão são aquelas em que se desenvolvem certas reações imunológicos contra constituintes naturais do organismo (self), levando a lesões localizadas ou sistêmicas. Fazem parte deste grupo de doenças a artrite reumatóide, lúpus eritematoso sistêmico, esclerose sistêmica progressiva, polimiosite-dermatomiosite, tireoidite autoimune, miastenia grave, colite ulcerativa e outras, como por exemplo, a esclerose sistêmica progressiva, polimiosite-dermatomiosite, tireoidite autoimune, a miastenia grave.

Essas doenças ocorrem devido à formação de anticorpos contra constituintes do próprio organismo passando. Nesse caso, tais constituintes passam a significar, erroneamente, agressores (antígenos) ao Sistema Imunológico. E quando o anticorpo adere ao antígeno há ativação de proteínas plasmáticas que estimulam uma cadeia de reações, a qual culmina na destruição celular e necrose do tecido, com muitas conseqüências sobre a função do órgão e sobre o próprio organismo.

Muitas indagações têm sido feitas no sentido de se determinar por que, de repente, um constituinte orgânico próprio do organismo passa a ser reconhecido como “corpo estranho”. Supõe-se este tipo de reação anômala seja facilitada por uma atividade diminuída de células imuno-supressoras. Assim sendo, a falência da atividade imuno-supressora explicaria o surgimento de certas doenças autoimunes e, como já vimos ao tratar das infecções e emoções, o estresse pode perfeitamente ser capaz de modificar as atividades das Células T, incluindo a atividade supressora.

Sabe-se também que os fenômenos autoimunes tendem a aumentar com o envelhecimento, e este fato tem, inclusive, sido aventado como de importância na etiologia do câncer. Outro aspecto já muito estudado diz respeito ao condicionamento genético destas doenças. Quando estudamos as causas das chamadas doenças autoimunes, veremos que se tratam de doenças tipicamente multifatoriais, de múltiplos fatores envolvidos em sua etiologia, e aqui se inserem o estresse e os fatores psicossociais no desenvolvimento, evolução, agravamento.

Pessoas resistentes à idéia da relação das emoções com essas doenças autoimunes poderiam citar que algumas pesquisas atuais consideram, dentro desta multifatoriedade, algumas ações virais. Neste sentido, lembram, já se sabe que o antígeno da panarterite nodosa, doença do grupo das colagenoses, é o vírus da hepatite B e, quanto à artrite reumatóide, já se sabe que vírus do tipo Baar-Epstein, o mesmo da mononucleose infecciosa, ao parasitarem os linfócitos tipo B, produziriam o fator reumatóide, uma gamaglobulina presente no sangue destes pacientes. Também foi evidenciado a importância dos vírus HIV e outros tipos do tipo Picorna na poliomiosite, doença na qual os vírus Coxakie parecem desempenhar um papel patogênico em casos de crianças.

Mas esses argumentos não excluem, em absoluto, o envolvimento emocional, pois, como vimos acima, as emoções estariam fortemente presentes na vulnerabilidade imunológica e na suscetibilidade a infecções.

*Geraldo José Ballone é médico psiquiatra e foi professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da PUC-Campina. Co-autor dos livros Sinopse de Psiquiatria, Da Emoção à Lesão, Psiquiatria e Psicopatologia Básicas, Histórias de Ciúme Patológico e criador e coordenador do site PsiqWeb.

Fonte: PsiqWeb

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